Notas iniciais
Final. ^______^V
No dia seguinte me vi sendo arrastado da cama, jogado dentro do banheiro e Benji gritando do lado de fora que não era para demorar.

Eu demorei.

Tomei um longo banho, fiquei muito tempo escolhendo minhas roupas enquanto perguntava a Benji pra que tudo aquilo, e para onde estávamos indo. No entanto, tudo que ele fez foi rir e dizer que eu era muito curioso.

Só quando estávamos no carro que comecei a reconhecer o caminho que estávamos fazendo. Chicago não havia mudado quase nada e se eu bem me lembrava a casa de Jere era naquela direção.

-Benji, para o carro! –exclamei. Calmamente ele estacionou, nada surpreso.

-O que foi? –perguntou tentando plantar aquele olhar inocente de sempre.

-Benji, eu não quero falar com o Jere! Eu não quero ver o Jere, eu não quero ficar perto dele, nada parecido. Não quero! –respondi um pouco irritado. Não sabia muito bem se aquilo era raiva, ou... medo.

-Você acha que eu estaria te levando à casa do Jere se ele fosse te tratar mal? –disse ele me olhando. –Tony, acredito que você tenha vindo até aqui por um motivo, e eu quero acreditar que é por um bom motivo.

-Eu vim pra... –pensei. Não sabia porque eu estava lá. –Tá, me leva.

O caminho foi silencioso e tenso da minha parte. Benji parecia calmo e feliz até. Assim que Benji parou o carro na frente da casa de Jere, a porta da frente se abriu, e lá estava ele. Desci do carro, olhei para Benji mas ele não se moveu, apenas assentiu com a cabeça para que eu seguisse. Lembrou-me minha mãe me incentivando a fazer as coisas. Mordi o lábio e segui, olhando cuidadosamente meus pés até encontrar os de Jere na minha frente.

-Hey...-disse. Ergui a cabeça e foi como se todas as palavras morressem dentro de mim. Jere, para minha surpresa sorriu.

-Oi, Tony. –disse ele abrindo caminho para que eu entrasse. Estava começando a sentir-me confortável quando vi Nick sentado no sofá, uma cerveja em mãos, olhar fixo em mim.

-E aí? –disse sem sorrir. Assenti.

Benji não desceu do cadillac em momento algum, e a manhã passou rápida. Aos poucos Nick confessou que no fundo não estava bravo, e Jere, mesmo que ainda magoado, entendia o lado de todo mundo ali, inclusive o de Matt, que estava em casa cuidando da mulher e filho. No final o clima tenso já havia esvaído. Perguntaram da Tiffany, e comemoraram quando eu disse que havia acabado. Foi estranho ter que acontecer tanta merda na minha vida para que eu percebesse que ninguém gostava dela.

Nem eu.

Quando saí encontrei Benji ainda no cadillac, ouvindo música. Me despedi de Jere e Nick e pulei para dentro do carro com um sorriso no rosto. As coisas pareciam estar voltando ao normal, mas ainda me sentia meio vazio.

-E aí? Como foi? –perguntou Benji quando já estávamos mais ou menos há uma quadra dali. Pensei sobre a conversa que tive com os meninos. O MEST não ia voltar, era como Jere havia dito: nosso tempo já foi. Não tem mais volta. Enquanto fizemos nossa música de coração, fizemos bem feito. Mas agora acabou. Cada um vai seguir como quiser, tendo em mente que enquanto estivemos juntos nos divertimos o máximo que poderíamos.

-Foi bom. –respondi. Coloquei os pés no painel, deixando o vento bater em meu rosto enquanto Benji dirigia.

-E o MEST? –perguntou.

-Nah... não volta. Mas pelo menos eu não perdi aqueles dois. –respondi. Benji sorriu, sinceridade em seu olhar.

-Que bom! Ah, sua mãe ta esperando pro almoço. –disse. Olhei-o curioso.

-Minha mãe? –perguntei. Como assim? Além de tudo Benji mantinha contato com a minha mãe?

-É. Liguei pra ela avisando que você estaria por aqui, e ela pediu que te avisasse que esperava com o almoço pronto. O Steve vai também. Aliás, o Matt ligou, pediu que avisasse quando estiver indo embora, ele quer te ver. –comentou sorrindo. Benji conseguiu, naquele instante, parecer meu empresário, ditando compromissos aqui e ali, me levando de um lado para o outro e...

-Ben, para o carro. –ordenei, e ele obedeceu.

-O que foi agora? –perguntou. Olhei-o sério.

