Notas iniciais
Iniciando fim de semana, momento ideal pro encontro.

Parece que está vivendo a cena do filme Lost Boys – na verdade, está de fones, ouvindo a versão do Manson. Conforme estão descendo a rua, os caras iam saindo de casa e se juntando a caminhada turma.

A maioria, se adaptando a noite fria, está vestindo roupas pretas, coturno e sobretudo. Lembrando não somente a cena deste filme clássico, como também alguns lugares espalhados pelo mundo onde costumam usar esse visual darktipo: a Noruega, Reino Unido...

No meio do caminho, percebendo que somente eles estão caminhando pela calçada, um deles, enfim, quebra o silêncio, perguntando:

─ Acredita mesmo que ela vai querer alguma coisa contigo? Simplesmente, não vejo futuro nisso!

─ Como não!? – interrompeu o outro ─ Esse homem simplesmente sabe tudo sobre rock, história, religião...

— Além do mais — continuou um outro — ela curte muito paganismo. Acho que os dois tem tudo a ver.

— Esse homem — colocou a mão no ombro dele, finaliza: — sabe de tudo basicamente sobre mitologia.

Os três continuam discutindo, na tentativa de prever a reação e, enfim, a resposta dela. Do jeito que a discussão está indo: não vai demorar muito pro motivo afastá-los até a bebida fazer seu efeito conciliador.

Os três, amigos da escola da Vila, estudam em salas diferentes no mesmo turno. Além disso, curtem espaços diferentes na comunidade underground, mas tem um bom motivo pra manterem se unidos na turma de preto — gostar de metal, mulher e cantina das trevas.

Assim, passados alguns minutos de caminhada, em meio a discussão, os quatro chegam na Praça.

─ Acho que o banco tá livre. – disse um deles, indicando um banco aparentemente vazio na praça.

─ Então, vamos pra lá! – disse o outro, mas interrompeu a caminhada ao observar: ─ Não é o Lord Legion?

Sim! Uma hora dessa da noite, Lord Legion está passando a alguns metros deles. Provavelmente, deve estar indo pra casa, pois mora bem próxima da Praça da Igreja Matriz. Certificando disso, um deles comenta:

─ Dizem que o som extremo e a Igreja deixaram o cara meio doido. – sussurrou um deles.

─ Quem não é um pouco doido, maluco beleza!? — observou um outro, rindo do comentário.

— Isso porque ele tá curtindo unblack metal, metal extremo cristão, depois da conversão — retrucou.

— Isso lá é motivo!? Fala que não quer dividir as minas, porque crente não bebe mais vinho — alfinetou.

─ Sem querer cortar vocês, — disse ele — tem gente já se aproximando do nosso banco na Praça.

Enquanto Lord Legion se distancia da Praça, a turma de preto se aproxima do banco. Em breve, os homens da capa preta não serão os únicos na Praça, sendo alvos dos olhares e comentários. As veze, não sendo bem-vindos em alguns espaços públicos deste Estado Democrático de Direito. A cena é vivenciada em comum em vários lugares — nas tribos dessa aldeia globalizada.

Estes comentários, parecidos aos feitos no ônibus da escola, são muito comuns nestes lugares. Por isso, onde moram, costumam chamá-los a Turma de Preto, sendo confundidos constantemente como uma seita setânica, como uma seita do ... pelos religiosos e seus devotos.

Sem perder tempo, os quatro sentam-se a mesa e enchem os copos de cantina das trevas. Um deles, animado ao ver a galera reunida, retira uma caixinha da bolsa e aperta o play — num volume tolerável. Aos poucos, o papo começa a fluir, quando, de repente, uma voz suave pergunta:

─ Oi? – passou, quando olharam pra ela, continua dizendo ─ Posso ficar aqui com vocês nessa noite?!

─ Claro! — prontamente disse ele, aos olhares dos demais — Estamos esperando justamente por você!

Ouvindo isso, não sabia se estava alegre ao vê-la ou intrigado com o anjo — no sentido fraterno da palavra. Essa noite, na Praça da Igreja Matriz, embora não possa prever o bom final, está apenas começando entre um e outro comentário, entre um e outro gole de vinho, entre uma e outra graça.


Notas finais
O unblack metal (também conhecido como black metal cristão) é uma filosofia religiosa cujos artistas se opõem diretamente ao satanismo.