A Troca.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
vamos lá então..
Mesmo com um travesseiro em meu rosto e a televisão quase no volume máximo eu ainda conseguia ouvir os malditos barulhos vindos do quarto um andar acima. Era impossível acreditar no quão cretino Gerard conseguia ser. Era a primeira sexta feira que não teríamos aulas e afazeres pelo resto da tarde e a primeira coisa que ele faz é trazer uma vadia para dentro de casa. Onde estava nossa mãe nessas horas?
Aumentei ainda mais o volume, quase atirando o controle na televisão, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Minhas unhas estavam perto de furar o travesseiro que agora estava em meu colo de tanta raiva que sentia. A sorte de Gerard era que ele não era a maldita almofada, o que constava mais um ponto para meu azar.
Até pensei em sair, mas se fizesse isso aí sim eu jamais poderia permanecer na minha própria casa, já que ele saberia exatamente como me irritar e me tirar dela. Não era tarde, e isso significava que Frank deveria estar em casa. Sem me levantar peguei o telefone que estava na pequena mesa ao lado do sofá e disquei o conhecido número.
Chamou uma, duas, três vezes e ninguém atendeu. Tentei ligar para seu celular, mas a única coisa que consegui foi que a ligação caísse na caixa postal. Pensei até mesmo em ligar para os amiguinhos de Gerard, mas além de ser humilhado eu não saberia o número. Se eu ligasse para mamãe Gerard tentaria me matar depois, a mesma coisa se eu ligasse para o meu pai.
A única coisa a se fazer era aguentar e esperar.
Algumas horas depois...
Acordei com um barulho alto e agudo que batia no piso de madeira, provavelmente um salto estilo putas do Gerard, seguido de passos fortes, esses vindo do meu lindo irmãozinho, futuro cafetão. Levantei-me um pouco, ficando novamente sentado sobre o sofá. Meu cabelo que antes estava perfeitamente penteado agora estava amassado de um lado, assim como os meus óculos, completamente torto.
– Você vai me ligar, não vai? – Uma voz irritantemente fina ecoava na sala, seguida de um pequeno risinho. Eu estava no inferno e não sabia?
– Claro que sim, linda. – A voz mentirosa do meu irmão dava a resposta.
– Até mais. – A loira oxigenada finalmente se despediu, dando um último beijo em Gerard.
O pior de tudo não era escutar os gemidos e gritos antes vindos do andar de cima, e sim assistir a tamanha encenação. Ás vezes, quando Gerard falava que queria ser um ator pornô eu não sabia que ele poderia desempenhar tão bem o papel. Ele com certeza ficaria rico se fizesse isso em frente às câmeras.
Gerard fechou a porta, desmanchando no mesmo momento o sorrisinho que adornava em seu rosto, revirando os olhos enquanto se dirigia novamente a escada. Como sempre ele me ignorou, mudando seu percurso para a cozinha, direto para a geladeira. Por sorte, o papai havia ido ao supermercado, e logo teria que ir de novo.
Ainda segurando a almofada me levantei lentamente, indo a passos leves e silenciosos até a cozinha. Gerard estava atrás da porta da geladeira, segurando-a com uma mão, enquanto pegava toda a comida da casa com a outra. Assim que ele percebeu minha presença ele fechou a porta, ficando somente com uma caixa de leite na mão.
– O que foi? – Ele perguntou com a boca cheia, tomando um gole do leite. Novamente pensei em Gerard e ator pornô na mesma frase. Se ele gostava de fazer sexo e comer tudo o que via pela frente ele teria que trabalhar para por alguma comida em casa.
– Você é um imbecil! – Acabei atirando a almofada nele, fazendo-o derrubar um pouco do leite em cima de si, deixando a caixa cair no chão.
– Porra Mike, olha o que você fez! Qual é o problema agora? – Ele gritou, procurando por um pano no pequeno armário em baixo da pia.
– Há, qual o problema agora? – Ri irônico, aumentando meu tom de voz. – O problema é você Gerard, e sempre vai ser! – Ele parou de procurar o pano, olhando para mim. Sua expressão passou de indiferente para irritada.
– Eu? Tem certeza que sou eu o problema? – Gerard se aproximou de mim, cuspindo tais palavras. Tudo bem que às vezes eu conseguia alguns problemas, mas não era culpa minha se ninguém aceitava o meu jeito de ser.
– Pelo menos eu não trago uma vadia diferente a cada dia e esqueço que as outras pessoas existem. – Dizer tais palavras mexeu com meu emocional, mas mesmo assim segurei as lágrimas que já estavam meus olhos, prontas para serem despejadas.
