A Ventura de Crisla
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Crisla, deitada sobre sua cama, remexia-se de forma frustante, embalada aos futons. Não conseguia dormir, sentia-se inquieta.
Morava na hospedaria de sua avó, um sobrado antigo, de assoalho rangente e adornos empoeirados. Ajudava-lhe com o que era possível; varrer, lavar a louça. Trabalhara muito naquele dia, no entanto, sua energia estava mais sobrecarregada que o habitual.
Ela apertou sua boneca de plástico, Miranda, entre seus braços revestidos do pijama verde. Por um momento, pôde sentir o peso nos olhos; seu ciclo do sono iniciava-se. A cada tilintar do relógio, suas pálpebras cerravam milimetricamente.
Contudo, a sequência fora interrompida.
Houve um forte estrondo vindo do corredor dos quartos. Num susto, Crisla deu um pulo de sua cama e correu para checar.
Ao abrir a porta de seu cômodo, fitou marcas brancas sobre o piso madeireiro, manchas muito semelhantes à patas de gato. Seguiu o rastro, chegando ao topo da escada do saguão. Escorando-se no parapeito, avistou, lá embaixo, um felino negro lambendo suas unhas sujas do pó branco.
— Ei, seu sarnento! — ralhou, esquecendo-se dos hóspedes mais sensíveis ao sono. — Eu limpei este hall hoje! — reclamou vendo todo o seu trabalho sendo desmanchado.
O felino encarou-na, ronronou, e pôs-se a correr. Crisla desceu rapidamente às escadas, indo a encontro do gato. Ambos seguiram até o jardim dos fundos, onde nenhum hóspede poderia ir, uma verdadeira selva de pés de carambola.
O gato adentrou um aglomerado da vegetação, Crisla fora atrás, esgueirando-se dum conjunto de galhos. Fitou o bicho bagunceiro sentado sobre a relva, novamente lambendo sua pata.
— Você vai ver!
Quando estava prestes a apanhá-lo, o peludo correu novamente, e introduziu-se na fenda de uma árvore oca. Crisla sorriu ao pensar que ele não teria mais saída, mas ao segui-lo, teve uma sensação estranha, como se um forte raio de luz penetrasse suas íris castanhas.
E num piscar de olhos, a fedelha encontrava-se num ambiente totalmente desconhecido por si. À sua frente, uma longa e extensa cozinha rodeada de fornalhas altas e fumegantes, com cheiro de canela. Virou-se para de onde veio: agora era apenas uma sólida parede de concreto. Não sentiu-se tensionada com tudo aquilo, seu interesse era apenas encontrar o gato negro e dar-lhe uma boa lição.
Crisla pôs-se a caminhar pela cozinha, seu olhar era inquieto, até esbarrar-se com algo grande e macio. Era uma mulher roliça e alta, de braços cruzados e cenho impaciente.
— O-olá… — murmurou Crisla.
— Até que enfim! — exclamou a mulher. — Estou te esperando há séculos!
— M-me esperando? Mas eu nem te conheço…
— Não seja boba! Os convidados já estão impacientes!
A mulher agarrou seu antebraço e levou-na até a frente de um caldeirão:
— Rápido! Cozinhe alguma coisa! A despensa está logo ali.
— Mas eu… — ao virar-se para suas costas, a gorducha já havia desaparecido.
Crisla suspirou por alguns segundos ao fitar o recipiente. Escutou murmúrios vindos de trás de uma cortina ao lado da caldeira. E ao abrir um pequeno vão para espiar, contemplou uma variedade de convidados envoltos um mesa quilométrica. As mulheres tinham cabelos encaracolados, vestidos longos e rosto estancado de talco; os homens vestiam fraques e alisavam seus bigodes negros. A decoração do vasto salão era repleta de enfeites de pluma, flores, beixigas amarelas e bolhas pairando pelo ar.
Crisla queria participar daquele banquete maravilhosamente absurdo. Mas para isso, precisava preparar algo para seus “convidados”. E então fechou a cortina, motivando-se a fazer o trabalho.
Correu até a dispensa de alimentos, um local cheio de prateleiras enfileiradas. Sacava o que achava necessário, colocando dentro de uma cesta. Uma lata de ervilha deslizou de suas mãos, lançando-se de baixo de uma prateleira. Crisla abaixou-se para apanhá-la, e levou um susto com o que viu: o sagaz gato negro, sobre um saco de farinha, lambendo graciosamente suas patas.
Crisla largou tudo o que segurava:
— Agora você não me escapa!
Novamente prestes a pegá-lo, o bichano fugiu, e desta vez, na direção do vasto salão de convidados. Ele lançou-se sobre a mesa quilométrica, e, sem perceber, a fedelha fez o mesmo. Os comensais gritavam em pânico — as moças subiam nas cadeiras e arregaçavam as bordas de seus vestidos pesados, os moços lançavam a louça para o ar. Uma loucura!
Quando Crisla finalmente agarrou o felino, apertou-o com toda sua força como uma forma de refúgio. Espremeu suas pálpebras, rezando para que tudo aquilo terminasse.
Ao abri-los, novamente encontrava-se em seu quarto.
Em seus braços não havia mais o bichano, mas sim, sua boneca Miranda — um brinquedo com aroma de canela. Os carneiros encontrados na residência vizinha produziam um som semelhante à ralhação dos convidados. A mesa quilométrica era agora sua cama dura.
Abriu a porta para indagar o corredor.
Não havia nenhum indício do gato, nem das marcas alvas sobre o assoalho.
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