A Valsa das Luzes de Pine Hills
1 Página Nevada
1.Página Nevada (Clara)
Os raios de sol começavam a surtir efeito, me despertando aos poucos. Como todos os dias, levantei e abri a cortina do quarto para absorver a vitamina D que me era presenteada e admirar a vista linda de Pine Hills. Lá fora, o frio era evidente; a neve já cobria parte do chão, e o sol parecia apenas uma figura escondida entre as nuvens.
Olhei para o relógio ao lado da cama: passava das oito. Logo precisaria abrir a loja. Primeiro, um banho, pensei. Depois de um banho revigorante, caminhei até o guarda-roupa e escolhi o mais confortável: suéter e calça jeans — exatamente o que eu precisava para enfrentar um dia longo.
Abri a porta do quarto e segui pelo corredor até a cozinha. Preparei meu café com o que tinha em casa, lembrando que depois precisaria passar no mercado para reabastecer tudo, já que Sofia chegaria em Pine Hills. Quando tornei a olhar para o relógio, já eram nove horas.
Tenho que ir abrir a loja, estou quase atrasada. Lavei rapidamente a louça e voltei ao quarto. Depois de escovar os dentes e colocar o restante da roupa para enfrentar o frio lá fora, peguei bolsa, chaves e segui viagem de carro. Sempre adorei observar o caminho até a Página Nevada — as árvores, as casas começando a ganhar forma com as decorações de Natal. Ainda estávamos na penúltima semana de novembro, mas a cidade já construía seu clima acolhedor.
Crescer em Pine Hills é realmente único, especialmente nessa época do ano, quando cada rua parece mais brilhante e charmosa. E crescer dentro da Página Nevada tornou tudo ainda mais especial. Aquele lugar carregava a personalidade de Margareth Bennett, minha mãe — a pessoa mais apaixonada pelo Natal que eu já conheci. Prometi a mim mesma que, depois que ela se foi, manteria ali o espírito que ela cultivou com tanto carinho. A livraria merecia que a magia do Natal permanecesse.
Estacionei o carro em frente à loja e fiquei alguns segundos observando a fachada verde com os dizeres: “Livraria Página Nevada: Onde a magia é conhecer novas aventuras”. Destranquei a porta de madeira e comecei a acender as luzes. O aroma de cedro, de livros novos e de canela sempre tomava conta do ambiente quando alguém entrava; era impossível não sentir aquele aconchego imediato. Liguei as luzes da vitrine e comecei a organizar os novos títulos e a decoração de Natal quando ouvi o sino da porta soar.
— Bom dia, pequena Clara! — disse Eleanor, dona da pousada no fim da esquina, entrando com dois copos de café. — Como está?
Eleanor Hayes e Oliver Hayes eram os proprietários da única e maior pousada da cidade. Um casal de meia-idade que havia comprado o lugar do antigo dono, um senhor muito querido que se mudou para viver perto dos filhos. Eleanor e Oliver já estavam em Pine Hills havia pouco mais de oito anos e, nesse tempo, se tornaram figuras queridas por todos. Eles cuidavam da Pine Hill Lodge com tanto carinho que o lugar acabou virando um verdadeiro refúgio — seja para quem visitava nossa cidade, seja para quem se perdia nela.
— Bom dia, Elly — respondi, animada. — Estou bem, obrigada. E você? Oliver está bonzinho?
-Estamos ótimos, Oliver está com a saúde de ferro — comentou rindo — trouxe um café. — disse estendendo o copo em minha direção.
-Obrigada Elly — peguei de sua mão e tomei um gole, estava uma delícia. — Está excelente.
-Que bom, Ollie que fez. Inclusive mandou um beijo pra você. Disse que passaria mais tarde para ver a vitrine e as novidades.
— Ele sempre fala isso — respondi rindo. — A vitrine ainda está pela metade, mas acho que até o almoço termino tudo.
Elly apoiou o cotovelo no balcão e me observou por um instante, com aquele olhar preocupado e carinhoso que só ela tinha.
— Quer ajuda? — perguntou. — As pessoas adoram quando a loja fica com aquele seu toque especial de Natal.
— Não precisa, você já me trouxe café, isso já fez meu dia — falei, ajeitando alguns enfeites.
— Então vou deixar você trabalhar. Mais tarde passo com o Ollie.
