A VOLTA DO PIRATA DO ESPAÇO
5 Uma trilha de destruição.
Notas iniciais
QG SECRETO DA HORDA MERODAK.
A porta blindada fechou-se atrás do capitão Valgger com um som grave, quase sem eco.
O salão de comando da base permanecia mergulhado numa penumbra azulada. Não havia oficiais reunidos, mapas táticos espalhados ou cerimônia de recepção. Apenas a projeção da Terra suspensa sobre a mesa central e, diante dela, o Grande Almirante Kletus.
Valgger parou a três passos da plataforma. Não saudou com exuberância, apenas levou o punho fechado ao peito uma única vez. Num dialeto da língua merodaque, mais formal, reservada aos membros de destaque ainda maior dentro da horda dos corsários interplanetários.
— Jakrol-mêlzh! (— Grande Almirante.)
Kletus continuou olhando para o planeta.
— Kapozh-vha Valgger. (— Capitão Valgger.)
A projeção da Terra girou lentamente.
Kletus tocou o painel, fazendo o globo desaparecer. Em seu lugar surgiu uma cadeia de ilhas cercada pelo Pacífico, seguida pela ampliação de uma instalação erguida sobre um maciço rochoso: cúpulas, antenas parabólicas, torres de comunicação e radares voltados para o céu.
— Nietzh-klo rakzh-vha ihzh-n ventzh-vha nærh-zvha czezh-ivh datzh-znyat sênzh-vha ōrzh-vha pazh-ka. (Esta estação passou as últimas semanas catalogando objetos não identificados nas camadas superiores da atmosfera.)
Valgger não mudou de expressão.
Outra imagem apareceu. Trajetórias luminosas começaram a cruzar o mapa, sendo algumas terrestres, outras não.
— Seizh-n mnezh-anvha vægh-zvha eihzh-n pazh-ka. (Três de nossas rotas de aproximação aparecem aqui.)
Valgger ergueu ligeiramente os olhos.
Foi toda a reação.
— Mnezh-anvha sênzh-vha pazh-ka-difv? (Foram identificadas como nossas?) — perguntou Valgger.
Kletus.
— Ie, nietzh-klo dazh-ren pazh-ka sênzh-vha. ( Sim, mas não chegaram a trigonometrar a origem. Ainda.)
— Dan ōrzh-vha lazh-st. (Então há tempo.)
Kletus finalmente virou-se para ele.
— Sannzh-vha. ( Exatamente.)
A imagem mudou novamente. As antenas da instalação foram destacadas em vermelho.
— Pazh-ka czaidzh-se lazh-st datzh-znyat hvir-zha frûzh-vha nizh-ka! (Você destruirá os sistemas de observação, transmissão e armazenamento. A estação deve perder permanentemente a capacidade de acompanhar nossas aproximações naquela região.)
Valgger observou o esquema durante alguns segundos.
— Dælf-zhvha lazh-st-difv? ( Força disponível?)
— Varan rakzh-vha hvir-zha. ( O seu robô-bomba. O Varan.)
Nenhuma surpresa.
— Varan-mo? ( Apenas Varan?)
— Hvir-zha dælf-zhvha lazh-st-difv? (Você precisa de mais?)
Valgger tornou a encarar Kletus.
— Nietzh-klo. ( Não.)
Kletus fez desaparecer metade das informações; restou apenas a instalação.
— Skypzh-vha Groizer-vha nizh-ka frûzh-vha. (O Pirata do Espaço poderá interferir.)
Dessa vez, Valgger demorou um pouco mais para responder.
— Datzh-znyat diizh-n blavzh-eh-difv? (Ele protege a estação?)
— Zhr-yrt-zh hvir-n vakt-sköld-zh lazh-st. (Ele protege a Terra.)
— Dan pazh-ka frûzh-vha. (Então é provável que apareça.)
— Dælf-zh. (Muito.)
Valgger voltou os olhos para o mapa.
— Nietzh-klo nhraizh-vha. (Não faz diferença.)
Kletus arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Nietzh-klo? ( Não?)
— Datzh-znyat mnezh-anvha dhræuzh-vha nizh-ka lazst. (Minha missão é destruir a estação.)
— Velzh-vha Groizer nietzh-klo nizh-ka? (E se o Pirata do Espaço tentar impedi-lo?)
— Arzh-emvha nietzh-klo nizh-ka frûzh-vha. (Impidirei que me impeça.)
Kletus sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
— Nietzh-klo arzh-emvha hvir-zha vaedrae-zh sênzh-vha. (Não lhe ordenei que destruísse o Pirata do Espaço.)
— Nvir-zha vaedrae-zh arzh-emvha cegzh-an sênzh-vha. (Eu ouvi sua ordem.)
Kletus ampliou novamente a instalação, fazendo surgir pequenos pontos luminosos dentro dela.
— Datzh-znyat seizh-n rhadamzh-vha dhræuzh-vha lazst. (Cento e vinte e seis pessoas trabalham no complexo durante o turno principal.)
Valgger consultou os dados.
— Nhraizh-vha-difv? (A evacuação altera a importância do alvo?)
— Nietzh-klo. ( Não.)
— Dhræuzh-vha nietzh-klo nhraizh-vha. (Então também não altera a missão.)
Não havia satisfação naquela resposta, ou sequer resquício de desprezo. Soando mais como uma fria conclusão.
Kletus caminhou lentamente até a borda da plataforma.
— Jordzh-vha dræzh-vha hrræzh-vha ssuazh-vha sênzh-vha. (Dizem que os homens da Terra aprenderam rapidamente.)
— Ssuazh-vha nietzh-klo lazh-st. (Aprender não é o mesmo que estar preparado.)
— Joe Kaisaka nietzh-klo ssuazh-vha frûzh-vha. (Joe Kaisaka talvez discorde.)
Valgger voltou-se para ele.
— Dan diizh-n sezh-va frûzh-vha. (Então ele terá oportunidade de demonstrar.)
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Kletus tocou outro comando e a imagem da estação desapareceu, dando lugar a uma imagem de Varan. Primeiro em configuração de voo. A fuselagem longa e escura lembrava vagamente um animal em pleno salto. As placas superiores formavam um dorso metálico. As duas fendas azuis dos sensores pareciam olhos.
Depois surgiu a segunda configuração. Com braços, pernas, mandíbulas e garras.
No centro do tórax, uma pequena região pulsava em vermelho.
Valgger olhou para ela.
Kletus também.
— Slutzh-vha rakvh-zvha otwodzh-vha lazh-st. (O recurso final continua autorizado.)
— Ssuazh-vha sênzh-vha. (Entendido.)
Nenhum dos dois explicou mais nada.
Kletus fechou o esquema.
— Hvir-zha en kapozh-vha Valgger dælf-zhvha Joe-vha velzh-vha Rita-zvha pazh-ka sênzh-vha (Há uma diferença entre você e muitos dos capitães que já enviei contra Joe e Rita, capitão Valgger.)
O capitão esperou.
— Diizh-n nizh-ka thei'-lzvha. (Eles queriam derrotá-los.)
Kletus aproximou-se.
— Hvir-zha arzh-emvha nietzh-klo frûzh-vha. (Você não precisa, até segunda ordem minha.)
— Hvir-zha vaedrae-zh arzh-emvha pazh-ka frûzh-vha. (Estarei atento aos seus comandos.)
— Joe Kaisaka hvir-zha moszh-vha nizh-ka frûzh-vha. (Joe, por exemplo, tentará provocá-lo.)
— Hietzh-klo nhraizh-vha. ( Não importa.)
— Varan rakzh-vha diizh-n nizh-ka frûzh-vha. (Ele danificará Varan.)
— Sannzh-vha frûzh-vha. (É possível.)
— Hvir-zha retourzh-vha diizh-n nietzh-klo nizh-ka frûzh-vha. (Poderá tornar impossível o seu retorno.)
Valgger encarou o Grande Almirante.
— Hmrourzh-vha dhræuzh-vha lazh-st-difv? (O retorno faz parte da missão?)
Silêncio.
Então Kletus sorriu novamente.
Dessa vez, havia aprovação.
— Nietzh-klo. datzh-znyat datzh-znyat nizh-ka velzh-vha Groizer pazh-ka sênzh-vha. arzh-emvha retourzh-vha otwodzh-vha frûzh-vha. (Não. Se você não conseguir destruir uma estação, caso você destrua uma e sobreviva a um ataque do Pirata do Espaço. Eu autorizarei seu retorno para reparos em seu robô-bomba.)
— Hindrzh-vha nietzh-klo lazh-st. ( Então não é um problema.)
Kletus virou-se novamente para a projeção apagada.
— To-mæl drah-la-zh fær-zh. Tno-kren-mæl Svir-mæl dœd-ni-zh. (Parta em uma hora. Atacará na próxima aurora)
Valgger levou o punho ao peito.
— Ozh-n datzh-vha nizh-ka frûzh-vha. (O primeiro alvo será destruído.)
Ele já estava a caminho da porta quando Kletus falou:
— Valgger.
O capitão parou.
— Groizer dhræuzh-vha velzh-vha sezh-va frûzh-vha... (Se o Groizer chegar antes de você completar a missão...)
Valgger virou apenas o rosto.
Kletus terminou:
— ...Belligzh-vha diizh-n nietzh-klo nizh-ka. (...não permita que ele determine a batalha.)
Valgger permaneceu imóvel por um instante.
— Diizh-n nietzh-klo nizh-ka frûzh-vha. (Ele não determinará.)
A porta se abriu.
Antes de atravessá-la, acrescentou:
— Varan rakzh-vha diizh-n pazh-ka frûzh-vha. (Ele apenas decidirá quanto Varan precisará suportar.)
E saiu.
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Horas depois, muito acima do Pacífico, alguma coisa atravessou as camadas superiores da atmosfera sem ser imediatamente identificada.
A princípio, os computadores da estação de rastreamento 'Kuroshio-7' registraram apenas uma inconsistência: uma perturbação breve no setor trinta e dois, pequena demais para acionar automaticamente os protocolos de emergência. Um dos técnicos aproximou o rosto do monitor e voltou alguns segundos nos registros.
— Isso estava aí antes?
A operadora ao lado dele desviou os olhos de outra tela.
— O quê?
— Setor trinta e dois. Houve uma assinatura e desapareceu.
Ela ampliou os dados, mas, naquele ponto, já não havia nada. Antes que pudesse responder, uma segunda leitura surgiu quase quatrocentos quilômetros mais próxima.
O técnico franziu a testa.
— Isso não é possível.
— O primeiro registro estava errado?
Ele refez o cálculo.
— Não.
A terceira leitura apareceu pouco depois, ainda mais perto, e dessa vez os dois permaneceram em silêncio enquanto o computador comparava automaticamente as assinaturas.
Eram praticamente idênticas.
— Velocidade? — perguntou ela.
Ele introduziu os dados, esperou o resultado e tornou a executar o cálculo, como se a repetição pudesse obrigar a máquina a produzir uma resposta menos absurda.
— Quanto?
O técnico respondeu.
Ela empalideceu.
Uma quarta leitura apareceu, sendo que, desta vez, ninguém precisou calcular, pois o objeto já podia ser visto pelas câmeras de grande alcance, revelando uma silhueta escura que atravessava as nuvens como um animal mergulhando sobre a presa, com duas fendas azuis brilhando na proa.
O alarme geral disparou.
As grandes antenas externas começaram a girar em busca de uma solução de rastreamento, enquanto no centro de controle as comunicações se sobrepunham quase imediatamente.
— Contato não identificado entrando no setor!
— Confirmem vetor!
— Estou tentando estabelecer trajetória!
— Acionem o protocolo de defesa!
Uma das telas exibiu a imagem ampliada da nave. Mesmo com a interferência atmosférica, era possível distinguir a proa afilada, a fuselagem revestida de placas escuras e os grandes conjuntos de propulsão traseiros.
O chefe da estação aproximou-se do monitor principal.
— Transmitam tudo para o centro de coordenação.
A operadora digitou o comando.
— Iniciando transmissão.
No mesmo instante, o sinal desapareceu.
— Perdemos o enlace.
— Restabeleça.
— Não fui eu.
O chefe olhou novamente para a imagem.
A nave continuava vindo.
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Dentro do cockpit de Varan, três pontos luminosos apareciam sobre a representação cartográfica do oceano.
O primeiro pulsava diante de Valgger:
'KUROSHIO-7'.
Outros dois permaneciam mais distantes, quase na mesma linha operacional.
Abaixo do primeiro alvo, uma lista de prioridades, em Merodak-ryn (a língua franca que a horda desenvolveu e adotou há séculos), surgiu no visor.
SĪK-ZH (TRANSMISSÃO).
SKE-ZH (RASTREAMENTO).
DŌ-ZH (ARMAZENAMENTO).
Valgger não hesitou.
— Ett-mæl-ha skön-ni-zh! (Executar primeira fase).
Compartimentos se abriram na fuselagem de Varan.
Quatro mísseis foram lançados.
O primeiro atingiu a torre de transmissão, que desapareceu dentro de uma explosão branca e laranja. O segundo perfurou a estrutura de uma antena parabólica e arrancou o prato metálico de sua base. O terceiro atingiu a cúpula principal de rastreamento, abrindo sua superfície blindada e espalhando fragmentos dos equipamentos internos pelo terreno.
O quarto mergulhou em direção ao edifício mais baixo do complexo.
— Impacto no setor subterrâneo! — gritou alguém na sala de controle.
O técnico da primeira detecção consultou a planta da instalação.
— Centro de armazenamento.
A operadora virou-se para ele.
— Eles sabem onde estão nossos arquivos?
Uma explosão sacudiu o prédio.
As luzes se apagaram por alguns segundos, voltando sob a iluminação avermelhada do sistema de emergência.
O chefe não respondeu imediatamente.
Não precisava.
O robô-bomba Varan passou sobre a estação em grande velocidade e desapareceu atrás de uma camada de nuvens.
O estrondo de seus motores chegou depois.
No centro de controle, vários operadores levantaram a cabeça.
— Está se afastando.
O chefe aproximou-se da tela auxiliar.
— Trajetória?
— Ainda calculando.
O contato reapareceu por alguns segundos.
— Oeste.
— Transmita isso.
A operadora mudou para o sistema redundante.
— O enlace principal caiu. Tentando canal de emergência.
Uma luz acendeu-se.
— Consegui!
Ela começou a enviar os primeiros pacotes de dados.
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No cockpit, a voz sintética de Varan informou:
— Ske-zh-ekh-thha'lhi drek-ni-zh. Sīk-zh-ha khor-pa-zh. Dō-zh-makh vrak-ni-zh. (Capacidade primária de rastreamento reduzida em oitenta e nove por cento. Transmissão principal interrompida. Armazenamento central severamente comprometido).
Valgger permaneceu olhando para a estação.
— Sīk-zh-kre ssaer-ni-zh? (Capacidade de comunicação redundante?)
— mnek-ni-zh (Detectada).
— Vrak-ni-zh! (Elimine).
Um disparo saiu da parte inferior da fuselagem.
Na estação, a transmissão chegou a completar poucos segundos antes que a antena secundária explodisse.
O enlace caiu novamente.
O chefe bateu a mão contra o console.
— Gravem tudo localmente! Se conseguirmos restabelecer contato, mandamos depois!
O técnico da primeira detecção fitou a imagem congelada de Varan.
— Temos a trajetória.
— Copie para todos os terminais disponíveis.
— Já estou fazendo.
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Valgger recebeu novo relatório.
— Sīk-zh-el khor-pa-zh. (Comunicação externa interrompida).
— Dō-zh-ni? (Arquivos?)
— Kre-dō-lok mnek-ni-zh (Múltiplas cópias locais detectadas).
— Kre-dō vrak-ni-zh! (Destrua-as).
O sistema levou apenas uma fração de segundo para identificar os edifícios onde permaneciam bancos redundantes de dados.
Novos disparos atingiram dois anexos administrativos.
Vidros, metal e concreto foram lançados sobre o pátio.
A estação já não possuía capacidade operacional significativa.
Ainda assim, Varan reduziu a velocidade.
A inteligência interna da nave começou a percorrer automaticamente o complexo destruído.
— Kivl-zh-thha'sei mnek-ni-zh. (Sinais biológicos detectados: oitenta e três).
Valgger observou o número.
— Sā-pa-zh? (Estado?)
— Rha'lli vesh. Kra'fve tsak-pa. (Cinquenta e sete móveis. Vinte e seis imóveis ou com mobilidade reduzida).
— Sīk-zh-el ssaer-ni-zh? (Capacidade de comunicação externa?)
— Lliu. (Negativa).
— Dō-zh-lok ssaer-ni-zh? (Capacidade de registro?)
— Lokh-ha, Oti-auton-zh, dō-rhyn ssaer-pa. (Dispositivos pessoais, equipamentos óticos autônomos e memória humana permanecem disponíveis).
