A Terra Pede Ajuda, literalmente
1 Uma Boa Decisão, Espero
Notas iniciais
A aurora estava dando indícios de acontecer há mais ou menos meia hora. Para os que ainda estavam dormindo dentro de suas aconchegantes casas, a noite negra ainda reinava. Uma andorinha enfiou-se no chafariz de Alexis Mayer e pôs-se a brincar com as gotas peroladas, salpicando-as sobre si mesma. Do outro lado da rua, um esquilo vermelho era atropelado por um caminhão de entregas. O cadáver de um gafanhoto era levado por um grupo de formigas trabalhadoras que o encontraram por acaso. E por sorte.
Uma gostosa brisa noturna dissipava-se devagarzinho, para a infelicidade dos pássaros que por ela eram levados, economizando energia própria. Os raios de Sol, belos como um desenho infantil, nasciam timidamente, como se temerosos de irradiar o dia com atrevimento.
Alexis Mayer era um garoto de onze anos. Tinha o cabelo tão preto como o petróleo negro que queima e produz energia, fantasticamente liso, despencando graciosamente por cada canto de sua cabeça, começando do topo. Olhos ácidos cor de esmeralda flutuavam numa pele pálida como um mar de leite puro. Um nariz aquilino jazia ordenadamente alinhado acima de lábios finos e rosados. Possuía leves sardas em torno do nariz e em cima do mesmo, fazendo o mar de leite estar apinhado de barquinhos a vela.
Alexis Mayer levantou-se da cama. Ninguém acorda seis horas da manhã num sábado. Exceto ele. Usava um pijama azul-marinho com estampa de ursinho de pelúcia. Já devia ter se livrado daquela vestimenta há anos. Mas sentia-se bem com ela. Percorreu a curta distância entre sua cama e a janela. Abriu as cortinas cor de vinho. A luz do Sol, já forte agora, irradiou seu quarto com alegria. Aquele dia aparentava que ia ser lindo. O céu estava mais azul que o olho de um bebê inocente, salpicado de nuvenzinhas brancas como algodão-doce.
Alexis escovou os dentes no banheiro de seu quarto. Era estranho. Normalmente, o menino acordava a essa hora e já estava completamente despertado. Neste sábado, ainda estava sonolento. Era um sono induzido, mas Alexis nem imaginava isso. Saiu do banheiro e voltou a deitar na cama. Adormeceu no segundo seguinte.
O menino acordou quatro horas depois. Ao contrário das seis horas da manhã, não havia silêncio. Gritos de desespero eram ouvidos por todos os lados. O chão tremia horrivelmente. Alexis levantou de sua cama atordoado, segurando-se em qualquer coisa que encontrava. Todos os móveis do quarto balançavam como se estivessem dentro de um chocalho. Por algum motivo, nem por um segundo Alexis pensou em gritar. Então, com a mesma rapidez com que veio, o terremoto foi-se embora.
Arfando, Alexis Mayer abriu novamente as cortinas cor de vinho. Ao invés de encontrar o antigo nascer do Sol, a criança deparou-se com o caos. Kháos. O céu azul e brilhoso estava cor de laranja. A rua, antes serena e vazia, estava apinhada de pessoas desesperadas correndo. Multidões de indivíduos fugindo de algo, correndo sempre para o mesmo lado, claro.
Alexis saiu de sua casa, espantado. A coisa era bem pior do que parecia. Bolas de fogo despencavam dos céus. Chovia fogo, pelo amor de Deus. Alexis começou a andar contra a multidão. Sua casa ficava no subúrbio, o qual ficava numa colina, distante da cidade grande. Mais a frente, daria para ver panoramicamente a cidade. Alexis foi até lá.
O trajeto de sua casa até a ponte da colina não era comprido. Mas havia tanta gente correndo na direção contrária que Alexis demorou mais de dez minutos para chegar lá. A vista não era muito melhor que na sua janela. Era esplêndida.
Alexis já vira aquela vista centenas de vezes. Normalmente, a cidade era cinzenta, poluída e tediosa. Neste momento, prédios desabavam. Casas explodiam. Imóveis estavam em chamas. A cidade estava incendiada e as bolas de fogo que caiam não ajudavam. O amarelo do fogo contrastava com os outros tons da cidade. A cena seria linda se não fosse tão horrível.
Alexis observava aquilo, horrorizado.
– Mas o que está acontecendo? – perguntou Alexis para si mesmo.
– Algo muito triste, com certeza – disse uma voz atrás do garoto.