Ela se despediu, e o sino tocou de leve quando saiu, deixando a livraria envolta em silêncio e cheiro de canela. Era a calmaria perfeita para começar um novo dia. E Elly tinha razão: as pessoas realmente amavam o toque especial de Natal da livraria — algo que meus pais sempre fizeram questão de manter. Eu não poderia ser diferente. Preservar as tradições e o encanto natalino era a maneira que eu encontrava de manter mamãe por perto… como se ela nunca tivesse partido.
Mamãe… pensar nela ainda é difícil. É uma ferida que cicatriza devagar, um pouco a cada dia. Eu e minha irmã, Lúcia, não sabíamos, mas mamãe já tinha enfrentado um câncer quando era jovem. Só que, dez anos atrás, ele voltou — e voltou severo.
Não havia muito a ser feito. O estágio já era terminal, e as chances de cura eram quase nulas. Ela não quis tentar novamente. Preferiu viver os últimos seis meses da maneira que estava. Contou apenas ao papai. Não queria que a nossa última lembrança fosse dela em um hospital, frágil… ela queria que nos lembrássemos da mulher forte e luminosa que sempre foi.
Ela viveu ainda sete meses com a gente e, quando partiu, foi rápido. Silencioso. Do jeito dela.
Receber aquela notícia foi devastador. Papai ficou arrasado. Só manteve a livraria porque ela o pediu — queria que a Página Nevada continuasse viva, mesmo que nenhum dos dois estivesse mais aqui.
Enquanto eu cursava literatura, Lúcia ajudou o papai a cuidar da livraria. E quando voltei para Pine Hills, Lúcia já tinha ido para a faculdade. Papai, então, alguns anos depois, decidiu se mudar para Westhaven, onde Lúcia estava. Queria descansar, depois de tantos anos dedicados à Página Nevada e às memórias que ela carregava.
Deixei os pensamentos um pouquinho de lado, resolvi terminar de colocar as decorações na vitrine, ajeitando as luzes em formato de neve caindo e posicionando os pequenos pinheiros dourados ao redor dos livros. Cada detalhe me lembrava de mamãe — o cuidado, a delicadeza, o jeito que ela sempre dizia que “o Natal mora nas pequenas coisas”.
Parecia bonito. Parecia certo. Parecia… dela. Da mamãe.
Respirei fundo, deixando aquela mistura de saudade e aconchego me atravessar por um instante — até decidir que era melhor continuar trabalhando do que afundar demais nas lembranças.
Fui até a árvore maior, aquela que ficava no fundo da loja, perto da área de leitura. Pendurei os ornamentos que faltavam e reposicionei alguns livros para deixar em evidência os novos lançamentos, além dos romances natalinos que todo mundo vinha procurar nessa época do ano. A Página Nevada realmente ganhava outra vida em dezembro… e eu também.
Quando finalizei, olhei o relógio na parede.
Quase meio-dia.
Eu mesma tinha estipulado aquela pausa diária. Fechei a livraria por uma hora, baixei a placa de volto já e dirigi até minha casa, era perto mas a neve já estava dificultando a caminhada.
O almoço acabou sendo rápido, mas reconfortante: um prato de massa com molho de tomates assados que eu tinha preparado no domingo e guardado na geladeira. Esquentei tudo enquanto a chaleira apitava, e servi a comida com uma xícara de chá de maçã e canela — meu pequeno ritual nos dias frios. Lá fora, Pine Hills seguia envolta naquela quietude branca; a neve caía devagar, tingindo o silêncio com uma calma que sempre me fazia respirar um pouco mais fundo.
Depois do almoço, lavei a louça devagar, ouvindo o som da água quente batendo nos pratos enquanto o aroma do chá ainda pairava pela cozinha. Aproveitei para dobrar a manta deixada no sofá e recolocar as almofadas no lugar — pequenos gestos que sempre me traziam a sensação de que a casa voltava a respirar em ordem. Peguei meu casaco, conferi as luzes e travei a porta antes de enfrentar o frio lá fora. Entrei no carro, o volante gelado sob meus dedos, e liguei o aquecedor. Enquanto dirigia de volta para a livraria, as ruas enfeitadas passavam pelos vidros embaçados, cada laço vermelho e cada guirlanda brilhando como um lembrete suave de porque Pine Hills sempre parecia abraçar quem voltava para casa.
