A VOLTA DO PIRATA DO ESPAÇO

1 Ganhe de novo os céus, Pirata do Espaço!


Nevasca devora o Oceano Antártico. O navio de pesquisa japonês Akatsuki-V corta gelo com metal rangendo, quase uma década depois a grande vitória da humanidade, ou do só Japão, contra invasores da "Estrela" Gailar.


Ponte de comando afundada em luz vermelha pulsante. Comandante Sato fixa os monitores, cabelos grisalhos refletindo tensão.

— Sonda em quatro mil metros parou de ecoar, senhor. Como se o oceano, tivesse sumido.


O Alarme grave ressoa nas paredes, enquanto o radar explode.

— Oscilação Takion! Radiação fora da escala!


Rádio chia estática pura. Pela janela, nevasca congela no tempo. Ícone do navio apaga pixel por pixel no monitor.

— Isso não é natural. Soem alarme geral!


Exterior, sob uma noite absoluta. Cúpula de luz negra distorce espaço ao redor do Akatsuki-V. Microssegundo depois, implosão silenciosa. Apenas vapor sobe do círculo calmo no gelo. Vazio onde havia vida

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CONSELHO DE SEGURANÇA – GABINETE DO CONSELHEIRO YOSHIDA, DIA SEGUINTE.


Chuva açoita os vidros blindados do gabinete, emoldurando os jardins Imperiais sob Tóquio acinzentada. O Conselheiro Yoshida permanece imóvel diante da janela, a luz fria reflete-se em sua têmpora reflexos frios da luz azul. Mãos atrás, segurando uma a outra, uma postura de décadas em alerta permanente.

ASSESSOR KOMASA:

- Conselheiro, o relatório do Akatsuki-V está aqui. Mas, o Ministro da Defesa já emitiu uma nota preliminar classificando o caso como "anomalia climática severa". Ele não vai gostar se souber que o senhor está ativando protocolos de Táquion sem passar pelo Gabinete de Crise.

CONSELHEIRO YOSHIDA:

(Vira-se lentamente, com um sorriso cansado)

- Komasa, quando eu era o ministro, treinei o atual quando ele ainda era um jovem assistente na Dieta. Ele me mantém aqui como 'Conselheiro Pessoal' justamente porque sabe que eu vejo o que ele não pode admitir em público. Ele precisa da "nota oficial" para a imprensa, mas ele dorme melhor sabendo que eu estou vigiando o que as câmeras não captam.

KOMASA:

(Ainda hesitante)

- Eu entendo, senhor. Mas o senhor mesmo disse que queria se aposentar este ano e voltar para sua casa em Kamakura.

YOSHIDA:

(Um olhar sombrio cruza seu rosto)

- E eu pretendia. Mas quando o Dr. Yan enviou o sinal sobre a comitiva, e esses "acidentes" no Antártico começaram a se acumular, percebi que o destino não aceita minha carta de demissão. O oitavo desaparecimento em cinco anos não é coincidência, Komasa.

KOMASA:

(Ajustando a postura, mais confiante)

- Entendido, Conselheiro. Vou manter os canais de monitoramento de Táquion sob sua autoridade direta. O Ministro será informado apenas dos "resultados técnicos" conforme o senhor julgar necessário.

YOSHIDA:

-Exato. Deixe a política para os holofotes. Agora, coordene com a Base Akane sobre a chegada da comitiva. Se algo está seguindo o rastro da Rita, eu quero ser o primeiro a saber. Estamos à beira do maior momento histórico da civilização humana. Velhos fantasmas do passado não estragarão isso. Não sob minha deste governo.


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Ilha Akane (Akane-jima)


O laboratório da Sala de Comunicações Avançadas permanecia envolto em penumbra azulada, iluminado apenas pelos painéis. A projeção holográfica do Professor Yan flutuava com precisão quase sobrenatural, com anos-luz reduzidos a uma simples conversa face a face.


Professor Tobishima observou a imagem por um instante, comentário quase distraído escapando entre os dentes.

- É curioso. Anos-luz de distância, e parece que estou falando com alguém do outro lado da base em uma ligação comum.


Yan esboçou um sorriso contido, gesto técnico de quem já internalizou o impossível.


- Essa foi exatamente a minha reação inicial em Gailar. Levamos décadas até aceitar que não havia atraso algum.


"Buracos de minhoca estáveis," murmurou Tobishima, admirando os gráficos quânticos dançando ao fundo.

- Quem diria que a grande revolução da comunicação não viria de satélites, mas de atalhos no próprio espaço-tempo.


DR. YAN:

- Essa tecnologia foi desenvolvida e aperfeiçoada em Gailar, Tobishima. Ela surgiu na mesma época em que eu e Rita estávamos afastados, primeiro durante a expedição Gelmus, incluindo o período de hibernação na Terra, depois, durante todos aqueles anos em que estivemos ao seu lado, lutando pela defesa do Japão. Confesso que, ao retornar e encontrar esse avanço, até para mim isso causa uma sensação de que estou presenciando algo místico.

(Ambos riem brevemente)


Tobishima prosseguiu, tratando do assunto diplomático.

- O governo japonês insistiu em transparência institucional. A ONU já tinha protocolos para contato com inteligências não humanas. Agora, pela primeira vez, eles serão aplicados de verdade. Fora daquele contexto de guerra.

- Tudo organizado em sigilo até aqui — continuou Yan. — Comitiva diplomática e científica completa. Intercâmbio tecnológico, cultural e social, enfim parceria entre povos.

- Um passo necessário que agora já foi noticiado pelos órgãos oficiais — concluiu Tobishima — soltando suspiro curto. — Estou me preparando para viajar amanhã cedo. Pausa irônica. — Infelizmente, sem buraco de minhoca ou teletransporte. Isso ainda é ficção por aqui.


Yan inclinou a cabeça em solidariedade leve. Tobishima sorriu de canto, mas a expressão morreu quando Yan prosseguiu:

- Rita fará parte da comitiva.


Silêncio laboratorial cortante. Tobishima não respondeu de imediato.

- Cientificamente, faz sentido.- disse por fim, voz medida. -Culturalmente também.- Pausa mais longa. -Mas eu me pergunto se Joe aceitará.


Yan sustentou o olhar holográfico, firme.

- Tentei demovê-la. Expliquei as implicações, assim como as consequências.

- E não funcionou.- concluiu Tobishima.

- Não- confirmou Yan.- Ela escutou tudo. E manteve a decisão.


Tobishima cruzou os braços, aproximando-se do holograma.

- Conhecendo Joe como conheço, ele vai temer se tornar um fardo.


Yan assentiu uma vez, grave.

- Esse medo é racional.

- E é por isso que ele tentou desaparecer. — finalizou Tobishima.


Yan ergueu levemente a sobrancelha, intrigado.


Tobishima continua:

- Joe sempre foi um rapaz teimoso, mas tinha senso de dever. Depois da partida do Senhor e Rita para Gailar, ele seguiu focado nas competições de voo, mas eu diria que ele ficou mais suicida em suas apresentações, o que me deixou muito preocupado. Depois, em todo lugar que ele ia, as pessoas o idolatravam e isso passou a incomodá-lo. Até que ele resolveu fugir de tudo. Buscou se isolar. Tentei dissuadi-lo, mas não havia como convencê-lo, até porque ele estava sendo muito procurado. Embora sempre cordial, ele nunca foi atraído por essa exposição em TV, rádio ou reuniões com políticos e celebridades. Consegui para ele um emprego num hangar isolado em Okinawa, sob a administração de um velho amigo meu em Okinawa. — continuou Tobishima. — Um hangar pequeno e antigo. Trabalho mecânico, manutenção civil. Nada de Pirata do Espaço. Nada de imprensa. Nada que o lembrasse de Rita.


Yan compreendeu.

- E tudo isso ajudou?

- Não- disse Tobishima, sem hesitar. -Ele apenas se escondeu no novo dever. A mesma fachada de sempre, mas com um constante olhar melancólico, segundo o que me passa esse meu amigo.


Yan fechou os olhos por um instante.

- Eu vi uma luz nos olhos de Rita, quando ela soube sobre a comitiva para viagem à Terra. Os membros escolhidos são novos amigos que ela fez em meu centro de pesquisas, todos empolgados em conhecer novos mundos, inclusive uma prima distante que conhecemos após esses séculos em hibernação. Enfim, Rita parece saber, assim espero, como lidar com seu coração. Mas eu não sei se o Joe estará disposto a lidar com isso, como o senhor muito bem frisou. Por isso, meu caro Tobishima, como você é um segundo pai para ela, peço que zele por ela. É possível que ela fique de vez na Terra, mas se ela voltar, que ao menos seja com o coração em paz.

TOBISHIMA

(Com um aceno solene)

- Esse pedido nem precisava ser feito. Conte sempre comigo, Professor Yan.


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O sol da manhã ilumina o hangar principal. O som é o de ferramentas manuais e o eco das vozes no amplo espaço. IPPEI e GEN trabalham em uma das turbinas auxiliares. Gen agora veste seu macacão de mecânico com o mesmo entusiasmo de sempre, finalmente parte da equipe.

GEN:

(Limpando o suor da testa)

- Ippei, você acha que o Professor vai nos deixar testar o novo sistema de resfriamento do Pirata do Espaço hoje? Eu calibrei os sensores três vezes!

IPPEI:

(Com um sorriso leve, observando o entusiasmo de Gen)

- Calma, Gen. O Professor está com a cabeça em outro lugar hoje. Mas seu trabalho está bom. Você finalmente aprendeu a não deixar parafusos sobrando, hein?

GEN:

(Orgulhoso)

- Eu disse que seria um membro digno da equipe! Joe ficaria orgulhoso se visse como este hangar está organizado.


De repente, o som estridente de uma motocicleta Royal Star/Venture esportiva invade o pátio ao som de hard rock. Uma manobra brusca faz os pneus cantarem antes de parar na porta do hangar. SABU salta da moto, ainda usando o uniforme de gala da Escola de Cadetes da Força Aérea, mas com a gravata frouxa e o quepe de lado.

GEN:

(Tossindo com a poeira)

- Sabu?! O que é isso? Você veio na balsa das nove com essa moto velha?

SABU:

(Tirando o capacete com um sorriso largo)

- Vim na balsa, sim, Gen! Fiz questão de ser o primeiro a descer. Eu não ia deixar minha "beleza" pegando poeira em Yokosuka! E velha é aquela vara de pescar que você usa. Os peixes morrem de tétano só de serem fisgados.

IPPEI:

(Rindo e balançando a cabeça)

- Você é louco. O Professor esperava que você viesse no voo de transporte oficial amanhã.

SABU:

- Voo oficial? Aquilo é um ônibus com asas, Ippei. Eu sou um piloto de elite, mereço uma entrada com estilo. Onde está o Professor? Ele sentiu minha falta, não sentiu?

TOBISHIMA sai de sua sala técnica, olhando para Sabu com uma mistura de cansaço e afeto paternal.

- Não sei que barco você pegou neste horário para vir aqui com essa moto barulhenta, mas estou feliz em tê-lo de volta, Sabu. Como foram as coisas na Escola de cadetes da JASDF, finalmente aprendeu um pouco de disciplina?


SABU:

(Fazendo uma saudação militar exageradamente torta)

- Professor, o Diretor da Academia disse que eu sou "único", mas ele também disse que se eu voltasse lá, ele pediria demissão.


IPPEI:

(Rindo alto)

- Ele continua o mesmo garoto travesso. Pelo menos desta vez ele está usando calças!

SABU:

- Vocês ainda se lembram disso? Eu era criança ainda. Agora eu sou um homem responsável!

(Sabu se aproxima de Tobishima, o tom mudando ligeiramente para uma curiosidade ansiosa)

- Mas diga, Professor, quando é que o Joe vai voltar "daquele hangar escondido" em Okinawa? A base não é a mesma sem ele.

TOBISHIMA:

(Sério, em tom de advertência)

-Isso é ele quem vai decidir, Sabu. E não fale sobre isso. O Joe pediu discrição absoluta. Não fique tagarelando isso aos quatro ventos, ou o "homem responsável" vai acabar de volta na faxina do hangar.

GEN:

(Interrompendo, com os olhos brilhando)

- Assim que a Rita chegar, o Joe virá correndo! Vocês vão ver só!

IPPEI:

(Cruzando os braços, pensativo)

- Ou ele irá se afastar de vez, Gen. Dez anos é muito tempo.

GEN:

- Não diga bobagens, Ippei! Você sabe que eles... bem... eles se gostam. É óbvio!

IPPEI:

- Sei lá, Gen. Se o Joe quis se afastar de tudo por causa da lembrança dela, e você sabe, aquele lance lá da "biologia" que o Joe falava. Você sabe.

GEN:

(Confuso)

- Que lance de "biologia" é esse? Do que você está falando?


IPPEI continua sem dar atenção à pergunta de Gen.

- Mas tem outra coisa que me intriga, Professor Tobishima. Pelo que estudei, só de curiosidade, de astrofísica, eu achei que a Rita, quando foi embora, só chegaria no planeta natal dela quando todos nós aqui já estivéssemos na "terra dos pés juntos".



TOBISHIMA:

(Ajustando os óculos, assumindo o tom de mentor)

- A ciência gailariana avançou rápido, Ippei. Segundo pude apurar nas comunicações com Yan, eles desenvolveram recentemente a tecnologia de Dobra Espacial. Nem o Prof. Yan e Rita sabiam que a nave que os levaram de volta, já estava com essa tecnologia. Por isso a comitiva não demorou muito tempo para retornar.

GEN:

- Eu lembro do Joe ter ido com o Pirata do Espaço atrás daquela nave para dar um último adeus à Rita, ele deve ter visto isso.

SABU:

(Com os olhos brilhando)

- Eles vão ensinar isso para a gente quando chegarem, Professor?


TOBISHIMA:

- Não estou por dentro do currículo acadêmico da comitiva, Sabu, mas na minha opinião, e quase certo que sim. A diplomacia deles é baseada na troca de conhecimento.


SABU:

- Puxa! Não vejo a hora de pilotar o "Pirata do Espaço" para além do sistema solar e ainda voltar para a Terra a tempo de assistir " Takeshi-jo "¹. Perder o trecho do ''Cogumelo Pop!'' é que seria uma tragédia intergaláctica!

GEN:

(Coçando a cabeça, genuinamente confuso)

- Sei não, esse negócio de dobra parece perigoso. Além do mais, como é que se dobra o espaço? O espaço não é vazio?

IPPEI:

(Suspirando, com um sorriso de canto)

- É por isso que eu ainda tenho medo de trabalhar com você, Gen. Tem horas que parece que você faltou a todas as aulas de física básica.

SABU:

(Provocando, aproximando-se de Gen)

- Astrofísica? O Gen não sabe nem que dia tomou o último banho. A única "dobra" que ele conhece é a da barriga depois do almoço!

GEN:

(Vermelho de indignação)

- Ah, seu moleque atrevido! Você vai ver quem é o sujo aqui! Volta aqui!

GEN sai correndo atrás de SABU, que foge rindo pelo pátio, saltando sobre caixas de ferramentas com a agilidade de um cadete. IPPEI apenas observa, balançando a cabeça com um sorriso contido.


