A Transferência
2 A Transferência (Continuação - Parte 1)
Eu volto para o refeitório e sento-me à mesa da Abnegação, entre as pessoas que mal me conhecem. Meu pai não permite que eu vá para a maioria dos eventos da comunidade. Ele afirma que vou causar perturbação, que farei alguma coisa para prejudicar sua reputação. Eu não me importo. Estou mais feliz no meu quarto, na casa silenciosa, do que rodeado pela diferencial e apologética Abnegação.
A consequência da minha ausência constante, porém, é que os outros da Abnegação são receosos em relação a mim, convencidos de que há algo de errado comigo, que sou doente, imoral ou estranho. Mesmo aqueles que estão dispostos a acenar para mim em saudação não chegam a olhar nos meus olhos.
Sento-me com as mãos apertando meus joelhos, observando as outras mesas, enquanto os outros estudantes terminam seus testes de aptidão. A mesa da Erudição está coberta de material de leitura, mas eles não estão todos estudando – estão apenas fazendo um show, conversando em vez de trocar ideias, seus olhos correndo de volta aos livros a cada vez que acham que alguém os está observando. Os membros da Franqueza estão falando alto, como sempre. Os membros da Amizade estão sorrindo, rindo, tirando comida dos bolsos e passando ao redor. Os membros da Audácia são estridentes e falam alto, pendurados sobre as mesas e cadeiras, apoiando-se uns nos outros, se cutucando e provocando.
Eu queria qualquer outra facção. Qualquer outra, menos a minha, onde cada um já decidiu que eu não valho a atenção deles.
Finalmente uma mulher da Erudição entra no refeitório e levanta a mão, pedindo silêncio. A Abnegação e a Erudição se aquietam imediatamente, mas é preciso que a mulher grite “Silêncio!” para que a Audácia, a Amizade e a Franqueza a notem.
— Os testes de aptidão acabaram — ela diz,mulher de olhos profundamente negros e cabelos de mesma cor presos em um penteado de uma trança simples. — Lembrem-se de que vocês não tem permissão para discutir seus resultados com ninguém, nem mesmo seus amigos ou família. A Cerimônia de Escolha será amanhã à noite no Eixo. Planejem chegar pelo menos 10 minutos antes de começar. Vocês estão dispensados.
Todos correm para as portas, exceto a nossa mesa, onde esperamos que todos os outros saiam, antes mesmo de levantarmos. Sei o caminho que meus companheiros da Abnegação irão fazer depois daqui, irão para o corredor, sairão pelas portas da frente e seguirão para o ponto de ônibus. Eles poderiam ficar lá por mais de uma hora deixando as pessoas passarem na frente deles. Não acho que posso mais suportar esse silêncio.
Em vez de segui-los, eu passo por uma porta lateral e vou para um beco ao lado da escola. Eu já passei por este caminho antes, mas geralmente vou lentamente, não querendo ser visto ou ouvido. Hoje tudo o que quero fazer é correr.
Dou uma arrancada para o final do beco e para a rua vazia, saltando sobre um ralo na calçada. Minha blusa larga da Abnegação balança ao vento, e eu a tiro dos ombros, deixando-a tremular atrás de mim como uma bandeira, e em seguida, a solto. Empurro as mangas da camisa até os cotovelos enquanto corro, desacelerando para uma corrida leve quando o meu corpo já não pode resistir ao arranque. Parece que toda a cidade está correndo atrás de mim em um borrão, os edifícios se misturando. Ouço o som dos meus sapatos como um som separado de mim.
Finalmente eu tenho que parar, sinto meus músculos queimando. Estou no deserto dos sem facção que fica entre o setor da Abnegação, a sede Erudita, a sede da Franqueza e nossos lugares em comum. Em cada reunião de facção, os nossos líderes, geralmente falando através de meu pai, nos exortam a não ter medo dos sem facção, a tratá-los como seres humanos em vez de pobres criaturas perdidas. Mas nunca me ocorreu ter medo deles.
Eu vou para a calçada para que possa olhar através das janelas dos edifícios. Na maioria das vezes tudo o que eu vejo é mobília antiga, salas vazias, pedaços de lixo no chão. Quando a maioria dos moradores da cidade foi embora – como eles devem ter feito, uma vez que nossa população atual não preenche todos os prédios – eles não devem ter ido com pressa, porque os espaços que ocupavam estão bastante vazios. Nada de interessante deixado para trás.
Entretanto, quando passo por um dos edifícios na esquina, vejo algo dentro. O quarto logo além da janela está tão vazio quanto qualquer um dos outros que já passei, mas pelo vão da porta posso ver uma única brasa, um carvão aceso.
Franzo a testa e faço uma pausa em frente à janela para ver se ela abre. A princípio, ela não cede, e então eu a empurro para frente e para trás, e ela salta para cima. Empurro meu tronco primeiro, e depois as pernas, caindo no chão. Meus cotovelos doem ao raspar o piso.
O edifício tem cheiro de alimento cozido, fumaça e suor. Ando em direção à brasa, para ver se escuto vozes que me avisem da presença de algum sem facção, mas só há silêncio.
Na sala ao lado, as janelas estão cobertas por tinta e sujeira, mas um o pouco de luz do dia faz com que eu possa ver através delas – há panos enrolados espalhados no chão por toda a sala, e latas velhas com pedaços de comida seca dentro deles. No centro da sala há um pequeno grelhador a carvão. A maioria dos carvões está branco, seu combustível gasto, mas ainda acesos, o que sugere que algum sem facção esteve aqui recentemente. E a julgar pelo cheiro e a abundância de latas e cobertores velhos, havia um bom número deles.