Valgger não demonstrou qualquer reação.
— Khor-ni-zh-el. (Portanto, a neutralização não está completa).
O computador aguardou confirmação.
— Vrak-bio-ha skön-ni-zh? (Autorizar protocolo de esterilização do alvo?) — perguntou a voz artificial.
— Skön-ni-zh. (Autorizado).
Não houve mudança em seu tom.
Na estação, o chefe dela percebeu primeiro o fato de que o robô-bomba estava voltando.
— Por que ele está retornando?
Ninguém respondeu.
A nave fez uma curva ampla sobre o mar e alinhou novamente a proa com as instalações.
O técnico olhou para os painéis destruídos.
— Não temos mais nada funcionando.
A operadora ergueu os olhos para ele.
Por alguns segundos, os dois compreenderam a mesma coisa.
— Não é o equipamento — murmurou ela.
Lá fora, Varan abriu novamente os compartimentos de armas.
Os sobreviventes começaram a correr em direção aos acessos subterrâneos.
Varan disparou.
Uma sequência de explosões atravessou o complexo de uma extremidade à outra, derrubando estruturas já danificadas e cobrindo o terreno de fumaça e destroços.
A torre administrativa desabou.
O último bloco de comunicações desapareceu sob uma nuvem de poeira.
O acesso principal ao abrigo subterrâneo foi atingido diretamente.
Quando a fumaça começou a se dispersar, a estação Kuroshio-7 já não parecia uma instalação de rastreamento. Restavam construções abertas, antenas retorcidas e focos de incêndio espalhados entre crateras.
Antes de prosseguir, Valgger acionou um compartimento traseiro.
Um pequeno dispositivo desprendeu-se de Varan e caiu durante alguns segundos antes de ligar os próprios motores. Em seguida, começou a transmitir uma assinatura energética quase idêntica à da nave principal e tomou uma trajetória para nordeste.
O verdadeiro Varan seguiu para oeste.
Na análise posterior dos poucos sensores externos que ainda haviam captado parte da operação, duas assinaturas praticamente indistinguíveis começariam a afastar-se em direções diferentes.
Valgger verificou o próximo ponto.
— Kre-mæl drah-la-zh. (Curso para o segundo alvo).
Os motores principais aumentaram potência, e Varan desapareceu entre as nuvens.
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AKENEJIMA.
Na sala de comando, Tobishima capta um estranho sinal vindo de Kuroshio-7. Um alerta breve, uma transmissão que cessou abruptamente.
Ninguém ali soube ainda exatamente o que aconteceu lá.
Tobishima:
— Perdemos contato com Kuroshio-7 há onze minutos. Antes disso, ela enviou um alerta automático de aproximação. Satélites registraram várias detonações sobre a ilha.
Joe:
— Alguém de lá já entrou em contato?
Uma pausa.
— Ainda não conseguimos estabelecer contato com ninguém... — Tobishima é interrompido por uma informação. Antes que o enlace principal desaparecesse por completo, o sistema de emergência transmitiu um pacote comprimido para a rede: horário, coordenadas, vetor do intruso, assinatura energética e quatro quadros capturados pelas câmeras externas. A transmissão durou menos de dois segundos.
Joe observou as duas trajetórias divergindo no monitor.
— Dois sinais? Serão dois robôs-bomba?
Sólus aproximou-se da tela e examinou os dados por alguns segundos.
— Ou uma sonda falsa. É uma tática merodaque.
Rita voltou-se para Tobishima.
— Professor, acha que devemos investigar?
Tobishima permaneceu olhando para o mapa.
— Primeiro, passemos essas informações ao conselheiro Yoshida. A Força Aérea deve investigar conforme o protocolo. Só interviremos se houver confirmação da ameaça ou se o Ministério da Defesa nos autorizar diretamente.
Ele então encarou os dois.
— De qualquer maneira, estejam preparados.
— Sim, senhor — responderam Joe e Rita.
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O alerta chegou às unidades de defesa aérea poucos minutos depois da perda de contato com Kuroshio-7. Entre os fragmentos de informação recebidos antes do silêncio da estação, havia uma assinatura energética desconhecida afastando-se para nordeste, acompanhada de dados incompletos de altitude e velocidade.
Duas aeronaves de prontidão receberam ordem de decolagem imediata.
Pouco depois, os dois caças já atravessavam o céu sobre o Pacífico, enquanto o controle terrestre atualizava continuamente o vetor do contato.
— Hayate Um, alvo a cento e dezenove quilômetros. Rumo zero-quatro-zero. Altitude vinte e um mil metros. Mantém velocidade elevada.
O piloto líder conferiu os instrumentos.
— Hayate, um copiando.
À sua direita e um pouco atrás, o segundo caça acompanhava a formação.
— Hayate Dois, contato de radar confirmado.
— Não tente interceptação frontal — informou o controlador. — Aproximem-se pela retaguarda. O objeto não respondeu a nenhuma tentativa de identificação.
O piloto de Hayate Um aumentou potência.
Os dois caças ganharam velocidade.
No radar do líder, o contato permanecia firme. Grande demais para ser ruído e rápido demais para uma aeronave convencional. E, segundo os dados enviados por Kuroshio-7, praticamente idêntico à assinatura registrada durante o ataque.
— Controle, Hayate Um. Confirme correlação com o intruso de Kuroshio.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Correlação elevada. O sistema atribui oitenta e seis por cento de probabilidade de correspondência.
O segundo piloto respondeu antes que o líder pudesse fazê-lo:
— Parece que encontramos nosso visitante.
— Ainda não — disse Hayate Um. — Primeiro olhamos para ele.
A distância caiu rapidamente.
O contato, porém, não reagiu.
Não mudou de direção, nem aumentou velocidade e sequer executou qualquer manobra evasiva.
O piloto líder começou a estranhar.
— Controle, ele sabe que estamos vindo?
— Impossível determinar.
— Se aquilo atacou uma estação, deve possuir sensores.
O segundo caça aproximou-se um pouco mais.
— Talvez esteja tentando nos levar para algum lugar.
A frase permaneceu no rádio por alguns segundos.
O controle autorizou aproximação visual.
Os dois caças desceram ligeiramente e começaram a reduzir a distância lateral.
Cinquenta quilômetros.
Trinta.
Vinte.
A assinatura continuava praticamente inalterada.
Hayate Um ativou o sistema ótico e ampliou a imagem.
A princípio, apareceu apenas um ponto negro contra o azul da atmosfera.
A ampliação aumentou.
O piloto franziu a testa.
— Controle...
A imagem estabilizou. Aquilo não era Varan, e nem mesmo parecia grande o bastante para possuir piloto. Era uma estrutura alongada, pouco maior que um míssil pesado, com pequenas superfícies de estabilização e um conjunto de emissores instalados ao redor do corpo central.
— Controle, Hayate Um. Tenho identificação visual.
— Prossiga.
O piloto observou novamente.
— Não parece ser a nave que atacou Kuroshio.
O segundo caça aproximou-se pelo flanco oposto.
— Confirmo. Sem cabine. Sem armamento visível. Dimensões incompatíveis com o contato original.
No centro de defesa aérea, operadores começaram imediatamente a comparar os dados.
— Mas a assinatura coincide — respondeu o controlador.
Hayate Um olhou para os sensores.
— Então é isso que ela foi feita para fazer.
O segundo piloto passou mais perto do objeto.
Por alguns segundos, pôde ver a superfície metálica girando lentamente. Pequenos transmissores espalhados pela carcaça pulsavam em frequências diferentes, reproduzindo padrões energéticos muito mais complexos do que o tamanho da máquina justificaria.
— Está simulando alguma coisa.
O líder respondeu:
— Está simulando outra coisa, talvez a verdadeira nave que atacou Kuroshio-7.
O controlador compreendeu.
— Um chamariz.
— Uma sonda de engodo — confirmou Hayate Um. — Estamos seguindo uma assinatura fabricada.
Houve silêncio na frequência.
Dessa vez, mais pesado.
O piloto líder consultou o cronômetro.
— Controle, há quanto tempo estamos perseguindo isso?
— Onze minutos.
Ele não respondeu imediatamente.
Onze minutos.
Tempo suficiente para uma nave capaz das velocidades registradas em Kuroshio-7 estar muito longe dali.
O segundo piloto falou:
— Então para onde foi a nave verdadeira?
Ninguém no controle respondeu de imediato.
Porque, naquele momento, ninguém sabia.
O radar continuava mostrando a sonda avançando disciplinadamente para nordeste, mantendo exatamente a assinatura que os terráqueos esperavam encontrar.
Hayate Um passou ao lado dela mais uma vez.
— Solicito autorização para destruir o dispositivo.
— Aguarde.
Os segundos seguintes pareceram longos.
Então veio a ordem:
— Autorizado.
O líder afastou-se, ganhou distância e colocou o objeto no centro da mira.
Um míssil desprendeu-se da asa. O projétil cruzou o espaço entre os dois em poucos segundos e a atingiu diretamente, transformando a pequena máquina numa breve expansão de fogo e fragmentos metálicos.
O radar ficou vazio.
Mas isso já não significava que o céu estivesse seguro.
Hayate Um manteve o curso por alguns segundos.
— Controle, estamos retornando para a área de busca.
A resposta demorou.
Quando veio, a voz do operador estava diferente.
— Hayate, um... mantenha posição.
— Confirme.
Mais alguns segundos.
— Estamos recebendo uma atualização de prioridade.
O piloto trocou um olhar rápido com o companheiro através das respectivas cabines, separados por dezenas de metros de céu.
— Que atualização?
A resposta ainda não veio.
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Na base de Akanejima, o rosto do conselheiro Yoshida ocupava o monitor principal.
— Enquanto a Força Aérea perseguia o contato falso, perdemos uma segunda estação de rastreamento.
Joe ficou imóvel.
— Segunda?
— Atacada onze minutos depois de Kuroshio-7. O padrão foi praticamente o mesmo: comunicações, sensores e arquivos neutralizados.
Rita estreitou os olhos.
— Então a sonda não servia para esconder a fuga.
Sólus respondeu:
— Servia para comprar tempo.
Yoshida assentiu.
— E funcionou. Como no primeiro ataque, não houve sobreviventes.
Rita empalideceu.
— Meu Deus, o senhor tem certeza, conselheiro?
— Infelizmente. As equipes de reconhecimento não encontraram ninguém com vida.
Joe fechou os punhos.
— Mas que miserável! Temos que fazer alguma coisa!
Tobishima virou-se para ele.
— E faremos, Joe. Mas não às cegas.
Joe o encarou, ainda tomado pela indignação.
— Enquanto ficamos aqui esperando, ele pode atacar outra estação!
— Justamente por isso precisamos descobrir qual será a próxima — respondeu Tobishima.
Tobishima voltou-se para Sólus.
— Senhor Sólus, o senhor tem alguma ideia de qual pode ser o próximo alvo?
Sólus permaneceu alguns segundos diante do mapa, observando as posições das duas estações destruídas.
— Antes disso, precisamos entender por que elas foram escolhidas. Há algo em comum entre os dois ataques. Ambas participavam da análise das rotas registradas em avistamentos que podem corresponder a robôs-bombas merodaques.
Yoshida assentiu.
— Posso confirmar. Essas estações integram um programa de vigilância criado justamente para identificar ameaças extraterrestres posteriores a Geldon. Elas usam todos os recursos modernos de rastreamento disponíveis, além de técnicas aperfeiçoadas a partir de orientações gailarianas.
Joe virou-se para ele, surpreso.
— Orientações gailarianas? Isso começou antes da chegada da comitiva?
Rita respondeu antes de Yoshida.
— Muito antes. Depois que derrotamos Geldon definitivamente e antes de meu retorno a Gailar, meu pai ajudou os cientistas terrestres a aperfeiçoar alguns métodos de detecção. Não entregamos tecnologia pronta, mas indicamos fenômenos que os equipamentos da Terra poderiam procurar.
Joe franziu a testa.
— Então vocês já estavam procurando sinais de outros invasores naquela época?
— Depois de Geldon, seria irresponsável não procurar — respondeu Tobishima. — E a cooperação não terminou quando Rita partiu. O professor Yan sempre manteve contato comigo por transmissões taquiônicas. Mensagens holográficas, na maior parte das vezes. Trocávamos informações, observações e alguns resultados de pesquisa.
Tobishima fez uma breve pausa antes de acrescentar:
— Muita coisa aconteceu enquanto você esteve fora, Joe. Gailar nunca deixou de manter contato conosco.
Joe permaneceu em silêncio.
Não havia censura explícita na voz do professor, mas também não era necessário. Joe compreendeu perfeitamente o que havia nas entrelinhas.
Sólus pode finalmente pedir:
— Conselheiro Yoshida, pode mostrar todas as estações que participam desse programa?
— Perfeitamente — respondeu Yoshida.
Sua imagem desapareceu do monitor principal e, poucos segundos depois, foi substituída por um mapa-múndi. Dezenas de pontos luminosos surgiram, distribuídos por diferentes continentes e oceanos, ligados por linhas que indicavam áreas de cobertura, sobreposição de sensores e corredores de rastreamento. Havia instalações no Japão, no Pacífico, nas Américas, na Europa, na Ásia e em outras regiões estratégicas do planeta.
A voz de Yoshida continuou pelos alto-falantes:
— Como podem ver, esse nunca foi um projeto exclusivamente japonês. Depois da crise de Geldon, vários países passaram a compartilhar dados de observação e alerta extraterrestre. As orientações técnicas gailarianas foram incorporadas gradualmente a essa rede.
Joe aproximou-se da tela.
— Então todas essas estações conseguem rastrear robôs-bombas?
— Não individualmente — respondeu Yoshida. — Mas trabalham em conjunto. Uma estação registra uma anomalia, outra confirma, uma terceira compara trajetória e assinatura energética. O resultado só aparece quando os dados são reunidos.
Sólus permaneceu em silêncio, examinando o mapa.
Yoshida prosseguiu:
— Se o objetivo da Horda Merodak for realmente degradar nossa capacidade de rastreamento e ocultar seus movimentos, teremos um problema que poderá deixar de ser japonês muito rapidamente. Outros países não assistirão passivamente à destruição de instalações em seus territórios.
Rita voltou-se para o monitor.
— Isso poderia provocar uma reação militar internacional.
— Exatamente — disse Yoshida. — É uma situação que as Nações Unidas tentam evitar enquanto ainda houver possibilidade de resposta coordenada e limitada. Mas, se esses ataques continuarem, talvez chegue um momento em que isso já não seja possível.
Sólus não comentou. Aproximou-se ainda mais da projeção e começou a observar as áreas de cobertura das estações destruídas. Seus olhos seguiram as linhas durante vários segundos, primeiro de Kuroshio-7 para oeste, depois para sudoeste, até finalmente parar em outro ponto.
— Conselheiro Yoshida. Qual foi mesmo a segunda estação atacada?
— Nansei-4.
Um novo ponto brilhou no mapa, acompanhado das coordenadas correspondentes.
Sólus observou Kuroshio-7 e Nansei-4 ao mesmo tempo.
— Por favor, Conselheiro, mostre apenas as zonas de cobertura dessas duas estações.
Yoshida obedeceu. O restante do mapa escureceu, deixando apenas dois grandes setores parcialmente sobrepostos sobre o Pacífico.
— Agora retire as áreas já perdidas.
As duas regiões desapareceram. Restou uma faixa estreita ainda coberta por uma terceira instalação.
Sólus apontou para ela.
— Aí.
Joe acompanhou o gesto.
— O quê?
— Se houver lógica nesses ataques, esse será o próximo alvo.
A identificação surgiu sobre o ponto indicado:
ASTERIA-6 em GUAM.
Rita franziu a testa.
— Por quê?
Sólus indicou o corredor formado entre as duas zonas já eliminadas.
— Porque esta é a última estação que ainda fecha essa passagem. Destruam Asteria-6 e criem uma faixa contínua de aproximação na qual a rede terrestre perde grande parte da capacidade de cruzar dados.
Tobishima observou o mapa.
— Um corredor cego.
— Exatamente — respondeu Sólus. — Kuroshio-7 não foi escolhida isoladamente. Nansei-4 também não. Elas fazem parte de uma sequência.
Joe olhou para o ponto luminoso correspondente a Guam.
— Então o próximo ataque pode acontecer fora do Japão.
Yoshida respondeu:
— E se Sólus estiver certo, desta vez não teremos muito tempo para confirmar.
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Joe e Rita partem com o Pirata do Espaço em direção à estação ASTERIA-6, enquanto Yoshida entra em contato com o governo japonês para avisar o governo dos EUA para evacuar a área que está sob extremo risco de ataque. É uma corrida contra o tempo.
Ao chegarem à área da estação, sobrevoando o mar das Filipinas, no espaço aéreo das Ilhas Marianas, Joe percebe algo estranho.