TOBISHIMA:

(Intervindo com autoridade)

- Vocês, parem de brincadeiras e continuem os preparativos! Recebi há minutos a informação vinda do Prof. Yan, que a comitiva já chegou em órbita da Terra e entrou em contato com o governo. Aparentemente, antes da apresentação formal e oficial, a Rita fez um pedido: ela e seus "amigos", como ela se referiu aos outros membros, farão uma visita à Base Akane. É aqui que todos se alojarão. E isso é daqui a três dias!!!



SABU / IPPEI / GEN(Em uníssono, em choque)

- 3 DIAS?!!!


TOBISHIMA:

- Sim. E embora ela tenha exigido que seja um encontro informal, sem muito protocolo, temos que ter tudo preparado. O Pirata do Espaço precisa estar impecável. Agora, ao trabalho!


TOBISHIMA (PENSAMENTO)

"A vida está voltando para esta base finalmente". (Ele olha para o horizonte, na direção sul) Como eu gostaria que você estivesse aqui para ver isso, Joe.


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OKINAWA – HANGAR JUNICHI – (INTERVALO PARA ALMOÇO)


Um hangar rústico, com o som distante das ondas do mar de Okinawa. O calor é úmido. O SENHOR JUNICHI , um homem de idade, com olhar sábio e discreto, observa de longe seus funcionários através da janela de seu escritório.

O refeitório é um espaço simples: mesas de metal, uma TV antiga suspensa no canto e o cheiro de obentō ² e chá verde. TAKESHI YAMATO, está sentado em um canto isolado. Ele tem os cabelos mais longos, caindo sobre os olhos, e uma barba bem aparada, mas que lhe confere um ar de "marginalizado" no padrão japonês. Ele come em silêncio, falando apenas o necessário.

TV (TELEJORNAL)

(Voz da apresentadora)

"...e o Ministério da Defesa continua sem respostas sobre o desaparecimento do Akatsuki-V no Oceano Antártico. Especialistas não descartam anomalias magnéticas severas na região."

COLEGA 1 (HIROO):

(Apontando para a TV com os hashis)

- Anomalia magnética? Conta outra! Isso aí tem dedo de ET, certeza. Esses gailarianos estão por trás disso.

TAKESHI:

(Sem tirar os olhos do seu obentō, voz calma e profunda)

- Antártida? As notícias da época do final guerra contra Geldon diziam o esconderijo dele ficava no Ártico. Os destroços do que sobrou daquela, base, hoje, estão sob supervisão da OTAN, e até hoje, é uma região vigiadíssima, quase uma nova 'área 51'.

COLEGA 1 (HIROO)

- Ah, Takeshi, você é muito ingênuo para um cara tão sério! Você acha mesmo que achei que esses invasores fariam uma nova base perto da mesma região da antiga? Isso é tática de distração. E outra, eles se fingem de bonzinhos, mandam essa "comitiva diplomática" que a TV não para de mostrar, e enquanto isso... zapt! Levam nossos navios.

TV (TELEJORNAL)

(Imagens da cerimônia oficial em Tóquio, com bandeiras da ONU e do Japão)

"...a chegada da comitiva gailariana é vista como um marco histórico. A heroína Rita, que lutou ao lado das forças de autodefesa há dez anos, lidera o grupo de cientistas. Mas a pergunta que todo o Japão faz é: onde está Joe Kaisaka? Veremos o reencontro do nosso herói nacional com sua colega interplanetária?"

COLEGA 2 (NORIO)

- Sabe, eu acho que ele virou agente secreto do governo.

COLEGA 1 (HIROO)

(Rindo alto)

- Que nada! O Joe Kaisaka deve estar em alguma cobertura em Roppongi, bebendo champanhe com modelos.

TAKESHI:

(Sente o peso das palavras, os nós dos dedos ficam brancos ao segurar o copo de chá, mas ele se contém)

- Vocês estão fazendo muito barulho, acho que vou para outro canto. Com licença.

SENHOR JUNICHI:

(Aproximando-se, intervindo com autoridade tranquila)

- Deixem o Yamato em paz, rapazes. E Takeshi, o motor do Cessna precisa de uma revisão final. Pode cuidar disso?

TAKESHI:

(Levantando-se, grato pela oportunidade de sair daquele assunto)

- Sim, Senhor Junichi. Já estou indo.- caminha em direção ao trabalho. Ele para por um segundo, olhando para o céu azul de Okinawa.

O expediente acaba e todos vão para casa, enquanto Takeshi Yamato se retira para os fundos da área do hangar, num quartinho, que antes era um pequeno depósito de peças miúdas, que o Sr. Junichi lhe reservou para o 'misterioso' funcionário não ter que ficar se expondo na rua. Ali, se localiza uma cama com um singelo criado-mudo ao lado, um pequeno guarda-roupa, e um banheiro adaptado. Sua rotina era acordar fazendo exercícios de flexões, abdominais, prancha e agachamentos, mais para manter a mente sã naquele cubículo, do que exercitar o corpo e tentar fugir de memórias intrusivas que o torturavam, num misto de auto-crítica (como eu deixei me levar a este estado que minha vida se tornou?) e angústia, em saber que alguém cuja volta deveria o deixar feliz, na verdade coloca em conflito sua esperança e sua razão.


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Na base da ilha Akane, pátio está impecável. O sol reflete no metal polido do hangar. Yoshida e Komasa estão posicionados à frente, vestindo ternos escuros formais, contrastando com a equipe técnica da base. Tobishima está ao centro, visivelmente emocionado, mas mantendo a postura de anfitrião.

Ippei e Gen estão um passo atrás, observando Sabu, que ostenta um macacão azul de cadete da JASDF, impecavelmente limpo, mas com as mangas levemente dobradas.

GEN:

(Sussurrando, cutucando Ippei)

- Ei, Sabu, é verdade que cadetes, antes de se formarem como tenentes, não podem voar?

IPPEI:

(Com um sorriso sarcástico)

- Pois é, por que você está se exibindo assim, sendo que nem pilotou nada na Escola? Esse azul todo é para combinar com o céu que você só viu da janela da sala de aula?

SABU:

(Ajustando a gola do macacão com um desdém meio que performático)

- Para início de conversa, eu não precisei voar lá. Só aprender a ser discipl... digo, aprender algumas teorias de voo que o Professor Tobishima "pediu" e eu tirei de letra. Eu até pensei em continuar, ser piloto da JASDF mas minha casa é aqui na Base Akane.

IPPEI:

- Olha, Sabu, se aprender disciplina é "teoria", sendo que ainda mais o pedido do Professor foi por livre e espontânea pressão, eu diria que você não aprendeu muita coisa.

GEN:

- Pois é! Não voou, não aprendeu disciplina, só foi para Yokosuka curtir a noite com as garotas da cidade! Dizem que os bares de 'Dobuita Street'³ lá são ótimos para cadetes que gostam de contar histórias de pescador ou de piloto que não decola.

SABU:

(Um sorriso de canto, sem se abalar)

-Não enche, em Yokosuka, eu aprendi a coisa mais importante da aviação: a arte da antecipação. Eu sabia exatamente qual garota ia pedir qual drink antes mesmo dela abrir a boca. Se eu consigo prever o movimento de uma universitária em uma sexta-feira à noite, desviar de um míssil inimigo vai ser como brincar de pega-pega no jardim de infância.


IPPEI:

(Rindo)

- Antecipação em bares? Isso não vai te salvar de um G-Loc a 10 mil metros, Sabu!

SABU:

(O tom fica subitamente mais confiante, quase desafiador)

- Enquanto os outros cadetes estavam aprendendo o que é um manche, eu, ainda criança, já estava lá em cima, sentindo a vibração do 'Pirata do Espaço'. Eu pilotei o G-Tank (Tanque-Pirata) também, eu tinha até um traje igual ao do Joe. A teoria da JASDF é fichinha para quem já dominou tecnologia gailariana na prática. E eu fui para ver se os humanos tinham inventado algo novo. Spoiler: não inventaram.

GEN:

(Cético)

- Pilotar o Tanque-Pirata quando criança não conta, Sabu! O Joe estava te ajudando o tempo todo!

SABU:

- Ele estava lá para garantir que eu não destruísse a base, Gen! Mas o toque no manche... ah, aquele era todo meu. E é por isso que este azul do macacão é para a Rita não se esquecer de que o céu da Terra ainda tem o melhor piloto do sistema solar, depois do Joe, esperando por ela! Se bem que... (pausa ressabiada)...ainda prefiro que ele estivesse aqui também...!



TOBISHIMA:

(Limpando a garganta com autoridade, sem tirar os olhos do horizonte)

- Silêncio, rapazes. Eles acabam de entrar no nosso espaço aéreo.

O som surge primeiro como uma vibração no solo com um zumbido harmônico e profundo, uma frequência que parece ressoar com o próprio ar da ilha. Entre as nuvens, surge uma pequena nave de transporte gailariana, de design elegante e aerodinâmico, descendo em um voo vertical perfeitamente estável.

A nave toca o solo do pátio com extrema suavidade. O som dos motores cessa, deixando apenas o estalo do metal resfriando e o silêncio expectante da equipe.


Conselheiro Yoshida e seu assessor Komasa permanecem em silêncio absoluto, como estátuas de autoridade estatal, apesar da informalidade exigida para aquela ocasião.


A DOUTORA MIDORI (agora principal médica responsável pela clínica da Ilha Akane, com um olhar sereno e observador) aproxima-se de Tobishima.


MIDORI:

(Voz baixa, para Tobishima)

- Professor Tobishima, será que a Rita sabe que o Joe não veio? Que ele não está aqui para recebê-la?

TOBISHIMA:

(Ajustando os óculos, o olhar fixo na escotilha da nave)

- Eu falei com ela pelos comunicadores assim que a nave surgiu no limiar da órbita terrestre. Ela sabe, Midori. Eu a deixei ciente de tudo o que ocorreu nesses quase dez anos. Mas ela continua a mesma garota esperançosa de antes. Ela acredita que, cedo ou tarde, eles se reencontrarão.

MIDORI:

- Eu compreendo e até desconfio do motivo do isolamento dele. Mas tenho esperanças de que tudo será resolvido. Às vezes, a vida imita a arte com finais felizes. Nem tudo precisa ser agridoce, não é?

TOBISHIMA:

(Um suspiro contido)

- Deixemos que os dois decidam, Doutora. Deixemos que eles descubram o que é melhor para ambos.


Tobishima se vira para a equipe e prossegue.

- Pessoal, o encontro pode ser informal, mas não vamos abusar. Primeiro eu, o Conselheiro Yoshida e o Secretário Komasa, entenderam.

YOSHIDA:

(Interrompendo com um toque no ombro de Tobishima, um sorriso raro e cansado)

- Calma, Tobishima. Haverá formalidades demais no encontro oficial no Palácio Akasaka. Relaxe um pouco, não precisa dessa ansiedade toda. Isso estraga a recepção.


A porta da nave se desliza suavemente para o lado. Uma rampa de descida se projeta de forma silenciosa e milimétrica em frente à torre de comando.

Uma figura emerge da penumbra interna da nave. É RITA. Ela veste um uniforme gailariano simples, mas de uma elegância diplomática, substituindo o traje mais "liberal" que costumava usar antes. Surpreendentemente, sua aparência é idêntica à de quase dez anos atrás, com sua juventude praticamente intacta.

O silêncio do pátio dura apenas um segundo.

SABU:

(Gritando a plenos pulmões, quebrando qualquer resquício de protocolo)

- QUEM SE IMPORTA COM FORMALIDADE???!!! É A NOSSA RITA!!!!! ELA VOLTOU!!!!!!!!

Antes que Tobishima pudesse protestar, Sabu, Gen e Ippei disparam em direção à rampa. Assim que Rita toca o solo, o protocolo desmorona. Ela é "sufocada" por um abraço coletivo de Sabu, Gen e Ippei. Lágrimas de alegria correm livremente, tanto dos rapazes quanto da própria Rita.


(Tobishima observando a cena, balança a cabeça com um sorriso de resignação)

- Ora, mas o quê... Ah, quer saber? Eles estão certos. Eles estão absolutamente certos.

Yoshida e seu assessor Komasa apenas observam, mantendo a dignidade, mas é possível ver um brilho de satisfação nos olhos do velho Conselheiro.



IPPEI:

(Limpando os olhos, incrédulo)

- Puxa, Rita... você... você não mudou nada! É como se o tempo tivesse parado para você!

GEN:

(Rindo e chorando ao mesmo tempo)

- Eu diria que está até mais bonita! O ar de Gailar deve ser feito de perfume e juventude!

SABU:

(Sem conseguir conter a emoção)

- Puxa, eu queria beber dessa fonte da juventude gailariana também! Se bem que, no meu caso, eu continuaria feio, só que um feio mais jovem!

RITA:

(Rindo emocionada, segurando o rosto de Sabu)

- Ora, Sabu! Você ficou até mais bonito! Nem parece aquele garotinho que eu conheci. Você cresceu, virou um homem!

GEN:

- É, cresceu por fora, Rita. Porque o cérebro continua o mesmo deserto de sempre!

Rita ri, uma risada que carrega a saudade de quase dez anos. Ela se desvencilha gentilmente e caminha até o Prof. TOBISHIMA. Ele está com os óculos embaçados pelas lágrimas, tentando manter a compostura.

TOBISHIMA:

- Rita, minha filha, que bom ver você de volta em nossa casa.

RITA:

(Abraçando-o com força)

- Eu senti tanto a sua falta, meu "pai terráqueo". Estar aqui de novo, é como se o vazio no meu peito finalmente estivesse fechando.

Ela se aproxima da Dra. Midori. O abraço, seguido do tradicional cumprimento jaonês, é solene e terno.

RITA:

- Midori, o Prof. Tobishima me contou, sinto muito pela perda do seu pai. O Dr. Midori era um grande homem de alma nobre. Eu sempre serei grata a ele.


MIDORI:

(Emocionada)

- Obrigada por suas palavras, Rita. Ele sempre acreditou que a união entre nossos povos era o único caminho. Ver você aqui prova que ele estava certo.

Rita finalmente encara Yoshida e Komasa.

YOSHIDA:

- Rita, é um prazer genuíno revê-la. Você e seus amigos são muito bem-vindos. Este é o meu assessor, Komasa Okumura.

KOMASA:

(Fazendo uma vênia profunda, com a voz trêmula)

- É uma honra incomensurável, Senhorita Rita. Eu lhe devo uma gratidão eterna. Graças a você e ao Joe, meu tio foi salvo dez anos atrás e o nome dele é Akira Okumura⁴.

RITA:

- (Um brilho de reconhecimento nos olhos)

- Akira... eu me lembro dele! Fico imensamente feliz em saber que ele está bem e com saúde.

Enquanto o grupo se encaminha para o hangar, a comitiva de cientistas conterrâneos de Rita observa a cena da rampa. Dois deles conversam em voz baixa, no idioma nativo, o Gailar-emê.

GAILARIANO 1 (GAILAR-EMÊ):

- Tē u-rita e-nēša dēra u-rita dēša rēku u-rita kēva e-māra lō. Mēri u-ane e-vāruk.