Sempre me ensinaram que os sem facção vivem sem comunidade, isolados um dos outros. Agora, olhando para esse lugar, eu me pergunto por que sempre acreditei. O que iria impedi-los de formar grupos, assim como nós? Está em nossa natureza.
— O que você está fazendo aqui? — uma voz demanda, e ela vem até mim como um choque elétrico.
Eu giro e vejo um homem pálido de cabelos longos e lisos e estava com o rosto sujo na sala ao lado, limpando as mãos em uma toalha áspera.
— Eu só estava... — eu olho para o grill. — Eu vi o fogo. Só isso.
— Oh.
O homem coloca a ponta da toalha em seu bolso de trás. Ele veste calças pretas da Franqueza, remendadas com tecido azul da Erudição e uma camisa cinza da Abnegação, a mesma que estou vestindo. Ele é magro como um palito, mas parece forte. Forte o suficiente para me machucar, mas não acho que ele vá fazer isso.
— Obrigado, eu acho — ele diz. — Nada está pegando fogo aqui.
— Posso ver — eu digo. — Que lugar é esse?
— É a minha casa — ele diz com um sorriso frio. Ele está perdendo um de seus dentes. — Eu não sabia que teria convidados, por isso não me incomodei em arrumar.
Eu olho dele para as latas espalhadas.
— Você tem de se mexer muito à noite, para exigir tantos cobertores.
— Nunca conheci um Careta que se importasse tanto com a vida de outras pessoas — ele diz. Ele se aproxima de mim e franze a testa. — Você parece um pouco familiar.
Eu sei que não posso tê-lo encontrado antes, não onde eu moro, cercado por casas idênticas no bairro mais monótono da cidade, cercado por pessoas com roupas cinza idênticas com cabelos curtos idênticos. Em seguida, penso: escondido como o meu pai tenta me manter, ele ainda é o líder do conselho, uma das pessoas mais importantes em nossa cidade, eu ainda me assemelho a ele.
— Sinto muito tê-lo incomodado — falo em minha melhor voz da Abnegação. — Eu vou indo.
— Eu te conheço — diz o homem. — Você é o filho de Kushina Uzumaki, não é?
Endureço ao ouvir o nome. Fazia anos desde que eu o ouvi, porque meu pai não o fala, nem mesmo o reconhece se ouvir. Ser conectado a ela de novo, mesmo que apenas na semelhança facial, é estranho, como colocar uma velha peça de roupa que não serve mais.
— Como você a conhece?
Ele deve a tê-la conhecido bem, para enxerga-la em meu rosto, que é mais pálido que o dela, os olhos azuis em vez de castanho-escuros. A maioria das pessoas não olha perto o suficiente para ver todas as coisas que temos em comum: os nossos dedos longos, o nariz adunco, a postura, o franzir das sobrancelhas.
Ele hesita um pouco.
— Ela se voluntariava com os da Abnegação às vezes. Distribuindo alimentos, cobertores e roupas. Tinha um rosto memorável. Além disso, ela era casada com um líder do conselho. Será que não são todos que a conhecem?
Às vezes, sei que as pessoas estão mentindo só pela forma como as palavras chegam até mim, desconfortáveis e erradas, da forma como um membro da Erudição se sente quando lê uma frase gramaticalmente incorreta. No entanto, ele conhecia minha mãe, não porque ela lhe entregou uma lata de sopa uma vez. Mas estou tão sedento de ouvir mais sobre ela que eu não penso muito sobre o assunto.
— Ela morreu, você sabia? — pergunto. — Anos atrás.
— Não, eu não sabia — Sua boca se inclina um pouco em um canto. — Sinto muito em ouvir isso.
Eu me sinto estranho, de pé nesse lugar úmido que cheira a corpos vivos e fumaça, entre estas latas vazias que sugerem a pobreza e exclusão. Mas há algo interessante sobre isso aqui também, uma liberdade, uma recusa em pertencer a estas categorias arbitrárias que fizemos para nós mesmos.
— Sua Cerimônia de Escolha deve ser amanhã, para você parecer tão preocupado — diz o homem. — Que facção você conseguiu?
— Eu não deveria contar às pessoas — falo automaticamente.
— Eu não sou uma pessoa — ele diz. — Eu sou ninguém. Isso é o que significa não ter facção.
Eu não digo nada. A proibição de compartilhar meu resultado do teste de aptidão, ou qualquer um dos meus segredos, é definida firmemente no molde que me faz e refaz diariamente. É impossível mudar agora.
— Ah, um seguidor de regras — ele fala, como se estivesse desapontado. — Sua mãe me disse uma vez que se sentia como se a inércia a tivesse levado para a Abnegação. Era o caminho de menor resistência — ele encolhe os ombros. — Confie em mim quando eu lhe digo, menino, que vale a pena resistir.
Sinto uma onde de raiva. Ele não deveria estar me contando sobre a minha mãe como se ela pertencesse a ele e não a mim, não devia me fazer questionar tudo o que me lembro sobre ela só porque ela pode ou não ter lhe servido comida uma vez. Ele não deveria estar me dizendo coisa alguma, ele é ninguém, sem facção, isolado, nada.
— Ah é? — replico. — Olha aonde resistir te levou. Vivendo de latas em edifícios arruinados. Não soa tão notável assim para mim.
Começo a andar em direção à porta de onde o homem emergiu. Sei que vou encontrar uma porta para um beco em algum lugar lá atrás, eu não me importo onde, desde que eu possa sair daqui rapidamente.
Escolho meu caminho pelo chão, cuidando para não pisar em um dos cobertores. Quando chego no corredor, o homem diz:
— Prefiro comer em uma lata do que ser estrangulado por uma facção.
Eu não olho para trás.
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