A Trouxa
13 A Festa
Notas iniciais
Assim que abri a grande porta das masmorras, uma música alta invadiu o corredor do castelo. Uma festa estava acontecendo na Sala Comunal da Sonserina e, aparentemente, todos os alunos da casa estavam presentes.
Era uma sala espaçosa, mas ocupada por vários móveis escuros e pesados, além de pouco ventilada devido ao lago que cercava nossos dormitórios, tornando impossível a abertura de janelas. O ambiente se tornou ainda menos propício a medida que mais pessoas desciam de seus quartos para participar da festa.
Os móveis foram empilhados em uma lado do quarto para que um considerável espaço pudesse ser aberto para a acomodação de todos. Enquanto alguns dançavam loucamente ao som da música alta, várias pessoas trocavam carícias no meio da Sala Comunal.
Era tanta gente se pegando a minha volta que, sem saber porque, um casal me chamou atenção. Eles estavam sentados próximo a escadaria em sentido aos dormitórios masculinos, não me contive e andei até eles.
Ao passo que fui me aproximando reconheci Otaves e Thomas juntos. Eles estavam em um ritmo louco e intenso, não queria atrapalhar o momento que estavam compartilhando, mas não me contive. Há tempos eu os observava e torcia para que reparassem que gostavam um do outro e, naquele momento, senti uma grande felicidade por eles.
A vida poderia tomar um rumo diferente a partir de agora, a escola se tornaria mais interessante com tudo o que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas. Eu me tornei espiã do Ministério da Magia, Arthur e eu estávamos nos relacionando e superando seu lapso de memória e, agora, meus dois melhores amigos em Hogwarts, até mesmo fora dela, estavam felizes um com o outro.
Peguei um pedacinho de papel qualquer em uma das mesas ainda dispostas no salão e meu kit de pena e tinta para escrever. Pensei, por um momento, o que poderia escrever para deixa-los envergonhados, mas não constrangidos.
“Eu sei o que você fez no verão passado” acabou sendo minha mensagem. Não era original, mas eu tinha certeza que eles entenderiam. Preparei um plano para colocar o papel próximo aos dois, sem que percebam que fui eu.
Me aproximei lentamente e coloquei o bilhete no bolso da camiseta de Thomas, que estava com as costas viradas para mim. Os dois continuaram grudados, como nunca imaginei que dois seres humanos conseguiriam ficar. A Lei da física que aprendi no mundo trouxa em que determinam que dois corpos não ocupam o mesmo lugar definitivamente não se aplicava entre eles.
“Ora, ora , ora. Vejam quem está perdida por aqui. Alice Kittam! Meu nome é Breno, muito prazer.”
Breno me puxou para perto enquanto eu caminhava entre as pessoas da festa. A música estava tão alta que fomos obrigados a nos aproximar bastante para que fossemos ouvidos.
Eu conhecia Breno, mesmo nunca tendo falado com ele. Enquanto eu praticava meus exercícios matinais, ele praticava sua luta trouxa. Sempre que possível, o observava em seu treino, cujo qual era muito bom no que fazia. Seu sorriso era encantador e sedutor, sempre que me pegava olhando para ele, abria um sorriso que me prendia.
Mesmo estando com Arthur, me sentia atraída por Breno, o garoto de mesma idade que eu. A única parte em que conseguia o observar era com as atividades matinais e, recentemente, na biblioteca. Nunca pensei que ele saberia meu nome ou, até mesmo, viria falar comigo.
“Achei que depois de tanto esforço tentando chamar sua atenção, eu conseguiria, ao menos, tirar uma apresentação formal de você. Resolvi não esperar mais e vim te chamar para sair um dia.”
Minhas pernas amoleceram e meu coração disparou. Breno estava me convidando para sair e eu nem ao menos hesitei em aceitar. Ele possuía os mesmos interesses que eu e frequentava as mesmas aulas do segundo ano que eu havia escolhido.