(Rita realmente estava certa quando disse que era tratada como parte da família aqui. O afeto deles é algo transbordante).

GAILARIANOS 2 (GAILAR-EMÊ):

- Ēha. Ŋe yēra ga e-diri a-gāla e-šēra; ha-ve ŋe zāru ga u-ane-ta ai ya nēdu-kēva ŋe. Rēn u-ane-ta zāru a-šēru gēla Geldon.

(Sim. E espero que seja assim no resto deste mundo. Embora eu tema que sempre haverá aqueles que não querem se familiarizar conosco. A sombra de Geldon ainda é longa para alguns).

GAILARIANO 3(GAILAR-EMÊ):

(Intervindo, olhando para o horizonte)

- E-kāru qa u-ane-ta nēru nēdu a-gāla e-nēru nā, e-kāru e-wēša.(É o preço que se paga por quem quer conhecer novos mundos. Mas veja aqueles sorrisos, talvez o preço valha a pena).


O calor do asfalto e o cheiro de ozônio da nave gailariana permeiam o ar. Rita, ainda emocionada e com o cabelo levemente desalinhado pelo abraço de Sabu, Gen e Ippei, recompõe-se diante de Tobishima, Yoshida, Komasa e Midori. A comitiva gailariana já está ali, ao lado da rampa, observando a recepção calorosa com uma mistura de curiosidade e respeito.

RITA:

(Com um sorriso largo, gesticulando para o grupo de gailarianos ao seu redor)

- Professor, Conselheiro... estes são os meus amigos e colegas que o meu pai, Prof. Yan escolheu a dedo para esta missão. Eles não vieram apenas como cientistas, mas como parceiros para o que vamos construir aqui.

Rita apresenta a Dra. Kaela Welldelpe, uma mulher gailariana de aparência madura, de pele azulada clara, cabelos louro-escuros, com um semblante que transmite uma calma pragmática e disciplinada, alem de parecer uma pessoa paciente e acolhedora. Veste habitualmente um jaleco sobre roupa amarela com “V” azul, numa inversão das cores usadas pelo Professor Yan.


RITA:

- Professor, Conselheiro; esta é a Dra. Kaela Welldelpe, nossa Chefe de Medicina. Ela é a autoridade máxima de Gailar em biomedicina, exobiologia e regeneração celular. Dra. Kaela, esta é a Dra. Midori, que herdou a clínica da ilha e é uma das nossas mentes médicas mais brilhantes.

DRA. KAELA:

(Fazendo uma vênia curta e elegante, em um japonês impecável)

- Doutora Midori. É um prazer genuíno. Li sua tese de doutorado sobre a fisiologia adaptativa de pilotos em ambientes de alta gravidade. Seus dados sobre a resistência vascular foram...eu diria... esclarecedores. Espero que possamos unir nossa farmacologia para que a biologia não seja um obstáculo à nossa união.

MIDORI:

(Em choque, os olhos arregalados)

- Minha tese? Mas doutora, onde a senhora teve acesso a um trabalho acadêmico tão específico de uma universidade deste planeta?

DRA. KAELA:

(Com um leve sorriso de satisfação intelectual)

- Na sua 'World Wide Web'. Assim que saímos da dobra espacial e estacionamos na exosfera terrestre, onde ficamos algum tempo acertando formalidades com o governo, e durante o período, utilizei seu trabalho como uma das fontes primordiais para estudar o seu idioma e a complexidade dos órgãos humanos. Sua pesquisa é uma base sólida para o que pretendemos construir aqui.

RITA:

(Brincando, com um riso leve)

- Parabéns, Midori! Parece que você se tornou uma referência interplanetária antes mesmo de saber!

MIDORI:

(Maravilhada, olhando para Kaela com admiração)

- Estou sem palavras... A a fluência e a proficiência com que a senhora domina nossa língua em tão pouco tempo... é...é... simplesmente fascinante, Doutora Kaela.

Rita aponta para o homem de postura rígida e olhar de sentinela, que observa o perímetro do hangar. Era um gailariano de dois metros, porte robusto, pele clara arroxeada, cabelos curtos e barba ruiva bem cuidada. Vestia um uniforme verde-escuro, elegante e funcional.


RITA:

O Comandante Sólus, nosso Chefe de Segurança e cuidará para que nossa estadia seja segura para todos.


Sólus:


(Fazendo uma vênia comedida e elegante, com uma voz profunda e calma)

- Conselheiro Yoshida. Professor Tobishima. É uma honra estar em solo terrestre sob circunstâncias tão nobres. Minha prioridade é garantir que a integridade deste intercâmbio seja absoluta. Compreendo que minha vigilância possa parecer excessiva em certos momentos, mas peço que a vejam como o compromisso de um oficial com a paz que todos buscamos.

Tobishima:

(Acenando com um respeito visível)

- Compreendemos perfeitamente, Comandante. No Japão, também valorizamos a discrição , apesar de tudo — olhando rapidamente e um pouco sério para o trio Ippei, Gen e Sabu- a segurança como pilares da diplomacia. Seja bem-vindo.

Sólus:

(Com um leve aceno, um "gentleman" contido)

- Grato, Sr. Tobishima. Estarei à disposição para alinhar nossos protocolos de segurança assim que o Professor permitir.


Rita apresenta o homem de aparência totalmente humana, semelhante à de Rita, com pele clara e cabelos castanho-claros. Tinha jeito de galã e um ar descontraído. Vestia um uniforme amarelado, semelhante a um macacão de mecânico, que reforçava sua aparência prática e despojada. E que já estava trocando olhares entusiasmados com Ippei sobre as turbinas do Pirata do Espaço.

RITA:

- O Engenheiro Bidkon, o mestre da nossa tecnologia de Dobra e Comunicações, além de perito de mecânica aeroespacial avançada. Ele é quem faz a distância entre nossos mundos parecer pequena.

BIDKON:

(Com um sorriso aberto, quase informal)

- Professor Tobishima! É um privilégio ver sua engenharia de perto! Mal posso esperar para discutirmos os núcleos de energia e como integrá-los à nossa tecnologia.

Rita prosseguiu apresentando o homem que registra o momento com sobriedade. Na verdade, um curioso adolescente gailariano, de pele morena e cabelos prateados lisos e claros. Os óculos lhe davam um inconfundível ar de 'quru', um gíria na língua gailarina para o que na Terra, se chamaria de 'nerd'. Vestia uniforme gailariano, tipo estudantil e carregava sempre um pequeno dispositivo avançado, semelhante a um celular, capaz de registrar vozes, imagens e ondas eletromagnéticas.

RITA:

E o nosso archivista e historiador, Thallus. Ele documentará este marco histórico para as futuras gerações de Gailar e da Terra.

THALLUS:

(Acenando com a cabeça)

- A história está sendo escrita aqui, neste pátio. É uma honra testemunhar.


RITA:

E, finalmente, apresento a nossa analista de interação social e cultura e também uma polímata promissora, Liriana. Ela é minha prima e foi a mais entusiasta em "mergulhar" na cultura da Terra através da rede de vocês.

Liriana, uma jovem de beleza delicada e sofisticada, pele clara, rosto oval, olhos verde-acinzentados e cabelos longos, volumosos e loiro-dourados. Lembra discretamente Rita, mantendo identidade própria. Veste uniforme semelhante a um vestido verde-escuro, elegante, com um pingente vermelho no pescoço. Sua aparência combina juventude, inteligência, elegância e serenidade.

Ela dá um passo à frente com uma energia contagiante, percebendo que Sabu está parado a poucos metros, com os olhos arregalados e a boca levemente aberta, em um estado de choque estético absoluto, como se tivesse esquecido como se respira.


LIRIANA:


Professor Tobishima, Conselheiro... Osu! É uma alegria tocar este solo! A Dra. Kaela estudou a biologia de vocês, mas eu também pretendo estudar sua psiquê. (Ela inclina levemente a cabeça, mantendo o contato visual com Sabu) Descobri que a Terra é um mundo de contradições fascinantes. Mal posso esperar para ver se a realidade de Akane é tão vibrante quanto os dados que recebi no espaço!

Ao fundo, Ippei e Gen trocam olhares cúmplices. Ippei morde o lábio inferior para não rir alto, enquanto Gen dá uma cotovelada discreta na costela de Sabu, tentando trazê-lo de volta à realidade.

GEN:

(Sussurrando, entre dentes)

- Sabu, fecha a boca. Tá entrando mosca gailariana aí!

IPPEI:

(Sussurrando, com um sorriso de canto)

- O "Melhor Cadete de Yokosuka" acaba de sofrer uma pane total no sistema de navegação e nem decolou ainda.

SABU:

(Ainda em transe, sem conseguir desviar o olhar de Liriana)

- Eu... eu... (Ele tenta fazer uma saudação, mas acaba apenas ajeitando o macacão de forma desajeitada) Seja bem-vinda, Senhorita 'polimática'... quero dizer...Srta. Liriana. O céu de Akane... é... muito azul hoje, não acha?

LIRIANA

(Rindo com uma suavidade musical, achando a reação dele genuinamente encantadora)

É sim, Sabu-san. Um azul muito promissor


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Depois das apresentações, o grupo foi conhecer o Pirata do Espaço. O som é o de ferramentas distantes e o eco das vozes da comitiva. RITA caminha lentamente em direção ao bico da nave, seus dedos deslizando pela fuselagem com uma familiaridade instintiva.


Ela para por um segundo, olhando para o cockpit vazio no 'olho direito' da nave construída por seu pai. O silêncio do hangar parece amplificar sua solidão.


Tobishima aproxima-se dela, mantendo uma distância respeitosa. Ele percebe que o olhar de Rita busca a presença que preenchia aquele espaço.

RITA:

(Sem se virar)

- Eu vi o pátio, Professor. Eu senti os abraços. Mas eu também percebi o que faltava. Onde o Joe se escondeu de mim? Por que ele não está aqui?

TOBISHIMA:

(Suspira, limpando os óculos com o lenço, o tom paternal e pesado)

- Rita, minha filha, como vou dizer isso? O Joe que você conheceu há dez anos tornou-se um homem que vive distante, e não digo apenas fisicamente, mas mentalmente. Ele se sente indigno de estar aqui, acha que não merece tanto, e existe um paradoxo cruel na saudade dele, Rita. E às vezes, ela mais repele do que atrai, especialmente quando essa mesma saudade encontra motivos para terminar.


RITA:

(Vira-se para ele, os olhos marejados, mas com uma determinação gailariana)

- Professor Tobishima, eu sei das conversas que o que o senhor teve como meu pai. Joe acha que o isolamento em Okinawa é a cura, mas cura de quê? Eu não entendo, professor.


TOBISHIMA:

- Rita, eu acho que você sabe, não acredito que vocês não tenham conversado isso antes. E o silêncio é a única forma de se proteger, e principalmente, de te proteger também.

RITA:

(Olhando novamente para o Pirata do Espaço)

- Ele é o herói deste mundo, Professor. Eu vou cumprir os protocolos em Tóquio, vou sorrir para os embaixadores... mas eu...eu... não vou deixá-lo morrer naquele hangar de Okinawa. Se Joe realmente se preocupa comigo, do que eu vou achar, então ele tem que saber que, para mim, está tudo bem, já que sempre será 'o meu Joe'.


TOBISHIMA:

Tenha paciência, Rita. O orgulho de um piloto ferido é a coisa mais difícil de consertar. Mais do que qualquer motor de dobra espacial.

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TÓQUIO / OKINAWA – (DIAS SEGUINTES)


PALÁCIO DE AKASAKA (AKASAKA RIKYŪ) – DIA DA APRESENTAÇÃO FORMAL:

Imagens aéreas mostram a suntuosidade do palácio. Bandeiras do Japão, da ONU e o estandarte de Gailar tremulam juntas. Rita, vestindo um traje diplomático gailariano formal, caminha pelo tapete vermelho. Ela e a seus conterrâneos são recebidos pelo Primeiro-ministro japonês, o secretário-geral da ONU e pelo Imperador do Japão.


No centro do salão, projetores de táquions criam os Hologramas em Tamanho Real do REI e da RAINHA DE GAILAR. Ao lado deles, o Prof. Yan aparece em uma transmissão cristalina.

REI DE GAILAR (Holograma):

(Voz profunda, traduzida simultaneamente para todos os idiomas)

"...que este encontro não seja apenas um tratado entre governos, mas o nascimento de uma irmandade estelar. Gailar e Terra não são mais estranhos; somos sobreviventes de uma mesma noite, despertando para um novo amanhecer."

Uma repórter de renome local entrevista Rita. As luzes dos refletores são intensas.

REPÓRTER:

(Entusiasmada)

- Rita-sama, o mundo está em êxtase. Após dez anos, a senhora retorna não como uma guerreira, mas como a face da paz. Como se sente ao ver que seu sacrifício e o do lendário Joe Kaisaka finalmente frutificaram nesta aliança?

RITA:

(Ela hesita por um microssegundo. O sorriso é impecável, mas seus olhos vacilam, buscando algo além das câmeras. Há uma melancolia disfarçada em sua voz)

- Eu me sinto honrada, mas a paz é uma construção diária, não apenas um evento.- ela baixa levemente o olhar em seguida — Quanto ao Joe, ele sempre soube que o silêncio era o preço da nossa liberdade. Espero que, onde quer que ele esteja, ele possa sentir que não foi em vão.

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Okinawa.


O contraste é brutal. O silêncio do refeitório é quebrado apenas pelo chiado da TV antiga suspensa no teto. O calor de Okinawa faz o ar vibrar. Takeshi está sentado sozinho em uma mesa de metal. Suas mãos, sujas de graxa, seguram um copo de chá gelado que já transpirou. Ele observa a tela. Seus olhos estão fixos no rosto de Rita. Ele percebe a hesitação dela, a sombra de tristeza que os repórteres ignoram.

Ao fundo, o Sr. Junichi observa Takeshi da porta do refeitório. Ele vê a mandíbula de seu funcionário 'misterioso' travada e a tristeza profunda em seu olhar saudosista. Junichi sabe que o está prestes a quebrar vendo Takeshi cercado por "pessoas comuns" que não entendem o peso daquela imagem, prepara o terreno perfeito para a cena da confusão que virá a seguir.


O som da TV com a voz de Rita continua ao fundo, mas o foco agora é a mesa circular onde um grupo de mecânicos almoça. O calor é sufocante. Hiroo, com olhar amargo, gesticula com violência.


HIROO:

(Apontando para a TV)

- Olha só para essa farsa! "Heroína"? Ela é uma gailariana! Vocês viram os navios sumindo no Antártico? É óbvio que são eles! Estão aqui para terminar o que o tal do Geldon começou. Essa comitiva é só um Cavalo de Troia para o resto da raça dela invadir o que sobrou.


NORIO:

- Ah, Hiroo, lá vem você com suas teorias de conspiração da internet. A guerra acabou faz dez anos, cara!

HIROO

(Gritando)

- Acabou para quem, Norio? Você não perdeu os pais no bombardeio de Tóquio! Eu vi o céu cair! Nenhum deles é confiável. Essa Rita... ela...ela deve estar rindo da nossa cara enquanto planeja o próximo ataque. Ela é uma traidora da própria raça, quem garante que não vai trair a nossa?

