A Tormenta de Hoenn

1 Uma Tempestade Excruciante


Embora agressivas, as gotas de chuva dançavam de uma maneira tão majestosa antes de se arrebentarem no asfalto das ruas, nas calçadas e nas edificações que, por um momento, até ofuscavam a verdadeira ameaça que a tempestade representava. Não bastassem os trovões ensurdecedores, a ventania provocava urros e tremores tão intensos nas janelas da cidade, que parecia um milagre nenhuma ainda ter se arrebentado.

A tempestade forçara todos — ou quase todos — a se abrigarem em suas moradias, trabalhos ou qualquer outro tipo de alojamento. Ninguém sensato se atreveria a sair de um local seco e protegido para, além de se ensopar, correr o risco de ser derrubado e, quem sabe, levado por alguma das correntezas que se formavam em uma ou outra esquina. Além do mais, a escuridão que aquela noite eventualmente proporcionaria fora ainda mais agravada pela intensidade da chuva, fazendo com que ninguém pudesse enxergar mais de alguns palmos tempestade adentro, mesmo com a recorrente iluminação causada pelos relâmpagos.

Enquanto isso, em um beco cercado por enormes muros de tijolos, algo se estendia inerte sobre o chão. Era difícil visualizar alguma coisa com nitidez naquela situação, mas quem se aproximasse o suficiente conseguiria enxergar um volume de cor predominantemente azul anil, com pelo menos um metro e meio de comprimento. Possuía em sua extensão algumas protuberâncias alaranjadas, além de projeções negras, achatadas e compridas, como leques.

A chuva escorria por todo o chão de concreto do beco e, quanto mais próximo ao volume inerte, mais a poça de água adquiria uma coloração avermelhada. Era sangue. E o sangue revelava que aquilo jogado ao chão não era um objeto qualquer, mas sim um corpo que, há não mais de cinco minutos, gozava de vitalidade.

Um barulho intervalado incompreensível se destacava sobre a tempestade e tornava-se cada vez mais intenso, à medida que se aproximava do beco. Quando duas figuras adentraram o local, uma atrás da outra, através da rua perpendicular que se anexava, o barulho se revelou como os berros de uma voz masculina, que parecia pertencer a um rapaz jovem.

— Não! NÃO! — gritava o rapaz. — POR FAVOR, NÃO!

Ele seguia uma criatura quadrúpede de feições felinas que atingia cerca de dois terços da altura do jovem. Embora a chuva não permitisse que se enxergasse com clareza, os pelos da criatura aparentavam ser claros, possivelmente brancos, e de uma das laterais de sua cabeça emanava uma foice negra, apontada para o céu.

O humano não a seguia como se estivesse perseguindo-a, mas como se dependesse dela para guiar-se na chuva. Ambos corriam desesperadamente beco adentro e, a poucos metros de distância do corpo azul jogado ao chão, a criatura começou e reduzir a velocidade e urrar, devastada. O rapaz se apossou de um desespero maior do que o que já se encontrava.

— Você consegue ver? Onde? ONDE? Não me diz que... Não... Não! NÃO! ONDE ESTÁ? POR FAVOR, ME DIZ ALGUMA COISA! — começou a gritar para o animal que o guiava.

Sem conseguir se conter, o jovem se lançou à frente da criatura, mesmo sem conseguir enxergar com clareza aonde ia. Não precisou de muitos passos para notar à sua frente o cadáver de cor predominantemente azul anil. Nesse momento, uma dor intensa apossou-se do rapaz, como se uma adaga houvesse sido fincada em seu coração. Perdeu as forças e caiu de joelhos no chão, apoiando-se em seguida também nos cotovelos. Nem se importava de estar ainda mais ensopado. O desespero fora substituído por uma desolação tão profunda, que o rapaz não conseguia fazer nada além de gritar com toda a sua força e chorar como nunca havia chorado antes, como se estivesse se afogando em toda a tristeza do mundo. Nunca havia sentido algo tão excruciante em sua vida.

Algum tempo depois, começou a rastejar em direção ao corpo inanimado, mas a criatura que o guiara até ali interpôs. Ela tentou afastar o rapaz com delicadeza, empurrando-o para trás com a cabeça, a fim de consolá-lo e impedi-lo de sofrer ainda mais. Entretanto o jovem não parava de insistir em se lançar na direção do cadáver e a criatura acabou cedendo.

O rapaz se jogou em cima do corpo inerte e o agarrou com toda sua força. Seja porque já havia ficado sem voz ou apenas porque perdera suas energias, ele já não gritava mais. Apenas chorava e soluçava com uma tristeza avassaladora. Pouco depois a criatura que o acompanhava aproximou-se e, também devastada, debruçou-se sobre o humano. Ela também lamentava, mas acima de tudo esforçava-se para protegê-lo da chuva.

Algumas horas se passaram e eles fizeram tudo que podiam: pegaram no sono. À medida que o dia amanhecia, a tempestade ia cessando, até a chuva acabar por completo e nascer uma manhã fria e nublada. O jovem e a criatura que o acompanhava acordaram ao som das sirenes de carros de polícia e ambulância. Imediatamente afastaram-se do corpo falecido, assustados, mas retomaram consciência sobre a situação e o rapaz voltou a chorar, debruçado sobre o chão. A criatura que o acompanhava estava apenas cabisbaixa, recolhida em seu silêncio.

O barulho das sirenes parou apenas quando os veículos estacionaram próximos à entrada do beco e, embora uma ou outra cabeça espionasse pela rua perpendicular anexa, a primeira pessoa a de fato adentrar foi uma mulher de farda e quepe azuis. A policial estava armada com uma pistola em suas mãos e a apontava ora para o rapaz, ora para a criatura de pelos brancos. Não precisou de mais que alguns segundos para que o jovem virasse para a mulher com um olhar devastado e ela compreendesse a situação. Não podia desobedecer o protocolo de abordagem, mas tentou ser a mais gentil e solidária que pôde com eles, pois gentileza e solidariedade era tudo que aqueles dois precisavam no momento.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.