– Ah tá, Michael. – Ele riu irônico, apoiando-se sobre a bancada da cozinha. – Vai me dizer que está com ciúmes?
– Porra Ger, não é isso! – Praticamente gritei, batendo um dos pés com força no chão. Somente ele sabia me deixar irritado dessa maneira.
– Então o que é? – Gerard voltou a sua antiga expressão indiferente, já não dando a menor atenção para nossa discussão.
– Eu não sinto ciúmes das suas vadias, e sim do tempo que elas tomam do meu irmão. – Falava sério, atraindo novamente sua atenção. Será que dessa vez ele iria dar atenção a alguma coisa que eu iria falar? – Eu sinto falta da época em que ficávamos juntos, que éramos como unha e carne, que realmente éramos amigos, irmãos. E agora, o que somos? Dois estranhos que vivem na mesma casa, Ger! Você mudou, age como se eu simplesmente não existisse! – Eu não queria ter dito a última frase, mas foi inevitável. Mesmo que Gerard fosse zoar da minha cara pelo resto da minha vida, como iria dizer que isso era mentira?
– E você vai dizer que a culpa é minha, Mikey? Você passa a maior tempo com o seu amiguinho, e também esqueceu que eu existia! Simplesmente fiz o mesmo com você, e segui minha vida, que está muito melhor do que na época que ficávamos juntos e eu tinha que te aguentar na escola, ainda mais com todos te achando a criatura mais estranha do mundo! – A palma das minhas mãos já começavam a doer pela unhas que estavam quase fincadas na pele de tanta raiva que sentia. Como ele poderia dizer isso para mim?
Saí da cozinha, voltando novamente para a sala. Era inevitável não chorar no momento, e eu não queria que Gerard visse isso, que ele visse que havia conseguido me ferir, novamente. Escutei seus passos atrás de mim, aproximando-se cada vez mais.
– Mik... – Ele me chamou, tocando levemente meu ombro.
– Me esquece Ger! – Retirei sua mão de meu ombro, indo para o início da escada.
– Mikey, espera! – Ele foi atrás de mim, segurando meu braço com certa força, fazendo-me olhar para ele.
– O que foi agora? – Perguntei rispidamente, tentando livrar-me do aperto, o que foi em vão.
Ele não respondeu, apenas continuou a me encarar com um misto de culpa e raiva. Gerard soltou meu braço, afastando-se um pouco de mim, sem deixar de me encarar. Eu poderia muito bem ter aproveitado a brecha e ter ido para meu quarto, mas como sou profissional em cometer erros fiquei ali.
– Olha aqui... – Apontei para ele, semicerrando meus olhos ao falar.
– Se eu fosse você... – Gerard me interrompeu, e ambos paramos de falar assim que percebemos que havíamos falado juntos. Eu simplesmente odiava quando isso acontecia.
Ele deu mais alguns passos para trás, apoiando-se nas costas do sofá. Eu subi dois degraus da escada, sem parar de observá-lo. Ele sabia como eu ficava irritado quando ele falava as mesmas coisas que eu, e o pior de tudo, quando falava no mesmo momento. Mas pelo visto ele queria mesmo me irritar.
– Não faça mais... – Ele ergueu uma das mãos, apontando para mim exatamente como eu estava fazendo. O que estava acontecendo? Ele estava lendo meus pensamentos e resolvendo fazer a mesma coisa que eu?
Comecei a rir feito um idiota, passando meu indicador na parte inferior de meus olhos, arrumando meus óculos. Gerard primeiramente me olhou preocupado, pensando que eu deveria ter enlouquecido e agora estava rindo feito um abobado, mas logo seu olhar voltava a soltar faíscas sobre mim.
– Dá pra parar? – Ele perguntou, mas isso não me impediu de continuar rindo, mesmo que eu não soubesse o porquê de tal gargalhada. – Que bom que isso está sendo divertido para você, Mikey. – Ele se levantou, indo em direção a porta.
– Deve estar sendo tão divertido para mim quanto para você. – Disse ironicamente, não acreditando no que estava vendo. – Isso, agora vai lá pra uma de suas putas. – Gerard olhou lentamente para trás com um olhar assassino que eu nunca havia visto antes, me deixando com um pouco de medo.
– Vai lá ligar para o seu namoradinho, Mikey. – Gerard disse com um pequeno sorriso, arqueando suas sobrancelhas enquanto voltava a andar em minha direção com passos lentos, as mãos enterradas nos bolsos da calça. – E conta tudo sobre a nossa briga, ok? – Ele riu ironicamente.