O silêncio cai sobre o refeitório. Takeshi levanta-se lentamente. A sombra de seu corpo cobre a mesa de Hiroo. Ele caminha até estar atrás do colega e toca seu ombro com uma mão pesada de graxa e fúria.

TAKESHI:

(Voz baixa, vibrando de ódio contido)

- Pense duas vezes antes de falar dela, Hiroo.

HIROO:

(Levantando com atitude desafiadora)

- O quê? Vai defender essa alienígena como se ela fosse sua namorada, Yamato? Você é só um mecânico de...


POW! O soco de Takeshi Yamato atinge o queixo de Hiroo em cheio. Hiroo cai para trás, derrubando a cadeira e o prato de comida. O refeitório explode em caos. A "turma do deixa-disso" corre para evitar maior confusão.


HIROO:

(Limpando o sangue da boca, gritando)

- SEU LOUCO FILHO DA P...! QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA ME TOCAR? VOCÊ É NINGUÉM! UM MENDIGO BARBUDO!


TAKESHI:

(Gritando de volta, quase perdendo o controle)

- Ela nos ajudou contra Geldon! Ela matou gente do próprio povo para que você pudesse estar aqui hoje falando essa m*rda! Respeite o sacrifício dela!

HIROO:

- Eles mataram meus pais! GAILARIANOS MATARAM MEUS PAIS! !


SR. JUNICHI:

(Entrando no refeitório com um grito de comando que silencia o hangar)

- CHEGA! OS DOIS!!!!!!


O silêncio é absoluto. Junichi caminha entre os dois, seu olhar é severo, mas há uma preocupação oculta quando ele olha para Takeshi.


HIROO:

- Senhor Junichi, demita esse animal agora! Ou eu vou processar esta empresa e levar o nome dele para a polícia! Ele é perigoso!


SR. JUNICHI:

-Cale-se, Hiroo. Vá limpar as calhas de drenagem. Agora. E você, Takeshi, vá para o outro lado da pista, o outro Cessna 302 precisa de revisão nos freios. Se eu ouvir mais um grito de qualquer um de vocês, estarão ambos na rua. ENTENDIDO?!


Hiroo sai resmungando impropérios. Takeshi apenas acena com a cabeça, a respiração ainda ofegante e sai em direção oposta. O burburinho entre os outros mecânicos começa instantaneamente, como um incêndio em palha seca.


NORIO comenta com um colega:

- Viu como o Takeshi reagiu? Ele quase matou o Hiroo e por causa da Rita.


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OCEANO ANTÁRTICO – NOITE (PROFUNDIDADE EXTREMA)



A escuridão é total, quebrada apenas por luzes bioluminescentes de peixes abissais. De repente, numa imensa fenda no penhasco, um portal de hangar colossal, de tecnologia nitidamente não-terrestre, revela uma base que se estende pelas entranhas da crosta oceânica.

Numa sala desta base, há um ambiente escuro, iluminado apenas pelo brilho azulado de visores de plasma. No centro do recinto, uma poltrona futurista, que mais parece um trono de comando, está voltada para uma tela que transmite a cobertura da imprensa mundial sobre a comitiva gailariana.


Em primeiro plano, uma figura misteriosa com uma mão de metal, de articulações hidráulicas minuciosas e usando um elmo dourado com três estranhas saliências 'irregulares'. A porta automática desliza e um indivíduo de aparência alienígena marcante: pele rugosa de tons terrosos, crânio protuberante com marcas que lembram cicatrizes ou tatuagens biológicas, e olhos pequenos e penetrantes sob uma testa pesada dentra à sala, portando um traje técnico ocre, funcional, cheio de bolsos e reforços.





FIGURA MISTERIOSA:

(Voz calma, pausada, sem se virar. Falando num idioma próprio daquele grupo)

- Sč-âñkʼ... Zn-mž Karpenek... V-lâi ? (O que deseja, Dr. Karpenek?)


DR. KARPENEK:

(Fazendo uma vênia rígida na tal língua, que ao contrário do suave Gailar-emê, era ríspida e 'agressiva')

- Þk-ñô, Ja-krol V-lâk. Ja-fêi V-lâi-Z-lhân Pþâss Kâ-Pr-tâ. Ž-sâñkʼ-R-tâss Ja-krol D-tâss ? (Salve, grande almirante. Vim informar que estamos prontos para capturar mais recursos na superfície do oceano. Peço autorização para usar nossos raios tratores).


FIGURA MISTERIOSA:

(Leva uma taça de alguma bebida aos lábios, observando a imagem de Rita e da pequena comitiva na tela, fala num tom macabramente calmo)

- Zn-mž Karpenek. K-îsʔ Skr-lhâk? Xþenʔ-Z-lhân Pr-fêiʔ Mž-râs-Z-lhân Mbþâx Xþûll.(Doutor, para que essa pressa? No momento só estão passando barcos de pescaria ilegal e navios de ecologistas radicais que os perseguem. Quinquilharia que não vale o esforço. Ademais, é até divertido ver essas patéticas brigas navais terrestres).

DR. KARPENEK

- Ja-krol Kâ. Ty-tûs Gailaria Pr-tâ Râ. Ž-sâñkʼ-O-lâi O-tâ V-lâi ? (Como quiser, meu líder. E sobre os gailarianos que acabaram de aterrissar? Eles trazem tecnologia que pode nos detectar)...

FIGURA MISTERIOSA

(Interrompendo com um gesto suave da mão metálica)

- Zn-mž. My-lhân Ps-tûs-Xþûll. Pþâss D-sâñkʼ L-tâk. O-tâ Ja-krol Mbþâx Kâ. Mb-gôñ-Xþenʔ Zn-mž Karpenek Skr-lhâk Kâ. Zambara-Č-îsʔ Skr-lhâk Skr-lhâk Kâ. Pþlen-tûs O-tâ Pþâss-D-tâss Kâ-Pr-tâ. O-tâ Pþlen-tûs-K-lâk Pr-fêiʔ-N-fâ. (Doutor, no momento somos predadores de tocaia. Devemos ter o timing certo. Deixe-me ocupar disso, enquanto o senhor foca na engenharia e na logística da nossa frota de robôs bombadeiros. E acelere a construção da réplica do Zambara, nosso 'convidado' está ansioso para pagar pelos nossos serviços, já que a libertação dele não foi de graça).


DR. KARPENEK:

(Fazendo um gesto protocolar)

- Ja-krol M-êlañ, Pr-tâ. (Como quiser, grande almirante).


Karpenek retira-se. O silêncio volta à sala, preenchido apenas pelo zumbido dos computadores. A Figura Misteriosa pousa a taça e inclina-se levemente para a frente. A tela agora mostra um close-up de Rita sorrindo na TV junto com seus amigos conterrâneos.



FIGURA MISTERIOSA:

(Falando consigo mesmo, agora em Gailar-emê, com uma voz mansa e sociopaticamente calma)

- Ēha... u-šūru-me. Dāra-ta. Hēša-ta. Yēra-ta; sēra-ta e-kāla ai hu kāla. Sēra-ta a-tēra-zai; dēra zai-ta ai šāru, ō zai-ta nēš e-uru mēra ŋe zāra e-šēra yēra. (Isso mesmo... seus ratos. Alegrem-se. Riam. Cultivem boas expectativas e ajam como se nada pudesse dar errado. Sigam sua rotina diplomática, pois, quando menos perceberem, vocês verão o quão me é prazeroso destruir falsas esperanças).

A mão de metal aperta o braço do trono, deixando marcas profundas no material sintético.

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O ar da noite, no pequeno escritório anexo ao hangar do Sr. Junichi, é denso e impregnado com o cheiro de graxa, metal e do sal do mar que se infiltrava pelas frestas. Lâmpadas fluorescentes zumbiam fracamente, lançando uma luz fria sobre pilhas de documentos e ferramentas. Junichi, com olhos que denotavam uma sabedoria calma, senta-se à sua mesa com o notebook aberto. A tela, virada para ele, exibe uma imagem congelada: o rosto sereno de Rita, em meio à comitiva gailariana, enquanto aguarda o final do serviço, quando todos os funcionários partem para suas residências, para uma conversa com Takeshi que entra hesitante e em passos silenciosos, quase furtivos, um contraste com a postura relaxada de Junichi que fala em com sua voz baixa, mas firme, sem desviar os olhos da tela.


- Entre, Takeshi. Ou devo dizer... Joe.


Joe para abruptamente, a menção de seu nome soando como um tiro no silêncio do escritório. Seus músculos se contraem. Ele não responde, apenas observa Junichi, com a guarda alta, carregada de uma culpa evidente, tentando se antecipar ao assunto:

- Senhor Junichi... eu... eu quero lhe pedir desculpas pelo meu comportamento. Eu prometo que não vai mais ocorrer.


Junichi finalmente desvia o olhar da tela, fixando-o em Joe, de modo calmo, porém melancólico, deixa escapar um suspiro pesado.

- Desculpas aceitas, Joe. Mas veja bem... (Ele gesticula vagamente para a tela do notebook, sem realmente apontar)...agora creio que você passou do ponto de não-retorno. Sua presença aqui se tornou inconveniente para nós. E falo isso com sincera tristeza, meu filho. Mas, por mais irônico que pareça, creio que tudo isso ocorreu num momento oportuno para você.

Joe franze a testa, a confusão substituindo a culpa em seu semblante, por não entender a aparente contradição nas palavras de Junichi.

JOE:

- Não entendi, Senhor Junichi.

JUNICHI:

- (Seus olhos retornam à imagem de Rita, no momento em que ela fala de Joe na entrevista com a repórter).

Bem, sua atitude, hoje no refeitório, praticamente acabou com o seu disfarce. O pessoal já está comentando sobre você e estão chegando próximo da verdade. Dou até o final desta semana para que você seja desmascarado, e isso é porque estou sendo otimista.


Junichi se levanta, seus movimentos deliberados. Ele caminha até um pequeno armário de metal enferrujado, de onde retira uma garrafa de saquê e dois pequenos copos de cerâmica. O tilintar suave da louça quebra o silêncio pesado. Ele serve a si mesmo e, em seguida, estende o copo para Joe, que o observa com uma mistura de desconfiança e resignação.


JUNICHI:

(Com um sorriso melancólico)

- Beba, Joe. Sei que você não é muito disso, mas neste momento, ficarei ofendido se não aceitar. É um saquê de boa safra, para momentos oportunos.


Joe hesita. Seus olhos percorrem o copo, depois o rosto de Junichi. Ele não gostava de álcool, não depois de tudo, quem era ele para contrariar Junichi, o homem que o acolheu, que o protegeu, que o ajudou a começar uma nova vida com a identidade de 'Takeshi Yamato'? Com um suspiro quase inaudível, Joe pega o copo. O líquido transparente cintila sob a luz fraca. Ele o leva aos lábios, o gosto amargo e quente descendo pela garganta, um reflexo da amargura que sentia.

Junichi observa Joe beber, um aceno de aprovação em seu rosto. Ele então vira o notebook, a tela congelada agora exibindo o rosto de Rita, em um sorriso diplomático, para que Joe também possa ver.

JUNICHI:

(A voz suave, quase um lamento)

- Sabe, meu filho, eu na minha juventude já aprontei muito. Namorei mulheres de todas as idades, de todas as cidades, nativas ou estrangeiras. Às vezes eu terminava, às vezes elas terminavam. Chorei e fiz chorar. Não faz muito tempo que finalmente criei juízo, afinal, tinha que tocar os negócios. Mas enfim, com tudo isso, eu aprendi a reconhecer o olhar de uma mulher. E a menos que os gailarianos tenham outros modos de pensamento... (Ele aponta para a imagem de Rita, o dedo pairando sobre a tela)... eu posso dizer, sem medo de errar, quando olho para essa mulher aqui... — Junichi faz uma pausa dramática, seus olhos fixos na imagem, depois em Joe, que agora também olhava para a tela, uma expressão indecifrável em seu rosto. A tensão no ar é quase palpável.


JUNICHI:

(Continuando, a voz carregada de convicção)

- ...essa mulher te ama, Joe. E está sofrendo por você. É hora de acabar com esta farsa e fazer alguém feliz. Ela e você.

Joe engole em seco, o saquê parecendo queimar em sua garganta. As palavras de Junichi o atingem como um golpe inesperado. Ele desvia o olhar da tela, incapaz de encarar o rosto de Rita, ou talvez, a verdade que o velho patrão acabara de expor, ecoando em sua mente, uma mistura de verdade incômoda e esperança esquecida.


JOE tenta argumentar:

- Senhor Junichi, a coisa, não é tão simples assim.


JUNICHI:

(Com um sorriso sábio, que já viu muitas complicações na vida)

- Só não é simples porque as pessoas adoram complicar. E se é de fato complexo, então simplifique, adapte, repense sua vida. Vá, converse com ela e veja no que dá. Além do mais, seu lugar é nos céus, não nesta pequena oficina de reparos. Volte a ser quem você realmente é.

Junichi se levanta e caminha até um cofre antigo no canto da sala. Ele o abre com uma combinação que parece conhecer de cor e retira um envelope pardo, recheado de dinheiro. Ele o coloca sobre a mesa, ao lado do copo de saquê de Joe.


JUNICHI:

(A voz agora mais séria, mas ainda paternal)

- E digo mais, uma mulher que se dispõe a vir de tão longe por você, merece algum sacrifício, não é?


Joe levanta o olhar, a palavra "sacrifício" pairando no ar, carregada de um peso que ele ainda não compreende totalmente, mas que o atinge de forma visceral.


Junichi empurra o envelope ainda mais perto em direção a Joe.

- Tome. É a indenização pelo seu tempo de serviço aqui. Volte para Akane de manhã. E Joe... (o veterano faz uma pausa com o olhar intenso)...não me decepcione.


Joe olha para o envelope, depois para Junichi. Ele não diz nada, mas em seus olhos, uma decisão parece começar a se formar. Ele pega o envelope, o peso do dinheiro e das palavras de Junichi em suas mãos. Ele se levanta, deixando o copo de saquê sobre a mesa, faz uma reverência respeitosa ao Junichi agradecendo toda ajuda recebida e sai do escritório,


O agora ex-patrão de Joe observa a porta se fechar, com uma expressão de esperança e preocupação em seu rosto.

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Alguns meses.



MINISTÉRIO DA DEFESA – ESCRITÓRIO DO CONSELHEIRO YOSHIDA


O escritório do Conselheiro Yoshida é austero, com mapas estratégicos e gráficos de dados preenchendo as paredes. A luz do dia entra pela janela, iluminando a poeira suspensa no ar. O assessor Komasa está diante da mesa de seu chefe direto, segurando uma pasta de relatórios.


YOSHIDA:

(Com a voz calma,e carregada de uma expectativa tensa)

- Então, Komasa, o que temos sobre os incidentes na Antártida? Alguma novidade nos relatórios mais recentes?


Komasa abre a pasta, folheando os documentos, diz em tom neutro, quase burocrático.

