3 — Primeiras Luzes (Clara)

Nascia mais um lindo dia, e eu estava mais que animada para iniciá-lo. Havia algo no ar que me deixava leve, quase como se a própria casa soubesse que aquele seria um dia especial. Já era final de novembro e estava atrasada. Hoje tiraria o dia para iniciar as decorações de Natal em casa, e só esse pensamento já aquecia o peito. Depois de um café delicioso — torradas quentinhas, ovos, geléia e uma xícara de café forte, perfeito para um dia frio como aquele — lavei a pequena louça deixada na pia, sentindo a quietude da manhã me acompanhar em cada movimento.

Troquei o pijama por roupas confortáveis para ficar em casa pela manhã: uma calça de moletom macia e um suéter antigo de Natal, daqueles que carregam mais lembranças do que estilo. Fui até a garagem procurar as caixas de enfeites natalinos, todas cuidadosamente marcadas, e as levei uma a uma até a sala. Quando liguei minha playlist favorita de Natal, a casa pareceu acordar comigo. As primeiras músicas preencheram o espaço vazio, e comecei a decorar, deixando que o ritmo das canções guiasse meus gestos.

Esse sempre foi um dos meus rituais favoritos da época de Natal. Era impossível não lembrar de quando mamãe reunia toda a família para decorar a casa, ao som de canções natalinas, chocolate quente fumegante e risadas que ecoavam pelos corredores. A árvore escolhida pelo papai, montada com paciência; as meias penduradas na lareira; os enfeites espalhados por cada canto da casa. O visco próximo à porta sempre rendia um sorriso — e um beijo singelo trocado entre mamãe e papai toda vez que passavam por ali. As almofadas natalinas no sofá, os presentes embrulhados com cuidado e deixados sob a árvore… cada pequeno detalhe fazia o Natal ganhar vida, tornando nossa casa um lugar ainda mais especial.

Quando me mudei novamente para a casa onde passei toda a infância, sabia que as lembranças viveriam comigo sempre, a todo o momento, mas era tão bom ter memórias vivas da mamãe que nem me importei de ser triste ao mesmo tempo, depois de alguns anos, a dor foi deixando o coração e no lugar só restou o vazio da saudade e as memórias boas.

Agora, ali sozinha, percebi que o ritual continuava — apenas de outra forma. As caixas estavam espalhadas pela sala, algumas abertas, outras ainda fechadas. A playlist de Natal tocava ao fundo e eu cantava junto sem me preocupar com o tom, rindo de mim mesma quando errava a letra de Last Christmas. Coloquei as meias na lareira, ajustei a guirlanda na porta algumas vezes até ficar satisfeita e comecei a montar a árvore. Cada enfeite que eu pendurava carregava uma história. Alguns me faziam sorrir, outros apertavam o peito por um segundo — mas nenhum doía como antes.


Tropecei em uma caixa esquecida perto do sofá e soltei uma risada sozinha, imaginando mamãe me chamando a atenção por espalhar tudo demais. Peguei um enfeite antigo, um floco de neve, um pouco gasto pelo tempo, e fiquei alguns segundos parada, lembrando dela dizendo exatamente onde ele deveria ficar. Coloquei-o no lugar certo, como se ainda estivesse sob sua supervisão.

Enquanto Jingle Bells tocava, girei pela sala segurando uma fita de luz, ajustando aqui e ali, até sentir que a casa começava, aos poucos, a ganhar vida outra vez. Não era tristeza. Era saudade serena. Daquelas que aquecem, mesmo no frio.

Meu celular vibrou em cima da mesinha de centro. Olhei de relance e sorri antes mesmo de atender. Era Sofia. Pausei a playlist e levei o telefone ao ouvido.

— Bom dia, viajante — atendi, já sentindo o coração ficar mais leve.

— Bom dia, amiga — respondeu animada. Pelo tom da voz, eu conseguia imaginar o sorriso dela do outro lado da linha, daqueles que sempre me faziam esquecer qualquer cansaço.

— Como vai Willow Creek? — perguntei, enquanto ajeitava um enfeite torto sobre a estante, sem realmente prestar atenção no que fazia.

— Vai como sempre, pequena, cheia de neve, só não tem decoração de Natal ainda. O pessoal, pelo jeito, não curte muito o Natal — respondeu, num misto de ironia e conformismo. — E Pine Hills?

— Do mesmo jeito… — caminhei até a janela e observei a rua tranquila. — O diferencial é que a cidade iniciou a decoração no começo de novembro — gargalhei. — Pine Hills ama o Natal.

Enquanto falava, senti aquele orgulho silencioso de pertencer a um lugar assim, que não tinha medo de celebrar, de repetir tradições, de manter o encanto vivo.

