A Tristeza é Bonita
1 Capítulo Único
Estava há 2 semanas sem escrever absolutamente nada. O calor da cidade da cidade já estava cozinhando meus miolos.
Ser escritor é um tédio. Sem mais. Ninguém quer viver assim. Mas quando escrever é a única coisa que se sabe fazer, não há escolha. Saí para beber alguma coisa durante a noite. Os becos da minha cidade fediam tanto que foram por muitas vezes alvo de minha escrita. Carregava sempre meu caderninho, para caso tivesse alguma ideia. – Uma cerveja, por favor – pedi. – São dois paus – disse o velho do bar. Comecei a rir. Aquilo foi engraçado. O bar onde eu estava era o menos frequentado da cidade. Disso eu tenho certeza. Era velho e fedia a mofo. Era feito de madeira do piso ao teto. As paredes mal pintadas com tinta vermelha deixavam aquele lugar medonho. Luminárias douradas iluminavam o lugar. Sentei em uma mesa e comecei a escrever. Escrevi um poema patético sobre a sociedade conformista e sobre pessoas narcisas. Patético. Uma moça acima do peso sentou na cadeira frente a minha. Me assustei um pouco, pois estava concentrado. – Olá? – Disse sem jeito. – O que está escrevendo? – Ela perguntou olhando por cima da mesa tentando ver o meu caderno. – Alguns poemas – disse. – Posso ler? – Ela questionou em um tom interessado. Olhei-a por uns instantes. Ela era bem bonita. Tinha o cabelo loiro, mas as raízes pretas. Provavelmente havia pintado. O olho dela era preto e refletia a luz das luminárias. Mas ela parecia triste. Tinha olheiras nítidas sob a branca. – Claro – autorizei. Ela pegou meu caderno e começou a ler. Notei que ela ria, depois de alguns minutos de leitura. – Que foi? – Perguntei desconfiado. – Está um lixo. – Como é? – Peguei meu caderno rapidamente. – Está patético. – Vá se foder. Ela riu. – Olha. Você escreve bem. Mas ninguém liga para esse tipo de coisa. Ninguém quer saber o que tem que fazer para se encaixar ou se diferenciar da sociedade. Ninguém liga para a felicidade em palavras. – Como assim? – Perguntei sem chão. Estava extremamente envergonhado. – As pessoas querem se identificar com o que leem. Não querem ser repreendidas nem compreendidas nem corrigidas. As pessoas querem toda a tristeza e melancolia do mundo. Elas querem ler e ficar tristes. A tristeza faz com que as pessoas se encantem. – Como sabe disso? – Não importa – ela disse olhando nos meus olhos. – Então, como farei isso? Não sou criativo. – O que você entende por tristeza? – Ah, não sei. É um estado psicológico da ausência de otimismo, esperança... – Para com essa merda! – Ela gritou. Fiquei em silêncio. – O seu problema é se espelhar nas coisas demais. É falar das coisas como um cientista fala de uma pesquisa. Enfia a psicologia no cu. Engole qualquer tipo de moralismo. Abuse da liberdade de expressão. Sodomize a liberdade de expressão. – Certo. – Então, vai me pagar uma bebida ou eu mesmo terei de pedir? – Ela disse. – Eu pago. Uma cerveja aqui, por favor – gritei. – Cerveja? Se fode. Quero uísque – ela repreendeu. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Não entendia como havia chegado naquele ápice. Aquela garota tinha uma coisa estranha. Ela me encantava, e eu não queria isso. – Então, qual o seu nome? – Ela me perguntou. – John Ford. E o seu? – John Ford? Credo. Eu não compraria um livro com um autor com este nome. Desculpa, mas não é nome de escritor. – E o seu? – Insisti. – Catarine. Mas me chama de Cate. É mais bonito. – Certo, Cate – sorri. – Quantos anos você tem? – Perguntei. – Eu não respondo essa pergunta nem para a minha mãe – ela riu. – Mas a sua mãe não sabe? – Questionei. Ela me olhou com os olhos meio fechados, significando que não. Eu e Cate conversamos por horas. Ela era bem legal, mas não fazia o meu tipo. Ela não faz meu tipo, repetia para mim mesmo toda vez que sentia atração por ela. – Certo, John. Nós vamos transar? – Ela disse como se perguntasse quantas horas eram. – Como é!? – Tossi com a pergunta, chocado. – É. Nós vamos. Só que, tenho uma condição. – E qual é? – Deve escrever um poema para mim. Bem triste e envolvente. Daqueles que se lê antes de um suicídio. – Para que isso? Olha. Eu não sou esse tipo de pessoa. Não consigo ser. – Então sem transa. – Certo. Sem transa. Mais ou menos 40 minutos depois, ela se levantou. – Vou indo, John. Bom te conhecer. – Tudo bem. Pode me dar o seu telefone? Você parece ser o tipo de gente que gosto de ser amigo. – Se eu te passar, você promete escrever meu poema triste? – Em outra ocasião, sim. Escrevo. – Certo. Já deixei meu número no seu caderno. Ela saiu. Três dias depois, eu me vi podre. Cate nunca me atendia. A tristeza tomara conta de mim como um demônio se apodera de um corpo. Estava fumando mais que o normal. Perfeito, me apaixonei, pensava a cada vez que chamava e ela não me atendia. Deixei umas 14 ou 15 mensagens na secretária eletrônica. Ia no mesmo bar praticamente todos os dias, e sentava sempre no mesmo lugar. Escrevia coisas tão tristes que eu não sabia mais quem eu era.
Notas finais
Me perdoe por qualquer erro. Revisei algumas vezes, mas sempre tem algo que passa desapercebido.
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