- Até agora, Conselheiro, nenhum incidente registrado. Nem com nossos navios, nem com embarcações estrangeiras. E recebemos informações de que nenhum navio de pesquisa que se aventurou por lá neste período registrou quaisquer anomalias no fundo do oceano. A situação parece estável.

Yoshida ouve atentamente, seus olhos fixos em Komasa, mas sua mente parece estar em outro lugar, processando informações.


Yoshida faz um leve aceno de cabeça, mas sem convicção.

- Hm... Isso é bom, Komasa. É um alívio, de fato. Mas devemos continuar atentos, pois algo me diz que isso pode ser uma calmaria que antecede à tempestade. E sinceramente, espero estar errado. Mas a experiência me ensinou a nunca subestimar o silêncio, logo, devemos sempre manter nossa atenção redobrada.

Komasa assente afirmativamente com a cabeça, compreendendo a preocupação de seu superior.


KOMASA:

(Com respeito)

- Entendido, Conselheiro. Manteremos a vigilância. Os patrulhamentos serão intensificados, e qualquer sinal de anomalia será reportado imediatamente.


Yoshida apenas acena novamente, seus olhos ainda distantes, como se já estivesse vendo as nuvens de uma tempestade que ninguém mais percebe.

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O entardecer em Tóquio, perto do terminal marítimo de Takeshiba, carregava o cheiro salgado do mar misturado ao óleo das embarcações. O vai e vem de marinheiros, pescadores e trabalhadores comuns dava ao lugar um ritmo constante, quase indiferente ao peso que alguns carregavam por dentro.


Joe caminhava entre eles.


Barba por fazer, cabelo mais longo do que o habitual, jaqueta jeans já marcada pelo uso, ele passava facilmente despercebido. E talvez fosse exatamente isso que queria. Há algum tempo, vinha tentando existir longe do nome que um dia ecoou nos noticiários. Longe do piloto e do símbolo que representava.


Ele parou diante de uma pequena lanchonete. Nada chamativo. Apenas uma porta de vidro, uma placa discreta e o som familiar de louças e conversas baixas. Entrou e o sino na porta anunciou sua presença.


O dono do estabelecimento, um senhor de semblante rígido, levantou os olhos por um instante e franziu levemente o cenho. Joe já conhecia aquele tipo de reação. No Japão, sua aparência atual não passava uma boa impressão.


Joe sentou-se sem comentar.


— Um teishoku⁵, por favor.


O pedido foi anotado com pouca vontade e repassado à cozinha.


Atrás do caixa, uma jovem observava. Seus olhos não carregavam o mesmo julgamento do senhor que atendeu Joe. Havia ali algo diferente. Atenção. Curiosidade.


Ela se inclinou discretamente em direção ao homem mais velho.


— Pai, olha aquele homem ali!


— Eu vi — respondeu ele, baixo. — Vamos atender logo para ele ir embora.


— Não é isso, olha isso aqui.


Ela puxou uma folha dobrada. Uma imagem impressa de jornal, que postou uma foto antiga fornecida para reprodução no noticiário pela equipe de vôo Tobishima, pela qual Joe vivia sua vida antes de conhecer Rita. Um jovem de rosto limpo, blusa vermelha com detalhes amarelos, posando diante de um avião de exibição.


O pai estreitou os olhos.


— Isso é antigo, Tomoe.


— Eu sei, mas olha bem. Se tirar a barba e o cabelo...


Os dois voltaram a encarar o cliente., notando que havia algo ali.


— Coincidência — resmungou o dono.


Tomoe não desistiu.


— Lembra quando eu e minhas antigas amigas de escola fomos visitar a base Akane?


O homem suspirou, como quem já sabia que aquela lembrança viria acompanhada de algo embaraçoso.


— Lembro. Você disse que um garoto correu, sem roupa pela base⁶.


Ela deixou escapar uma risada.


— Foi, mas não é isso. O piloto que guiou a gente, ele usava exatamente aquela camisa, que está debaixo daquela jaqueta jeans.


Agora o olhar do pai mudou.


Sob a jaqueta de Joe, parcialmente visível, estava uma camisa vermelha com detalhes amarelos. Antiga. Gasta. Mas inconfundível.


— E ele está com bagagem — continuou Tomoe, mais baixa agora. — A balsa da noite que vai para Akanejima sai daqui a pouco, acho que vai pra lá.


Pausa.


— Pai, aquele homem é o Joe Kaisaka.


O silêncio que se seguiu foi de dúvida.


— Então se for — disse o homem, por fim — ele não paga.


Pouco depois, o teishoku foi servido.


O dono colocou a bandeja diante de Joe, e depois de hesitar por um segundo, perguntou:


— Desculpe a curiosidade, o senhor vai pegar a balsa para Akanejima?


Joe ergueu os olhos.


— Vou sim.


— Nós somos de lá, eu e minha filha.


Um leve aceno de Joe para Tomoe.


— Eu também.


— Trabalha por lá?


Uma pausa quase imperceptível.


— Na base,- desconversou- na verdade, vou tentar um emprego.


O dono o encarou por um momento a mais do que o necessário. Depois, olhou de relance para a filha. Ele apenas confirmou com o olhar.


Quando Joe terminou e se aproximou do caixa, Tomoe tomou coragem.


— Desculpe-me minha intrusão, mas...o senhor... o senhor é o Joe Kaisaka?


A pergunta veio direta demais para permitir fuga elegante.


Joe travou por um breve instante.


— Não. Meu nome é Takeshi.


Ela não recuou. Apenas estendeu a foto.


— Sem barba… com o cabelo curto… é o senhor.


Joe olhou para a imagem. Uma versão sua que parecia distante. Outra vida.


— Eu estava lá naquele dia — interveio Tomoe, com um pequeno sorriso. — Na visita à base.


Uma pausa, e então, com leve constrangimento:


— No dia em que aquele garoto, Sabu acho que era o nome dele, correu pelado.


Joe não conseguiu evitar. Um riso curto escapou.


— Lembro, foi engraçado.


E naquele momento, percebeu o erro., fazendo Tomoe cruzar os braços, satisfeita.


— E a sua camisa também não ajuda.


O silêncio que veio depois era resolutivo.


— Fique tranquilo — disse ela, mais suave. — Não vou falar nada. Pelo menos até o senhor embarcar.


Joe suspirou, finalmente cedendo.


— Ok. Eu agradeço.


Antes que ele pudesse pagar, o dono se aproximou. A rigidez havia dado lugar a algo mais sincero.


— Senhor Kaisaka, o que o senhor fez por este país, é maior do que essa refeição.


Ele inclinou levemente a cabeça.


— Por favor, aceite.


Joe ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu, com calma:


— Eu não fiz isso sozinho. Agradeçam à Rita e a todos da base Akane, e também aos que não voltaram.


Pai e filha assentiram, respeitosos.


— Todos vocês serão sempre bem-vindos aqui — disse o dono.


Joe apenas agradeceu com um gesto.


Minutos depois, já do lado de fora, ele seguiu em direção ao porto, ajustando a alça da sua 'Duffel Bag' no ombro. Depois parou por um instante, olhando as ruas ao redor.

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A identidade que carregara nos últimos meses já não fazia mais sentido.


Um leve sorriso surgiu.


— Ainda tenho tempo. — murmurou para si.


Olhou ao redor, como se procurasse algo comum, quase banal.


— Hora de me despedir de Takeshi. Onde fica a barbearia mais próxima?

_________________



O vasto hangar da Ilha Akane pulsa com a energia dos preparativos para as comemorações de 10 anos da vitória sobre Geldon. O Pirata do Espaço, imponente e reluzente, domina o centro do espaço, recebendo os ajustes finais para a apresentação. Lâmpadas fluorescentes e a luz natural que entra pelas claraboias iluminam a fuselagem metálica.

Próximo a um painel de controle, Ippei e Gen trabalham com o auxílio e supervisão do sempre solícito Bidkon, com tudo sendo registrado pelo curioso Thallus

GEN:

(Com um suspiro de frustração, olhando para Sabu)

- Puxa, eu pensei que Joe iria aparecer para isso. Onde será que ele está? Ele devia estar aqui para pilotar o Pirata do Espaço junto com Rita!


IPPEI:

(Com um tom mais contido, sem tirar os olhos do painel)

- Professor Tobishima está procurando por ele, Gen, mas sem sucesso. Já faz meses que ele sumiu de Okinawa. Será que Rita fará o festejo sozinha ou com Sabu? Seria um desastre diplomático.


THALLUS:

- Rita e o Prof. Yan falaram muito sobre Joe. Gostaria de ter a oportunidade de conhecê-lo.


IPPEI:

- É a verdade, Themis. Joe, Rita e o Pirata do Espaço são uma só unidade. Ninguém mais conseguiria extrair todo o potencial dele. Espero que Sabu também o consiga, tenho certeza que Rita será uma ótima orientadora.


BIDKON:

- Concordo, mas antes, acho que ela terá que elevar o moral do garoto. Ele parece se sentir intimidado em tomar o lugar de Joe.


GEN:

- Ora, qualquer um se sentiria intimidado, Joe era único.




Tobishima e Sólus se aproximam do trio, ouvindo a conversa.


SÓLUS:

- Eu também tenho curiosidade de conhecer esse Joe de quem falam. Também ouvi sobre ele em Gailar e das façanhas que, junto com Rita, ajudaram a derrotar muitos pilotos brilhantes que serviram ao dissidente Geldon. Tem certeza de que ele virá logo, prof. Tobishima?


TOBISHIMA:

- Telefonei para meu amigo em Okinawa, mas ao que parece, Joe saiu de lá faz uns meses. Sem deixar rastros. Mas tenhamos paciência. Joe pode ser um cabeça dura, mas ele sempre foi responsável com o seu dever.


THALLUS:

(Consultando seu tablet)

- Pelo que vi no simulador da base, Sabu é um excelente futuro piloto, mas pelos relatos sobre Joe, o jovem ainda não chega perto dos talentos do Sr. Kaisaka.


Rita se aproxima, ouvindo a conversa.

- Mais do que talento, é uma ligação de alma. Joe e o Pirata do Espaço compartilham um destino.


Themis se vira para Rita, um olhar compreensivo em seu rosto.

- Você o conhece bem, Rita. Melhor do que qualquer um de nós. A ausência dele parece ser sentida por todos aqui, mas especialmente por você.


RITA:

- Eu só... queria que ele estivesse aqui. Para ver o quanto a Terra mudou, o quanto as pessoas o admiram. Para ver que a paz que ele tanto lutou para proteger está aqui.


TOBISHIMA:

- Ele sabe, Rita. Onde quer que esteja, ele sabe. E nós vamos continuar protegendo essa paz, com ou sem ele. Com a ajuda de Rita, tenho certeza que Sabu fará o seu melhor. Certo, Sabu?


SABU:

- Sim, senhor. Embora ainda sinta que eu esteja ocupando um lugar que não é meu.



RITA:

(Colocando a mão no ombro de Sabu, com um olhar doce, porem firme e encorajador)

- Sabu, o lugar de Joe no Pirata do Espaço é único, e ninguém pode ocupá-lo. Mas a nave que meu pai criou é um símbolo de esperança e de proteção. E agora, essa responsabilidade recai sobre você. Não é sobre substituir Joe, é sobre honrar o que ele representa e continuar a luta. Joe confiaria em você, como eu também confio.


Assim que Rita termina de falar, uma voz familiar que há algum tempo não era ouvida na base, se faz ouvir.

- Eu realmente confio nele, até porque se falhar, eu peço pro Prof. Tobishima mandá-lo de volta para a academia da JASDF.


Uma palavra retumba em todo o hangar:

TODOS (MENOS RITA E THEMIS e DAREK):

- JOOOOE!!!!!


Ele mesmo, com o rosto feito, sem barba, cabelo cortado no mesmo estilo que usava há quase 10 anos atrás, bastante e surpreendentemente rejuvenecido para os padrões terráqueos. E fazendo o que sabem fazer de melhor, quando velhos amigos reaparecem, Ippei, Gen e Sabu "caem em cima" de Joe.


GEN:

- Joe, eu sabia que você iria voltar, eu falei que você iria voltar, eu sabia!!!


IPPEI:

- Poxa, você deixou a gente preocupado aqui!!!!


SABU:

- Promete pra gente que não vai mais ir embora, promete??!!!!

JOE:

- Eu prometo, pessoal, aqui é meu lugar.


Tobishima se aproxima, com os olhos marejados.

- Que bom que você voltou, filho! Estava faltando você para nossa alegria ser completada.


Depois de abraçar Tobishima, um breve silêncio. O olhar de Joe cruzou com os olhos lacrimejantes de Rita. Por uns breves segundos eles ficaram parados, foi a deixa para Tobishima fazer um sinal para Sabu, Ippei e Gen se retirarem dali. Sólus fez o mesmo pedido para Thallus e Bidkon. Os dois poderiam conhecer Joe depois, aquele momento era apenas para os dois pilotos que enfretaram várias batalhas contra Geldon. Depois do grupo se afastar, Joe se aproxima lentamente de Rita e a encara, com o mesmo olhar de quando ela se despediu dele na pista de decolagem da base e, tal qual daquela vez, ela "explodiu em prantos", mas desta vez, ao invés de correr fugindo de Joe, ela avançou com todo o peso da saudade, abraçando-o com força e escondendo seu rosto e lágrimas no peito de seu parceiro de batalhas.


RITA:

- Joe, eu ainda tenho tanta coisa pra te dizer!!!


Este a abraçando, usando seu próprio rosto para acariciar de leve os cabelos ruivos de sua querida dama espacial.

- Eu também, Rita. Eu também...

_________________


No Oceano Antártico, escondida sob centenas de metros de água, uma base submarina permanecia em silêncio.


Em uma das salas mais reservadas, quase não havia luz. A figura conhecida apenas como o Grande Almirante permanecia sentada diante de alguns monitores, acompanhando as notícias transmitidas pelas emissoras da Terra.


A porta se abriu e o Doutor Karpenek entrou.


—— Ja-krol M-êlañ, Joe Kaisaka Mž-râs-Z-lhân, Sč-âñkʼ-V-lâi My-lhân D-tâss Râ. O-tâ V-lâi-S-sienʔ... (Grande Almirante, recebemos novas informações sobre o piloto terráqueo conhecido como Joe Kaisaka. Ele reapareceu e...)


— Ja-krol Mž-râs, Zn-mž. (Eu sei, Doutor).


A resposta veio baixa e fria. O Grande Almirante nem sequer desviou os olhos da tela.


Karpenek hesitou.


— — Ja-krol M-êlañ, Pr-tâ... (Sim, senhor...)


Por alguns instantes, ficou sem saber se deveria continuar.


—— Mž-râs-Z-lhân Sč-âñkʼ.,My-lhân Mb-lhâk. (Nosso sistema já capta as transmissões das emissoras terrestres) — acrescentou o Grande Almirante, no mesmo tom. — Ja-krol Mž-râs Sč-âñkʼ,Zn-mž D-tâss N-fâ. (Não há necessidade de me informar aquilo que já estou vendo).


Karpenek engoliu em seco.