— E você também! — ela comentou, rindo.

Antes que eu respondesse, ouvi a mudança no tom da voz dela, como se estivesse guardando algo especial.

— Falando em viagem… consegui comprar minha passagem para a próxima semana. Vou passar dezembro todinho com você!

Por um segundo, fiquei parada, segurando o celular com força demais. O sorriso veio automático, quente, quase emocionado. Dezembro inteiro. Sofia ali. Em Pine Hills.

— Que ótimo! — sorri, sentindo o peito se encher de alegria. — Vou colocar você para trabalhar na livraria!

— Que isso? Trabalho forçado? — ela riu, entrando na brincadeira, como sempre.

— Pagamento por estadia na minha residência — zoei, apoiando-me no encosto do sofá. — Brincadeiras à parte… podemos fazer um espacinho pra você tirar fotos das pessoas aqui em Pine Hills. Eles vão adorar.

Enquanto falava, já imaginava Sofia caminhando pela cidade com a câmera pendurada no pescoço, capturando sorrisos, luzes, momentos simples. A ideia de tê-la ali, dividindo o Natal, a rotina e até o silêncio, me trouxe uma sensação de companhia verdadeira — daquelas que não pedem explicação.

Sofia sempre foi assim: presença, apoio, riso nos dias bons e força silenciosa nos dias difíceis. E saber que ela estaria ali, naquele dezembro, tornava tudo ainda mais especial.

-Seria interessante!

Continuamos conversando sobre a vinda dela, as expectativas para o Natal e o Ano-Novo, os presentes que ainda precisaríamos comprar, a vida em Pine Hills, a livraria, nossas famílias, os planos soltos para o próximo ano. Conversar com Sofia sempre teve esse efeito em mim: relaxante, reanimador, quase terapêutico. Ela era minha melhor amiga, aquela que sabia exatamente quando rir comigo e quando apenas escutar. Tirava de mim as gargalhadas mais sinceras, aquelas que vinham do fundo do peito.

Lembrei-me, sem esforço, de quando nos conhecemos na faculdade, em Brookfield. Ela sempre com a câmera pendurada no pescoço, observando o mundo com atenção; eu, cercada de livros, perdida em histórias. Foi natural, quase imediato. Em pouco tempo, já éramos inseparáveis. Sofia esteve presente nos momentos mais difíceis da minha vida, segurando minha mão mesmo à distância. E, agora, a cada palavra dita naquela ligação, ela era como um raio de sol atravessando minha rotina tranquila, aquecendo tudo por dentro.

— A conversa está maravilhosa, minha amiga… mas preciso voltar — comentou Sofia, com um leve suspiro. — Ainda tenho mais algumas sessões de fotos por aqui até o dia da viagem.

— Vai lá, não quero atrapalhar — respondi com um sorriso na voz. — Vou continuar a decorar a casa, estou atrasada na decoração.

Ela riu do outro lado da linha, daquele jeito fácil que sempre me fazia rir junto.

— Não, amiga — riu novamente — você não está atrasada. Pine Hills que está sempre adiantada. Mas eu entendo… todos amam o Natal. Já virou algo cultural. E quem chega, se apaixona por tudo o que o Natal representa pra cidade.

— É… você está certa. Obrigada — respondi, sentindo aquele conforto silencioso que só uma amizade verdadeira traz.

— Tenho que ir mesmo. Que você tenha um excelente dia, amiga. Amo você! Até!

— Amo você também! Depois mando uma foto de como ficou a decoração.

Desligamos a ligação, e por alguns segundos fiquei olhando para o celular, ainda sorrindo. Deixei-o na bancada onde estava antes e voltei para a sala, retomando a playlist de Natal. A música preencheu a casa novamente enquanto eu continuava a colocar algumas decorações, ajustando detalhes aqui e ali, com o coração leve.

Quando dei por mim, o relógio marcava mais de 12h30. O estômago reclamou discretamente, e percebi que havia me perdido no tempo — algo que sempre acontecia quando eu estava feliz. Deixei os enfeites de lado por um momento e segui para a cozinha, decidida a preparar algo para comer antes de continuar o resto do dia.

Na cozinha, coloquei o arroz para cozinhar enquanto temperava o frango e os legumes para assar. O cheiro começou a se espalhar aos poucos, misturando-se com a canela que ainda pairava no ar por causa das decorações. Preparei um arroz chinês simples, com frango dourado e vegetais assados — nada elaborado, mas reconfortante, do tipo que aquece o corpo e acalma a mente.