Joe
— Rita, tecnicamente falando, entramos num espaço aéreo estrangeiro, mas não recebemos nenhum aviso da Força Aérea local perguntando os motivos de nosso voo e nem recebemos o acompanhamento de caças estrangeiros nos 'escoltando' ou dando suporte.
Rita:
— Pode ser que o governo japonês tenha conseguido entrar em contato. Lembre-se, o Pirata do Espaço tem livre acesso nos espaços aéreos da Terra, em caso de defesa contra naves alienígenas.
Joe;
— Sim, eu sei, isso foi acordado na ONU. Posso ter ficado tempos afastado de tudo, mas não fiquei alheio aos acontecimentos.
Rita sorriu discretamente; no fundo, ela desconfiava, ou já sabia, onde REALMENTE estavam os pensamentos de Joe.
Ao se aproximarem da costa de Guam, Rita constatou:
— Olhe, Joe, destroços de aviões e navios, acho que são fragatas.
Joe:
— Droga, será que chegamos tarde?!
Rita:
— Estou captando dois sinais se afastando para o sul.
Joe:
— Um deles deve ser o robô-bomba e o outro, a sonda. Você tem como fazer a distinção, Rita?
Rita:
— Não, os traçados de calor são idênticos.
Joe pensa por alguns segundos e decide:
— Rita, eu vou atrás de um deles com o Jato Pirata. Se eu o encontrar, eu a chamarei para reforço.
Rita:
— Tenha cuidado, Joe.
A poltrona de Joe desceu do cockpit, sendo levada por uma rede de túneis de transporte pelo interior do Pirata do Espaço, até acessar o cockpit do Jato Pirata, que decolou das costas da nave principal em direção a uma das assinaturas do radar.
O Jato Pirata afastou-se rapidamente da nave principal, seguindo uma das assinaturas para sul, enquanto Rita manteve o Pirata do Espaço no segundo vetor. Durante alguns minutos, nenhuma das duas leituras apresentou diferença suficiente para permitir qualquer conclusão.
— Ainda está captando o seu? — perguntou Joe.
— Perfeitamente. Perfil térmico, velocidade e emissão energética continuam idênticos.
— O meu também. Então vamos ter que olhar de perto.
Joe aumentou a potência.
Pouco depois, a massa escura surgiu entre as nuvens à frente do Jato Pirata. Joe acionou a ampliação óptica e viu a proa lupina, as placas grafite sobrepostas e as duas fendas azuis brilhando no focinho metálico.
— Rita! Encontrei a nave verdadeira!
— Estou mudando de curso!
— Não. Continue acompanhando o outro sinal até ter certeza. Se for uma segunda nave, podemos ter dois ataques acontecendo ao mesmo tempo.
Rita hesitou apenas um instante.
— Entendido. Tome cuidado.
Joe avançou.

Na cabine de Varan, um alerta indicou a aproximação da pequena aeronave terrestre. O piloto consultou rapidamente os dados e voltou sua atenção para a rota.
O Jato Pirata surgiu atrás dele.
Joe abriu fogo, soltando mini-mísseis do Jato Pirata.
Varan desviou o suficiente para evitar o primeiro ataque, mas não alterou significativamente o curso.
Joe franziu a testa.
— O que está fazendo...?
Novos disparos atingiram a blindagem traseira.
Varan respondeu.
Uma rajada atravessou o céu.
Joe puxou violentamente o manche.
O primeiro disparo passou ao lado.
O segundo explodiu sob a asa direita.
O Jato Pirata sacudiu inteiro.
Alarmes preencheram a cabine.
Joe lutou contra os controles.
— Droga!
A aeronave perdeu altitude, deixando uma trilha de fumaça.
Varan poderia ter completado a curva.
Poderia ter voltado ou poderia ter disparado novamente contra um alvo praticamente indefeso. Não fez nenhuma dessas coisas, apenas continuou para o sul.
Joe acompanhou a nave, afastando-se através do para-brisa danificado.
— Ele poderia ter me atingido em cheio...
O Jato Pirata tornou a perder altitude.
Dessa vez, Joe teve problemas mais urgentes.
Rita abandonou imediatamente o segundo contato quando recebeu o sinal automático de emergência do Jato Pirata.
Encontrou Joe sobre o mar, lutando para manter a aeronave no ar, e posicionou o Pirata do Espaço abaixo dele para permitir o recolhimento.
Quando Joe finalmente conseguiu retornar à nave principal, ainda respirava com dificuldade.
— Você está bem?
— Estou.
Rita examinou-o por um instante antes de voltar aos controles.
Joe olhou imediatamente para os sensores.
O verdadeiro contato já estava distante.
— Ele poderia ter me atingido em cheio quando teve oportunidade — disse. — Mas nem sequer desviou da rota.
Rita começou a responder, mas algo no monitor chamou sua atenção.
— Joe, veja!
Perto da costa de Guam, uma embarcação militar avançava para águas abertas. O convés estava cheio de pessoas.
— Sobreviventes! — disse Rita.
Joe aproximou a imagem. A evacuação foi realizada pelas autoridades locais em coordenação com as forças americanas antes que a estação fosse atingida. Técnicos, operadores e pessoal de apoio haviam sido retirados às pressas e transferidos para uma fragata enviada à região.
Joe deixou escapar o ar.
— Pelo menos conseguimos chegar a tempo para alguma coisa.
Rita, porém, não respondeu, pois um alerta novo aparece. Era o segundo sinal, que ela abandonara e estava mudando de direção, indo diretamente para a fragata.
A sonda deixa de ser apenas chamariz e revela uma segunda função. Drone de ataque.
— Joe...
Ele percebeu também.
— Aquilo não está fugindo.
A pequena assinatura acelerou.
— Está indo atrás do navio! — disse Rita.
Valgger havia antecipado inclusive a possibilidade de evacuação.
Rita colocou o Pirata do Espaço entre a sonda e a fragata.
A máquina abriu seus compartimentos.
Mísseis surgiram.
Joe assumiu os sistemas de tiro.
— Lá vêm eles!
O primeiro míssil explodiu antes de alcançar o navio.
O segundo passou pela lateral do Pirata do Espaço.
Rita inclinou a nave, enquanto Joe travou a mira e executou o disparo da 'Flecha Azul'.¹ A sonda tentou corrigir a trajetória, mas já era tarde demais.
Quando os fragmentos começaram a cair, a fragata continuava intacta, mas o robô-bomba já havia desaparecido.
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De volta à base na Ilha Akane, depois de pousar o Pirata do Espaço. Joe fala com Rita, num tom de leve reprimenda.
— Você não devia ter abandonado o outro contato — disse Joe.
Rita levantou os olhos.
— Seu jato estava caindo.
— Eu sei.
— Então, o que esperava que eu fizesse?
— Continuasse atrás dele. Eu conseguiria me virar.
Rita permaneceu olhando para ele.
— Seu sistema de controle estava falhando.
— Mas ele escapou!
— E você poderia ter morrido!
Joe respondeu quase imediatamente, num tom de voz um pouco mais elevado:
— A missão era impedir o ataque, Rita. Você não podia colocar minha vida acima disso.
Silêncio.
Joe está furioso com o fracasso, com o inimigo e provavelmente consigo próprio, mas direciona essa frustração para Rita, mas logo percebe que, naquele ponto, ele foi longe demais com Rita.
Ela abaixa os olhos.
— Entendi.
E essa resposta preocupa Joe mais do que uma discussão.
— Rita... eu... me desculpe.
— Você tem razão. Eu devia ter continuado.
Agora ele percebe mais ainda o estrago.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi o que disse.
Os olhos dela já estão úmidos.
— Rita, espera. Eu estava irritado. Desculpe.
— Eu também estou irritada, Joe. Comigo.
Ela se afasta antes que ele consiga responder e, quando finalmente as lágrimas vêm, tenta escondê-las antes de sair.
Sólus, que estava presente, viu a cena sem se envolver, até que Joe pergunta.
— Eu fui um idiota, não fui?
Sólus poderia responder secamente.
— Essa é uma pergunta retórica?
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QC dos merodaques.
A sala de comando de Kletus estava novamente mergulhada na penumbra. No centro, o holograma do Pacífico mostrava três pontos: duas estações já apagadas e uma terceira ainda ativa.
INT. SALA DE COMANDO — NAVE-MÃE DA HORDA — ANTES DO ANOITECER.
Valgger permanece diante da projeção holográfica, imóvel como uma coluna de basalto.
VALGGER:
— To-mæl-zh skön-zh lazh-st. (A segunda operação foi concluída.)
Kletus observa a cascata de telemetria trazida pelos sensores orbitais.
— Groizer-X hvir-mæl-zh? (E o Pirata do Espaço?)
VALGGER
— Klor-ni-zh sên. (Interferiu.)
KLETUS
— Skön-mæl-zh? (Resultado?)
VALGGER
— Fær-ni-zh sên. (Foi desviado.)
Kletus ergue devagar a cabeça, fixando os olhos cibernéticos no capitão.
— Rin-mach-folk-zh luft-mach-zh fær-ni-zh.
Arzh-emvha lufta-mach-zh vakt-ni-zh sên.
(O piloto separou-se da nave principal para perseguir uma das assinaturas. Interceptei a aeronave menor e a neutralizei o suficiente para obrigar a outra unidade a abandonar a perseguição.)
— Zhr-ræv-zh dœd-mach-zh, myn
lazh-st sên... (Você poderia tê-lo destruído...)
Kletus faz uma breve pausa, cravando os olhos em Valgger:
— ...arzh-emvha ni-zh klo sên! (...e mesmo assim não o fez!)
VALGGER:
— Nietzh nødvend-zh. (Não era necessário.)
Um esboço de sorriso gélido surge na face rígida de Kletus.
— Arzh ske-mach-zh? ( E a sonda?)
— To-mæl-zh skön-zh ni-zh sên.
( Cumpriu a segunda função.)
— Arzh dœd-zh sên!
(Mas foi destruída!)
Kletus permanece em silêncio por alguns segundos, tamborilando as garras metálicas sobre a mesa.
— Be-rak-zh lær-zh. (Você está aprendendo rápido.)
— Mål-kro-zh zhr-ræv-zh, spaa-mæl-zh lazh-st.
(Não havia muito a aprender, Eles são previsíveis.)
Kletus aponta para a silhueta da fragata inimiga no mapa:
— Ske-mach-zh mål-kro-zh flyt-zh
dœd-mach-zh u-skön-zh sên.
(—A sonda falhou em eliminar os evacuados).
— Mæl-stor-zh skön-zh ni-zh sên. Groizer-zh fær-ni-zh, fær-mæl-zh velg-zh se-zh frû! (Cumpriu a função principal de desviar o Pirata do Espaço e obrigá-lo a escolher entre perseguição e resgate).
— Fær-mæl-zh hvir-n-zh ske-zh frû. (Eles já devem já estar procurando um padrão).
— Fin-zh frû. ( Encontrarão).
— U-ro-zh pa-zh klo? (Isso não o preocupa?)
— Nietzh. (Não.)
Valgger indica com um gesto rígido o próximo ponto geográfico no mapa tático de Zhr-yrt-zh (Terra ou "planeta-alvo da vez").
— Fær-dölj-zh nødvend-zh sên. Mål-fær-zh hvir-n-zh fin-zh... arzh-emvha ni-zh frû! (Até agora, precisávamos ocultar meu
destino. Se descobrirem para onde vou,
virão até mim.)
Kletus aproxima-se da projeção, os olhos cibernéticos recalculando os vetores de interceptação.
— Skön-zh! Groizer-zh u-mæl-zh
ni-zh klo... mæl-del-zh lazh-st frû. (E o Pirata do Espaço deixará de ser uma variável e passará a fazer parte da operação.)
Kletus inclina-se ligeiramente para a frente, fixando o olhar em Valgger:
— Myn velg-zh sên, Valgger-zh! Arzh hvir-n-zh lær-zh frû ske-mach-zh u-lita-zh. (Foi por isso que escolhi você para esta missão, Valgger. Mas eles também aprenderão com este encontro e sua próxima sonda talvez não os engane.)
— Ske-mach-zh nietzh lita-zh. (Então não dependeremos dela.)
— Arzh Groizer-zh myn bið-zh frû. (E se o Pirata do Espaço estiver esperando por você?)
Valgger responde sem alterar um milímetro de seu tom vocal gélido:
— Varan-mach-zh mål-fær-zh hvir-n stæd-zh... dœd-fær-zh ni-zh frû! ( Até agora, pude contorná-lo. Se ele se colocar entre a unidade Varan e o objetivo... passará a ser necessário removê-lo!)
Kletus:
— Skön-zh. Asteria-6 mæl-zh fær-sên, zhr-yrt mæl-folk-zh drah-la fær-ni-zh. Varan-mach-zh tno-mæl flyt-fær fær-dölj-zh la-zh... Groizer klor-ni-zh-el! Skön-fær-zh, Kapoz-Vaggler-zh. (Certo. E depois da estação Asteria-6, avance direto para todas as estações deste planeta. Varran tem autonomia de voo e velocidade o suficente para realizar essa operação numa noite. Sem a intromissão do Pirata do Espaço. Que a operação avance, Capitão Vaggler.
— Skön-ni-zh, Jakrol-mêlzh. (Entendido, Grande Almirante)
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Na sala de pesquisa da base de Akanejima, a iluminação havia sido reduzida para facilitar a leitura das projeções holográficas. Professor Tobishima permanecia diante da mesa principal enquanto Sólus manipulava uma sequência de arquivos recuperados dos bancos de dados gailarianos e dos registros acumulados desde o início dos ataques da Horda Merodak.
Ao lado deles, ocupando um espaço que fisicamente não existia, estava o professor Yan.
Sua imagem possuía volume, profundidade e movimentos perfeitamente naturais, embora fosse formada por luz. A comunicação taquiônica permitia que a transmissão atravessasse distâncias astronômicas sem transformar a conversa numa sucessão impraticável de mensagens atrasadas; para Tobishima, depois de tantos anos utilizando aquele sistema para manter contato com Gailar, já havia algo quase cotidiano em conversar com um homem que se encontrava a distâncias que a tecnologia terrestre convencional sequer saberia tratar como uma chamada telefônica.
Yan examinava atentamente as informações projetadas.
— Continuo recebendo perfeitamente — disse ele. — Pode prosseguir, senhor Sólus.
Sólus fez um movimento sobre o painel e cinco pequenos hologramas surgiram acima da mesa.
Eram robôs-bombas.
Três deles apresentavam uma coloração opaca, quase acinzentada: "Lepidoros, Mobula e Daxemora". Sob cada imagem, o sistema assinalava o mesmo estado:
'ELIMINADO'.
Os outros permaneciam ativos nos registros. Um deles foi reduzido para segundo plano quando Sólus selecionou a máquina que interessava à análise.
Varan ampliou-se.
Primeiro apareceu em configuração de voo.
A fuselagem pesada, revestida por placas escuras sobrepostas, possuía uma silhueta que lembrava deliberadamente um enorme lobo metálico. A proa formava um focinho comprido e blindado, com duas fendas azuladas funcionando como sensores frontais. Grandes conjuntos propulsores ocupavam a região traseira, enquanto estabilizadores angulares se projetavam do dorso como orelhas erguidas.
Tobishima observou a projeção.
— Foi esta nave que Kaisaka encontrou.
— Sem dúvida — respondeu Sólus.
Yan aproximou-se do holograma.
— Varan.
Havia algo diferente no tom.
Tobishima percebeu.
— O senhor conhece essa máquina?
— Conheço sua reputação.
Sólus acionou outro arquivo.
A nave começou a se transformar.
A proa se dividiu, reposicionando placas e estruturas internas até formar a cabeça mecânica de um enorme animal. O corpo se expandiu verticalmente, braços compridos surgiram das laterais e as pernas assumiram uma configuração digitígrada. Garras metálicas se abriram nas extremidades dos braços, enquanto no centro do tórax uma região protegida por placas retráteis revelou um núcleo luminoso.
— Configuração de combate — explicou Sólus. — Varan deixa de operar prioritariamente como bombardeiro e passa a funcionar como unidade de assalto.
Tobishima indicou as mãos da máquina.
— As garras.
— Podem receber uma sobrecarga energética — respondeu Sólus. — A blindagem de uma nave convencional dificilmente resistiria a um golpe direto.
Yan acrescentou:
— É uma máquina projetada para continuar avançando mesmo depois que o combate à distância deixou de ser uma opção.
Tobishima olhou para o núcleo luminoso no peito.
— E isto?
Sólus não respondeu imediatamente.
Ampliou a região.
— O reator principal também funciona como dispositivo de detonação.
Tobishima voltou-se lentamente para ele.
— Está dizendo que o robô inteiro é uma bomba?
— Literalmente.
Tobishima continuou observando a pulsação avermelhada no peito da projeção de Varan.
