A Terceira Face

42 Um dia com Julia


–Para onde você está me levando?

–A lugar nenhum,exatamente.

Saltamos sobre os telhados e ela fez um sinal com as mãos para que eu parasse.

Nos escondemos atrás da telha.

–Você sabe o que vamos fazer aqui?

–Não.

–Caçar.-ela disse,parecendo deliciada com a idéia.

Eu fiquei meio confusa até sentir um cheiro azedo e muito ruim.

–Que cheiro é esse?

–Metade é futum de macho.

–E a outra metade?

–Deve ser macho com futum.

Eu franzi o nariz depois de fazer um ruído esgarniçado.

–Eles não tomam banho nunca?

–Talvez não.

–Damon e Stefan e até o Klaus cheiram muito melhor!

Julia riu.

–Com certeza.Vamos?

Ela me puxou pela mão e eu teria caído feio se não tivesse a agilidade vampira para cair em pé como um gato.

–Você quer entrar aí?

–É um velho plano que eu uso.Duas mulheres bonitas entram,falam e fingem que saem.Alguém nos segue e nós o matamos.

–Você tem certeza que isso funciona?

–Sucesso garantido ou seu dinheiro de volta!Com esse vestido preto e a minha ajuda,vai dar certo,com certeza!

Resolvi concordar por enquanto e entramos lá,tentanto ignorar o cheiro ruim e sentamos na cadeira.

–Um whisky com gelo.-disse ela para o barman.

–Dry martini para mim.

Falamos amenidades bem alto e senti os olhares fixos nas minhas pernas,o que achei desagradável.Ela fez sinal discretamente para sairmos e eu a segui.

Entramos em um beco sentindo a aproximação deles e fingimos conversar um pouco mais.

Eram dois,altos e bem fortes.

Um era ruivo e o outro,loiro.

–Oi,lindinhas.

Julia falou bem baixinho "Finja estar com medo",de um jeito que só eu pude ouvir.

–Érrr...oi.Vamos,Julia?

Ela também fez uma cara assustada.

–Claro.Soube que o shopping está em promoção de 20%.

–E eu vou poder comprar aquela bolsa que eu prometi a você.-eu disse,com um falso nervosismo.

Assim que fizemos menção de sair,eles nos barraram e cercaram as duas.

Tive que me controlar para não rir com a cena.

Era ridículo fingir estar com medo quando eu podia simplesmente quebrar o pescoço deles no instante em que quisesse.

–Que tal brincarmos de Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau?

Julia e eu nos entreolhamos.

–Essa é tããããão clichê.-disse ela,parecendo entediada.

–A,qual é,Julia?Vamos dar uma chance a essa brincadeira velha!

Eles ficaram meio surpresos com a nossa conversa.

–Pois é.É uma pena matar a Chapeuzinho Vermelho aqui.-disse ela olhando para o ruivo com os olhos brilhando de pura malícia.

–Vou ter que me contentar com o loiro?

–Vai.

Dei de ombros e deixei os meus dentes retráveis crescerem com um sibilo,e ela fez o mesmo.

Os dois tomaram um susto e eram um passo para trás.

–O que...são vocês?

–Essa pergunta também é clichê e eu odeio clichês.

Pulamos em cima deles e nos fartamos do sangue.

Assim que terminamos,Julia arrancou a cabeça do ruivo com uma mão só.

–Por que fez isso?

–Meu toque pessoal.

Saímos de lá e andamos pelas ruas.

–Não disse que isso te distrairia?

–Distraiu,mas da próxima vez vamos até um lugar em que o fedor seja menor.

Ela deu uma gargalhada.

–Tudo bem.

Eu pensei um pouco e finalmente perguntei.

–Qual é sua história com o Klaus?

Ela ficou com a expressão sombria de repente.

–O que foi?

–Quer mesmo ouvir?

–Se for desagradável,não precisa falar.

Ela respirou fundo,em um gesto exagerado.

–Minha mãe tinha morrido quando eu tinha dez anos.

Fiquei surpresa em como ela pareceu melancólica.

–Meu pai começou a beber.Ficava em casa,sozinha,o dia inteiro.E a noite...

Ela tremeu.

–Seu pai te batia?

Ela assentiu com a cabeça.

–Era um pesadelo.Eu rezava para o dia não terminar para que ele não voltasse para minha casa e me torturar com as surras de chicote ou com os tições de marcar gado.

Fiquei horrorizada.

–Seu pai te marcou a ferro como uma vaca?

Ela parecia engasgada.

–Um dia eu reagi e o empurrei de cima da escada.Ele rolou e quebrou o pescoço.Fiquei com medo e fugi,e foi aí que encontrei Nikolaus.Ficamos juntos até que ele me traiu.Fui embora,mas ainda estava com muita raiva dele.Havia uma garota que ele gostava muito.Era a nova aprendiz dele.Ele a adorava.Eu a matei e fui embora,e só a algumas semanas atrás eu o encontrei novamente, quando fizemos aquele pequeno trato.

–Eu sinto muito,Julia.De verdade.

–Não sinta.Vamos?

Eu a acompanhei.

–Para onde estamos indo?

–Vamos procurar um ex meu.

–Quem é?

–O nome dele é Miguel.Ele está com um colar meu que é muito importante para o que pretendemos fazer.

–Certo.Onde ele está?

–Soube que está por...aqui!

Ela apontou para um homem muito bonito,de terno marrom e cabelo castanho-médio.

–Miguel!-chamou ela.

O tal Miguel olhou para nós com raiva e se aproximou.

–Você!-Vociferou ele,tentando socar Julia,mas não conseguindo já que ela segurou o seu braço bem no meio no caminho com uma mão e com outra arrancou o colar do pescoço dele.

–Obrigada pela sua utilidade,Miguel.

–Estava tudo dando certo!Eu ia fazer meus votos mas você apareceu e estragou tudo!O que você foi fazer em um seminário espanhol?

–Sei lá, devo ter confundido com um bordel.

Ela conseguiu arrancar a cabeça do cara e eu olhei em volta,vai que alguém viu isso?

–Seminário espanhol?

–Digamos que o pobre Miguel seria padre se euzinha não o tivesse colocado no caminho da perdição e depois partido o coração dele.

–Credo.

Voltamos para casa e eu balancei a cabeça.

Depois o Stefan fala que eu sou absurda.