Quando tudo ficou pronto, servi-me e levei o prato para a mesa da sala. Sentei-me devagar, observando ao redor enquanto comia. A casa já estava diferente. Mais viva. A árvore ainda incompleta chamava minha atenção, esperando pelos últimos detalhes, como se também tivesse pressa para ficar pronta. Pensei nas bolas que ainda precisava pendurar, nas fitas, talvez uma estrela nova para o topo. Alguns enfeites ainda estavam nas caixas, e eu sabia exatamente onde queria cada um deles.

Entre uma garfada e outra, minha mente começou a viajar para os próximos dias. Fiz uma pequena lista mental do que precisaria comprar para as receitas tradicionais de Natal da mamãe. Biscoitos amanteigados, brownies, chocolate quente com marshmallows, torta de maçã com canela. Era quase um ritual, algo que eu fazia questão de manter vivo, como se cada receita fosse uma forma silenciosa de trazê-la para perto.

Sorri ao imaginar Sofia na cozinha comigo, farinha espalhada pelo balcão, risadas no meio da bagunça, fotos tiradas no momento exato em que algo desse errado — ou muito certo. Já conseguia ouvir os comentários dela, as provocações, as gargalhadas fáceis. Aquilo me enchia de uma expectativa boa, quase infantil.

Terminei de comer com calma, respirando fundo, sentindo gratidão por aquele momento simples. A casa, a comida, as lembranças, os planos. Tudo parecia se alinhar aos poucos, como se aquele Natal estivesse sendo construído detalhe por detalhe — com carinho, saudade e esperança.

Depois do almoço rápido, organizei a cozinha com movimentos quase automáticos. Lavei a louça, sequei o balcão, guardei cada coisa no seu lugar como se aquela ordem externa ajudasse a organizar também o que se passava dentro de mim. Em seguida, voltei para a sala, liguei novamente a playlist de Natal e continuei a arrumar a árvore e os enfeites espalhados pela casa. As luzes piscavam suaves, refletindo nas superfícies, e por um instante senti aquela mistura familiar de aconchego e nostalgia — a sensação de estar exatamente onde deveria estar, mesmo que o coração ainda carregasse pequenas inquietações silenciosas.

Quando olhei para o relógio, já eram 14h. Suspirei, percebendo o quanto havia me perdido nos próprios pensamentos. Fiquei ali parada por alguns segundos, ponderando se deveria abrir a livraria naquela tarde ou se seria melhor me permitir um dia livre, dedicado à casa, à decoração e a mim mesma. A ideia de ficar recolhida era tentadora, mas Pine Hills nunca ficava completamente parada, e quase sempre havia alguém em busca de um livro, de uma história para levar consigo. Aquilo sempre me puxava de volta.

Sair de casa com o frio cortante que fazia em Pine Hills era, sem dúvida, o maior desafio. Ainda assim, bem agasalhada, peguei o carro e dirigi até a livraria. No caminho, observei as ruas, algumas já enfeitadas, pessoas apressadas, outras caminhando devagar, como se o inverno pedisse mais calma. Decidi abrir por algumas horas. E, como quase sempre acontecia, foi uma escolha acertada.

O tempo passou de forma surpreendentemente rápida. Atendi poucos clientes, muitos deles de passagem pela cidade, curiosos com o clima natalino de Pine Hills. Embalei livros com cuidado, organizei algumas prateleiras e deixei a livraria ainda mais acolhedora do que já era. Havia algo recompensador naquela rotina simples, quase terapêutica, que me lembrava por que eu amava tanto aquele lugar.

Ao fim do dia, decidi encerrar o expediente. Tranquei a porta e respirei fundo, sentindo o cansaço bom de um dia produtivo. Foi então que avistei Mia, entrando na cafeteria depois de levar alguma coisa para fora. Um sorriso escapou sem esforço. Aquela parecia uma boa forma de encerrar a tarde.

Atravessei a rua e empurrei a porta da cafeteria. Assim que entrei, o aroma de café fresco e doces recém-assados me envolveu por completo, como um abraço quente em contraste com o frio lá fora.

— Clara, bem-vinda! — sorriu Mia ao me ver.

— Olá, Mia querida. Passei só pra dar um oi. O cheiro está ótimo — respondi, sentindo o corpo relaxar instantaneamente.

— Acabei de terminar de assar uma fornada de biscoitos, quer alguns? — perguntou, com aquele entusiasmo gentil que lhe era tão característico.

— Eu aceito… e uma xícara de café — acrescentei, quase como um pequeno pedido de conforto.

— Já trago pra você! — disse ela, desaparecendo em direção à pequena cozinha.

Quando voltou, trouxe uma xícara fumegante de café e um pratinho generosamente cheio de biscoitos.

— Prontinho!