— Então este núcleo não é apenas um reator.
— Não — respondeu Yan. — É também uma ogiva de ruptura.
Sólus ampliou o esquema interno, revelando uma série de câmaras concêntricas envolvendo o núcleo.
— Varan foi construído para cumprir a missão, mesmo quando já não existe possibilidade de retorno. Se o piloto iniciar o protocolo final, toda a energia acumulada no reator é conduzida para uma reação única.
Tobishima franziu a testa.
— Qual seria a potência?
Yan demorou alguns segundos para responder.
— Grande demais para ser utilizada perto de uma área habitada.
— É possível interromper a detonação?
— Antes do estágio crítico, talvez. Depois disso, não com segurança.
Sólus olhou para a imagem de Valgger.
— E esse é exatamente o tipo de homem que esperaria até o estágio crítico.
Tobishima percebeu imediatamente a direção do raciocínio.
— Esperar até o estágio crítico? Ele só revida para destruir o adversário, quando 'acuado', como um animal selvagem faria? Foi porque ele não insistiu em destruir o Jato Pirata por se sentir acuado?
— Exato — disse Yan. — Quem pilota uma máquina dessas não necessariamente pensa em combate da mesma forma que Kaisaka.
Sólus fechou parte dos dados de Varan e abriu um segundo arquivo.
Um rosto apareceu ao lado do robô.
Cabelos longos, quase brancos. Pele marcada pela idade. Olhar severo e imóvel. Estruturas metálicas ornamentais acompanhavam a testa e as regiões acima dos olhos.
Uma identificação surgiu sob a imagem:
"PLEYAN VALGGER: PLANETA SKAL".
Tobishima leu o nome.
— Então este é nosso piloto.
— O último piloto confirmado de Varan nos registros da inteligência interplanetária — respondeu Sólus. — Capitão Pleyan Valgger.
Yan deixou escapar um breve suspiro.
— Skal.
Tobishima virou-se para a imagem holográfica dele.
— Conhece o planeta?
— Muito bem. São nossos aliados há gerações.
Sólus alterou a projeção. Varan diminuiu e uma esfera planetária ocupou seu lugar.
Skal era apresentado como um mundo densamente urbanizado em determinadas regiões, mas grandes áreas permaneciam reservadas à exploração científica e à preservação ambiental.
— Skal é membro da Confederação de Planetas — explicou Yan. — Um dos parceiros mais antigos de Gailar dentro deste sistema. O povo skaliano é, atualmente, profundamente pacifista e possui uma tradição científica comparável à nossa em diversas áreas. Exploração interestelar, cartografia, física aplicada...
Tobishima percebeu a palavra escolhida.
— Atualmente.
Yan assentiu.
— Eles não nasceram pacifistas.
Sólus retomou a explicação.
— A história de Skal possui períodos de extrema violência. Expansões territoriais, guerras internas, regimes militares. O processo que levou à sociedade atual durou séculos.
Yan cruzou os braços.
— Nós tivemos Geldon. Eles também tiveram os seus próprios.
Tobishima voltou os olhos para Valgger.
— E ele pertence à parte da população que não considera aquele passado encerrado.
— Mais do que isso — disse Sólus. — Valgger pertenceu a movimentos que o cultuavam essa época bélica.
Outra sequência de dados surgiu ao lado da imagem.
Registros judiciais.
Fotografias antigas.
Símbolos de organizações já dissolvidas.
— Grupos extremistas skalianos — continuou Sólus. — Pequenos em número, mas persistentes. Defendiam a restauração de alguns valores das antigas sociedades guerreiras de Skal. Valgger esteve associado a pelo menos três deles.
— Associado? — perguntou Tobishima.
Sólus olhou para ele.
— Esse é o termo diplomático.
Sólus prosseguiu.
— Quando Kletus assumiu o comando da Horda Merodak como novo Grande Almirante, Valgger foi um dos primeiros indivíduos que ele procurou.
Tobishima franziu a testa.
— Procurou pessoalmente?
— Segundo nossos registros, sim.
Agora isso chamou a atenção de Yan.
— Interessante.
— Por quê? — perguntou Tobishima.
Sólus respondeu:
— Porque Kletus não estava somente recrutando soldados, mas também buscava por especialistas.
Valgger reapareceu em destaque.
— Naquela época, sua reputação já estava consolidada. Contrabando, operações clandestinas, ataques contra instalações governamentais, sabotagem. Mas o aspecto que mais aparecia nos relatórios não era sua violência.
Tobishima esperou.
— Era sua frieza. Uma característica compartilhada com o próprio Kletus.
Sólus fez desaparecer os registros e deixou apenas o rosto do capitão.
— Valgger não possui histórico de destruição gratuita. Não costuma prolongar combates por prazer e raramente assume riscos apenas por orgulho.
Tobishima estranhou.
— Considerando o que aconteceu com aquelas estações, isso quase parece uma defesa.
— Não é.
Sólus encarou a imagem.
— É justamente o que o torna perigoso.
Yan compreendeu antes.
— Ele elimina aquilo que considera necessário.
— Exatamente.
Sólus ampliou novamente Varan.
— Equipamentos. Arquivos. Testemunhas. Um adversário. A própria máquina. Ele não distingue essas coisas moralmente durante uma operação. Apenas pergunta se representam obstáculos ao cumprimento da missão.
Professor Yan ainda observava a projeção de Varan quando Sólus encerrou os arquivos referentes a Valgger. As imagens do robô-bomba desapareceram, deixando sobre a mesa apenas alguns indicadores de telemetria e o mapa das estações atacadas.
Yan demorou alguns segundos antes de falar.
— Professor Tobishima... e quanto à repercussão desses ataques?
Tobishima ergueu os olhos.
— O que exatamente quer saber?
— Quantas pessoas ainda acreditam que tudo isso pode continuar sendo tratado como uma sucessão de incidentes isolados?
A pergunta deixou a sala em silêncio por um instante.
Tobishima respirou fundo.
— Poucas, imagino.
Yan inclinou discretamente a cabeça.
— Então talvez tenha chegado a hora de admitir publicamente que a Terra está sob ataque.
Tobishima recostou-se na cadeira.
— Eu disse exatamente isso ao governo.
Sólus voltou-se para ele.
— E a resposta?
— Desta vez, parece que finalmente começaram a nos ouvir. Yoshida e eu argumentamos que ainda resta alguma confiança pública para preservar, mas ela não vai sobreviver a outra mentira facilmente desmentida.
Yan cruzou os braços.
— “Parece”?
Tobishima soltou um suspiro impaciente.
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Uma nova projeção surgiu, exibindo uma sequência de relatórios diplomáticos.
— Depois do ataque, o governo norte-americano pediu formalmente ao Japão que não faça uma revelação completa antes que Washington decida como apresentar o ocorrido ao próprio público.
Sólus franziu a testa.
— Eles também estão ocultando os ataques?
— Tentando controlá-los — respondeu Tobishima. — O que, na prática, está começando a produzir exatamente o efeito contrário.
Yan observou os documentos.
— Por quê?
— Porque já há imagens. Há familiares de vítimas. Há militares que viram coisas. Há pescadores, pilotos civis, satélites comerciais, gravações incompletas... Não é mais possível colocar tudo dentro de uma gaveta e esperar que ninguém pergunte.
Tobishima ampliou outra tela, desta vez mostrando recortes de notícias, fóruns, vídeos e imagens granuladas de objetos luminosos sobre o oceano.
— Enquanto isso, a internet está fazendo o que sempre faz quando governos se recusam a explicar alguma coisa, que é ir preenchendo o silêncio.
Yan examinou as imagens.
— Teorias?
— Centenas. Algumas ridículas. Outras perigosamente próximas da verdade. E todas misturadas.
Tobishima apontou para uma sequência de publicações.
— Há gente dizendo que os ataques são falsos. Outros dizem que são operações militares secretas. Alguns afirmam que governos já fizeram acordos com os invasores. Outros falam em infiltração alienígena. Quanto mais as autoridades calam, mais espaço deixam para especulação, medo e oportunismo.
Yan tornou a olhar para Tobishima.
— E o governo japonês?
— O primeiro-ministro perdeu a paciência.
Havia um pequeno traço de aprovação na voz do professor.
— Informou aos norte-americanos e aos demais governos envolvidos que o Japão não sustentará o silêncio indefinidamente. Há famílias japonesas enterrando parentes mortos nessas estações, enquanto representantes oficiais continuam usando palavras como “acidente”, “incidente” e “investigação em andamento”.
Tobishima fechou a mão sobre a mesa.
— Isso já passou do limite.
Sólus observou-o em silêncio.
— O senhor parece pessoalmente irritado.
— Estou.
Tobishima não tentou esconder.
— Essas pessoas morreram porque estavam ajudando a proteger este planeta. As famílias delas merecem ao menos saber do que estavam tentando protegê-lo.
Yan assentiu lentamente.
— E a ONU?
Tobishima soltou um pequeno riso sem humor.
— A ONU está tentando coordenar governos que ainda não concordaram nem sobre quanto da verdade pretendem admitir.
Sólus ergueu uma sobrancelha.
— Mas não existe uma política planetária comum?
— Existe no papel. Protocolos de consulta, procedimentos de emergência, compartilhamento de informações... mas ninguém planejou seriamente o que fazer quando uma força extraterrestre começasse a atacar instalações em territórios de países diferentes.
Yan respondeu:
— Porque imaginar uma invasão é muito mais simples do que administrá-la.
Tobishima assentiu.
— Exatamente.
Yan ficou alguns segundos olhando o mapa da Terra.
— Então talvez Kletus esteja conseguindo mais do que destruir estações.
Tobishima voltou-se para ele.
— Como assim?
— Está obrigando a Terra a decidir se continuará reagindo como vários países atacados separadamente, ou como um planeta. Essa angústia política é algo que Klétus conscientemente busca pra nos desestabilizar, do contrário, a Horda Merodak já teria atacado diretamente a Terra sem maiores rodeios.
Tobishima permaneceu observando o mapa por mais alguns instantes, mas sua expressão já não era apenas de preocupação científica.
— Há outra coisa que me inquieta, professor Yan.
Yan aguardou.
— Se tudo isso vier à tona antes de uma declaração oficial, e principalmente se parecer que governos esconderam deliberadamente a existência desses ataques, receio que a comitiva gailariana também seja arrastada para essa história.
Sólus voltou lentamente o rosto para ele.
— Como cúmplice?
— É possível.
Tobishima apoiou as mãos sobre a mesa.
— As pessoas descobrirão que havia representantes extraterrestres vivendo entre nós enquanto seus governos ocultavam outra presença alienígena hostil. Para muita gente, a diferença entre Gailar e a Horda Merodak será evidente. Para outras, talvez não.
Sua expressão endureceu.
— Infelizmente, quando o medo se transforma em ódio, os povos da Terra têm uma tendência bastante antiga a generalizar.
Professor Yan demorou a responder.
Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.
— E minha filha?
Tobishima ergueu os olhos.
— Professor...
— Rita lutou por este planeta. Arriscou a própria vida incontáveis vezes para defender o Japão e a Terra dos ataques de Geldon. Será que o ódio poderia realmente cegar as pessoas a ponto de esquecer tudo isso?
Tobishima não respondeu; ao invés disso, seus olhos baixaram lentamente para a mesa. O silêncio prolongou-se por alguns segundos.
Yan compreendeu; não precisava de outra resposta.
Sólus desviou discretamente o olhar.
Tobishima finalmente falou.
— Sinto muito, professor Yan.
Yan permaneceu imóvel na projeção.
— Lamento que uma oportunidade tão extraordinária de conhecimento, cooperação e talvez até de expansão da humanidade para as estrelas possa ser prejudicada pelo poder da ignorância — prosseguiu Tobishima. — Há momentos em que sinto vergonha de pertencer a este planeta.
Yan balançou lentamente a cabeça.
— Não faça isso consigo mesmo, Tobishima.
O professor terrestre tornou a encará-lo.
— Gailar não foi diferente.
Yan aproximou-se do limite da projeção, como se a distância entre os dois pudesse ser reduzida por aquele pequeno gesto.
— Houve períodos em nossa história dos quais não nos orgulhamos. Tivemos guerras, perseguições, medo do diferente e homens que acreditavam que violência era sinônimo de força. Geldon não surgiu do nada. Ele foi um resíduo de coisas que nossa sociedade levou muito tempo para superar.
Sólus ouviu em silêncio.
Yan prosseguiu:
— Kletus também é fruto desse passado, mesmo pertencendo a outra época e a outra circunstância. E Skal possui Valgger. Outros mundos tiveram seus próprios homens assim.
Tobishima lentamente relaxou as mãos.
— Então o senhor acredita que isso é inevitável?
— Não — Yan respondeu imediatamente.— Acredito justamente no contrário.
Ele olhou por um instante para o mapa da Terra.
— A evolução de uma civilização não acontece porque o medo, a ignorância e o fanatismo desaparecem de repente. Acontece porque, geração após geração, pessoas suficientes decidem que não querem transmiti-los adiante.
Tobishima ficou em silêncio.
Yan continuou:
— Em Gailar, esse processo levou séculos. Em Skal também. E provavelmente ainda não terminou em nenhum dos dois mundos, já que é um process contínuo que exige vigiância e constância.
Um pequeno sorriso cansado surgiu em seu rosto.
— Talvez nunca termine completamente.
Tobishima também esboçou um sorriso.
— Uma perspectiva pouco animadora.
— Ao contrário. — Yan inclinou levemente a cabeça. — Significa que sempre há trabalho a fazer.
Tobishima soltou uma breve respiração pelo nariz, quase um riso.
Yan tornou-se sério.
— O que estamos plantando aqui talvez não seja para nós. Joe, Rita, você, eu e todos os que estão trabalhando nessa cooperação jamais veremos todas as consequências.
Ele olhou novamente para a Terra projetada.
— Mas fazemos isso pelas gerações que virão depois. E, em nome delas, precisamos continuar tentando, mesmo quando parece mais fácil desistir.
Tobishima permaneceu olhando para ele por alguns segundos.
— Obrigado, professor Yan.
Yan assentiu.
— Cuide de minha filha.
Tobishima quase respondeu imediatamente, mas percebeu algo na frase.
— Creio que essa tarefa será mais difícil do que enfrentar Valgger.
Sólus ergueu uma sobrancelha.
— Dependendo do humor dela, talvez seja mais prudente enfrentar Valgger. Pergunte ao Joe.
Yan riu discretamente.
A tensão da sala diminuiu apenas um pouco.
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O som de uma explosão atravessou o corredor da base, seguido quase imediatamente por gritos e uma gargalhada coletiva. Joe, que caminhava sozinho desde que deixara a área de comando, ergueu a cabeça e acelerou o passo por puro reflexo.
Outro estrondo ecoou.
— Isso foi trapaça! — ouviu Sabu protestar.
A resposta de Liriana veio imediatamente:
— Isso é estratégia.
Joe diminuiu o passo.
Quando chegou à porta da sala de simulação, encontrou uma cena bastante diferente daquela que imaginara.
Sabu e Liriana ocupavam os dois consoles principais do simulador de combate. No enorme visor à frente deles, dois robôs-bombas virtuais, da época de Geldon, perseguiam-se sobre uma cordilheira alienígena, disparando mísseis, raios e projéteis em quantidade suficiente para justificar as explosões que Joe ouvira no corredor.
Atrás dos dois, Bidkon, Ippei, Gen e Thallus acompanhavam tudo com a concentração de comentaristas de uma final esportiva.
Bidkon conferiu o placar projetado acima da tela.
— Muito bem. Gailar três, Terra três.
Ippei apontou para Sabu.
— Agora ele vira.
Thallus fez um gesto negativo.
— Liriana já pilota desde os sete anos.
Gen olhou para ele.
— E Sabu também.
Thallus virou-se.
— Mas isso não é proibido aqui na Terra?
Gen pensou por um instante.
— E não é proibido em Gailar?
Thallus ficou calado.
Ippei aproveitou:
— Só sei que esses dois estão aí há quase uma hora e ainda não deram a vez para ninguém.
Sabu, que aparentemente não ouvira nenhuma das reclamações, inclinou-se sobre os controles.
— Agora acabou, Liriana! Você não é páreo para o meu robô-bomba Baleia Voadora!
Na tela, uma máquina enorme e desajeitada, com uma fuselagem que realmente lembrava uma baleia dotada de asas e armamento demais, virou lentamente na direção da adversária.
Liriana nem olhou para ele.
— Você está falando muito para alguém que ainda não conseguiu acertar a Vênus.
Sabu virou-se indignado.
— Ah, é?!
Empurrou os controles.
— Então você vai ver! Míssil Baleia, disparar!
Uma bateria inteira de mísseis deixou o robô-bomba virtual.
Liriana desviou.
Todos erraram.
Alguns atingiram uma montanha.