Ficamos conversando por horas e, em momento algum eu pensei em Arthur. Ele havia se tornado um desconhecido pelo pouco tempo que passei longe dele. Apenas uma hora fez eu me senti atraída por outro e não lembrar de minha relação.
Não conversei com ele durante o dia e não o encontrei durante a noite. Eu estava completamente longe de qualquer sentimento que já havia desenvolvido por ele, infelizmente.
Arthur era uma pessoa maravilhosa, eu estava muito feliz em compartilhar meus sentimentos e emoções com ele, estávamos indo bem em nosso relacionamento. Contudo, estávamos longe e nunca nos encontrávamos, não nos importávamos mais como antes.
Faltava uma semana para a semana do Natal e em breve voltaríamos para casa, não sabia o que fazer com relação a isso. Arthur se daria muito bem com meus pais, eles iriam adorá-lo, ele me fazia bem como ninguém jamais fez e ele foi meu primeiro grande amigo e o primeiro que me acolheu nesse mundo novo.
Não sabia se estava ligada ao passo e á sua memória ou ao sentimento que eu ainda tinha por ele. Não sabia se estava apaixonada por uma ideia de ter um relacionamento ou pela pessoa com a qual estava me relacionando.
Deitei a cabeça no travesseiro aquela noite e não consegui para de pensar nesse sentimento que me avassalava por completo. Essa indecisão me tornaria uma pessoa fria com Arthur e acabaríamos nos separando de todo jeito, eu sabia isso.
Independente de minha decisão, não poderia deixar com que minha amizade com Arthur morresse. Ele foi meu primeiro amigo na vida, meu primeiro amor, me trouxe meus dois melhores amigos e me aceitou quando eu lhe contei meu segredo. Ele me aceitava e gostava de mim do jeito que eu era, mas isso não bastava mais.
Uma mão descansou em meu obro, fazendo com que eu me assustasse completamente. Era Arthur, ele estava no meu dormitório, na ala das meninas, o que poderia causar sérios problemas para ambos.
O segui até a Sala Comunal, cujos móveis já estavam no lugar, novamente. Embora a sujeira ainda permanecesse no local, com copos espalhados pelo chão e comidas atiradas para qualquer canto, era notável que uma pequena organização foi forçada a acontecer.
“Alice, sinto muito por hoje. Não te dei atenção em momento algum durante o dia, não nos falamos direito pela manhã, eu me ausentei durante a noite. Soube que houve uma festa, que aparentemente foi muito boa – ele olhou em volta e soltou aquele sorriso que eu sempre amei – e te deixei sozinha aqui.”
Arthur pegou minhas mãos e olhou em meus olhos. O castanho de seu olhar invadiu meu coração e eu senti a paixão novamente. Percebi o porque amava aquele menino e o porque ainda estava com ele.
“Eu gostaria de ser um namorado melhor para você, gostaria de estar ao seu lado a todo momento e dividir tudo com você. Gostaria de observar enquanto você lê, assistir a filmes com você, observar as estrelas, te mimar e ser melhor, porque você merece o melhor.
Alice, você não tinha a obrigação de se preocupar comigo quando eu perdi minha memória e, muito menos de me esperar e manter a paciência. Você me contou tudo novamente, excluindo as partes ruins de toda a nossa aventura de primeiro dia, eu sei disso porque... – ele hesitou por um momento, engoliu as palavras que iria dizer e, por fim, desviou o olhar.
Eu recuperei minha memória hoje a tarde e estava na enfermaria fazendo uma série de exames. Não quis te preocupar, então não te chamei para ir comigo, queria ter certeza de que estava tudo bem antes de te contar. Não queria te ferir mais do que já fiz durante o início das aulas, peço desculpas por isso, mas com minha memória recuperada eu senti a paixão de nossa primeira conversa.”
Suas palavras reacenderam uma chama dentro de mim, a mesma chama que Breno havia feito apagar. Não iria negar que eu estava completamente dividida entre os dois meninos, mas eu tinha uma certeza: não iria trocar Arthur, que me amava, por algo completamente incerto.
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