Estacionei em frente a livraria e tranquei o carro. Antes de destrancar a porta da livraria, ouvi alguém me chamar.
— Clara! — virei e encontrei Mia, da pequena cafeteria em frente, equilibrando duas caixas de enfeites nos braços e um sorriso desesperado no rosto. — Pelo amor, você tem um minutinho?
— Claro, Mia — apoiei o peso numa perna, já imaginando o pedido. — O que houve?
Ela revirou os olhos de um jeito dramático e divertido.
— A decoração do Café Pine está um caos. Eu juro que tentei deixar igual ao do ano passado, mas… — ela levantou uma das caixas — isso aqui é uma mistura de glitter, fitas e trauma.
Ri, não conseguindo evitar.
— Quer ajuda, é isso?
— Por favor. Se não, meus clientes vão ter pesadelos com essa vitrine. Eu prometo que é rapidinho, só pra me orientar a não transformar o café em um carnaval fora de época.
Assenti, sentindo aquele carinho típico que a cidade despertava.
— Tudo bem, vamos lá. Tenho alguns minutos antes de reabrir.
Entramos no café. O cheiro de baunilha e grãos recém moídos me envolveu como um abraço quente. A vitrine… realmente precisava de ajuda. Havia luzes misturadas com fitas, bolas penduradas em alturas diferentes, e um boneco de gengibre enorme encarando a rua com uma expressão indecifrável.
Ajustei luzes, mudei a ordem de alguns enfeites, sugeri tons mais suaves e ajudei a montar um pequeno cantinho com xícaras empilhadas e biscoitos decorativos. Em meia hora, o café parecia outra coisa — acolhedor, quentinho, pronto para dezembro.
— Você salvou meu Natal, Clara — ela disse, abraçando-me com gratidão.
— Só fiz o que pude — respondi, rindo. — Agora preciso voltar antes que alguém ache que fechei a livraria permanentemente.
Ela me acompanhou até a porta.
— Se precisar de mim pra algo, grita. — ela me abraçou.
Voltei para a Página Nevada, girei a chave na fechadura, segui para mais ao fundo para pegar uma caixa com o restante das decorações e, antes mesmo de trocar a placa para Aberto, o som familiar do sino da porta ecoou atrás de mim.
Eleanor e Oliver estavam ali, sorrindo como se trouxessem o espírito do Natal dentro deles mesmos.
— Clara, querida! — Eleanor exclamou, com as bochechas rosadas do frio. — A vitrine está um encanto! Tínhamos que vir ver com nossos próprios olhos.
Oliver assentiu com aquele olhar calmo que sempre me dava paz.
— Ficou linda, como sempre — ele disse.
A calmaria da livraria estava prestes a ganhar companhia — e, como sempre, a presença dos dois tornava tudo mais aconchegante. Havia algo neles… aquela serenidade que parecia abraçar o ambiente.
— Que bom ouvir, essa é a intenção — sorri.
— Quase finalizando? — perguntou Oliver.
— Sim, mais algumas decorações aqui dentro e finalizo. — assenti. — Ainda tem o 2º round de decoração lá em casa.
— Sei que vai ficar encantador, querida. — sorriu Eleanor.
O jeito como ela dizia essas coisas sempre aquecia meu coração, como se mamãe ainda estivesse por perto, guiando cada detalhe.
— Querem um chá? — perguntei.
— Não, pequena — disse Oliver. — Já estamos voltando. Só passamos aqui para ver como estava o andamento da decoração e ver você. Tenho algumas coisas a fazer e Eleanor vai preparar o jantar para os hóspedes.
— Já estão chegando? — perguntei curiosa.
— Não, os que são para a época de Natal ainda faltam alguns dias… são os que estão de passagem ou resolvendo algo pela cidade. — sorriu Eleanor.
— Ahh sim… bom, em todo caso, que gostem de Pine Hills. Ela tem seu charme. — abri um sorriso.
Os dois se olharam e soltaram uma leve gargalhada.
— Sim, querida, foi por isso que ficamos. Essa cidade encanta quem a permite conhecer. — disse Eleanor. — Já vamos, não é, Oliver?
— Sim, meu bem. Até mais, pequena Clara. Qualquer coisa, apareça na pousada. — Oliver deixou um beijo na minha testa, gesto que sempre fazia meu peito ficar mais leve.
— Até outro momento, Clara! — Eleanor me abraçou.
— Até.