Outros desapareceram no horizonte.
Um deles fez uma curva tão absurda que voltou praticamente na direção de Sabu.
Ippei começou a rir antes mesmo do impacto.
— Cuidado com a baleia!
— Isso não estava no plano!
A explosão virtual tomou metade da tela.
O placar mudou.
GAILAR 4 — TERRA 3
Bidkon levantou a mão solenemente.
— Correção. Gailar quatro, Terra três.
Sabu afundou no assento.
— Eu odeio esse simulador.
Liriana respondeu, satisfeita:
— O simulador não fez nada.
Joe permaneceu na porta, observando.
Sua primeira reação veio quase automaticamente. Duas estações haviam sido destruídas. Havia mortos. Um robô-bomba continuava à solta. Governos estavam discutindo o que contar ao próprio povo.
E eles estavam jogando.
Ele deu um passo para dentro.
— Vocês não acham que...
Sabu virou-se.
— Que o quê?
Joe parou.
Liriana também o observou.
Ippei perdeu o sorriso por um instante, esperando a continuação.
Joe olhou novamente para o simulador, para Bidkon conferindo o placar, para Gen tentando convencer Thallus de que uma criança pilotar uma nave era aparentemente uma questão cultural complexa demais para aquela conversa.
Ninguém ali ignorava o que estava acontecendo. Todos sabiam dos ataques e haviam visto o que a Horda era capaz de fazer, mas ainda assim estavam rindo e vivendo a vida.
Joe deixou a frase morrer.
— Nada... Só... só use o robô-bomba Guilhotina. Ele é mais veloz e mais aerodinamicamente apropriado para combate nesse tipo de cenário.
Sabu virou-se para ele, surpreso.
— Boa ideia, Joe.
Liriana protestou imediatamente:
— Ei! Ajudar não vale.
Sabu apontou para Joe.
— Exatamente! Finalmente alguém imparcial nesta sala.
Ippei soltou uma gargalhada.
— Imparcial? Ele acabou de escolher seu robô por você.
Bidkon conferiu o placar.
— Registro oficial: intervenção terrestre confirmada.
Thallus ergueu o gravador.
— Estou documentando.
— Não está, não! — respondeu Sabu.
Liriana cruzou os braços, fingindo indignação.
— Então agora vale receber instruções de fora?
Joe deu de ombros.
— Estratégia, Liriana, estratégia.
Sabu abriu um sorriso satisfeito e imediatamente selecionou o Guilhotina no painel. A imagem do pesado Baleia Voadora desapareceu do simulador, sendo substituída por uma máquina muito mais estreita, de asas curtas e perfil agressivo.
— Agora você vai ver.
Liriana recostou-se no assento.
— Você disse isso nas últimas quatro vezes.
— Mas agora eu tenho assessoria técnica.
Ippei apontou para Joe.
— Isso é claramente interferência externa no campeonato, mas não é proibido.
Thallus ergueu o gravador.
— Excelente. Já temos uma justificativa diplomática.
Gen olhou para ele.
— Você registra tudo, 'quru'?!
— Naturalmente.
— Até videogame?
Thallus pareceu genuinamente surpreso com a pergunta.
— Principalmente videogame.
Joe deixou escapar uma risada curta.
Não foi grande coisa. Talvez ninguém, além de quem o conhecesse bem, sequer desse importância.
Mas alguém conhecia.
Rita permanecia do outro lado do corredor; havia tempo suficiente para ter ouvido boa parte da conversa.
Liriana foi a primeira a percebê-la.
Por uma fração de segundo, seus olhos passaram de Joe para Rita e depois retornaram à tela.
Ela não disse nada.
Rita também permaneceu em silêncio.
Na simulação, Sabu finalmente conseguiu colocar o Guilhotina atrás da máquina de Liriana.
— Agora!
Disparou.
Liriana realizou uma manobra abrupta, mas dessa vez não conseguiu escapar completamente. Um dos projéteis atingiu a lateral de Vênus e arrancou parte da asa virtual.
Sabu levantou os dois braços.
— EU DISSE!
Bidkon anunciou:
— Dano severo. Possibilidade estatística de empate aumentando.
— Não existe “possibilidade estatística de empate” — protestou Ippei. — Ou empata ou não empata.
— Antes do resultado existe.
Gen fechou os olhos.
— Eu me arrependo de ter vindo.
Joe sorriu novamente.
Foi então que, ao virar ligeiramente o rosto, percebeu Rita. O sorriso desapareceu.
— Rita...
Ela descruzou os braços.
— Não quero interromper sua brilhante carreira como estrategista de videogame.
Sabu olhou de Joe para Rita. Depois para Liriana, que respondeu apenas com um olhar, fazendo Sabu entender.
— Acho que precisamos... continuar a partida.
Ippei franziu a testa.
— Mas já estamos continuando.
— Com mais concentração.
— O que isso tem a ver...
Gen agarrou Ippei pelo ombro.
— Nada. Venha.
— Eu estou esperando minha vez há uma hora!
— Vai continuar esperando.
Liriana fez um gesto para que todos prestassem atenção ao simulador e, discretamente, deixou Joe e Rita fora da discussão.
Joe saiu da porta e aproximou-se de Rita.
— Eu estava procurando você.
— Eu percebi.
— Percebeu?
Ela olhou para a sala.
— Você costuma entrar numa sala cheia de gente se divertindo quando está procurando ficar sozinho ou procurando alguém que nem estava antes de você chegar?
Joe não encontrou resposta imediatamente. Rita conhecia aquele hábito dele bem demais.
— Está bem — admitiu. — Talvez eu não estivesse procurando muito direito.
— Imaginei.
Houve alguns segundos de silêncio.
Desta vez, Joe não tentou preenchê-los com alguma justificativa.
— O que eu disse antes...
Rita abaixou os olhos.
— Joe...
— Não. Deixa eu terminar.
Ela tornou a encará-lo.
— Eu estava errado.
Rita respirou lentamente.
— Sobre eu ter voltado para salvá-lo?
— Sobre transformar isso numa culpa sua.
Ela não respondeu.
Joe continuou:
— Eu estava com raiva porque ele escapou. Com raiva porque eu fui atingido. Provavelmente com raiva de mim mesmo, porque caí na armadilha dele. E coloquei tudo isso em você.
Rita apertou ligeiramente os lábios.
— Você disse que eu deveria ter continuado a missão.
— Eu sei.
— Disse que eu não devia ter colocado sua vida acima dela.
Joe baixou os olhos.
— Eu sei.
Ela demorou alguns segundos.
— E se fosse o contrário?
Joe ergueu o rosto.
— O quê?
— Se eu estivesse naquele Jato Pirata e você estivesse pilotando a nave principal. Se meus controles estivessem falhando e eu estivesse caindo no oceano, você teria continuado atrás daquele robô-bomba?
Joe abriu a boca. Parou.
Rita não desviou os olhos.
Ele tentou imaginar a situação. Não levou muito tempo.
— Não.
— Então por que esperava isso de mim?
Joe ficou em silêncio, olhando novamente para a sala de simulação.
Sabu acabara de gritar alguma coisa sobre “vingança da Baleia”, apesar de nem estar mais usando o robô-bomba Baleia.
Joe:
— Acho que esperava de você uma coisa que eu nunca conseguiria fazer.
Rita não respondeu.
— E isso não é justo.
Ela respirou fundo.
Os olhos começaram a ficar úmidos outra vez, embora dessa vez ela não tentasse esconder imediatamente.
— Não fiquei magoada porque você discordou de mim, Joe.
— Eu sei.
— Não. Acho que não sabe.
Ele esperou.
— Fiquei magoada porque, por alguns minutos, pareceu que você achava que salvar sua vida tinha sido um erro.
Joe ficou imóvel.
Aquilo o atingiu exatamente onde deveria.
— Rita...
— Eu sei que não foi isso que quis dizer. Agora eu sei. Mas foi assim que soou.
Joe aproximou-se um pouco, sem tocá-la.
— Então eu sinto muito mesmo.
Nenhuma explicação adicional e nenhum “mas”.
Rita enxugou rapidamente um dos olhos.
— Você foi um idiota.
Joe assentiu, até porque ele sabe que, para uma galariana de temperamento doce como Rita, chamá-lo daquele jeito é porque a mágoa foi forte.
— Sólus já confirmou.
Ela tentou permanecer séria.
Não conseguiu completamente.
— Ele disse isso?
— Perguntei se eu tinha sido um idiota.
— E o que ele respondeu?
Joe imitou a voz grave de Sólus:
— “Essa é uma pergunta retórica?”
Rita soltou uma risada involuntária.
Joe sorriu.
— Então eu considerei a questão oficialmente resolvida.
Rita balançou a cabeça.
— Às vezes não sei se aquele homem gosta de você.
— Acho que ele também não sabe.
Da sala veio um novo grito.
— QUATRO A QUATRO! — anunciou Sabu.
Bidkon imediatamente corrigiu:
— Cinco a quatro.
— O quê?!
— Você está contando errado desde a terceira partida.
— POR QUE NINGUÉM ME DISSE?
Ippei quase caiu de tanto rir.
Rita olhou para dentro.
— Eles ainda não deram a vez para ninguém?
Joe acompanhou o olhar dela.
— Pelo que entendi, existe uma crise diplomática em andamento.
— Entre Gailar e a Terra?
— Entre Sabu e qualquer pessoa que queira usar o simulador.
Ela sorriu.
Joe hesitou por um instante.
— Você quer entrar?
Rita olhou para ele.
— Para jogar?
— Por que não?
A resposta de Rita veio quase automaticamente:
— Estamos no meio de uma crise.
De repente, Prof.Tobishima aciona os auto-falantes.
— Joe Kaisaka. Rita Yan. Compareçam à sala de comando.
Joe olhou para Rita.
— Parece que o intervalo acabou.
Ela assentiu.
— Vamos.
Os dois começaram a caminhar juntos pelo corredor.
Atrás deles, Sabu gritou:
— Ei, Joe! Depois você vai me explicar como usar o Guilhotina direito!
Joe não se virou.
— Primeiro, aprende a contar o placar!
A gargalhada de Ippei acompanhou os dois até a curva do corredor.
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Quando Joe e Rita entraram na sala de comando, o mapa holográfico do Pacífico já ocupava boa parte do ambiente. Professor Tobishima encontrava-se diante da mesa central, acompanhado por Sólus, enquanto a imagem holográfica do professor Yan continuava projetada ao lado deles, transmitida em tempo real de Gailar.
Vários pontos brilhavam sobre o oceano. Alguns haviam sido apagados. Outros permaneciam ativos.
Joe olhou para a projeção.
— Encontraram alguma coisa?
Tobishima assentiu.
— Encontramos Valgger.
Joe imediatamente procurou alguma indicação no mapa.
— Onde?
— Não literalmente — explicou Sólus. — Encontramos a lógica dele.
Joe olhou para Rita. Ela se aproximou da mesa.
— Isso já é alguma coisa.
Sólus ampliou a região das Marianas. Kuroshio-7, Nansei-4 e Asteria-6 apareceram em sequência, cada uma acompanhada pelas respectivas áreas de rastreamento antes dos ataques.
— Observem.
As zonas perdidas desapareceram uma após a outra. Restou uma faixa estreita de cobertura ao sul, sustentada principalmente por uma única instalação.
Uma identificação apareceu:
"JANUS-3 — REDE INTERNACIONAL DE VIGILÂNCIA"
MARIANAS DO NORTE.
Sólus tocou o ponto.
— Este será o próximo alvo.
Joe franziu a testa.
— Tem certeza?
— O suficiente para apostar sua vida nisso? Não. — Sólus olhou para ele. — O suficiente para apostar a minha? Sim.
Rita quase sorriu.
— Isso é reconfortante.
Yan ampliou novamente as zonas de cobertura.
— Janus-3 mantém a última sobreposição capaz de comparar os sinais provenientes deste corredor. Se Valgger destruí-la, haverá uma faixa considerável na qual os terráqueos perderão boa parte da triangulação.
Rita acompanhou as linhas.
— Então não precisamos descobrir por onde ele vai passar.
— Exatamente — respondeu Sólus. — Precisamos saber onde ele inevitavelmente terá de chegar.
Joe percebeu.
— Nós paramos de persegui-lo.
Sólus assentiu.
— Finalmente.
Joe lançou-lhe um olhar.
— Podia ter dito isso com menos satisfação.
— Poderia.
Tobishima ocultou um pequeno sorriso.
Yan fez aparecer Varan ao lado do mapa.
— Há outro motivo para isso ser importante. Até agora, Valgger sempre conservou liberdade de movimento. Quando encontrava resistência, desviava, enganava ou atacava apenas o suficiente para continuar avançando.
Joe cruzou os braços.
— Eu percebi.
Por um instante, Rita olhou para ele. Joe percebeu, mas não comentou.
Sólus continuou:
— Em Janus-3, vocês não vão persegui-lo. Estarão esperando.
— Então ele lança outra sonda — disse Joe.
— Provavelmente.
— Ou duas — acrescentou Rita.
— Possivelmente — respondeu Sólus. — Mas agora sabemos que elas existem. E as forças terrestres também.
Tobishima assumiu a explicação.
— Todas as assinaturas serão tratadas como potencialmente falsas até confirmação visual. Caças e navios não abandonarão suas posições simplesmente para perseguir um contato isolado.
Joe assentiu.
— O mesmo truque não funcionará duas vezes.
Yan corrigiu:
— Não da mesma maneira.
Sólus fez aparecer a transformação de Varan no holograma tático.
A nave lupina abriu-se no holograma e assumiu sua configuração antropomórfica. Braços longos, pernas digitígradas e enormes garras metálicas surgiram ao redor do tórax blindado.
— É aqui que Valgger se torna mais perigoso.
Joe observou.
— Porque transforma.
— Não exatamente.
Sólus indicou a nave.
— Nesta configuração, Varan possui velocidade e capacidade de evasão. Pode escolher se combate ou não.
Depois indicou o robô.
— Nesta, possui muito mais força, blindagem frontal e armamento de curto alcance. Mas perde parte da liberdade de manobra que tinha antes.
Yan completou:
— A transformação não torna Varan vulnerável, mas sim "comprometido".
Rita compreendeu primeiro.
— Se ele transformar, significa que desistiu de passar por nós.
— Significa que concluiu que terá de passar 'através' de vocês — respondeu Yan.
Joe observou as garras.
— E aquelas coisas?
Sólus ampliou as mãos de Varan.
— Garras de Stak. Recebem uma sobrecarga energética capaz de comprometer blindagens muito mais resistentes do que parecem.
— Ótimo.
— Eu sabia que gostaria — respondeu Sólus.
Rita olhou para o tórax da máquina.
— E o núcleo?
O humor desapareceu.
Yan ampliou a região vermelha.
— Esse é o maior problema.
Uma série de diagramas internos surgiu.
— Varan foi projetado para continuar cumprindo sua missão mesmo quando a sobrevivência do piloto já não é possível. O reator pode ser levado deliberadamente a uma reação terminal.
Joe olhou para ele.
— Autodestruição.
— Mais do que isso — respondeu Yan. — Uma ogiva integrada ao próprio sistema energético.
Rita ficou séria.
— Qual o raio?
— Dependerá do estado do reator e da quantidade de energia acumulada. Mas é grande demais para permitir que seja acionada próximo a uma instalação habitada.
Joe bateu levemente o punho contra a palma da mão.
— Então destruímos Varan antes que ele consiga ativar.
— Não — disseram Yan e Tobishima praticamente juntos.
Joe olhou de um para outro.
Tobishima prosseguiu:
— Essa é precisamente a reação que não podemos ter.
Yan indicou novamente o núcleo.
— Se vocês causarem dano suficiente enquanto o sistema já estiver entrando em estado crítico, podem provocar exatamente a detonação que pretendem impedir.
Joe ficou em silêncio.
Rita perguntou:
— Então, como derrotamos uma máquina que não podemos destruir?
Sólus respondeu:
— Controlando onde ela estará quando for destruída.
Tobishima ampliou a região ao redor de Janus-3.
— Janus-3 foi instalada em Agrihan, uma ilha vulcânica isolada das Marianas do Norte — explicou Tobishima. — Justamente por isso é adequada para uma estação de rastreamento de longo alcance. A evacuação já começou sob pretexto de emergência técnica. Se estivermos certos, quando Valgger chegar, encontrará o Pirata do Espaço esperando por ele ali.
Joe acompanhou a rota.
— Então eu o mantenho longe da estação.
— Exatamente.
Sólus aproximou-se.
— E não tente fazê-lo recuar.
Joe arqueou uma sobrancelha.
— Você está sugerindo que eu deixe que avance?
— Estou sugerindo que escolha 'por onde' ele avançará.
Joe ficou pensativo.
Sólus apontou para uma região sobre o oceano.
