A Terra sem Sol
1 Capítulo 1 - Mister Bullets quer você!
Cherise espichou seus olhos na direção esquerda, um sorriso trouxe seus lábios carmim na mesma direção. Ela era o tipo de garota que não passava despercebida na rua e também não deixava nada lhe escapar. Tinha um semblante bem delineado e sua altura estava acima da média. O cabelo curto e negro e sua pele morena clara a deixavam semelhante a uma Cleópatra moderna de maquiagem avermelhada. Ela retirou seu espelho do bolso com indiferença e observou as pessoas atrás de si enquanto simulava olhar a própria maquiagem. Se olhasse de novo para o lado daria muita bandeira.
A garota egípcia estava em um vagão de metrô pouco lotado. Já era tarde da noite e todos os trabalhadores e estudantes deveriam estar em suas casas, apenas os bêbados e as prostitutas ocupavam o mesmo vagão que Cherise. Mas seria iludir-se demais crer que somente esse tipo de gente dominava a noite. Havia também os tipos mais perigosos, os assassinos...
Uma miniflecha cruzou o ar, ela era imperceptível a olho nu e certeira para quem sabia fazer bom uso da arma. Apesar do tamanho, a sonoridade da miniflecha era assustadora e seu som se assemelhava a um rastro de dinamite aceso.
Cherise não teria notado que era o alvo se não tivesse olhado para a esquerda segundos atrás. Apoiando-se no encosto de duas cadeiras, ela impulsionou o corpo num salto que lhe levou ao teto do vagão. Com certa dificuldade ela se prendeu ao teto através de garras retráteis nas botas e nas luvas.
O sobretudo de Cherise sofreu as conseqüências. Ela sentiu a flecha acertar o tecido grosso e puxá-la um pouco mais para baixo, seu rosto avermelhou com a pressão. O calor do fogo da miniflecha consumindo sua roupa a fez morder o lábio inferior.
As poucas pessoas no vagão se agitaram e gritaram, confundindo ainda mais os pensamentos de Cherise. Alguns bateram a porta do vagão para tentar sair, desesperados, outros encolheram-se nas cadeiras do fundo bem longe da tocha humana que se tornaria a mulher.
- Apareça logo, Mister Bullets! – ela finalmente gritou, não tinha tempo de dizer mais ofensas. Seu corpo já sentia o calor do fogo.
O homem do canto esquerdo no fim do vagão se levantou do seu assento, um pouco desengonçado. Segurando-se em todas as cadeiras e empurrando com violência os passageiros a sua frente. Ele sorria e em seus olhos via-se o inconfundível brilho da vitória.
-Você fala demais para quem está preste a morrer. – Bullets não se aproximou demais, ficou admirando a egípcia. Ele era um homem imenso e corpulento, porém cocho e com várias cicatrizes. Talvez um dia tivesse sido mais belo, pois os traços do seu rosto deduziam uma beleza selvagem e sincera que outrora já fora dele, seus olhos verdes eram desafiadores. – Eu posso te salvar. Apenas me dê o que eu quero.
“Como na semana passada...” Cherise pensou, aquilo estava indo longe demais. Bullets estava apelando para armas usadas pelo governo em locais públicos e estava cada vez mais perto de matá-la.
- O que você quer agora?
-Tudo.
Bullets expandiu suas mãos imensas pelo ar. Sorria abertamente.
-Você sabe o que eu quero.
Um passageiro estava atrás de Bullets. Era um velho bêbado segurando atrás do corpo um saco plástico preto repleto de coisas. O velho mirou o homem gigante, ele queria acertá-lo na cabeça.
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