ENERGIZAÇÃO

Momentos fatídicos na vida de uma pessoa servem muito mais para o externo do que para o interno. Mesmo quem vive a tormenta passando o dia-a-dia dentro de uma roda de fogo, sem saber qual rumo tomar, as mãos estendidas do lado de fora e os sacrifícios por elas feitos são, em grande parte das vezes, cruciais para se manter a esperança de conseguir se reerguer do chão e batalhar por seu lugar.

Dessa forma, ter os tios tão presentes havia se mostrado de grande amor e cumplicidade para consigo. Procurava nem pensar o que teria sido sem eles para ser seu suporte, o barco em meio a tempestade surgida do nada em sua vida, mas que, de repente, mostrou-se tão perigosa e amedrontante. Se conseguiu passar por ela, havia mérito deles nisso, na boa vontade e companheirismo. Surpreendeu-se com seu tio, afinal de contas ele havia descoberto no mesmo instante que o irmão, no entanto, mostrou uma reação branda, tranquila, buscando conversar e entender. Só tinha a agradecer por isso.

Ao fim do expediente, subiu até o quarto que ocupava, juntou suas roupas e pertences, descendo depois para dar um abraço nos tios e aguardar seu pai chegar com o carro para levar. Mesmo não sendo dez bagagens de mão, as roupas e livros de escola dariam trabalho caso fosse levar nas mãos. Por fim, Isabel e Bruno chegaram juntos, com a mãe correndo para abraçar o filho tão logo pôs os olhos nele. Cobriu-lhe com abraços e beijos pelo rosto, a fim de certificar-se que sua cria estava bem e com saúde. Dan acabou por rir, enquanto ajudava o pai e os tios a guardarem no porta malas as coisas.

Estavam se despedindo de Ronaldo e Marcella quando ouviram uma voz chamando pelo menino. Surpreendeu-se ao notar ser Van quem falava. Aguardou a moça acelerar o passo até lhes alcançar, cumprimentando um por um dos parentes de seu ex antes de fazer o mesmo com o próprio. Notou em Bruno um certo olhar de quem está com sapato apertado, mas precisa manter a pose, a fim de não desviar as regras da etiqueta.

Não querendo perder muito tempo, foi breve ao questionar se Dan tinha um minuto para sair e conversar. O rapaz dirigiu-se aos pais para verificar a existência de algum empecilho. Constatado a resposta negativa, despediu-se dos tios uma última vez e prometeu aos pais avisar em caso de algum imprevisto. Dali, iniciaram o trajeto até a praça da República a pedido da loira. Mesmo estando nos melhores termos, dadas às circunstâncias, o silêncio formou uma fina membrana que os resguardava em seus mundos.

Daniel tentava imaginar quais pensamentos estariam rondando a mente de sua ex namorada. As águas passaram, a correnteza impetuosa encontrou o abraço da calmaria, mas lhe acionar de forma tão momentânea deixava dúvidas no ar. De certa forma, não a condenava. O término, à época julgado forçado, deu às sementes escondidas na horta de sua vida a luz que precisavam para brotar e crescer. Não havia razão no mundo capaz de anular isso, ou tornar mais leve. Pensou na possibilidade dela querer falar sobre algum ponto pendente, assunto resolvido de forma muito impensada. Tudo muito incerto, plantado em um solo cheio de dúvidas.

Já Van se via presa dentro de um vínculo no qual parecia cada vez mais estranho, apesar da compreensão e amizade ainda o regarem. Depois de ter sua alma arranhada por todos os espinhos possíveis do namoro com o menino a seu lado, ainda teve forças para passar uma borracha, momentânea que fosse, para dar ao mesmo um norte de vida.

Conhecia de perto a inconformação com a própria imagem, o desejo por ser e agir como qualquer outra pessoa cuja sociedade rotula de “normal”, a vontade imensa de poder resetar seus pensamentos e iniciar de novo, desta vez, acompanhando tudo do jeito certo. Com o passar do tempo, aprendeu sobre o jeito certo ser aquele comandado pelo coração, nossas vontades mais íntimas escondidas por detrás das armaduras sociais. Se estava tendo a oportunidade de apresentar esse mundo ao ex, que fosse. Era mais fácil vê-lo feliz e sentir-se feliz do que sangrar e vê-lo sangrar.