– Vai se foder, Gerard! – Se eu tivesse algo em minhas mãos provavelmente teria atirado nele, mas só o grito foi o suficiente para retirar aquele sorrisinho idiota daquela carinha que eu desejava socar e arranhar. Até nosso cachorro que estava deitado perto da lareira se encolheu.
– Que medo. – Ele riu novamente, mordendo o lábio inferior. Porque Deus, porque eu tinha que ter justo ele como irmão? Eu deveria estar pagando por pecados que ainda nem tinha cometido.
– Mesmo, maninho? – Desci os degraus da escada, indo até ele, observando-o com um sorriso debochado. – É bom ter medo mesmo. – Ele apenas riu, mexendo com a língua, e que logo eu arrancaria.
Não aguentando mais as provocações e minha cabeça quase queimando de raiva eu acabei dando um tapa no rosto de Gerard, forte o suficiente para deixá-lo com uma marca avermelhada na lateral de sua face e deixar minha mão dolorida. Ele não disse nada, muito menos fez algo, apenas continuou a encarar o chão.
Coloquei minhas duas mãos em meu rosto, tapando minha boca que estava perfeitamente aberta, mostrando o quanto em choque e arrependido eu estava. Senti meus olhos novamente ficarem marejados por lágrimas, e uma grande parcela de culpa tomar conta de mim. Eu estava com muita raiva de Gerard, mas eu não queria machucá-lo, nem emocionalmente, muito menos fisicamente.
– Ger... – Me aproximei novamente dele, erguendo uma de minhas mãos para tocar seu rosto inchado. – Me descul... – Fui interrompido pela mão grande de Gerard que segurava a minha, afastando-a.
– Me esquece, Mikey. – Ele foi novamente para a porta, massageando a face enquanto andava.
– Você é um idiota. – Dissemos, infelizmente juntos. Seus olhos se arregalaram um pouco, observando-me com certo desprezo. Eu não podia negar que fazia o mesmo.
– Dá pra parar? – Gerard disse, sua voz mais alta que a minha. Porque ele insistia em falar as mesmas coisas que eu?
Bufei, já não aguentando mais nem olhar para ele. Voltei a andar na direção das escadas, subindo alguns degraus, parando somente para ver quando Gerard abriu a porta, já que a abrira com força o suficiente para arrancá-la do lugar. O que nenhum de nós esperava era encontrar nossa mãe parada ali, bem na nossa frente.
– Mãe? – Gerard perguntou um tanto impressionado.
– Sim Ger, lembra? Eu chego em casa essa hora, todo o dia. – Ela respondeu, passando por ele, que continuava imóvel segurando a maçaneta da porta. Se nós tivéssemos um pouco de sorte ela não notaria nada e nem saberia da briga. Mas como não temos tanta sorte assim a primeira coisa que ela fez foi voltar até ele e observar seu rosto inchado.
– Gerard, o que aconteceu no seu rosto? – Ela perguntou, tentando tocar a pele avermelhada sem ter sucesso, já que Gerard se esquivava.
– Nada mãe. – Respondemos em uníssono, deixando-a boquiaberta. Porque eu tinha que me meter aonde não era chamado?
Gerard saiu de casa, deixando nossa mãe falando sozinha. E eu é que não iria querer ouvir o que ela iria dizer, já que não era preciso perguntar nada para saber que tínhamos brigado. Subi correndo as escadas, trancando-me em meu quarto. Por sorte ela não veio atrás de mim.
Olhei pela janela, mas nada vi. Gerard já tinha saído, sabe-se lá para a casa de quem ou com quem, mas estava melhor assim, até todos estarem calmos e com os pensamentos em ordem. E isso era a primeira coisa que eu deveria fazer.
Sem trocar de roupa e nem tomar banho atirei-me na cama, caindo de cara no travesseiro fofo. Eu queria gritar e pular pela janela, mas não faria nenhuma dessas coisas. A culpa não era totalmente minha, e Gerard sabia muito bem disso. Tudo bem que eu me sentia mal por ter batido nele, mas poxa, porque ele tinha que me provocar? Já não bastam os outros na rua, e agora ele?
Coloquei o travesseiro por cima da minha cabeça, não me preocupando se tinha dificuldades para respirar. Depois de um tempo comecei a sentir um pouco de sono, agradecendo por isso. Pelo menos eu teria algumas horas de descanso, sem ninguém para me encher o saco, sem ter minha mente sendo inundada por mil pensamentos.
A única coisa que eu queria era que Gerard me entendesse, mas isso parecia ser impossível. Ele não sentia na pele o que eu tinha que passar, muito menos como me sentia. Se ele estivesse no meu corpo e “fosse eu” talvez ele entendesse tudo.
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