A Velha e a Nova Morte
1 A Velha Morte
Notas iniciais
Olá, sou a Morte, sim, a morte é uma pessoa, ou quase isso. Mas em breve serei a nova Velha Morte. Acho que ficou um pouco confuso, então vou explicar. Ser a Morte, atualmente é um cargo, digamos que temporário, desde que a Velha Morte resolveu tirar férias, ou seja, hoje a Morte pode se aposentar. E como eu 'trabalho' há muitos anos, vou me aposentar, mas infelizmente não é tão simples assim. Terei que procurar um substituto, alguém que a partir do momento que eu me aposentar, assuma todas as responsabilidades de ser a Morte.
Ser a Morte não é apenas matar as pessoas, temos todo um protocolo a seguir; não podemos interferir no mundo, não podemos nos revelar para aqueles que ainda não estão de partida, não julgamos as almas, isso não é nossa função, mas temos liberdade pra intervir nos julgamentos. Quando recolhemos as almas, as levamos pro Barqueiro, que por sua vez as leva para o Tribunal das Almas. Você não achou que era Deus que julgava todas as almas, não é? Ele anda ocupado demais fazendo outras coisas para se preocupar. O Tribunal é composto por almas notórias, aquelas de caráter irredutível, e eles analisam toda sua vida, do momento em que nasceu até seu último suspiro. Daí então a alma é encaminhada ou para o Éden, onde passam a eternidade em paz, esperando reencarnar algum dia, ou vão parar no Inferno, que é basicamente um campo de trabalho forçado. E é agora que percebo que estou entediando vocês.
Então vou contar como me tornei a Morte, bom… foi há várias décadas, tinha acabado de me formar, queria ser um bom médico, ter um consultório e tudo mais, até tinha conseguido um sócio, um colega da faculdade, e para não ter mais gastos que o necessário, decidimos dividir o apartamento também. Só que o bastardo queria todo o consultório só pra ele, e acabou me 'tirando' do caminho, com veneno. Ah! Meu nome é Dalan, faz tanto tempo que não o uso, que quase me esqueci dele, mas voltando à história, durante meu julgamento, a Velha Morte intercedeu e assim me tornei a Nova Morte. Um dos melhores momentos da minha pós-vida, foi quando busquei a alma do infeliz que me matou, descobri que pouco depois da minha morte ele acabou falindo e fechou o consultório, gastou toda a herança dele em ópio e mulheres, acabou morrendo de sífilis, não foi surpresa nenhuma quando ele foi para o Inferno. A justiça dos vivos pode ser falha, mas a dos mortos… dessa ninguém escapa.
Peço que me perdoem por ser tão enrolado, mas não estou acostumado a me comunicar com ninguém, além de Bjorn, o Barqueiro, que também não é de falar muito, tanto que quando lhe perguntei o nome ele disse que havia esquecido, contudo ele escolheu um novo nome: Bjorn. Ele, infelizmente, não tem a mesma sorte que eu, o trabalho dele é eterno. O que é realmente uma pena, ele merece descansar. Retomando o rumo da meada, prometo que a partir de agora serei o mais sucinto possível, ao menos tentarei.
Estava contando a vocês que preciso arrumar um substituto e só depois disso poderei me aposentar, é uma escolha deveras difícil, qualquer erro pode colapsar todo o sistema. E como venho pensando nisso há algum tempo, creio que cheguei numa boa solução. Uma alma que conheci há algum tempo, quando ele teve seu quarto enfarto, ficou sem batimentos por dois minutos, era uma pessoa muito boa, me lembro da esposa dele há alguns meses. Já está quase na hora. Agora está na hora de conversar com ele pessoalmente. Foi uma das cenas mais tristes que já vi, quando ele estava quase partindo, só havia uma das netas dele, a 'problemática' da família, ela quase morreu junto com o ex, a overdose foi quase letal, por muito pouco salvaram a vida dela, se não me engano o nome dela é Beth, tenho pena da alma dela no julgamento, suicidas nunca escapam.
E novamente me perdi nos meus devaneios, mil perdões. Estava correndo tudo perfeitamente bem, estava explicando como funcionam as coisas no mundo dos mortos para o senhor Turpin, já havia mostrado o Éden e o Inferno, nesse momento estávamos indo para o Tribunal, havia certo alvoroço, estavam dizendo que a alma que estavam julgando havia chegado lá por conta própria. Quando vimos, era Beth, a neta de Turpin. Ambos sabíamos que ela iria para o Inferno, mas ele estava tão desesperado, praticamente me implorou para salvar a neta dele. E só havia um jeito de fazer isso. Não consegui negar o pedido dele. E intervi. E agora Beth Turpin se torna a Nova Morte. E eu finalmente me aposentaria, mas a Providência pelo visto não quer isso, porque agora sou a babá da Nova Morte… Mas isso continuarei a contar numa próxima vez. Agradeço os que acompanharam até aqui e os que me acompanharão no futuro.
Até mais,
Velha Morte
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