— Valgger não recuará para preservar a própria vida. Portanto, ameaçá-lo com destruição não funciona.
— Transformando a determinação dele numa limitação — disse Rita.
Sólus voltou-se para ela.
— Exatamente.
Yan complementou:
— Se Valgger acreditar que existe apenas um caminho para alcançar Janus-3, ele seguirá esse caminho.
Joe entendeu.
— E nós escolhemos o caminho.
— Agora você está pensando como ele — disse Sólus.
Joe lançou-lhe um olhar.
— Não sei se gostei do elogio.
— Não foi um elogio.
Rita deixou escapar um pequeno sorriso.
Tobishima mudou novamente a projeção.
O mapa afastou-se da estação e mostrou a atmosfera superior e o espaço além dela.
— Existe ainda o pior cenário.
Joe olhou para ele.
— A bomba.
— Sim.
Yan tornou-se mais sério.
— Se Valgger ativar o protocolo de autodestruição antes que vocês consigam neutralizá-lo, não tentem desarmá-lo. Depois de determinado ponto, qualquer tentativa seria imprevisível.
Rita perguntou:
— Quanto tempo teríamos?
— Não sabemos até observarmos a reação real.
— Então não sabemos se conseguiremos sair da área.
Yan hesitou.
— Vocês talvez não precisem sair.
Joe estreitou os olhos.
— Professor...
Yan indicou o espaço acima da Terra.
— Precisam fazer Varan sair.
Silêncio.
Joe observou o mapa.
Rita foi a primeira a entender completamente.
— Tiramos a bomba da zona de risco.
— Isso — disse Yan. — Se o núcleo entrar em reação irreversível, afastem Varan da superfície e das rotas orbitais próximas. Quanto mais distante, melhor.
Joe olhou para o holograma do enorme robô.
— Você está sugerindo que a gente carregue aquilo para o espaço.
Yan inclinou ligeiramente a cabeça.
— Em termos pouco científicos... sim.
Sólus acrescentou:
— Espero que sua musculação esteja em dia.
Joe fitou-o.
— Você anda passando tempo demais com Sabu.
— Uma influência preocupante.
Tobishima voltou a assumir o comando.
— Portanto, o plano é simples apenas no papel. Vocês chegarão antes. A evacuação de Janus-3 continuará. Não perseguirão assinaturas isoladas sem confirmação. O objetivo inicial será impedir Varan de alcançar a estação.
Ele apontou para a projeção da máquina.
— Se Valgger insistir, obriguem-no a combater longe das instalações.
A imagem mudou para o modo robô.
— Se transformar, mantenham-no nesse setor.
Finalmente, o núcleo apareceu.
— E se ativar o protocolo de autodestruição...
Rita completou:
— Nós o afastamos da Terra.
Tobishima assentiu.
Joe permaneceu alguns segundos olhando para o mapa.
— E se ele perceber o que estamos fazendo?
Sólus respondeu imediatamente:
— Perceberá.
Joe virou-se.
— Isso não parece muito tranquilizador.
— Não deveria.
Sólus aproximou-se da projeção de Valgger.
— Lembre-se do que descobrimos sobre ele. Valgger nunca pergunta quanto uma missão vai custar. Pergunta se o custo permitirá concluí-la.
Joe ficou sério.
Sólus prosseguiu:
— Da próxima vez que ele apontar suas armas para você, não presuma que estará apenas tentando afastá-lo.
Rita olhou novamente para o rosto de Valgger.
— Porque desta vez nós estaremos entre ele e o objetivo.
— Sim.
Joe fechou a mão.
— Então, desta vez, ele terá de lutar.
Yan respondeu:
— E vocês também terão de lutar de maneira diferente.
Tobishima desligou quase todas as projeções.
Restou apenas 'Janus-3'.
— Se nossos cálculos estiverem corretos, Valgger deverá chegar à região em menos de duas horas. Será nesta noite. Se os parcos registros de radar que recebemos de outras nações se referirem a ele. Como parece vir de outra rota, para disfarçar o local de origem de sua partida, é quase certo que seja alguém da Horda. Então, não percam tempo, preparem o Pirata do Espaço.
Joe olhou para Rita.
Ela já estava olhando para ele.
Desta vez não houve discussão sobre quem devia salvar quem.
— Vamos juntos — disse Joe.
Rita assentiu.
— Como sempre deveria ser.
E os dois deixaram a sala.
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Joe e Rita correram pelo corredor até o cockpit, enquanto os alarmes da base soavam e a equipe de apoio os observava em tensão. Sentaram-se lado a lado, trocando um breve olhar de cumplicidade antes que a escotilha se fechasse.
O interior da aeronave se iluminou em azul e vermelho. Vestindo seus trajes de piloto, Joe e Rita assumiram os controles. Joe pressionou um botão vermelho.
— Acionar os motores!
O Pirata do Espaço despertou com um forte tremor. Os motores rugiram, e a nave disparou pelo túnel de lançamento, passando pelas luzes vermelhas em alta velocidade.
— Levantar voo!
O jato saiu da falésia, mergulhou rapidamente na água e voltou a subir, atravessando o céu. Em seguida, realizou várias manobras, girando com agilidade sobre o mar.
No cockpit, Joe permanecia concentrado, enquanto Rita se mantinha firme ao seu lado.
O Pirata do Espaço ganhou altitude e tomou rumo sudeste, deixando Akanejima para trás. Durante os primeiros minutos, ninguém falou além do necessário. No painel central, as coordenadas de Agrihan permaneciam fixadas junto aos dados transmitidos por Tobishima.
Rita conferiu novamente o cronômetro de navegação.
— Se os cálculos de Sólus estiverem certos, chegaremos com pouco mais de quinze minutos de vantagem.
Joe manteve os olhos à frente.
— Desta vez não vamos correr atrás dele.
— Desta vez ele vem até nós.
Joe olhou brevemente para Rita.
— Gostei mais desse plano.
Ela esboçou um sorriso.
— Também gostei da parte em que ele não envolve você caindo no oceano.
Joe fez uma careta.
— Eu mereci essa.
— Mereceu.
Nenhum dos dois precisava dizer mais sobre aquilo.
Pouco depois, a voz de Tobishima surgiu pelo comunicador.
— Pirata do Espaço, estamos recebendo confirmação da evacuação de Janus-3. O último transporte deixou Agrihan há sete minutos.
Rita respondeu:
— Entendido, professor.
Outra voz entrou na frequência.
Sólus.
— Nenhum contato confirmado com Varan até o momento, desde das escassas informações de estações de radar internacionais que nos foram passadas.
Joe inclinou a cabeça.
— Ou ele está atrasado...
— Ou está tentando descobrir se vocês realmente estão esperando por ele — respondeu Sólus.
Joe sorriu sem humor.
— Então que venha descobrir.
Agrihan apareceu no horizonte como uma massa verde-escura, elevando-se abruptamente do Pacífico. O vulcão dominava a ilha, cercado por encostas acidentadas e falésias que mergulhavam no mar azul. Pequenas estruturas metálicas da estação Janus-3 eram visíveis numa área mais baixa, acompanhadas por antenas, cúpulas e torres de rastreamento.
Nenhum veículo ou aeronave circulava pela região. Tudo parecia deserto.
Rita examinou os sensores.
— Área evacuada.
Joe reduziu a velocidade.
— Então fazemos exatamente o que Sólus disse.
O Pirata do Espaço posicionou-se sobre o oceano, entre a direção prevista de aproximação e a ilha.
Esperou.
Cinco minutos.
Sete.
Dez.
Joe começou a bater os dedos no manche.
— Odeio esperar.
— Eu sei.
— Ele podia, ao menos, ser pontual.
— Talvez tenha perdido o horário porque estava destruindo estações de radar.
Joe olhou para ela.
— Você já é mais séria, Rita. Você também anda passando tempo demais com Sabu?
Rita sorriu.
Então o radar apitou.
O sorriso desapareceu.
Um ponto surgiu à grande distância e Rita imediatamente começou a trabalhar sobre os dados.
— Assinatura energética compatível.
Joe aproximou a imagem.
— Sonda?
— Não consigo confirmar.
— Então não vamos atrás.
Rita concordou.
O sinal continuou se aproximando.
Cem quilômetros.
Oitenta.
Sessenta.
Nenhuma mudança de trajetória.
Joe apertou os controles.
— Ele sabe que estamos aqui.
— Provavelmente.
Quarenta quilômetros.
A imagem óptica finalmente surgiu.
Primeiro, duas pequenas luzes azuladas.
Depois, o contorno alongado da fuselagem.
O focinho blindado.
As placas são escuras.
Varan.
Joe respirou fundo.
— Encontramos você.
Varan continuou avançando. No interior do cockpit inimigo, Valgger observou o Pirata do Espaço parado entre ele e Agrihan. Valgger usou sensores para analisar a região, notando que ela fora evacuada; daí ele compreendeu.
— Skön-lær-zh sên. (Adaptaram-se).
Seu computador respondeu apenas com uma sequência de dados.
O capitão examinou a distância até Janus-3, depois, a distância até o Pirata do Espaço. E prosseguiu
Joe viu Varan aumentar a velocidade.
— Ele não vai desviar.
— Era o que Sólus esperava.
— Então vamos confirmar a teoria.
Joe empurrou os controles.
O Pirata do Espaço acelerou.
Varan abriu fogo primeiro.
Rajadas luminosas cortaram o céu.
Rita avisou:
— Direita!
Joe virou.
Os disparos passaram pela lateral da nave e explodiram no oceano, levantando colunas de água.
Joe respondeu.
Dois projéteis partiram do Pirata do Espaço.
Varan inclinou a fuselagem e passou entre eles.
Os dois adversários cruzaram-se em sentidos opostos.
Joe iniciou a curva imediatamente.
— Ele continua indo para a ilha!
— Eu sei!
Varan não completou uma manobra de combate.
Não tentou colocar-se atrás deles.
Continuou em direção a Agrihan.
— Então chega de correr atrás dele — disse Joe.
Virou o Pirata do Espaço e tomou uma trajetória mais curta.
Rita percebeu imediatamente.
— Vai cortar o caminho.
— Exatamente.
Varan disparou novamente.
Joe não desviou completamente.
A nave sacudiu quando um dos tiros atingiu a blindagem lateral.
Rita:
— Estamos bem! O campo de força de Bidkon absorveu o golpe, mas a proteção caiu em 15%.
Joe manteve a trajetória.
Os dois vetores começaram a convergir.
Varan.
Pirata do Espaço.
Janus-3 logo adiante.
Rita observou o cálculo de intercepção.
— Três segundos!
Joe apertou os dentes.
— Dois!
Varan aumentou potência.
— Um!
O Pirata do Espaço passou diante dele.
Joe puxou violentamente o manche.
Varan precisou abandonar a linha direta para evitar a colisão.
Pela primeira vez desde que surgira no radar, o robô-bomba foi obrigado a afastar-se do alvo.
Joe sorriu.
— Agora sim.
A recomendação de Sólus de não perseguir Valgger, mas controlar por onde ele pode avançar, finalmente produz efeito físico e modifica o combate.
Varan tentou corrigir.
Joe bloqueou novamente.
Valgger mudou o vetor para oeste.
Joe acompanhou.
Outra tentativa pelo lado oposto.
Rita antecipou.
— Ele vai passar por baixo!
Joe mergulhou.
O Pirata do Espaço interceptou novamente.
Varan subiu abruptamente e abriu fogo.
Desta vez os disparos atingiram a parte inferior da nave.
Alarmes começaram a piscar.
— Blindagem ventral atingida! — avisou Rita.
Uma luminosidade azulada envolveu a fuselagem no instante do impacto, ondulando violentamente sobre a superfície da nave antes de desaparecer.
Alarmes começaram a piscar no cockpit.
Rita conferiu os indicadores.
— O campo de força que Bidkon instalou aguentou, mas a carga caiu quase vinte e cinco por cento. Não sei se ele vai suportar muitos ataques desses.
Joe olhou para Varan, que já corrigia a trajetória para uma nova passagem.
— Eles aprenderam também.
Rita compreendeu imediatamente.
— Valgger aumentou a potência dos disparos.
— E descobriu quanto precisa para atravessar nossa defesa.
Joe apertou os controles.
— Então vamos parar de dar oportunidades para ele testar.
Varan mergulhou novamente em direção a Agrihan, procurando recuperar a linha direta para Janus-3. Joe não o perseguiu pela retaguarda. Em vez disso, cortou a trajetória num ângulo mais fechado, colocando o Pirata do Espaço outra vez entre o robô-bomba e a ilha.
Valgger respondeu com uma nova rajada.
Joe virou a nave no último instante.
Os disparos passaram rente à lateral.
Varan tentou aproveitar a manobra para escapar pelo lado oposto, mas Rita já acompanhava o deslocamento no radar.
— Ele vai pela esquerda!
— Já vi!
Joe puxou os controles e o Pirata do Espaço atravessou novamente a rota de Varan.
A nave lupina foi obrigada a subir.
Joe acompanhou.
Varan mergulhou.
Joe desceu junto.
O capitão Merodaque tentou pelo mar aberto.
O Pirata do Espaço cortou-lhe o caminho outra vez.
Rita observou as duas trajetórias cruzando-se repetidamente no monitor.
— Está funcionando.
Joe manteve os olhos no inimigo.
— Ainda não. Estamos só deixando ele irritado.
— Pelo que sabemos sobre Valgger, não acho que isso faça muita diferença.
— Melhor ainda.
Dentro de Varan, Valgger analisou rapidamente os novos vetores. Cada mudança de rota produzia o mesmo resultado: o Pirata do Espaço antecipava a aproximação e recuperava a posição defensiva antes que ele pudesse acelerar novamente em direção à ilha. O terráqueo e a galariana haviam compreendido sua prioridade.
Valgger alterou a frequência dos canhões e efetuou outra passagem, desta vez concentrando os disparos no mesmo setor do campo de força atingido anteriormente.
A barreira azul apareceu novamente.
Piscou violentamente.
Um dos tiros atravessou parcialmente a proteção e explodiu contra a blindagem externa.
O Pirata do Espaço sacudiu.
Rita segurou o console.
— Escudo em sessenta e quatro por cento!
Joe estabilizou a nave.
— Ele está concentrando os ataques no mesmo ponto.
— Está tentando abrir uma brecha.
— Então vamos mudar o ponto.
Joe inclinou o Pirata do Espaço e passou a oferecer outro ângulo da fuselagem durante a aproximação seguinte, distribuindo a carga dos disparos por setores diferentes do campo defensivo.
Rita percebeu o que Joe estava fazendo.
— Está fazendo ele gastar potência para começar tudo de novo.
— Se ele aprende, a gente aprende também.
Varan abriu fogo.
Joe girou.
A rajada acertou outro setor da barreira, mas não conseguiu rompê-la.
Desta vez, Joe respondeu imediatamente.
O Pirata do Espaço disparou contra uma das naceles laterais de Varan.
O robô-bomba desviou, perdendo novamente a linha ideal de aproximação.
Joe não tentou persegui-lo, apenas voltou para a posição entre Varan e Janus-3.
Valgger percebeu que seus oponentes haviam parado de jogar segundo suas regras. Durante alguns segundos, Varan apenas descreveu uma grande curva sobre o oceano.
Joe acompanhou à distância.
— Ele parou de tentar passar.
Rita observou os sensores.
— Deve estar pensando numa outra maneira.
Joe sorriu de leve.
— Nós também.
Varan acelerou e, desta vez, veio diretamente contra eles.
Joe esperou.
A distância caiu rapidamente.
Quatro quilômetros.
Três.
Dois.
Varan disparou.
Joe não abandonou a posição. O Pirata do Espaço desviou apenas o suficiente para evitar o centro da rajada, mantendo-se ainda entre o inimigo e a ilha.
Rita percebeu o risco.
— Joe, se ele continuar vindo...
É exatamente o que queremos.
Varan não desviou e Joe também não.
No último instante, o Pirata do Espaço subiu violentamente, passando sobre a fuselagem 'lupina'.
Varan perdeu novamente a oportunidade de seguir diretamente para Janus-3 e precisou iniciar outra curva.
Voltou para a frente dele.
Valgger permaneceu imóvel diante dos controles por alguns segundos.
A conclusão era simples.
Não havia mais caminho ao redor.
— Então chegamos a esse ponto.
Ele acionou uma nova sequência.
No cockpit do Pirata do Espaço, Rita percebeu primeiro a mudança nos sensores.
— Joe...
— O quê?
A distribuição de energia dele está mudando.
Partes da fuselagem de Varan começaram a se deslocar.
As placas dorsais se separaram. Os grandes propulsores laterais mudaram de posição, enquanto estruturas internas avançavam para fora da carcaça.
Joe observou.
— Então era disso que Sólus estava falando.