Demoraram poucos minutos, mas chegaram à praça e encontraram-na apenas com a brisa fria ecoando pelo lugar iluminado pelas luzes distribuídas. Tinham privacidade para resolver seus assuntos. Aproximavam-se de um dos bancos, com Van parando poucos metros antes dele e lhe encarando. Dan, ao perceber a ação, virou para a moça, esperando algum comentário. Viu brotar um sorriso singelo no rosto dela antes de ouvi-la falar.

— Nós somos a prova viva de que a roda da vida gira, e às vezes, com uma força sobrenatural, capaz de nos fazer cair sem que nos demos conta — comentava — Pouco menos de quatro meses atrás estávamos aqui, tu e eu, olhando aquele casal de velhinhos e nos perguntando se ficaríamos igual a eles…

Dan se viu obrigado a acompanhá-la no sorriso.

— Encontrei com eles um tempo depois. Coisas de uns dias. Foram lá na padaria dos meus tios — relembrou — De certa forma, acho que vamos ficar igual. Só não tendo a mesma relação deles.

— Tem razão. Não dá pra medir uma vida inteira por um momento, por mais que, em alguns casos, isso aconteça de verdade — encarou-lhe fundo com o olhar — Ou eu tô errada?

Respirou fundo antes de responder. Captou a mensagem tão logo foi ouvida, pensando e repensando em alguns flashes os momentos marcantes de seu anos vividos tão rápidos quanto um piscar de olhos, mas com resultados que, tinha certeza, se prolongariam uma vida inteira.

— Se eu sou a prova disso, acho que não, né? — coçou a nuca — O mundo ao meu redor tá se refazendo cada dia um pouco mais. Toda vez acontece alguma coisa pra eu me ligar em algo que não fazia ideia.

— Como ter coragem pra beijar um guri na frente da escola toda? — sugeriu, deixando-o com a pele da cor de um camarão. Riu do feito — Relaxa. Achei fofo da tua parte tomar essa iniciativa. Confesso que esperava isso do Alisson…

Seu rosto continuava cozinhando em óleo fervente enquanto suas mãos coçavam a nuca numa tentativa desesperada de conter aquilo.

— Acho que nem me imaginava fazendo aquilo — confessou — Foi o momento, ele ter se tornado tão importante pra mim… Uma soma de várias coisas, na real.

A loira sorriu. Via por trás daquela máscara de inquietude e desespero um novo Daniel se formando. As dúvidas e medos que sempre foram as nuvens tempestuosas de sua vida pareciam ir se dissipando, uma a uma, cada vez que o garoto se envolvia mais nos fatos e sentimentos existentes dentro de si, e admitia ser o criador de seus próprios demônios. Não era mais o menino cheio de espinhos, onde apenas com tato se conseguia extrair alguma nesga de plenitude a seu lado. Os efeitos do relacionamentos, em sua opinião, já se mostravam bem visíveis.

Passou os dedos de sua mão direita com muita serenidade sobre seu queixo enquanto buscava o encontro de seus olhares. Ao conseguir, sorriu. Sua alma já parecia não querer fugir, tendo coragem e resiliência para enfrentar qualquer que fosse a situação.

— Que diferença isso teria feito com a gente meses atrás, hein Dan? — comentava — Isso não elimina nossos bons momentos, as alegrias que tu me proporcionou e toda a construção a qual fui testemunha. Por isso te chamei.

— Pra falarmos das nossas alegrias?

— Pra retribuir essas alegrias — corrigiu, ainda mantendo o sorriso — Dan, em nome dos dois anos e meio do nosso namoro, de todas lágrimas de alegria e carinho que tu me proporcionou, queria te convidar pra ministrar, junto com o Pedro e o Alisson, um curso de dança aberto a comunidade na Casa de Cultura Mário Quintana.

Sentiu um raio caindo dentro de sua mente e queimando cada um de seus neurônios. Seus olhos quase saíram para fora, enquanto seu corpo lutava com todas as forças que tinha para se manter de pé. Mal podia acreditar numa proposta daquela magnitude, aliás, sequer almejava tanto quando se inscreveu para ser dançarino no grupo de sua escola. Receber um presente daqueles era tão bom quanto ganhar na loteria das artes. Isso não tinha dúvidas.