-Passa pra cá! O carro é meu, e eu que vou dirigir esse negócio, sai daí! –exclamei me esticando por cima dele, enquanto ele ria descontroladamente, tentado passar por mim até o banco do passageiro. Não consegui me controlar, a risada de Benji era contagiante. Larguei-me em meio ao “caminho” para o banco do motorista, ficando metade de mim no colo de Benji. Deitei a cabeça em seu ombro, ainda rindo.

-Oiiii Benji! –exclamei.

-Oiiii Tony! –riu ele. Ele tinha esse ar estranho que me prendia, era uma criança ainda, no corpo de um adulto de mais de vinte anos. Engraçado como ainda mantinha o olhar puro, o sorriso sincero, mesmo depois de tanta merda pela qual ele passou. Era pra ser uma pessoa fria e arrogante, mas não. Benji era, de longe, minha pessoa favorita desde que coloquei os olhos nele.

Aos poucos nossos risos foram cessando, sem que eu percebesse, estávamos nos encarando, olhos nos olhos, sérios e um silêncio ensurdecedor entre nós. Também não saberia dizer quando foi que minha mão encontrou um lugar confortável em seu rosto, ou quando foi que a mão dele sentiu-se segura apoiada em minha perna. Eu queria fechar a distância minúscula entre nós, mas não sabia qual seria sua reação. E se foi algo assim que ocasionou nossa briga aquela vez? Eu não queria me arriscar, e era Benji quem estava aproximando o rosto do meu. Ele estava tão perto que eu podia sentir o calor de seus lábios sobre os meus. Quando foi que comecei a me sentir atraído por Benji?

Eu gostava de garotos, bem como de garotas, e isso não era nenhum segredo. Mas Benji? Ele era meu melhor amigo, a minha pessoa de confiança, meu braço direito e a única coisa que eu queria preservar se eu precisasse perder tudo, era a nossa amizade. Ao mesmo tempo um lado meu me dizia para cagar pra amizade e beijar logo o rapaz no qual eu estava meio sentado.

Por acaso eu gostava mais desse meu lado do que do racional.

Nossos lábios se tocaram de leve quando uma buzina forte atrás de nós fé com que Benji me empurrasse para o banco do motorista e pulasse para o passageiro.

Do outro lado alguém em outro carro gritou alguma coisa entre “viados malditos” e “morram bichas”. Eu queria responder à altura, mas Benji parecia envergonhado o bastante. Apenas liguei o carro e dirigi para casa da minha mãe.

A recepção não poderia ter sido melhor, e para minha surpresa Benji estava agindo muito bem como se nada tivesse acontecido.

De fato, nada aconteceu, pensei. Realmente, nada. Foi só uma vontade de... agarrá-lo ali no meio da rua mesmo. Grande bosta! Acontecia com todo mundo pelo menos uma vez na vida, certo?

Sua mãe não havia feito um almoço, aquilo mais parecia um banquete! Tudo bem que os Lovato eram um monte, mas não precisava exagerar. Havia comida para Benji, sem carne; o prato favorito de Tony, o de Steve e o de seu pai.

Além de macarrão.

Ao longo do almoço, percebi que Benji não fez contato visual comigo em nenhum momento, e vez ou outra pegava-o me observando de canto de olho. Quando via que eu havia percebido sua tentativa de observação discreta, corava e ficava sem jeito. Tão bonitinho! O almoço seguiu de piadinhas e conversas na sala, com direito álbum de família com fotos que eu poderia queimar sem pensar duas vezes. Fotos de Steve, Matt e eu quando éramos crianças, fotos da minha primeira banda, de passeios com meus pais, de lugares especiais para mim em Chicago. Era reconfortante estar ali, naquele dia, recebendo o carinho da minha família de sangue. Não sabia que precisava tanto assim disso, nem que havia sentido tanta saudades de casa e do abraço da minha mãe. Eu precisava daquilo. Definitivamente era quase tudo que eu precisava. Em alguns meses pensando que minha vida estava ótima, que eu tinha a garota perfeita, a casa perfeita, e que era o dinheiro que eu tenho que me traria tudo que eu precisava, eu não notei que minuto a minuto eu perdia aquilo que era mais precioso para mim: minhas raízes. Eu havia perdido meu melhor amigo, quase não falava com meus pais e me tornei arrogante o bastante para magoar o resto da minha banda e não dar a mínima para isso.

Não culpo a Tiffany.

Eu não sou um adolescente bobo, sou um adulto, sei das minhas responsabilidades... bom, pelo menos eu deveria.

Benji e eu deixamos minha casa só depois de jantarmos o que sobrou do almoço, com direito a mais uma sobremesa. Meus pais e Steve pareciam felizes com a minha visita.

Entrei no carro, Benji no passageiro, sem sequer uma palavra ser dita até chegarmos em casa.