A proa abriu-se em segmentos, formando uma cabeça mecânica lupina. A mandíbula hidráulica revelou fileiras de dentes metálicos. Braços longos surgiram das laterais, seguidos por pernas articuladas que assumiram uma configuração digitígrada.
No centro do tórax, placas blindadas retraíram-se parcialmente.
O núcleo avermelhado apareceu.
Varan terminou a transformação, pairando sobre o Pacífico como um enorme lobisomem mecânico.
Rita ficou alguns segundos em silêncio.
— Admito que os arquivos holográficos não faziam justiça a isso.
Joe colocou as mãos sobre os comandos de transformação.
— Melhor.
Rita virou-se para ele.
— Você continua dizendo isso em situações nas quais eu, particularmente, não vejo melhora nenhuma.
— Ele parou de tentar passar por nós.
Joe sorriu.
— Agora resolveu passar através de nós.
As garras de Varan se abriram.
Uma luminosidade branco-azulada percorreu lentamente as lâminas metálicas.
Rita reconheceu a assinatura.
— São as Garras de Skal.
Joe olhou para o brilho crescente.
— Lembro do aviso.
— Então lembre também da parte em que não devemos deixar aquilo tocar a blindagem.
— Essa parte ficou especialmente clara.
Joe acionou a transformação.
— Transformação! Acionar!!!!
Cortando o céu em alta velocidade, o Pirata do Espaço avançou ainda sob a forma de uma poderosa nave de combate. Então, sua estrutura começou a se abrir. Motores giraram, asas se recolheram e a fuselagem se dividiu para revelar o corpo do robô. As pernas projetaram-se para fora enquanto a máquina executava um giro no ar.
Em seguida, o gigante mergulhou em direção a Agrihan.
Rochas vulcânicas e terra foram lançadas para os lados quando seus pés atingiram o solo. O impacto fez a encosta estremecer, levantando uma nuvem de poeira que envolveu parcialmente sua poderosa silhueta.
Entre fumaça e partículas de terra, o Pirata do Espaço ergueu-se em sua forma humanoide e voltou o rosto para o céu.
Varan já vinha em sua direção, descendo sobre ele como uma fera metálica.
Joe mal teve tempo de erguer os braços do Pirata do Espaço. As Garras de Skal atingiram o campo de força com um clarão branco-azulado. O impacto lançou uma onda luminosa ao redor do corpo do robô, e o Pirata do Espaço deslizou vários metros pela encosta, abrindo dois sulcos profundos no terreno vulcânico.
— O campo segurou! — avisou Rita, acompanhando os indicadores. — Mas perdeu doze por cento de carga num único golpe!
Joe forçou o Pirata do Espaço a recuperar o equilíbrio.
— Então Sólus não estava exagerando sobre aquelas garras.
Varan pousou poucos metros adiante. As pernas digitígradas absorveram o impacto com uma flexão brusca, enquanto as garras continuavam brilhando. A cabeça lupina ergueu-se lentamente, as fendas azuis fixadas no Pirata do Espaço.
Por alguns segundos, nenhum dos dois avançou.
Ao longe, parcialmente escondida pelo relevo da ilha, Janus-3 permanecia intacta.
Joe olhou rapidamente para a estação.
Varan também.
— Rita...
— Eu vi.
Joe cerrou os punhos mecânicos.
— Ele ainda está pensando nela.
Varan avançou, mas não contra o Pirata do Espaço, mas sim em direção à estação.
— Ah, não!
Joe acionou os propulsores auxiliares e lançou o Pirata do Espaço lateralmente, colocando-o novamente no caminho.
Varan respondeu sem diminuir a velocidade.
Garra direita.
Joe desviou.
Garra esquerda.
O Pirata do Espaço bloqueou com o antebraço.
O campo de força voltou a brilhar.
— Mais oito por cento! — gritou Rita.
Joe segurou o braço de Varan antes que ele pudesse recolhê-lo e girou o corpo, utilizando o próprio impulso do inimigo para arremessá-lo contra uma formação rochosa.
O robô-bomba Varan atravessou a pedra vulcânica numa explosão de fragmentos.
Joe não esperou.
Avançou imediatamente.
Seu punho atingiu a lateral da cabeça lupina, torcendo a mandíbula metálica. Um segundo golpe acertou o tórax e obrigou Varan a recuar alguns passos.
— Agora!
Joe tentou um terceiro soco.
Varan agarrou-lhe o pulso.
A força dos dois gigantes travou os braços no ar.
Motores rugiram.
Pistões comprimiram-se.
O terreno cedeu sob os pés de ambos.
Varan empurrou, fazendo o Pirata do Espaço ceder um passo e depois outro.
Rita olhou para o mapa de posição.
— Joe, ele está nos empurrando na direção da estação!
Joe percebeu imediatamente.
Mesmo naquele combate corpo a corpo, capitão Valgger continuava avançando.
— Então vamos inverter isso.
Joe desligou momentaneamente os propulsores das pernas.
O Pirata do Espaço perdeu resistência de propósito.
Valgger fez com que seu robô-bomba, Varan, avançasse com força excessiva.
Joe girou o quadril da máquina, soltou o braço preso e passou para o lado.
O impulso levou Varan adiante.
Mas não em direção a Janus-3.
Joe conseguiu posicioná-lo de costas para a estação.
— Agora estamos conversando.
Rita olhou para ele.
— Você percebe que só nós conseguimos ouvi-lo, não é?
— Melhor. Assim, ele não sabe que estou ganhando confiança.
Varan virou-se e atacou novamente.
Desta vez, Joe estava esperando.
As garras passaram uma após a outra, fazendo o Pirata do Espaço recuar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Na quarta, Joe agarrou o pulso de Varan antes que a garra completasse o arco e acertou uma joelhada no abdome da máquina.
O núcleo avermelhado no peito oscilou.
Rita percebeu.
— Joe, cuidado com o tórax!
Varan recuperou-se e abriu a mandíbula mecânica.
Joe viu tarde demais.
Uma descarga de energia explodiu da boca.
O campo de força do Pirata do Espaço acendeu por inteiro.
O robô foi lançado para trás e caiu sobre a encosta.
Pedras e poeira subiram ao redor dele.
— Campo em cinquenta e três por cento! — informou Rita.
Varan voltou a correr para Janus-3; o Pirata do Espaço levantou-se e avançou, mas desta vez Joe não tentou socá-lo.
Agarrou Varan por trás, prendendo os braços da máquina junto ao corpo.
Os dois continuaram deslizando pelo terreno.
Valgger aumentou a potência dos propulsores.
Joe apertou os controles.
— Ele continua tentando avançar!
— Era exatamente o que Sólus disse!
O "mecha licantropo" forçou os braços. As garras começaram a separar lentamente a contenção.
Joe percebeu que não conseguiria mantê-lo preso por muito tempo.
— Rita, distância da estação?
— Dois quilômetros e quatrocentos metros!
Muito perto.
Joe alterou o ângulo.
Em vez de resistir diretamente ao avanço de Varan, começou a empurrá-lo lateralmente, conduzindo os dois para longe das estruturas de Janus-3 e em direção à costa.
— O que está fazendo? — perguntou Rita.
— Se ele insiste em avançar, vou escolher a direção.
Varan percebeu a mudança. Os propulsores de suas costas aumentaram a potência.
Joe tentou continuar desviando o eixo.
A resistência cresceu.
— Ele entendeu.
— E está corrigindo.
Varan girou abruptamente o tronco.
Uma das garras de Skal escapou da contenção e atingiu o ombro direito do Pirata do Espaço.
O campo de força brilhou.
Desta vez, falhou por uma fração de segundo.
A garra atravessou a barreira e rasgou parte da blindagem.
Faíscas explodiram sobre a encosta.
— Joe!
— Estou bem!
Varan atacou novamente.
Joe soltou-o antes do segundo golpe e recuou.
A garra cortou apenas o ar.
Os dois robôs ficaram frente a frente, a poucos metros do mar.
Atrás deles, a encosta de Agrihan.
Mais acima, Janus-3.
Joe respirou fundo.
— Ele vai tentar outra vez.
Rita observou os sensores.
— Não.
Joe olhou para ela.
— O quê?
— A energia dele está mudando novamente.
No painel, vários indicadores de energia começaram a subir ao mesmo tempo. A fonte vinha do centro do tórax.
Joe olhou para Varan.
O núcleo vermelho pulsou.
Uma vez.
Duas.
Depois começou a emitir uma luminosidade muito mais intensa.
— Isso é...
Rita abriu rapidamente os dados que Yan transmitira antes da partida.
— Ainda não sei. Pode estar aumentando a alimentação dos sistemas de combate.
Varan ergueu lentamente a cabeça.
Valgger não avançou.
Joe percebeu algo estranho.
— Por que ele parou?
Rita não respondeu.
O núcleo pulsou novamente.
Os números subiram.
No interior de Varan, Valgger observou a distância restante até Janus-3 e verificou os danos da própria máquina, que estava com capacidade de propulsão reduzida e sua blindagem comprometida. A probabilidade de atravessar a defesa do Pirata do Espaço em condições operacionais era insuficiente, mas, ainda assim, Valgger não demonstrou frustração, apenas tomou uma decisão.
Sua mão acionou um comando protegido por uma trava física.
O sistema perguntou:
"PROTOCOLO DE AUTO-DESTRUIÇÃO?"
Valgger respondeu:
— Skön-fær-zh. (Prosseguir)
No cockpit do Pirata do Espaço, todos os alertas dispararam ao mesmo tempo.
Rita empalideceu.
— Joe...
Ele não tirou os olhos de Varan.
— Agora é o quê?
— A reação do núcleo acabou de mudar completamente.
Ela consultou os parâmetros.
Depois os registros de Yan.
A expressão de Rita respondeu antes de suas palavras.
— É a bomba.
Joe ficou imóvel por uma fração de segundo.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Rita.
— Eu realmente não sei! A reação ainda está estabilizando!
Varan começou a avançar outra vez, mas agora já não precisava sobreviver à chegada, somente precisava chegar suficientemente perto.
Joe percebeu imediatamente.
— Ele não precisa mais alcançar Janus-3.
Rita assentiu.
— Basta chegar perto o suficiente.
Varan acelerou.
Joe lançou o Pirata do Espaço contra ele.
Os dois gigantes colidiram.
Joe agarrou Varan pelos ombros.
— Não vai chegar lá!
Valgger aumentou a propulsão, fazendo o Pirata do Espaço começar a deslizar para trás.
Joe forçou as pernas contra o chão.
O terreno vulcânico quebrou sob seus pés.
— Rita! Qual a distância segura?
— Ainda calculando!
— Rápido, Rita, rápido!
— Estou tentando, Joe!
O núcleo aumentou o brilho.
Varan continuou avançando.
Joe cerrou os dentes.
— Então mudamos o plano.
— Para qual?
Ele olhou para o oceano.
Depois, para o céu.
Rita percebeu.
— Joe...
— Se não podemos desarmá-lo aqui...
Ela completou:
— Tiramos ele daqui.
Joe abriu um pequeno sorriso.
— Exatamente.
Joe acionou os propulsores do Pirata do Espaço com força máxima, mas não empurrou Varan diretamente para trás, apenas girou.
Os dois gigantes começaram a mudar de direção.
Varan continuava acelerando.
Joe inclinou seu corpo.
Pouco a pouco, o avanço horizontal tornou-se diagonal.
Rita acompanhou o vetor.
— Isso! Continue!
Varan percebeu.
Valgger tentou corrigir a orientação.
Joe apertou ainda mais a contenção.
O Pirata do Espaço e Varan deixaram o solo.
Primeiro, alguns metros.
Depois, dezenas.
O mar começou a ficar abaixo deles.
Joe lutava para manter o eixo.
Varan aumentou a potência dos motores.
Por alguns segundos, o Pirata do Espaço foi sacudido violentamente.
Então Rita percebeu o que estava acontecendo.
— Continue segurando! A propulsão dele está ajudando!
Joe, rangendo os dentes, respondeu:
— Pela primeira vez, eu gosto desse sujeito não saber desistir!
Os dois gigantes continuaram subindo.
Agrihan começou a diminuir abaixo deles.
Rita alternava entre os instrumentos e o núcleo de Varan.
— Dez quilômetros!
Joe respirava com dificuldade.
— É suficiente?
— Nem perto!
Varan cravou uma das garras de Skal no braço do Pirata do Espaço.
O campo de força brilhou.
Falhou.
Metal começou a ser rasgado.
Joe gritou quando o sistema de retorno de força transmitiu parte do impacto aos controles.
— Ele está soltando meu braço!
— Não solte!
Quinze quilômetros.
Vinte.
O céu começou a escurecer.
O azul perdeu intensidade acima deles.
Varan tornou a golpeá-lo.
A blindagem do braço esquerdo abriu-se.
Rita olhou para a integridade estrutural.
— Joe, se continuar assim, você vai perder o braço mecânico!
— Não temos escolha, Rita! Temos que continuar!!
Trinta quilômetros.
O núcleo de Varan brilhava quase branco no centro.
Rita recebeu finalmente uma leitura estável.
— Tenho estimativa!
— Fala!
— Menos de noventa segundos!
Joe olhou para cima.
Ainda muito céu.
Ainda muito perto da Terra.
— Então vamos precisar subir mais rápido.
Ele acionou tudo o que o Pirata do Espaço ainda tinha.
Varan fez o mesmo.
— Vamos lá, Valgger. — disse Joe, contando cada vez mais com a insistência do inimigo.
A altitude continuou aumentando.
Abaixo deles, Agrihan já havia se reduzido a uma pequena massa escura cercada pelo Pacífico. O azul do céu começava a perder intensidade, tornando-se cada vez mais profundo à medida que os dois gigantes atravessavam as camadas superiores da atmosfera.
Varan não diminuía a potência.
Pelo contrário.
Valgger havia compreendido perfeitamente o que Joe pretendia fazer e tentava girar o corpo da máquina de volta para a Terra. Os propulsores laterais entravam em funcionamento alternadamente, procurando recuperar um vetor descendente, enquanto as Garras de Skal continuavam cravadas no braço esquerdo do Pirata do Espaço.
A blindagem cedia pouco a pouco.
Rita acompanhou os indicadores.
— Integridade do braço esquerdo em quarenta e dois por cento!
Joe manteve a contenção.
— Ainda aguenta.
— Por enquanto.
Varan torceu o tronco com violência.
A garra avançou mais alguns centímetros.
Metal se partiu.
Cabos internos ficaram expostos.
— Joe!
— Eu sei!
Ele acionou os propulsores laterais e girou o Pirata do Espaço no sentido contrário, anulando a tentativa de Valgger.
— Cinquenta quilômetros — informou Rita.
O núcleo de Varan pulsava tão intensamente que a luz escapava pelas juntas do tórax.
— Quanto tempo?
Rita verificou novamente.
— Setenta e dois segundos.
Joe ergueu os olhos.
O céu acima estava quase negro.
— Ainda não basta.
— Não.
Rita abriu rapidamente os cálculos enviados por Yan e sobrepôs a posição atual à trajetória.
— Joe, não podemos continuar apenas subindo verticalmente.
— Por quê?
— Se ele explodir aqui, ainda estaremos muito próximos. Precisamos acrescentar velocidade para fora da Terra.
Joe compreendeu.
— Alterar o vetor.
— Exatamente. Para cima e para longe.
Joe acionou os motores de atitude.
O Pirata do Espaço começou lentamente a inclinar o conjunto formado pelos dois robôs.
Varan resistiu.
A garra direita soltou-se do braço danificado e tentou atingir o tórax do Pirata do Espaço.
Joe desviou o corpo.
A lâmina passou rente ao ombro.
Varan tentou novamente.
Dessa vez a garra atingiu o campo de força.
A barreira azul surgiu por uma fração de segundo e desapareceu quase imediatamente.
— Campo de força em onze por cento! — alertou Rita. — Não podemos contar mais com ele.
Joe não respondeu.
Toda a atenção estava em manter Varan apontado para fora.
Sessenta quilômetros.
Sessenta e cinco.
Setenta.
A curvatura da Terra começava a tornar-se perceptível ao longe.
Rita olhou para o cronômetro.
— Cinquenta e oito segundos.
Valgger voltou a aumentar a potência.
O Pirata do Espaço tremeu inteiro.
Joe percebeu que os propulsores de Varan agora trabalhavam contra o novo ângulo imposto por ele.
— Ele está tentando girar outra vez.
— Não deixe.
— Não vou.
Joe forçou os controles.
O braço esquerdo do Pirata do Espaço emitiu um estalo metálico alarmante.
Rita virou-se para os indicadores.
— Trinta e um por cento!
A garra continuava rasgando a articulação.
— Se perdermos esse braço, você não conseguirá segurá-lo.
— Então ele não pode cair antes de chegarmos longe o bastante.
O Pirata do Espaço ultrapassou oitenta quilômetros.