— C*r*lho... Isso é real mesmo?

— Eu tenho motivos pra mentir, por um acaso? — brincou, rindo — Na verdade, foi ideia minha com a namorada do Pedro. Ela pensou que seria uma boa ele se envolver em algum trabalho já na área dele e tals... Quando soube, ele sugeriu que vocês três encarassem a empreitada juntos. E aí? O que acha?

— Olha, Van… Eu não conheço nenhum Pedro. Esse guri deve ter falado de deboche ou—

— Tu deve lembrar dele como Ana — citou a moça, só então fazendo a ficha cair — Não precisa me dar uma resposta agora, até porque é óbvio que vai precisar conversar com Alisson, né?

— Sim, sim. Mas… C*r*lho… Tenho certeza que ele vai topar! — exclamou, animado — Nem sei o que fazer pra te agradecer! Sério, de coração, pode pedir qualquer coisa!

A loira, então, levou suas mãos às dele, aproximando seus rostos apenas para dar um beijo em sua testa. Era terapêutico presenciar aquele a quem seu coração tanto já bateu encontrando seu destino e fazendo por onde para seguir seus passos. Sua missão com ele, sentia, tinha encontrado seu fim.

— Seja feliz, Dan — sussurrou, ao pé de seu ouvido — Luta sempre pela tua felicidade. Com isso, sempre vai ter todo amor e sorte do mundo.

Daniel sentiu-se abraçado pela alma de sua ex namorada, sempre de braços abertos para vê-lo prosperar e crescer. Não cabia dentro se si o orgulho que tinha de ter compartilhado consigo experiências, capazes de torná-lo alguém mais digno de sua confiança. Reconhecia para si mesmo suas falhas ao longo dos anos de namoro, e da pessoa de coração de ouro que teve a seu lado e não aproveitou a companhia tanto quanto poderia. No entanto, sentia com aquilo a possibilidade de reconstruir os laços perdidos, ressignificando-os de interesse amoroso a uma amizade mútua e verdadeira.

Tão logo se despediram, observou a garota sumir no horizonte para, somente aí, mandar mensagem para Alisson questionando a possibilidade de ir na casa dele ou ele na sua para conversarem. Não deu mais do que vinte passos quando recebeu a confirmação. Respirou fundo, com um sorriso marcando toda sua face de orelha a orelha. Era a oportunidade dos sonhos. Restava saber se o namorado estava disposto a encarar a empreitada, tornando, assim, realidade.

***

Sempre, em meio a total anarquia, pode existir o ponto certeiro capaz de trazer qualquer um a uma realidade mais plausível, cercada de variadas possibilidades e condições, onde viver e surtar não andavam de mãos dadas. De certo modo, Ian encarava o passar dos dias até então como uma espécie de tentativa desesperada de se manter dentro da realidade, a fim de evitar um colapso mental.

Conversar com Ágata aliviou um pouco essa sobrecarga de seus ombros, levando a aura de amargura e desamparo para o esgoto, mas deixando algumas cicatrizes. Pouco a pouco, com muita paciência e boa vontade, conseguia se equilibrar tal qual sempre gostou de ser. Tarefa árdua quando se tinha um primo posto fora de casa, no entanto, estava se esforçando ao máximo. Aliás, só conseguiu viajar mais relaxado quando Isabel lhe mandou uma mensagem avisando do acerto entre seu tio e Daniel. Conseguiu, com isso, deixar sua consciência em paz para ir atrás de Jonathan ver do que ele precisava.

Chegou a rodoviária de Porto Alegre sendo recebido por Micael, Luan e Lucas, seus primos. Seus pais, Sérgio e Clara, também se faziam presentes. Por um instante, lembrou da história da troca de curso e do longo rosário que há tanto se preparava para ouvir. Observando sua reação enquanto conversavam e caminhavam, nada percebeu de diferente. Pudera, pelo tempo passado desde que confessou à mãe sua ‘arte’, tempo tinha tido de sobra para digerir e aceitar não ter escolha de opinar ou retrucar. Renunciar a seus planos, por mais abalado que ainda estivesse, nem em seus piores pesadelos era cogitado.