Lembro-me de ter sentado no sofá, e Benji ter ido para o banheiro. Liguei a televisão, procurando algo interessante, mas Benji voltou momentos depois.

-Você vai embora amanhã à noite ou depois de amanhã cedo? –perguntou mexendo nas próprias mãos.

-Amanhã à noite. Por que? –perguntei. Ele sacudiu a cabeça.

-Vou avisar o Matt. Que horas é seu vôo? –perguntei.

-Não comprei ainda, mas estava pensando em sair umas 19h00. Fala pro Matty me encontrar no aeroporto às 18h30 amanhã. –disse. Benji assentiu e voltou para onde estava antes, ouvi que ele falava ao telefone. Desliguei a televisão. Estava uma noite linda demais para ficar trancado em casa. Benji voltou, ainda mexendo nas mãos.

-Vamos dar uma volta? –pediu. Incrível como ele sabia ler meus pensamentos.

Saímos à pé, caminhando em um silêncio incômodo, devagar. Eu sabia que ele queria falar sobre o acontecimento do dia, mas ao mesmo tempo tinha medo, assim como eu. Eu não queria brigar com ele outra vez, já havia doído o bastante na primeira, obrigado.

-Sabe... –comecei. -...essa foi, até agora, a melhor viagem que eu já fiz.

-Por que? –perguntou ele espantado. Eu não havia feito praticamente nada, e ao mesmo tempo, tudo que eu precisava. Paramos em um muro que dava para uma pista de skate que, no momento, estava vazia. Debrucei na mureta, olhando as pichações nas rampas, lembrando de quantas vezes o autor delas fui eu.

-Porque você me fez fazer exatamente tudo que eu devia ter feito há muito tempo.

-Ser o Tony de verdade? –perguntou ele, debruçando ao meu lado. Olhei para ele e sorri.

-É. –respondi. –E sobre aquilo, no carro... –comecei, e ele encolheu-se um pouco. -...nós devíamos ter continuado.

Eu estava um pouco nervoso. Se Benji ficasse bravo eu poderia rir e fingir que estava brincando.

-Eu também acho. –respondeu ele, a voz abafada por estar tão encolhido. Me olhou nos olhos, e dessa vez quem corou fui eu.

Ele também queria.

-Eu... eu te amo, Tony. –disse ele. Me amava? –Tenho amado há muito tempo. Foi estranho no começo, mas eu acabei percebendo que quanto mais eu te afastava de mim pra te esquecer, mais eu te amava. Eu te amo, demais mesmo, e não tem jeito. –Benji não me olhava mais. Havia se desencostado da mureta e andava de um lado para o outro, olhando o chão, mãos na nuca, nervoso.

-Eu também te amo, Benji. –respondi. Amava mesmo. Amava tanto que chegava a ser ridículo confessar.

-Não, não ama! Você não pode me amar porque isso significa que nós temos que ficar juntos, e não dá! –disse ele. Benji parecia pertubado com a minha confissão. Sacudiu a cabeça, suspirou e me olhou.

-Minha mãe ficaria decepcionada se soubesse.

-A minha também. –respondi sorrindo. –Ninguém precisa saber além de nós dois.

Ele abaixou a cabeça, e ficou assim algum tempo. Eu precisava de uma resposta, urgente!

Uma coisa era Benji ser meu melhor amigo e eu me sentir atraído por ele, outra era Benji ser meu melhor amigo e eu descobrir que ele nutre sentimentos por mim, e eu por ele!

-Você não se divertiria comigo se tivesse que esconder o que nós somos. –disse.

-Eu sempre me diverti com você sendo que éramos só amigos. Não é porque agora temos o benefício de ter uns beijos aqui e ali que vai mudar tudo. –comentei. –Porra, Benji! Eu não quero ficar sem você.

Ele sorriu, feliz.

Aos poucos me aproximei dele, e dessa vez eu não tive medo de fechar a distância entre nós, e o beijei...

Eu estava completo.

Eu havia me reconciliado com meus amigos, eu revi minha família, eu tinha Benji...

No dia seguinte encontrei Matt, sua filha, seu filho e o filho de Steve. Parecia que ele realmente havia cedido ao trabalho de baby-sitter dos mini-Lovato.

Benji decidiu voltar comigo para Los Angeles e ficar por lá até que eu resolvesse tudo sobre a quebra de contrato do Mest. Depois disso voltaríamos para NYC, onde eu tiraria umas férias para pensar no que fazer da vida.

Engraçado como tudo que eu precisava era uma pequena viagem de volta para casa para perceber quem realmente se importa comigo, e o que é realmente importante...

~The End...

...or is it?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.