— Ja-krol M-êlañ... Pr-tâ. D-sâñkʼ.(Grande Almirante... assim é. Naturalmente.)


Fez uma pequena pausa, procurando as palavras.


— Zambara-Č-îsʔ, Skr-lhâk L-tâk. Pþâss-Þmâñ Pþâss. M-êlañ N-fâ.(Na verdade, vim informar que a reconstrução do robô-bomba Zambara está quase concluída. Dentro de um dia estará pronto para a missão).


O Grande Almirante finalmente desviou os olhos do monitor.


— Xþenʔ-Mž-râs, Pþâss-D-sâñkʼ?

(E os pilotos, estão preparados?)


— O-tâ Pþâss-D-sâñkʼ Ø... Ja-krol M-êlañ. O-tâ Pþâss-K-lâk M-êlañ L-tâk. (Estão preparados, senhor. Na verdade, estão ansiosos para a missão).


— Pþâss-K-lâk? (Ansiosos)?


Karpenek percebeu que havia escolhido uma palavra talvez inadequada.


— Ja-krol M-êlañ, Pr-tâ. O-tâ X-sienʔ D-sâñkʼ L-tâk.(Sim, senhor. Estão confiantes de que tudo correrá conforme o planejado).


O Grande Almirante sustentou o olhar sobre ele por alguns segundos.


— Gailaria-Pþlen-tûs X-sienʔ Zambara-Č-îsʔ Skr-lhâk D-sâñkʼ? (E a reconstrução está seguindo rigorosamente as especificações fornecidas por nosso convidado gailariano)?


— Ja-krol M-êlañ. Pr-tâ. X-sienʔ D-sâñkʼ.(Sim, senhor. Exatamente como foi determinado).


— Skr-lhâk Kâ, Zn-mž. Xþenʔ-Mž-râs Pþâss-D-sâñkʼ Kâ. (Então prossiga, Doutor. E certifique-se de que os pilotos estejam preparados).


— Ja-krol M-êlañ, Pr-tâ. (Grande Almirante, assim será.).


Karpenek fez uma breve reverência e deixou a sala.


A porta se fechou atrás dele.


Mais uma vez sozinho, o Grande Almirante voltou sua atenção aos monitores. As transmissões da Terra continuavam chegando, misturando notícias, comentários e imagens das movimentações no Japão.


Ele permaneceu em silêncio, acompanhando tudo com atenção.


Ainda faltavam oito dias.

_________________


Enfim, Joe havia voltado à Ilha Akane. A presença dele na base já começava a se reintegrar à rotina, embora algumas coisas ainda precisassem encontrar seu lugar depois de tantos anos de distância.


Naquela noite, antevéspera da celebração de 10 anos da vitória sobre Geldon, Joe procurou Rita.


Encontrou-a sozinha, terminando alguns documentos relacionados à comitiva diplomática. Rita ergueu os olhos quando ele entrou e, por um instante, pareceu esperar que aquela visita tivesse um significado diferente de uma simples conversa entre colegas.


Joe percebeu.


— Rita, eu queria conversar sobre uma coisa que está na minha cabeça desde que você decidiu permanecer na Terra. Estou feliz por você ter voltado, mais do que consigo dizer, mas preciso saber se o verdadeiro motivo da sua decisão é aquilo que estou pensando.


Rita deixou os documentos sobre a mesa.


— E se for, Joe?


Joe demorou alguns segundos para responder.


— Então eu preciso que você entenda que isso não é uma questão de eu não querer você por perto. É justamente o contrário. Eu passei tempo demais pensando no que aconteceria se você voltasse e nós tentássemos viver como se as diferenças entre nós não existissem.


Rita o encarou.


— Eu nunca pensei que elas não existissem.


— Eu sei — respondeu Joe. — E é exatamente por isso que estou preocupado. Você é gailariana, Rita. Seu corpo, seu tempo de vida, tudo aquilo que para você é natural, para mim não é. Eu vou envelhecer muito antes de você. E, se estivermos pensando na mesma coisa, um dia você vai olhar para mim e perceber que o homem que escolheu já não consegue acompanhá-la.


Rita sentiu o golpe daquelas palavras, embora já conhecesse os argumentos.


— Você está decidindo isso por mim?


Joe desviou o olhar.


— Estou tentando impedir que você tenha de pagar por uma decisão que talvez hoje pareça simples, mas que pode se tornar muito difícil daqui a alguns anos.


— E você acha que eu não pensei nisso?


— Acho que pensou. Talvez tenha pensado mais do que eu.


Joe voltou a encará-la.


— Mas, Rita, se é realmente isso que você deseja, eu preciso ser honesto com você: eu não acredito que possa dar certo.


Rita ficou em silêncio.


Joe prosseguiu, mais baixo:


— Não porque eu não queira. Talvez esse seja justamente o problema.


Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos.


— Entendi.


Rita recolheu os documentos e os guardou nos arquivos.


— Boa noite, Joe.


Ela saiu sem dizer mais nada. Algo que era fora de seu feitio.


Joe permaneceu sozinho na sala, absorto em pensamentos.

Desta vez, não havia batalha que pudesse resolver aquilo por ele.

- --


## MAIS TARDE


Rita caminhava pelo corredor em direção aos alojamentos quando Liriana a viu.


Não era comum vê-la daquele jeito.


Rita normalmente conseguia manter a compostura mesmo quando alguma coisa a atingia profundamente. Naquela noite, porém, seus olhos estavam úmidos e ela caminhava depressa, tentando chegar ao quarto antes que alguém percebesse.


Liriana deixou o que estava fazendo e foi atrás dela.


— Rita.


Rita parou, mas não se virou imediatamente.


Liriana aproximou-se e falou na língua natal de ambas.


— Nēra? (O que aconteceu?)


Rita passou discretamente a mão pelos olhos.


— A-māta-še u-šeŋu-qa.(Nada que eu não soubesse que poderia acontecer).


Liriana esperou.


— U-joe? (Foi Joe?)


Rita finalmente se virou e, por alguns segundos, tentou responder sem chorar.


— Ŋe pāra-de u-joe. (Eu conversei com ele).


— U-joe za? (E ele disse que não?)


Rita respirou fundo.


— U-joe ai e-šara-qa ve nēra. (Ele disse que não acredita que possa dar certo).


Liriana não perguntou mais nada, desconfiando o suficiente para imaginar o restante da conversa.


— U-nēra-de e-šara nēra? (Ele falou das diferenças entre vocês?)


Rita assentiu.


—U-joe ga e-tēma; ga e-vara; ga ai hu pāra ŋe-ryn.(Joe falou do tempo. Da velhice. Do que aconteceria quando ele já não pudesse acompanhar a minha vida).


Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.


— E-šēra-ra ŋe nēdu ō u-joe sāra-ēn-ēn. Ve ŋe nēdu mēra ŋe rēva-ēn-ēn.

(O mais estranho é que eu sabia que ele pensaria assim. Talvez soubesse disso desde o momento em que voltei).


Liriana aproximou-se um pouco mais.


—Zē nā zai e-zāri? (Então por que está surpresa)?


Rita abaixou os olhos.


— Bāra nēdu ŋe u-ēna hu dēša a-mēru-ēn ai qēša zai e-rēmu šēku-ēn. (Porque saber que alguém pode dizer uma coisa não significa que você esteja preparada para ouvi-la).


Liriana permaneceu em silêncio.


Rita respirou novamente.


— Ŋe yēra tēra e-dāru. Ŋe nēdu u-ane ya zāru. Ŋe nēdu u-ane ya varda ŋe de e-māta-še u-šeŋu-qa.

(No fundo, eu esperava por aquilo. Sabia que ele teria medo. Sabia que tentaria me proteger de uma coisa que ainda nem aconteceu).


Ela apertou com as mãos a alça da bolsa que levava documentos burocráticos.


— Šēku u-joe dēša ai šēdu ō hu dāma-ēn-ēn, e-uru mē-ra tēra ŋe. (Mas ouvir Joe dizer que não acredita que possa dar certo doeu muito mais do que eu imaginei).


Liriana tocou delicadamente o braço da prima.


— Rī zai ya tāra? (Você ainda pretende desistir)?


Rita ergueu os olhos. Dessa vez, havia tristeza neles, mas também determinação.


— Ai (Não).


Liriana sorriu de leve.


— Ŋe tēra. (Eu imaginei).


Rita deixou escapar uma pequena risada entre as lágrimas.


— Zai nēdu ŋe e-dāru. (Você me conhece demais).


—Ŋe-mi-me kēva. Qa. (Somos primas. É uma obrigação).


Rita enxugou o rosto.


— Ō ōra e-šēl tēma. (Amanhã será outro dia).


— Ō zai nēša vēra u-joe? (E você vai falar novamente com ele)?


Rita pensou por alguns segundos.


— Dēra ŋe ya vēra, u-joe ya šēku ŋe. (Quando eu estiver disposta a falar, e ele estiver disposto a me ouvir).


Liriana assentiu.


Rita finalmente entrou no quarto.


Antes de fechar a porta, olhou para a prima.


— Ē, Liriana. (Obrigada, Liriana).


— rēn (Sempre).


A porta se fechou.


Liriana permaneceu alguns segundos no corredor. Ela conhecia Rita e sabia que aquela conversa com Joe estava longe de ter terminado.

_________________


## NO HANGAR


Sabu também já tinha visto Rita sair da sala, caminhando depressa, tentando esconder os olhos úmidos. Pouco depois, Joe apareceu no corredor. Ao contrário dela, não parecia ter pressa. Caminhou devagar, com as mãos nos bolsos e o olhar perdido em algum ponto do chão. Quando passou pelo hangar, Sabu chegou a dar um passo na direção dele.


Pensou em chamá-lo. Mas Joe parecia precisar de alguns minutos sozinho.


Além disso, os preparativos para a celebração estavam atrasados, e Ippei e Gen ainda precisavam de ajuda com os últimos ajustes do Pirata do Espaço.


Sabu resolveu deixar Joe em paz.


Mais tarde, encontrou os dois trabalhando ao lado de Bidkon e naquele momento Thallus estava por perto, em seu momento livre de aulas e palestras nas faculdades, com sua 'maquininha miraculosa' registrando tudo naquele momento histórico do dia a dia da primeira viagem científica-diplomática Gailar-Terra.


—Pessoal, vocês viram Rita sair daqui há pouco?


Ippei ergueu os olhos do painel.


— Vimos.


Sabu continuou:


— Ela estava chorando.


Gen olhou para Ippei.


— E Joe saiu logo depois.


Sabu aproximou-se.


— Eu ia perguntar para ele o que aconteceu, mas achei melhor não. Ele estava com uma cara muito estranha.


Ippei perguntou:


— Estranha como?


Sabu pensou um pouco.


— Triste. Mas não era só tristeza. Parecia que estava pensando em alguma coisa muito séria.


Gen cruzou os braços.


— Então provavelmente era coisa entre os dois.


Sabu franziu a testa.


— Mas o quê?


Ippei voltou a trabalhar.


— Não sei. Talvez seja melhor não se meter.


Sabu respondeu:


— Eu não quero me meter. Só quero entender.


Gen soltou uma pequena risada.


— Você quer entender a vida dos outros desde que conheceu a Liriana.


Sabu ignorou a provocação.


— Não tem graça. Rita estava chorando.


Thallus, que até então permanecera concentrado registrando momentos, falou a respeito com seu jeito de historiador nerd (ou 'quru', que é a expressão do qual tinha até certo 'orgulho' do termo).


— Há uma possibilidade que vocês talvez não estejam considerando.


Os três olharam para ele.


Sabu perguntou:


— Qual, 'quru'?


Thallus apoiou uma maquininha sobre a bancada.


— A diferença de longevidade entre Joe e Rita.


Sabu franziu ainda mais a testa.


— O que isso tem a ver?


Thallus escolheu as palavras com cuidado.


— Para vocês, terráqueos, uma diferença tão grande na expectativa de vida pode parecer um obstáculo extraordinário para uma relação. Para nós, gailarianos, a situação é conhecida há muito tempo.


Ippei parou de trabalhar.


— Gailarianos se relacionam com outras espécies?


Thallus respondeu:


— Naturalmente. Nossa história de exploração espacial tornou certos contatos inevitáveis. Nossos exploradores chegaram a mundos habitados muito antes de termos os recursos ou o conhecimento necessários para compreender completamente as diferenças entre seus povos e o nosso. E quando nossos exploradores encontravam civilizações de aparência semelhante à nossa, alguns contatos acabavam se prolongando e, inevitavelmente, surgiam relações pessoais mais íntimas. Podem reparar que nós, gailarianos, podemos ter diferentes variedades de cores epidérmicas, arcada dentária, fundo dos olhos, cores de cabelo...

- --Sim, já percebemos tudo isso, Thallus — Interrompeu, Sabu.


Gen inclinou a cabeça.


— Mesmo com diferenças tão grandes de longevidade, como vocês lidam com isso?


Themis deixa suas ferramentas de lado e se intromete na conversa, respondendo:


— Quando o contato se torna permanente, algumas dessas relações interplanetárias sentimentais duram o suficiente para que a ciência comece a encontrar soluções médicas. Quando dois povos continuam convivendo durante gerações, o conhecimento de um acaba sendo aplicado aos problemas do outro. Houve avanços da Medicina que reduziram algumas dessas diferenças ao longo do tempo.


Sabu pareceu surpreso.


— Então vocês simplesmente resolveram isso?


Posell Thallus, meneando a cabeça para explicar melhor, prossegue:


— Sim, de certo modo, mas há algo que costuma ser esquecido e que provavelmente tem a ver com Joe e Rita: as relações amistosas e diplomáticas entre Gailar e Terra começaram recentemente.


Sabu ficou atento.


O 'quru' historiador prosseguiu:


— Como disse, entre nós, gailarianos há muitos fenótipos diferentes, tudo fruto de miscigênação com a qual alguns veem problemas e outros não, especialmente com aquelas nas quais tivemos tempo para resolver esse, vamos dizer, "gap biológico" no que tange à diferença de expectativa de vida...


Ippei interrompeu:


— Mas os primeiros casais interplanetários não tinham essas soluções.


— Exatamente — respondeu Thallus. — Eles não tiveram o benefício dos avanços que vieram depois. Não havia tratamento, adaptação biológica ou qualquer solução científica disponível para eles. Tinham apenas a consciência de que um viveria muito menos que o outro.


Uma breve pausa e ele prossegue.


— Por isso, durante muito tempo, tiveram de encontrar respostas na filosofia. E muito de nossa filosofia se desenvolveu muito justamente a partir dessas relações: se a duração de uma vida determina seu valor, se a diferença de tempo torna uma relação menos verdadeira e se evitar o amor por medo da perda não seria, em si, uma forma de desperdiçar a vida que se tem?


Sabu permaneceu pensativo.


— Então, isso é uma coisa antiga para vocês?


— Muito antiga, mas a relação entre Gailar e Terra ainda é nova. Nós estamos justamente no começo de algo que, para outras civilizações, levou um tempo para amadurecer.


Posell Thallus olhou para Sabu que permaneceu alguns segundos em silêncio.


Então disse:


— Vou perguntar para Liriana.


Gen sorriu.