Eram por volta das oito da noite quando chegaram ao hospital, com Ian já ciente do ex namorado ainda não ter entrado no centro cirúrgico, estando ainda no quarto aguardando. Cumprimentou os pais do menino, questionando a possibilidade de fazer uma última visita antes de entrar, apenas para que soubesse que estaria ali quando saísse tal qual prometera. Como o casal não sabia informar, foram a recepção ter maiores informações. A atendente então ligou para o consultório do médico responsável, o qual concedeu o direito à visita, porém, nada mais do que cinco minutos, uma vez que já iriam remanejá-lo.

Ian não perdeu tempo. Deu seus dados aos atendentes, conseguiu o visto e foi orientado até onde era o quarto do menino. A pedido de sua família, ficou responsável por mandar um beijo de ‘boa sorte’ ao menino, percebendo ali ainda o grande carinho residente em seus interiores a respeito dele. Lembrou-se, por um instante, do dia em que foi apresentado oficialmente como namorado.

À época, Jonathan ainda era ouvinte regular, tratando de si próprio, num ato de bravura, explicando a situação deles tanto a seus pais quanto aos pais dele mesmo. Gerou uma atmosfera constrangedora, quase como a de pessoas que se xingaram precisando conviver num mesmo espaço minutos depois, mas acabaram compreendendo, após muita insistência, o fato de quererem viver aquele momento com ou sem seu consentimento. Sorriu. Tinha aquela história guardada em seu coração, e, através dela, estava conseguindo também reaprender o significado de bravura, coisa que Jonathan tinha de sobra.

Entrou em seu quarto enquanto o rapaz se distraía lendo um de seus mangás de Naruto. Riu ao lembrar dos gastos faraônicos dele em revistas do personagem, camisetas, bottons e tudo mais que o capitalismo fosse capaz de inventar. Não foi de total surpresa que trouxesse um exemplar para lhe fazer companhia. Ao notar sua presença, entretanto, o ex abriu um largo sorriso de orelha a orelha, colocando seu livro sobre a cama e abrindo os braços para darem um abraço.

O skatista confessou seu medo dele não conseguir vir, mas que, apesar disso, compreenderia caso acontecesse. Ian sorriu, apertando de leve sua mão, garantindo que chegaria ali mesmo sendo tarde demais para poderem trocar algumas palavras, estando consigo em pensamento. Jonathan retribuiu o gesto, relembrando da vez em que Ian se aventurou a se apresentar em uma banda pequena de conhecidos de ambos e, no último segundo antes de começar, ele apareceu, após fugir de casa, por conseguinte, do castigo aplicado por sua mãe pelas péssimas notas em Matemática, Geografia, Ciências e Ensino Religioso.

Ambos caíram na gargalhada, a mesma que por muito tempo supriu as dores de distância de Daniel, as brigas com os pais por não compreenderem sua vontade de viver da arte, e, mais do que isso, marcou a relação deles. Encarando-se ali, ficava explícito que terminaram por conveniência, vontade de conhecer a liberdade, passando bem longe de ser uma ferida sangrenta. Sempre se quiseram bem mesmo após o término, tendo naquelas memórias a confirmação de tudo ter valido a pena.

Curioso, Jonathan questionou se não haveria interesse de Ian em reviver algumas delas ou criar outras tantas, arrancando risos do menino de olhos claros. Não confirmou, deixando no ar o fato de estar ali e aberto a, quem sabe, dar uma chance ao destino. O outro ficou só sorrisos, mesmo quando ele ratificou o fato de ainda não querer um namoro. Viu-se, então, na obrigação de alegar que sua presença ali já significava bem mais do que cinquenta anos de namoro.

Antes mesmo que pudesse contestar qualquer coisa, o médico adentrou o local avisando sobre o término da visita, uma vez que Jonathan já daria início aos procedimentos médicos importantes para a cirurgia. Ian não contestou, porém, sair sem dar um agrado ao menino lhe parecia cruel. Limitou-se, então, a dar um beijo, para que ele soubesse da força e confiança tida em seu restabelecimento. Saindo dali, foi direto para a sala de espera dar notícias aos responsáveis dele e seus também.