O brilho do núcleo de Varan tornara-se quase impossível de observar diretamente.
Rita reduziu automaticamente a intensidade dos visores.
— Quarenta e cinco segundos.
Joe percebeu algo nos indicadores de empuxo.
— Rita.
— O quê?
— Ele está aumentando ainda mais a potência.
Ela verificou.
— Está tentando romper nossa contenção.
Joe manteve os olhos à frente.
— Continue segurando! A propulsão dele está ajudando!
Joe cerrou os dentes, lutando contra as forças transmitidas pelos controles.
Os propulsores de Varan continuaram rugindo.
Noventa quilômetros.
Noventa e cinco.
Cem.
Rita olhou para a leitura.
— Passamos do limite convencional do espaço.
Joe não relaxou.
— Distância segura?
— Ainda não.
— Então continuamos.
Varan golpeou novamente.
A garra de Skal atravessou o restante da proteção do braço esquerdo.
Uma parte da blindagem se soltou e desapareceu atrás deles, girando lentamente no vazio.
— Integridade em dezenove por cento!
Joe sentiu os controles endurecerem.
— Estou perdendo resposta.
— Trinta e seis segundos!
O Pirata do Espaço passou de cento e dez quilômetros.
Rita começou a recalcular.
— Joe, quando eu mandar, você precisa soltá-lo e mudar de direção imediatamente.
— Ainda não.
— Eu sei.
Varan tentou girar o torso.
Joe percebeu que não teria força suficiente para impedir outra tentativa semelhante.
O braço esquerdo estava no limite.
O Pirata do Espaço passou de cento e dez quilômetros.
Rita começou a recalcular.
— Joe, quando eu mandar, você precisa soltá-lo e mudar de direção imediatamente.
— Ainda não.
— Eu sei.
Varan tentou girar o torso.
Joe percebeu que não teria força suficiente para impedir outra tentativa semelhante.
O braço esquerdo estava no limite.
Uma nova sequência de alertas surgiu diante de Rita. A garra de Varan havia penetrado ainda mais profundamente na blindagem, comprometendo parte dos mecanismos da articulação.
— Integridade em quinze por cento! — avisou ela. — Não vamos conseguir mantê-lo preso por muito mais tempo!
Joe continuou segurando.
— Então me avise assim que estivermos longe o bastante.
Rita voltou os olhos para os cálculos.
— Para soltá-lo?
Joe encarou Varan através do visor.
— Para acabar com Valgger e com esse robô-bomba de uma vez por todas.
Rita compreendeu.
Não era suficiente abandonar Varan no espaço e esperar pela explosão. Enquanto seus sistemas continuassem funcionando, Valgger ainda poderia tentar alterar a trajetória, retardar a reação ou encontrar alguma forma de transformar aqueles últimos segundos numa ameaça à Terra.
Era preciso terminar a batalha. E Joe sabia exatamente como.
A altitude continuou aumentando.
Cento e vinte quilômetros.
Cento e trinta.
Varan acionou novamente os propulsores laterais e tentou torcer o corpo na direção do planeta. Joe respondeu imediatamente, usando toda a força restante do braço direito para manter o inimigo apontado para fora.
O braço esquerdo do Pirata do Espaço cedeu alguns centímetros.
Metal continuou se partindo.
— Joe!
— Quanto falta?
Rita examinou os números.
— Continue!
O núcleo de Varan pulsava numa luminosidade quase branca. A energia acumulada irradiava por toda a estrutura da máquina, e pequenas descargas percorriam as placas de sua blindagem.
No interior do robô-bomba, Valgger observava os indicadores sem qualquer alteração em sua expressão.
O alvo estava cada vez mais distante.
A possibilidade de completar a missão diminuía a cada segundo.
Mesmo assim, aumentou novamente a potência dos motores.
O Pirata do Espaço foi sacudido.
Rita viu a aceleração nos instrumentos.
— Continue segurando! A propulsão dele está ajudando!
Varan continuou impulsionando os dois para longe da Terra.
Cento e quarenta quilômetros.
Cento e cinquenta.
Abaixo deles, o planeta já dominava o horizonte como uma gigantesca superfície azul e branca. Agrihan desaparecera completamente àquela distância.
Rita recalculou uma última vez.
Os números se estabilizaram.
— Joe!
Ele não respondeu.
— Conseguimos! Estamos longe o suficiente!
Joe imediatamente preparou os controles.
— Tem certeza?
— Se continuarmos mais, o braço não vai resistir.
O alerta estrutural confirmou suas palavras.
Dez por cento.
Oito.
Varan fez uma nova tentativa de rotação.
Joe percebeu que seria a última que conseguiria conter.
— Então é agora.
Rita segurou-se ao assento.
— Agora!
Joe liberou Varan e, no mesmo instante, acionou os propulsores do Pirata do Espaço em potência máxima.
As duas máquinas se separaram violentamente.
Varan continuou avançando pelo impulso acumulado, afastando-se ainda mais da Terra, enquanto o Pirata do Espaço recuava em sentido contrário.
Valgger reagiu imediatamente.
Os propulsores laterais acenderam.
Varan começou a girar.
Devagar.
Depois, mais rapidamente.
Sua cabeça lupina voltou-se outra vez na direção do planeta.
Rita percebeu.
— Ele ainda está tentando voltar!
Joe já sabia.
— Eu esperava por isso.
O Pirata do Espaço estabilizou-se.
Varan completou a rotação e começou a direcionar os motores novamente para a Terra.
Mas, pela primeira vez, havia uma enorme distância entre ele e seu objetivo.
E também entre ele e o Pirata do Espaço.
Joe alinhou a mira.
Rita acompanhou os dados.
— Reação do núcleo entrando em estágio crítico!
Varan acelerou.
— Ele vem!
Joe não desviou.
O alvo crescia no visor.
A silhueta lupina.
As garras ainda iluminadas.
O núcleo brilhando no centro do peito.
Valgger avançava pela última vez.
Joe colocou a mão sobre o comando de disparo.
— Acabou, Valgger.
Varan continuou vindo.
Joe acionou o sistema.
— TORPEDO VOADOR, FOGO!!!
O armamento foi lançado.
O torpedo atravessou o espaço em velocidade crescente, deixando atrás de si um rastro luminoso enquanto avançava diretamente contra Varan.
Valgger detectou o projétil.
Tentou alterar a trajetória.
Tarde demais.
O Torpedo Voador atingiu Varan em cheio.
Por um instante, a silhueta do lobisomem mecânico gigante desapareceu dentro do impacto.
Então o núcleo explodiu.
Uma enorme esfera de luz expandiu-se no espaço.
As placas de Varan foram despedaçadas quase instantaneamente. Braços, fragmentos da cabeça lupina e partes da fuselagem desapareceram dentro da reação em cadeia enquanto o brilho crescia até envolver completamente o robô-bomba.
No cockpit condenado, os instrumentos de Valgger se apagaram um após o outro.
O capitão permaneceu imóvel diante dos controles.
Sem grito pedido de socorro algum, apenas o reflexo branco da explosão iluminando seu rosto. Por um breve instante, Valgger olhou para a imagem distante da Terra.
A missão não seria concluída.
Então a luz o alcançou e Varan desapareceu.
A explosão se expandiu silenciosamente no vazio, transformando-se numa gigantesca esfera luminosa antes de começar a dissipar-se.
No cockpit do Pirata do Espaço, Joe e Rita permaneceram observando.
Nenhum dos dois comemorou imediatamente.
Rita foi a primeira a verificar os instrumentos.
— A onda de choque está se dissipando.
Joe manteve os olhos no ponto onde Varan estivera.
— E Agrihan?
Ela consultou os dados recebidos da rede.
Alguns segundos se passaram.
— Janus-3 continua operacional.
Joe finalmente relaxou as mãos sobre os controles.
Rita acrescentou:
— Nenhum dano registrado na ilha.
Silêncio.
A luz da explosão diminuía lentamente diante deles.
Joe respirou fundo.
— Conseguimos.
Rita olhou para ele.
— Sim.
O Pirata do Espaço começou a girar lentamente na direção da Terra.
Muito abaixo, o planeta ocupava quase todo o horizonte.
Joe observou-o por alguns instantes.
As estações destruídas não voltariam.
As pessoas mortas por Valgger também não.
Mas aquela estação continuava de pé.
Joe acionou os motores.
— Vamos voltar.
— Certo.
O Pirata do Espaço iniciou a descida.
Atrás deles, os últimos vestígios de Varan desapareceram na escuridão.
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Algumas horas depois, na base da Ilha Akane, o ambiente havia finalmente recuperado parte de sua rotina.
O Pirata do Espaço permanecia no hangar principal, cercado por plataformas de manutenção. O braço esquerdo ainda exibia os danos provocados pelas Garras de Stak, enquanto técnicos trabalhavam nos reparos mais urgentes. A máquina havia voltado bastante avariada, mas inteira.
E Janus-3 continuava funcionando.
Nos corredores da base, porém, a preocupação estava longe de terminar.
Professor Tobishima caminhava ao lado do chefe Sólus, ambos deixando a sala de comunicações depois de mais uma longa conversa com o conselheiro Yoshida, que trazia notícias da reunião do Ministro de Defesa com o Primeiro-Ministro.
— O governo confirmou que manterá a mesma posição por enquanto — comentou Tobishima. — Nenhuma declaração oficial sobre a verdadeira natureza dos ataques.
Sólus manteve as mãos cruzadas às costas.
— Mesmo depois de Agrihan?
— Principalmente depois de Agrihan. Os americanos pediram mais tempo para coordenar uma posição comum. O primeiro-ministro aceitou, mas deixou claro que não pretende sustentar o silêncio indefinidamente.
Sólus olhou para ele.
— E você?
Tobishima demorou um pouco para responder.
— Continuo da mesma opinião de que esconder a verdade pode causar mais danos do que revelá-la.
— Também acredito.
Tobishima suspirou.
— O problema é convencer vários governos disso ao mesmo tempo.
Sólus esboçou um discreto sorriso.
— Em Gailar, logo no início de nossa era espacial, isso também costumava ser muito mais difícil do que os livros de história gostam de admitir.
Tobishima ia responder quando um grito ecoou pelo corredor.
— MAIS UM PONTO PARA A TERRA!
Os dois pararam.

Outro protesto veio quase imediatamente:
— Sabu! Liriana! Quando é que vocês vão deixar a gente jogar?!
Tobishima fechou os olhos por um instante.
Sólus inclinou ligeiramente a cabeça.
— Reconheço essas vozes.
— Infelizmente, eu também.
Os dois seguiram o barulho até a sala de simulação.
Quando a porta automática se abriu, encontraram uma cena bastante diferente daquela que ocupava as salas de comando poucas horas antes.
Sabu estava sentado diante de um dos consoles do simulador, inclinado para a frente, como se a sobrevivência da Terra dependesse do resultado. No assento ao lado, Liriana mantinha a mesma concentração, embora seu sorriso denunciasse que estava se divertindo muito mais do que admitiria.
Jen, Bidkon e Gen acompanhavam a disputa logo atrás.
E agora havia dois novos participantes.
Joe permanecia do lado de Sabu, de braços cruzados, analisando a tela como se estivesse diante de um mapa de batalha real.
Rita fazia exatamente o mesmo atrás de Liriana.
Tobishima observou aquela disposição por alguns segundos.
— Estou vendo que agora temos técnicos especializados.
Gen apontou para os dois.
— Joe representa a Terra.
Bidkon completou:
— E Rita está assessorando Gailar.
Joe corrigiu imediatamente:
— Eu apenas fiz algumas observações.
Liriana não tirou os olhos da tela.
— Ele já fez onze.
Rita sorriu.
— E reclamou de quatro decisões do Sabu.
— Porque quatro estavam erradas — respondeu Joe.
Sabu protestou:
— Eu ganhei a última rodada!
— Depois de quase bater seu próprio robô-bomba numa montanha.
— Mas não bati.
Joe fez uma pequena pausa.
— Por isso eu disse “quase”.
Rita lançou-lhe um olhar divertido.
Joe percebeu.
Por alguns segundos, os dois simplesmente sorriram um para o outro.
Nada precisava ser explicado.
A discussão que haviam tido antes, o medo durante o combate e tudo o que acontecera em Agrihan não tinham desaparecido. Mas também não permaneciam entre eles como uma barreira.
Estavam novamente lado a lado.
Tobishima cruzou os braços.
— Joe. Rita.
Os dois olharam imediatamente para ele.
— Professor.
— Vocês não deveriam estar cuidando da manutenção do Pirata do Espaço, junto com o senhor Bidkon?
Sabu afastou discretamente as mãos dos controles.
Gen e Ippei deram um passo para trás.
Bidkon permaneceu exatamente onde estava.
Antes que qualquer deles pudesse inventar uma explicação, Rita tomou a palavra.
— Professor Tobishima, os reparos estão adiantados. A equipe de Bidkon deixou todos os procedimentos especificados para o pessoal do turno da noite. Como representante da comitiva gailariana, tomei a liberdade de dispensar a equipe por algumas horas.
Tobishima olhou para Bidkon.
Ele confirmou com um movimento de cabeça.
— O diagnóstico estrutural já foi concluído. Não há nenhuma intervenção que precise ser feita antes do próximo turno.
Joe acrescentou:
— Na verdade, professor, a dispensa valeu para todos nós.
Tobishima encarou-o.
Joe permaneceu sério durante dois segundos.
— Por recomendação da representante da comitiva.
Rita virou lentamente o rosto para ele.
— Não tente colocar tudo na minha conta.
Joe finalmente sorriu.
Tobishima conteve a própria expressão.
— Entendo.
A tela diante deles emitiu um sinal sonoro.
Sabu levantou os braços.
— Dez!
Liriana apontou imediatamente para o placar.
— Dez para mim também.
Tobishima aproximou-se.
— E quanto está o placar?
Joe respondeu:
— A Terra empatou. Dez a dez.
Gen fez uma careta.
— Na verdade, é Sabu dez, Liriana dez. Esses dois tomaram conta do simulador e não deixam mais ninguém chegar perto.
— Protesto — disse Sabu. — Eu estava defendendo a honra da Terra.
— Há quase duas horas? — perguntou Bidkon.
Liriana virou-se para ele.
— Você também ficou torcendo.
— Observar não é participar.
— Você sugeriu três manobras.
— Observação técnica.
Joe assentiu.
— Concordo.
Rita olhou para ele.
— Naturalmente.
Tobishima observou a tela.
Dois robôs-bomba digitais manobravam sobre uma paisagem alienígena, acompanhados por indicadores de pontuação e danos.
— Gostaria apenas de lembrar que isto é um simulador de treinamento — disse ele. — Não um jogo.
Todos ficaram em silêncio.
Sabu olhou para Liriana.
Liriana olhou para Sabu.
Tobishima deixou o silêncio durar mais alguns segundos.
— Mais uma hora.
Vários rostos se iluminaram.
— Depois disso, vão todos descansar. Sem discussão.
— Sim, senhor! — responderam quase em coro.
Sabu imediatamente voltou aos controles.
— Certo. Agora eu desempato.
Liriana sorriu.
— Você disse isso nas últimas quatro partidas.
— Desta vez tenho assistência técnica.
Joe inclinou-se sobre o console.
— Primeiro, pare de atacar de frente.
Rita fez o mesmo do outro lado.
— Liriana, ele sempre tenta abrir pela direita depois que perde terreno.
Joe ergueu os olhos.
— Rita.
Ela sustentou tranquilamente o olhar.
— O quê?
— Isso é informação privilegiada.
— Isso se chama estratégia, Joe.
Ele reconheceu a frase.
E começou a rir.
Rita também.
Sabu e Liriana voltaram à partida, enquanto Gen e Ippei reclamavam que aquilo já não podia mais ser chamado de competição justa. Bidkon iniciou uma explicação sobre a inexistência de qualquer regra formal contra orientação externa, provocando imediatamente novos protestos.
Tobishima observou o grupo por alguns instantes.
Então saiu da sala. Sólus o acompanhou.
Os gritos da nova partida continuaram atrás deles.
— Professor — disse Sólus quando já estavam alguns metros adiante.
— Sim?
— Não deveria impor um pouco mais de disciplina?
— Talvez — respondeu. — Mas essa pequena confraternização entre amigos também é uma amostra do que esperamos para nossos povos.
Sólus observou a sala por mais alguns segundos.
— Entendo.
Tobishima sorriu discretamente.
— Então, por hoje, mais uma hora não fará mal.
Nesse instante, ouviu-se outro grito:
— Onze a dez para Terra!
E um outro protesto:
— Onze a dez para gailar!
E mais outro:
— Foi ponto duplo.
E ainda mais um outro:
— Quando é que vão deixar a gente jogar?
Tobishima voltou a caminhar.
— Integração nem sempre é silenciosa.
Sólus esboçou um sorriso e seguiu com ele pelo corredor.
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