Assim que a porta se fechou atrás deles, respirei fundo e voltei ao trabalho. Continuei finalizando a decoração da livraria: alguns piscas nas prateleiras, laços decorando as estantes e o balcão, um pequeno Papai Noel segurando um livro — pequenas lembranças da mamãe, que traziam o espírito do Natal para a Página Nevada. Cada enfeite tinha um significado, uma memória, um carinho guardado.
Depois de mais algumas horas, olhei em volta e fiquei contente com o resultado. A livraria parecia resplandecer o Natal — não só pela decoração, mas por tudo que aquele espaço carregava. Atendi alguns clientes amigos que procuravam presentes ou material para suas pesquisas, e, ao fim do expediente, fechei a livraria, entrei no carro e segui para casa.
No caminho, me peguei pensando na infância, em crescer em Pine Hills… e uma leve lembrança de Thomas veio à tona. Fazia muito tempo que não pensava nele: em como estaria depois de ter ido embora, em tudo que vivemos. Éramos amigos, crescemos juntos, brincávamos na praça da cidade, íamos para a escola… passamos boa parte da adolescência lado a lado até que ele deixou Pine Hills. O mundo ficou um pouquinho mais vazio naquela época. Ao lembrar, um sentimento de saudade pesou no peito — silencioso, inesperado, quase doce.
Como será que ele está?
Deixei esses pensamentos um pouco de lado e continuei observando a vida passar pelas janelas embaçadas: pessoas voltando do trabalho, lojas sendo fechadas, casais entrando nos poucos restaurantes da cidade. Pine Hills tinha esse ritmo que abraçava, uma tranquilidade que parecia colocar o coração no lugar.
Chegando em casa, estacionei o carro e segui até a porta. Lá dentro, o espaço estava quentinho. Deixei minhas coisas, fui ao quarto, tomei um banho, coloquei o pijama e preparei algo rápido para comer. Foi então que ouvi meu telefone tocar. Peguei o celular e olhei o visor: era Lúcia.
— Clarinhaaa, boa noite, mana — disse Lúcia animada.
— Boa noite, Lucy. Como está você e o papai? — perguntei.
— Estamos bem, ele mandou um beijo. E você, como está?
— Estou bem. Terminei a decoração da livraria. — sorri. — Está linda como sempre.
— Eu imagino… você consegue manter o mesmo espírito que mamãe colocava naquele lugar. — Era possível ouvir a saudade e o amor estampados na voz de Lucy.
Conversamos sobre Pine Hills e Westhaven, sobre os preparativos de Natal de papai e outras coisas que sempre faziam parte do nosso ritual semanal. Pelo menos uma vez na semana a gente parava tudo para conversar assim.
— Bom, maninha, vou te deixar descansar. Amanhã você vai cedo para a livraria e eu tenho que ir para a empresa. Até mais — finalizou.
— Certo, Lucy. Bom descanso. Te amo, irmã! — sorri.
— Bom descanso. Te amo também, Clara!
Desligamos o telefonema e, por um momento, fiquei olhando para a tela apagada do celular, ouvindo o silêncio da casa se ajeitar ao redor de mim. Amanhã realmente seria um longo dia — eu sentia isso não só na mente, mas no corpo inteiro, como se a própria Pine Hills estivesse se preparando para algo. Levantei devagar, lavei a louça que tinha usado, enxugando cada prato no ritmo calmo da noite. Depois organizei algumas coisinhas pela casa, ajeitando almofadas, dobrando a manta do sofá… pequenos gestos que me davam a sensação de que tudo estava no lugar.
Quando fui para o quarto, a luz amarela do abajur deixou o ambiente ainda mais acolhedor. Escovei os dentes, prendi o cabelo e me enfiei na cama quentinha, sentindo o peso bom das cobertas sobre mim — um abraço silencioso que sempre me lembrava da minha mãe. Fechei os olhos e, antes que o sono chegasse, aquele pensamento voltou, suave, insistente: amanhã seria diferente. Não só amanhã… algo dentro de mim dizia que este Natal seria diferente, especial de um jeito que eu ainda não sabia nomear.
Aos poucos, minha respiração foi desacelerando. Minha mente se afrouxou, como neve caindo devagar, e me rendi ao sono — um sono cheio de sonhos leves, quase luminosos, como se Pine Hills inteira estivesse embalando minha noite.
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