— Claro que vai.


Sabu lançou-lhe um olhar desconfiado.


— O que foi?


— Nada.


Ippei tentou esconder o sorriso.


— Absolutamente nada.


Sabu olhou para os dois, percebeu que estavam zombando dele e balançou a cabeça.


— Vocês dois, vão catar coquinho!


Ele se afastou.


Quando Sabu já estava longe o bastante para não ouvir, Gen olhou para Thallus e Themis.


— Vocês acham que é mesmo isso?


Themis demorou um pouco antes de responder.


— Se for, Joe está olhando para o problema do ponto de vista de alguém que teme perder Rita ou a vê-la sofrer por ver seu amado ir definhando bem antes dela.


Ippei completou:


— E Rita?


Aí foi Thallus quem voltou a responder

— Talvez esteja olhando para o mesmo problema de um ponto de vista diferente.


Gen esperou.


— Qual?


O historiador ergueu os olhos e diz com uma certa autoridade como quem conhece Rita desde o tempo em que ela voltou para Gailar.


— O de alguém que já decidiu que vale a pena.

_________________


# NO DIA SEGUINTE


A Ilha Akane estava em clima de celebração.


Era o décimo aniversário da vitória sobre Geldon.


Ao mesmo tempo, a cerimônia servia para celebrar os avanços alcançados desde o início do intercâmbio científico e diplomático entre a Terra e Estrela Gailar, ainda em seu primeiro ano.


A comitiva gailariana já não era uma presença estranha na vida cotidiana da Terra.


A Dra. Kaela havia se tornado conhecida no meio acadêmico japonês por suas aulas de exobiologia e pelos debates sobre a possibilidade de a vida humana e outras formas de vida semelhantes terem uma origem comum ou terem se disseminado pelo universo.


Também colaborava com Midori na clínica médica herdada do pai dela, ao mesmo tempo em que estudava a biologia terrestre e pesquisava aplicações que pudessem auxiliar no combate às doenças humanas e, a longo prazo, na ampliação da longevidade dos terráqueos.


Liriana a auxiliava nesses trabalhos.


Sólus havia se tornado praticamente parte da estrutura de segurança da Ilha Akane, colaborando não apenas com a proteção da comitiva, mas com toda a equipe da base. Também ministrava cursos especiais de artes marciais e defesa pessoal gailarianas para militares japoneses interessados.


Themis Bidkon trabalhava diariamente com Ippei e Gen na manutenção e aprimoramento do Pirata do Espaço, além de ministrar aulas de engenharia gailariana para o pessoal da base e para estudantes de escolas técnicas japonesas.


Thallus havia encontrado seu próprio espaço nas universidades de Tóquio, onde suas aulas sobre a história das antigas civilizações alienígenas atraíam uma plateia cada vez mais curiosa, mas em seu tempo livre estava sempre anotando o dia a dia da interação terráquea-gailariana.


E Rita continuava desempenhando simultaneamente duas funções: pilota do Pirata do Espaço e representante diplomática do Planeta Gailar.


Naquela manhã, entretanto, ela seria apenas a parceira de voo de Joe.


O Pirata do Espaço estava pronto.


A aeronave seria a atração principal do espetáculo aéreo.


Joe entrou na cabine.


Rita ocupou seu lugar ao lado dele.


Os sistemas foram acionados.


A torre autorizou a decolagem.


O Pirata do Espaço avançou pela pista e deixou o solo.


A Ilha Akane começou a diminuir abaixo deles.


Joe manteve os olhos nos instrumentos por alguns instantes.


Então, quando já estavam estabilizados em altitude, tentou retomar o assunto da noite anterior.


— Rita...


Ela percebeu imediatamente o que ele queria.


— Não. Joe, concentre-se no que ensaiamos para a cerimônia. Depois falamos sobre isso.


Joe olhou para ela, percebendo a tristeza na sua voz. Até sentiu vontade de insistir, mas se conteve.


— Está bem.


Voltou os olhos para a frente, mas tristeza de ambos não desapareceu.


Mas o piloto assumiu o controle.


— Preparada?


Rita respirou fundo.


— Preparada.


— Então, vamos lá...ACIONAR OS MOTORES!!!!


O Pirata do Espaço acelerou, percorrendo o corredor subterrâneo que vai para saída submarina, que se abre.


— PIRATA DO ESPAÇO, LEVANTAR VOO!!!!!!!



________________


## O ESPETÁCULO


A aeronave subiu em uma curva quase vertical, enquanto, a multidão acompanhou o movimento até o Pirata do Espaço parecer apenas um ponto metálico contra o céu.


Então Joe iniciou o mergulho.


A aeronave desceu rapidamente.


Pouco antes de alcançar uma altitude perigosa, Joe puxou os controles.


O Pirata do Espaço recuperou-se com uma curva fechada e passou sobre a área da cerimônia.


A multidão explodiu em aplausos.


Rita acompanhava os instrumentos.


Joe executou uma sequência de curvas rápidas, alternando mudanças bruscas de altitude com longas passagens sobre o oceano. Em seguida, inclinou a aeronave quase sobre o próprio eixo e fez uma grande volta ao redor da Ilha Akane.


A apresentação tinha precisão, mas também possuía algo que nenhuma simulação conseguia reproduzir, e esse algo era Joe, o piloto que havia lutado naquela máquina dez anos antes. Era o homem que transformara o Pirata do Espaço em uma extensão de si mesmo.


No setor reservado às autoridades, o Ministro da Defesa Tōru Jinsenji, acompanhava a apresentação ao lado do Conselheiro Yoshida e seu assistente Komasa.


Komasa sorriu ao observar uma das manobras.


— Ainda me lembro de quando era adolescente.


Yoshida acompanhou o voo.


— E agora Joe está novamente nos controles.


Komasa assentiu.


— E Rita está ao lado dele. Eles continuam bons.


No setor da comitiva, Themis observava atentamente, enquanto Kaela e Liriana também acompanhava a aeronave.



Themis comentou:


— U-rita ai rēn e-uru zēra dēša u-joe.

(Rita nunca exagerou quando falou sobre ele).


Liriana respondeu:


— Ai rēn (Nunca).


Sólus observou outra passagem do Pirata do Espaço.


— Pēra gatum-an-ta Geldon tu nēdu a-māta e-šāru-ra.

(Muitos pilotos de Geldon descobriram isso da pior maneira).


Posel sorriu discretamente.


— Ō u-ane e-nēša dāru.

(Então ela estava sendo bastante precisa).



O Pirata do Espaço fez sua última passagem diante do público.


A multidão aplaudiu novamente.


Por alguns instantes, tudo parecia perfeito.


A celebração.


A paz.


A aproximação entre dois mundos.


E o retorno de um herói que muitos julgavam perdido para sempre.


Então, em algum lugar da estrutura de vigilância aérea japonesa, um operador percebeu algo estranho.


Um sinal surgiu no radar.


Ele conferiu novamente.


O contato permanecia.


Não havia identificação correspondente.


O operador chamou outro técnico.


— Temos uma aeronave entrando no espaço aéreo.


O segundo operador aproximou-se.


— Identificação?


— Nenhuma.


— Plano de voo?


— Não existe.


— Origem?


— Ainda não determinada.


O primeiro operador tentou estabelecer contato.


Nenhuma resposta.


A informação foi imediatamente encaminhada à segurança responsável pela área da cerimônia.


Pouco depois, um oficial aproximou-se discretamente do Ministro da Defesa, que em nome da discrição pediu que o conselheiro Yoshida e seu assistente fossem averiguar, confiando nas decisões de seu mentor Yoshida, caso sejam necessárias.


Na sala de pesquisas da base, Tobishima chegou quase no mesmo tempo que Yoshida e Komasa, onde Sólus já estava.


Sólus :


Parece que detectamos a presença de um veículo aéreo não-autorizado.


Tobishima:


— Temos identificação?


— Nenhuma.


Yoshida perguntou:


— Alguma resposta ao contato?


— Negativa.


Komasa olhou para o céu.


O Pirata do Espaço ainda completava sua apresentação.


Milhares de pessoas assistiam ao espetáculo sem saber de nada.


— A JASDF confirmou o contato? — perguntou Yoshida.


O oficial respondeu:


— Está verificando agora.


Tobishima permaneceu alguns segundos em silêncio.


— Não interrompam a cerimônia.


Yoshida olhou para ele.


— Concordo.


Komasa fez um gesto discreto.


— Vamos para a sala de segurança. Se for apenas uma aeronave perdida, resolvemos sem causar pânico.


O oficial assentiu.


— E se não for?


Tobishima:


Então pediremos que Joe e Rita encerrem a apresentação e se dirijam para interceptar a nave bem longe do público. Mas temos que ser rápidos.


Yoshida:

- Alguns caças devem estar estar por perto, peçam, sob minhas ordens que averiguem. O Ministro me deu 'carta branca' para isso, e ofereço o mesmo para Tobishima tomar a decisão



Um operador de radar:

- Os caças já estão aproximando.


Yoshida:

- Mandem seguirem o protocolo de abordagem.

- Sim, senhor.


O operador de radar manteve os olhos fixos na tela.


— Os caças estão se aproximando do contato.


Na sala de segurança, Yoshida observava o deslocamento dos dois pontos luminosos.


— Mandem seguir o protocolo de abordagem.


— Sim, senhor.


Os dois caças avançaram em formação aberta, aproximando-se da aeronave desconhecida pelo setor determinado.


O primeiro piloto abriu o canal de comunicação.


— Aeronave não identificada, aqui é a Força Aérea de Autodefesa do Japão. Você está entrando em espaço aéreo sob restrição. Identifique-se imediatamente e altere seu curso.


Nenhuma resposta.


O piloto insistiu:


— Aeronave não identificada, esta é uma ordem oficial. Reduza a velocidade e prepare-se para ser escoltada para fora da área.


Nada.


O segundo caça aproximou-se alguns graus mais.


— Ainda nenhuma resposta.


— Mantenha a posição. Vamos repetir o procedimento.


A nova transmissão sequer chegou a ser completada.


Um clarão cortou o céu.


O primeiro caça foi atingido.


— Fui atingido!


A aeronave perdeu altitude e começou a girar.


— Controle comprometido! Estou perdendo estabilidade!


O segundo caça tentou manobrar para escapar do mesmo ataque, mas outro disparo atravessou sua trajetória.


— Droga!


O impacto sacudiu a cabine.


— Meu motor foi atingido!


— Ejete! — ordenou o primeiro piloto pelo rádio.


Os dois pilotos acionaram seus sistemas de ejeção.


Os caças desapareceram entre nuvens e fumaça enquanto dois paraquedas se abriram sobre o mar.


Na sala de segurança, o operador confirmou:


— Os dois pilotos ejetaram. Os paraquedas estão abertos.


Yoshida soltou lentamente o ar.


— Ao menos estão vivos.


Komasa permaneceu olhando para o radar.


— E a aeronave?


O operador respondeu:


— Continua avançando na direção da área da cerimônia.


Tobishima ficou em silêncio por alguns segundos.


— Agora sabemos que não estamos diante de uma aeronave perdida.


Sólus assentiu.


— Foi uma ação deliberadamente hostil.


Tobishima imediatamente acionou a comunicação com o Pirata do Espaço.


— Joe, Rita, aqui é a Ilha Akane. Precisamos que interrompam a apresentação imediatamente.


Na cabine do Pirata do Espaço, Joe voltou-se para os instrumentos.


— Professor?


— Os dois caças enviados para interceptar o contato foram abatidos.


Rita levantou os olhos.


— Abatidos?


— Os pilotos conseguiram saltar de paraquedas e estão vivos, mas a aeronave desconhecida continua avançando.


Joe permaneceu alguns segundos sem responder.


— Tem certeza de que foram abatidos pelo invasor?


— Não há outra explicação neste momento.


Rita olhou para Joe.


— Então alguém decidiu atacar primeiro.


Joe apertou os controles.


— Depois de tudo o que aconteceu, eu realmente esperava que aquele tempo tivesse ficado para trás.


Rita respondeu em voz baixa:


— Eu também, Joe.


Tobishima continuou:


— A aeronave ainda está sobre o mar. Quero que vocês a interceptem antes que se aproxime da cerimônia. Levem o confronto para longe da população.


Joe assentiu.


— Entendido, professor.


Rita olhou mais uma vez para a multidão que ainda acompanhava o espetáculo.


— E pensar que, há poucos minutos, todos estavam comemorando a paz.


Joe desviou os olhos para o horizonte.


— Talvez seja justamente por isso que alguém escolheu este momento.


A transmissão foi encerrada.


Joe tomou os controles.


— Pirata do Espaço deixando a área da cerimônia.


A aeronave começou a ganhar velocidade.


Rita observou o radar.


— Quem poderia estar por trás disso?


— Não sei.


— Geldon?


Joe hesitou.


— Não quero acreditar nisso.


Rita voltou-se para ele.


— Mas você pensou nisso.


— Pensei.


O silêncio entre os dois durou alguns segundos.


— Se for alguém ligado ao antigo Império — continuou Joe —, significa que ainda existem pessoas dispostas a continuar aquela guerra.


Rita respondeu:


— E se não for?


Joe manteve os olhos à frente.


— Então teremos de descobrir quem decidiu começar uma nova.


O Pirata do Espaço acelerou sobre o oceano.


Pouco depois, o contato surgiu no radar.


Joe estreitou os olhos.


— Está ali.


Rita aproximou-se dos instrumentos.


— Não parece uma aeronave convencional.


A silhueta começou a surgir no horizonte. Uma robusta nave de combate que apresenta um design aviano agressivo, com uma proa em formato de cabeça de falcão, crista vermelha e um "pescoço" cilíndrico segmentado. Seu corpo castanho fusiforme é ladeado por asas azuis em camadas, terminando em uma seção inferior de rampa laranja.


Rita ficou imóvel.


— Joe...


Ele também havia reconhecido a forma.


Por alguns segundos, os dois permaneceram em silêncio, como se uma lembrança que julgavam enterrada tivesse acabado de atravessar o céu diante deles. E antes que pudessem dizer mais alguma coisa, a comunicação foi aberta, sendo que uma voz masculina surgiu no canal.


— Então vocês se lembraram de mim.


Rita reconheceu a voz imediatamente.


— Dan?


Uma risada curta veio pelo comunicador.


— Sou eu. Dan, filho de Daggar. E voltei para terminar aquilo que vocês impediram que meu pai fizesse.


A voz de Dan tornou-se mais dura.


— Meu pai morreu enfrentando vocês. Meus dois irmãos também morreram naquela batalha, e vocês continuaram vivos enquanto nossa família era destruída. Eu não esqueci nenhum deles. Hoje, finalmente, vou fazer vocês pagarem por isso.


Rita permaneceu em silêncio.


Uma segunda voz entrou na comunicação.


— E vocês não precisam enfrentar apenas o filho de Daggar.


A imagem de outro piloto apareceu no visor.


— Meu nome é Tigan. Sou filho de Daigan, aquele que enfrentou o Pirata do Espaço quando tudo isso ainda estava começando. O sangue da minha família também conhece essa derrota. E eu vim corrigi-la.


Rita mal teve tempo de reagir.