Alexis Mayer virou-se. Atrás dele, havia uma mulher. Tinha um cabelo incrivelmente branco, parecia impossível alguém ter o cabelo tão claro. Igualitariamente, sua pele era branca como papel, branca demais. Órbitas azuis flutuavam em seu rosto, esses olhos pareciam estar cheios de “coisinhas” verdes. Os lábios eram negros. Ela estava de batom. Tinha que estar de batom. Usava um vestido comprido que parecia um véu. Aparentava não ter saído da camisola. O véu, apesar de ser originalmente branco, estava quase que completamente pintado de preto.
– Quem é você? – perguntou Alexis. Aquela mulher não parecia real.
– Tente adivinhar, Alexis. – A mulher sorriu.
Alexis a mediu de cima a baixo. Foi só então que percebeu que ela estava descalça por baixo do longo véu. Transmitia uma aura estranhamente calma. De algum modo, Alexis sabia exatamente quem ela era.
– Você é Gaia – respondeu o menino. – Você é a Mãe-terra.
– Sim. Sou o Planeta Terra, literalmente.
A Mãe-terra aproximou-se de Alexis.
– Mãe-terra, o que está acontecendo?
A mulher suspirou longamente. Fitou a cidade em chamas.
– Estou limpando o mundo, Alexis.
Alexis sentiu-se subitamente desesperado.
– Por quê?
A Mãe-terra olhou-o tristemente.
– Não quero fazer isso, Alexis, sou obrigada.
– Por quem?
A mulher não sabia nem se era por “quem” ou pelo “o quê”.
– Uma força. Uma força muito poderosa, Alexis. Mais poderosa do que eu, muito mais.
– O que é essa força? – indagou Alexis.
– Você não a compreenderia. Eu mesmo não a entendo. Mas a chamo de Kháos.
Nesse momento, ouviu-se uma explosão vinda da cidade.
– Kháos está furioso – disse Gaia, a Mãe-terra –, e francamente, Alexis, também estou.
O menino sentou-se na terra. Refletiu por um momento.
– Na mitologia, Kháos é o primeiro ser a existir no Universo – disse o menino.
A Mãe-terra sorriu e sentou-se junto de Alexis.
– Você é um menino inteligente, Alexis. Mas a primeira coisa a existir foi a própria Existência. Kháos foi o segundo. É um ser primitivo e primordial. O ser mais poderoso que existe em toda a Existência. E Kháos não está satisfeito com o estado em que a Terra se encontra. Em que eu me encontro. Vê este véu?
A criança assentiu.
– Ele vai ficando mais preto à medida que o planeta vai sendo destruído. Quando estiver completamente negro, eu morrerei.
Alexis sentiu um frio na espinha. Apenas pouco mais de um terço do véu da Mãe-terra estava branco. O Planeta estava literalmente morrendo.
– Nos dê uma segunda chance, Mãe-terra – pediu Alexis. Teve a súbita impressão de que estava implorando.
Ela levantou-se junto com o menino, apiedando-se dele.
– Eu já dei. Também dei a terceira, a quarta e a milionésima. Sabia que desde o começo deste ano já ocorreram catorze grandes sismos catastróficos no mundo? Não sou eu, Alexis, é Kháos.
– Você pode persuadi-lo.
Alexis sabia que a Mãe-terra podia fazer isso. E ela sabia que ele sabia.
– Eu posso, Alexis.
– Por favor.
Por favor. Era tão difícil alguém dizer “por favor” hoje em dia. Ainda mais uma criança. Ainda mais com sinceridade. Talvez ainda existisse alguma esperança para o mundo. Talvez a Mãe-terra estivesse enganada. Talvez os seres humanos só agissem com consciência quando soubessem que estavam na beira do precipício. Existiam humanos bons. Conscientizados. Puros. A Mãe-terra sabia que Alexis Mayer era assim. Era uma criança pura.
Mas ela iria mesmo pôr o destino do mundo nas mãos de uma criança de onze anos?
Sim, ela poria.
– Está bem, Alexis, está bem.
Alexis sorriu. Os dentes imaculadamente brancos abriram-se em um arco perfeito. O menino abraçou a Mãe-terra apertado. A deusa retribuiu. No momento seguinte, seu corpo transformou-se em fumaça. E ela foi levada pelo vento. Por si própria, literalmente.
E tudo cessou.
O caos parou. Talvez Kháos parou. Parara de chover fogo. As pessoas pararam de correr e de clamar por piedade, como se nada tivesse acontecido. Mas estava gravado na mente delas. Alexis olhou para a cidade. Cinzenta, poluída e tediosa.
Respirou fundo. Começou a andar de volta para casa. Havia muito, muito o que fazer.
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