Agradeci com um sorriso sincero. Mia colocou tudo à minha frente e sentou-se ao meu lado na bancada. Mordi um dos biscoitos com calma, apreciando o sabor amanteigado que se misturava ao leve toque de gengibre, trazendo uma memória quase imediata de Natais passados. Em seguida, dei um pequeno gole no café ainda quente, sentindo o calor se espalhar lentamente pelo corpo, aquecendo não só as mãos, mas também algo mais profundo dentro de mim. Sorri sem perceber, grata por aquele instante simples, silencioso e reconfortante, como se o mundo tivesse diminuído o ritmo só para me permitir respirar.

— Está realmente uma delícia, Mia — sorri, sincera, segurando a xícara com as duas mãos.

— Que bom! — ela respondeu, satisfeita. — Vi que você só abriu a livraria agora à tarde.

— Sim… passei a manhã decorando a casa, tentando acompanhar o ritmo de Pine Hills — ri, quase me entregando. — Acho que estou umas duas semanas atrasada.

— Vou confessar uma coisa então — Mia gargalhou. — Terminei minha decoração só ontem. Então estamos quites. Somos oficialmente as atrasadas do Natal.

Rimos juntas, e aquele riso fácil me lembrou o quanto eu valorizava essas pequenas pausas ao longo dos dias. Mia era mais do que a dona da cafeteria em frente à livraria; era uma amiga presente, dessas que sabem ouvir, aconselhar e também puxar a orelha quando necessário. Ao longo dos anos, acumulamos incontáveis momentos assim — conversas atravessando tardes inteiras, confidências ditas entre goles de café e risadas que surgiam sem esforço.

— Parece que esse ano teremos mais visitantes na cidade — comentou Mia, observando pela vitrine.

— Também senti isso — concordei. — Pine Hills já está mais movimentada do que o normal para essa época.

— O que é ótimo para os negócios — ela sorriu, animada.

— Com certeza… — completei. — Antes da calmaria de janeiro chegar.

Seguimos conversando sobre a organização da cidade para dezembro, os preparativos para as festas, planos simples e outros tantos ainda indefinidos. Falamos sobre tudo e nada ao mesmo tempo, até que um olhar rápido para o relógio me fez arregalar os olhos.

— Mia, meu Deus… nem vi o tempo passar — ri, surpresa. — Já passou das seis. Preciso ir ao mercado antes que fique tarde. A Sofia chega semana que vem e ainda tenho mil coisas para comprar.

— Passou voando mesmo — ela concordou. — Ela vai ficar até as festas?

— Sim, acho que até a primeira semana de janeiro.

— Então traga ela aqui quando chegar — disse com um sorriso caloroso. — Quero colocar o papo em dia.

Me despedi de Mia com um abraço apertado, daqueles que carregam carinho e familiaridade, e deixei o café sentindo ainda o cheiro doce dos biscoitos impregnado no casaco. Caminhei até o carro estacionado em frente à livraria e segui em direção ao mercado maior, o que ficava um pouco mais afastado do centro — sempre mais completo, sempre mais tranquilo.

Com o carrinho em mãos, percorri os corredores com calma, escolhendo o que faltava em casa: alimentos básicos, produtos de higiene, algumas guloseimas pensando na chegada da Sofia e pequenos excessos que eu permitia quando o Natal se aproximava. Aos poucos, o carrinho foi se enchendo, e aquilo me trouxe uma sensação curiosa de preparo — como se cada item fosse uma confirmação silenciosa de que dias cheios de companhia estavam por vir.

Depois de pagar as compras, coloquei as sacolas no carro e dirigi de volta para casa, observando Pine Hills desacelerar. As lojas fechavam as portas, pessoas seguiam apressadas para seus lares, algumas famílias já jantavam — cenas visíveis através das janelas iluminadas. O sol havia se despedido há algum tempo, e a noite tomava a cidade com uma tranquilidade quase reconfortante.

Ao chegar em casa, deixei as sacolas na entrada da cozinha e fui tomar um banho quente, deixando a água levar embora o cansaço do dia. Troquei de roupa, voltei para guardar tudo em seu devido lugar e, quando terminei, decidi não complicar: pedi uma pizza e escolhi um filme de romance natalino, daqueles previsíveis e reconfortantes.

Mais tarde, satisfeita e com o sono começando a pesar, organizei-me para dormir. O dia havia sido leve, produtivo e, de certa forma, especial. Enquanto me deitava na cama quentinha, pensei no início de dezembro que se aproximava e senti um pressentimento suave, quase um sussurro no peito: aquele Natal seria diferente de todos os outros. Algo especial estava à espera. Com esse pensamento me aquecendo por dentro, fechei os olhos e me deixei levar pelo sono.