Uma terceira voz surgiu no canal.


— E talvez vocês se lembrem de mim.


Joe reconheceu-o imediatamente.


— Golgo?!


Golgo sorriu.


— Vejo que não se esqueceram de mim também, já que tenho uma dívida com vocês. Meu tio Dógus morreu por causa dessa guerra, e eu vim cobrar a minha parte dessa dívida pessoalmente. Juro que desta vez vou matar vocês dois.


Joe olhou para os três rostos que apareciam no monitor.


Dan.


Tigan.


Golgo.


Era como se fragmentos de diferentes momentos daquela guerra tivessem retornado de uma só vez.


— Como vocês voltaram? — perguntou Joe.


Dan respondeu:


— Porque estamos sob as ordens do Grande Almirante.


Rita empalideceu e sua reação não passou despercebida por Joe.


Ela se voltou para ele, visivelmente perturbada.


— O Grande Almirante...


Joe imediatamente percebeu que havia algo diferente naquela expressão.


— Rita, você sabe quem é?


Ela demorou alguns segundos para responder.


— Não sei quem ele é.


Rita voltou os olhos para a imagem dos três inimigos.


— Mas sei o que esse título significa. É uma alcunha, um título dado ao chefe de uma das hordas espaciais mais cruéis de todo o sistema solar gailariano.


Joe franziu a testa.


— Uma horda espacial?


— Sim.


Rita voltou a olhar para Dan.


— Mas o que eles estão fazendo aqui? E por que justamente agora?


Dan respondeu sem hesitar:


— Não importa o que vocês estejam pensando. Vocês não terão tempo para descobrir. Hoje, vocês vão morrer hoje!


Sua voz carregava uma convicção absoluta.


— Vocês tiveram dez anos para acreditar que aquela guerra havia terminado. Nós tivemos dez anos para lembrar dos mortos. Agora vão descobrir que algumas dívidas não desaparecem com o tempo.


Joe permaneceu alguns segundos em silêncio. Então sua expressão mudou.


— Deixamos essa conversa para depois.


Rita olhou para ele.


Joe acionou os controles.


— Agora vamos ao ataque.


O Pirata do Espaço acelerou diretamente contra a máquina inimiga.


Do outro lado, Dan avançou para recebê-lo.


A exibição havia terminado, para dar lugar à batalha que começava.


O Pirata do Espaço acelerou em direção à máquina inimiga.


Dan fez o mesmo.


Durante alguns segundos, as duas aeronaves voaram uma contra a outra, reduzindo rapidamente a distância.


Então Dan abriu fogo.


— Zambara, atacar!


Três rajadas de energia cortaram o céu.


Joe puxou os controles bruscamente. O Pirata do Espaço mergulhou, desviando por pouco dos disparos.


— Eles começaram pesado! — disse Rita.


Joe recuperou altitude.


— É óbvio que não estão atirando ao acaso.


Mais disparos passaram por cima da fuselagem. Joe e Rita manobram evasimente, subindo com o Pirata do Espaço, mas os outros dois veículos saem da nave robô-bomba principal e já começavam a se mover contra a nave de Joe e Rita.


Joe inclinou o Pirata do Espaço e fez uma curva fechada.


— Estão tentando nos cercar.


Rita olhou para o radar.


— Dan está vindo pela frente!


— E os outros dois?


— Estão se separando!


Joe percebeu imediatamente a intenção.


— Querem nos obrigar a olhar para a frente enquanto os outros atacam por trás.


O Pirata do Espaço fez uma mudança brusca de direção.


Por um instante, pareceu que havia escapado.


Mas as duas pequenas aeronaves robôs-bomba já haviam contornado sua trajetória.


— Lá estão eles!


Tigan e Golgo abriram fogo simultaneamente.


Os impactos atingiram a parte traseira do Pirata do Espaço.



A cabine estremeceu.


— Joe!


— Estou bem, Rita!


Outro disparo atingiu a fuselagem.


Rita segurou-se no painel.


— Eles conhecem a nossa retaguarda!


— Conhecem mesmo.


Joe acelerou.


A pequena formação inimiga continuava fechando o cerco.


Dan avançou pelo setor frontal enquanto Tigan e Golgo mantinham-se atrás.


— Não adianta fugir, Joe Kaisaka! — gritou Dan pelo comunicador. — O Zambara foi feito para destruir o Pirata do Espaço!


Joe ouviu a provocação sem responder.


— Eles estão tentando nos manter exatamente onde querem — disse Rita.


— Então vamos obrigá-los a mudar de posição.


Joe girou violentamente o Pirata do Espaço.


Uma rajada passou tão próxima que iluminou a cabine.


— Joe!


— Aguente firme!


Ele mergulhou novamente.


Os três inimigos acompanharam a manobra.


Dan sorriu.


— Não deixem que escapem!


Tigan e Golgo fecharam a formação.


Então Joe encontrou uma abertura.


— Agora!


O Pirata do Espaço saiu do mergulho e abriu fogo.


As Metralhadoras Pirata dispararam em rápida sucessão.


Os projéteis atingiram o Zambara.


Dan perdeu momentaneamente o controle.


— Droga! Mas não vai esses "tirinhos" que irão me abater.


Joe aproveitou a oportunidade.


— Rita!


— Já entendi!


O Pirata do Espaço voltou-se para o inimigo.

- -- Disparar raio bola de fogo!!!!!


Dan desviou por pouco.


— Vocês ainda têm esses truques?!


O Zambara respondeu imediatamente.


Um feixe de energia sônica atingiu o espaço à frente do Pirata do Espaço.


— CUIDADO, JOE!!!


Joe desviou.


O feixe passou pela lateral da aeronave.


— Eles estão alternando os ataques!


Dan não perdeu tempo.


— Agora!


As três máquinas voltaram a avançar juntas.


O Zambara atacava pela frente.


As duas unidades auxiliares mergulhavam pelas laterais.


Joe percebeu que estava novamente sendo conduzido para uma posição desfavorável.


— Rita, segure firme.


— O que vai fazer?


— Tirar essas duas unidades de cima da gente.


Joe acelerou diretamente contra uma delas.


— Joe!


No último instante, desviou.


A pequena aeronave de Tigan passou por ele.


Joe fez uma curva apertada e entrou atrás dela.


Tigan percebeu tarde demais.


— Ele está atrás de mim!

- -- Agora, vou relembrar você o que é realmente um raio sônico, fogo!!!!!!.O Pirata do Espaço dispara pelo ''nariz do robô'', fazendo com que a unidade auxiliar seja atingida e explodida.


Dan exclama surpreso:


— Tigan!!!!!!


E Golgo brada, soltando mais uma rajada de seu robo-bomba auxiliar:


— Eu vou acabar com você, Pirata do Espaço!


Joe desviou da primeira rajada.


Golgo disparou novamente.


Joe continuou manobrando, atraindo a pequena aeronave para longe do Zambara.


Rita percebeu o plano.


— Você está fazendo ele te seguir.


— Exatamente.


Golgo não percebeu a armadilha.


— Pare de fugir!


Joe aumentou a velocidade.


Golgo o perseguiu, não ouvindo os apelas de Dan que avisava que se tratava de um engodo de Joe, este reduziu bruscamente. E a aeronave de Golgo passou à sua frente.


O Pirata do Espaço girou e abriu outro raio sônico.


A explosão iluminou o céu.


Dan grita mais uma vez; — Golgo!!!!!


Restava apenas o Zambara, o robô-bomba principal.


Dentro da cabine, Dan observava os destroços dos dois veículos auxiliares.


Seu rosto estava tomado pela raiva.


— Tigan... Golgo...


Joe abriu o canal.


— Dan, desista.


Dan respondeu imediatamente:


— Nunca!


O Zambara avançou.


— Vocês mataram meu pai e meus irmãos e agora, meus amigos!


Uma rajada atingiu o Pirata do Espaço.


— Vocês vão pagar por isso!!!!!


Outra explosão sacudiu a aeronave. Rita perdeu momentaneamente o controle de um dos sistemas.


— Joe!


— Estou tentando recuperar!


Dan continuou disparando.


— Hoje vocês vão pagar por todos eles!


O Zambara atacou de novo.


Joe fez uma curva fechada.


O ataque passou raspando pela fuselagem.


— Agora, Rita!


Ela acionou os controles.


O Pirata do Espaço respondeu com o Raio Arco-Íris Pirata, que atingiram o Zambara, fazendo Dan ser lançado contra o encosto.


— Maldito!


Joe aproveitou a abertura.


— É agora! Míssil pirata. FOGO!!!!!


Dan tentou manobrar, mas não conseguiu evitar todos os impactos e o seu robõ-bomba começou a perder velocidade. Mas Dan não recuou.


— Ainda não!


Ele avançou novamente.


Rita olhou para Joe.


— Ele não vai parar.


— Eu sei.


O Zambara disparou outra sequência de raios.


Joe desviou de um.Depois de outro.Um terceiro atingiu a lateral do Pirata do Espaço.


Alarmes começaram a soar na cabine.


— Joe!


Ele respirou fundo.


— Mais uma vez.


Joe mergulhou.


O Zambara acompanhou.


Por alguns segundos, os dois ficaram quase lado a lado.


Então Joe girou.


A manobra colocou o Pirata do Espaço atrás do inimigo.


Dan percebeu.


— Não!


Joe abriu fogo.


O mais mísseis piratas foram lançados.


Dan tentou desviar.


O impacto atingiu o Zambara em cheio.


A máquina perdeu controle e começou a girar.


Rita olhou para os instrumentos.


— Joe, ele está sem energia!


Dan ainda conseguiu recuperar parcialmente a trajetória.


Mesmo com a máquina danificada, voltou a avançar.


— Eu ainda posso lutar!


Joe observou o inimigo.


Por um instante, viu apenas um homem consumido pela vingança.


Mas não havia mais espaço para outra tentativa.


— Rita.


Ela entendeu.


— Sim.


Joe acionou o sistema principal.


O compartimento no tórax do Pirata do Espaço começou a se abrir.


Dan arregalou os olhos.


— O que é isso?


Joe não respondeu. O Torpedo Voador estava pronto.


Joe manteve o Pirata do Espaço alinhado, enquanto Dan avançou uma última vez.


— Por Daggar! Pelos meus irmãos!


Joe acionou o disparo.

- --Torpedo Voador, fogo!!!!!!


O enorme torpedo atravessou o céu.


Dan tentou desviar, mas era tarde demais.


O impacto atingiu o Zambara diretamente.


Por um instante, a máquina permaneceu envolta em luz até explodir de vez.


Joe manteve os controles firmes enquanto os destroços caíam sobre o mar, enquanto Rita permaneceu em silêncio.


Depois de alguns segundos, perguntou:


— Acabou?


Joe olhou para o oceano.


— A batalha, sim.


Nenhum dos dois comemorou.

_____________________


Muito longe dali, na escuridão do fundo do oceano, alguém acompanhava tudo através de um monitor. O Grande Almirante permanecia imóvel.


Dr. Kapernek, na língua da horda:


— Geldon-Xþenʔ-Mž-râs Pr-fêiʔ. Gailaria K-lâk-Þmâñ O-tâ Pþlen-tûs-K-lâk V-lâi-Z-lhân M-êlañ Mbþâx Râ. O-tâ My-lhân Pþâss-D-tâss N-fâ. Mž-râs-Z-lhân Gailaria-Ž-eñi Geldon Mbþâx Râ.

(Esses pilotos da época de Geldon, foram incompetentes. Nos custaram muito para resgatá-los daquela prisão espacial e é assim que eles nos compensam? Não me admira que ele tenha sido derrotado pelo terráqueo e a gailariana que traiu Geldon).



O ''grande almirante'':


— N-fâ Pþâss Zn-mž. Mbþâx-Þmâñ O-tâ Pþâss. Groizer-X S-sienʔ O-tâ My-lhân D-tâss Râ. Ž-sâñkʼ-Mž-râs Pþâss-D-sâñkʼ. Zn-mž D-sâñkʼ?


(Ao contrário, doutor esse era o destinos deles. Morrer em combate e nos mostrar o modo de agir do Pirata do Espaço — disse em tom calmo e frio — É para isso que servem as cobaias. Certo, doutor?)

______________________


Na Ilha Akane, a tensão finalmente começava a desaparecer.


Sabu foi o primeiro a comemorar.


— Conseguiram!


Ippei soltou o ar que parecia estar prendendo havia vários minutos.


— Eu sabia que eles dariam conta.


Gen riu.


— Sabia nada. Você estava quase arrancando os cabelos.


— Eu estava analisando a situação!


Sabu deu uma risada.


— Claro. Analisando.


Os três continuaram acompanhando o Pirata do Espaço pelo visor enquanto a aeronave começava a retornar.


Entre os terráqueos, o alívio era evidente.


Mas, no outro lado da sala, os gailarianos não demonstravam a mesma descontração: Themis estava satisfeito com o retorno de Rita, mas havia algo diferente em seu olhar. Liriana permanecia calada, e Kaela também. Sólus observava os instrumentos sem dizer uma palavra.


Tobishima percebeu.


Aproximou-se lentamente.


— Bem, acho que alguns esclarecimentos precisam ser feitos agora.


Sólus ergueu os olhos, sem demostrar que pareceu surpreso.


— E vocês da Terra têm todo esse direito.


Ele fez uma pequena pausa.


— Sugiro que entremos em contato com o Professor Yan.


Tobishima assentiu.


— Assim farei.


Por alguns segundos, ninguém disse mais nada.


A comemoração continuava em algum ponto da base.


Mas, naquela sala, todos já sabiam que a batalha havia aberto uma questão muito maior.


_______________________


O Pirata do Espaço voava de volta para a Ilha Akane, com Joe permanecendo nos controles e Rita ao seu lado.


Por algum tempo, nenhum dos dois falou.


O céu diante deles estava tranquilo outra vez.


Joe quebrou o silêncio.


— Meu Deus...


Rita olhou para ele.


— O que foi, Joe?


Kaisaca manteve os olhos à frente.


— Será que vai começar tudo de novo?


Rita não respondeu.


Joe respirou fundo.


— Quem é esse Grande Almirante, Rita?


Ela demorou um pouco antes de responder.


— Vamos conversar na base, Joe.


Ele esperou.


Rita então o encarou.


— Mas antes, você precisa voltar a confiar em mim.


Joe permaneceu em silêncio. Aquelas palavras tinham outro significado para ele. Ele sabia.


Rita também entendeu que ele havia entendido.


Joe voltou os olhos para o horizonte.


— Eu sei.


Rita esperou, então ele completou:


— Tudo tem seu tempo, Rita. Tudo ao seu tempo.


Ela ficou olhando para ele por alguns segundos e depois sorriu.


Joe havia entendido o que ela realmente queria dizer. E o mais importante, não havia fechado a porta para Rita. Embora ainda houvesse muito que refletir. Mas naquele momento, a prioridade era quem estava por trás daquele ataque.


O Pirata do Espaço continuou seu voo em direção à Ilha Akane.


A ameaça havia voltado.


A guerra talvez estivesse apenas começando.


Mas, em meio à dúvida e à angústia, ainda havia esperança para os dois.