Resolvidos e aliviados os corações dos mais velhos, os primos logo trataram de achar uma lanchonete próxima para encher a barriga. Cada qual parecia disputar mais o prêmio de mais faminto, mesmo que Ian garantisse ter prioridade por trabalhar muito ensaiando seus alunos. Micael rebateu, falando ser apenas meio turno, enquanto ele trabalhava o dia inteiro e ainda sem poder tirar uma folga tal qual Andreas estava a fazer. O outro até tentou argumentar, comentando do emprego em vista dele em Pelotas, mas não convenceu. Nem Micael, nem Lucas e Luan.

A conversa, porém, só tomou rumo quando os mais novos questionaram sobre a história de Daniel ser ‘gay’. O menino filho de Clara riu, falando que Dan na realidade era bissexual, havendo diferença.

— É… Quem diria que ele ia abrir as asas e voar, né? — ironizou Mica.

— Cada um tem seu tempo, ué — Luan deu de ombros.

— Falou o resolvido no assunto, né? Vou me lembrar disso quando tu quiser falar com nossos pais sobre tu querer dar o c* — Lucas provocou, sorrindo feito criança arteira.

— Fica na tua, Lucas. Não me enche!

— Quietos, pirralhos! É papo de homem aqui! — Micael exclamou, em tom de deboche.

— Pirralhos? Sério, Mica?!

— Tenho 20, três anos a mais que tu e quatro a mais que o Lucas. Pra mim vocês ainda usam fraldas — seguiu ironizando.

— Ah, sim, homão da p*rra. Vou acreditar — revirou os olhos, arrancando risadas dos outros.

— Enfim — Ian voltou o foco — Vocês vão notar a diferença no Dan. Aquele Forte que ele criou em torno de si pareceu ter caído. Ainda bem, na real.

— Sabe que isso pra mim é surreal? Tipo… Daniel com macho? Parece que as duas coisas não ligam, entendem? — comentou.

— Ah, tu vai me desculpar, mas ligam, sim — Mica interviu, rindo — Algo dentro de mim sabia que ele ainda daria ré no Kiwi e tiraria pra fora a bicha que sempre teve…

Na mesma hora, Ian levou sua mão ao braço do primo e torceu, dando-lhe um beliscão digno de deixar marca. O ficante de Ágata até contestou e esperneou, mas só contribuiu para os demais caírem na gargalhada a seu respeito. Vendo que seria uma batalha perdida, o próprio acabou mudando os rumos do assunto.

Micael acabou comentando sobre a empolgação com as conversas rendendo com Ágata, alegando não aguardar a hora de conseguir uma brecha para ir lhe ver outra vez. Surpreso, o menino de olhos claros questionou se tudo aquilo era fogo de palha ou já tinha coragem de admitir que era amor e estava disposto a cumprir sua parte na aposta feita de ser passivo caso a moça lhe desse uma chance. Lucas e Luan ficaram pasmos, porém nada falaram, apenas observando os mais velhos se engalfinharem para ver quem tinha mais razão.

No fim das contas, a aposta era o de menos. Ian não podia deixar de se sentir feliz vendo o primo fazer tão bem a sua ex ficante, ao mesmo tempo se empenhando em fazer dela uma figura presente em seu dia a dia. Com isso, ficava em paz, sabendo que a moça estaria bem assessorada e teria a chance de experimentar o amor que merecia, mas nunca tivera a chance de conhecer.

***

Boas notícias sempre acabam atraindo boas notícias. As vibrações positivas emanadas para o universo faziam da lei do retorno sua amiga, devolvendo tudo aquilo que semeamos e, tempos depois, estávamos a colher. De uma forma controversa, turva até, Alisson tinha esse sentimento bem vivo dentro se seu peito, depois das duas situações incríveis vivenciadas por si.

A primeira foi a resolução do problema com o sogro e pai de Daniel. Seria insustentável, mesmo depois da ação inesperada dele de lhe beijar frente à escola toda, continuar vivendo sempre à sombra daquele episódio triste sem ter a sensação dele ter, de fato, terminado no dia. Com Bruno disposto a deixar o caminho mais leve para o filho e genro, um buraco a menos na estrada de sua felicidade.

A segunda se fazia presente na sugestão de promoção. Não conseguia acreditar ser capaz de estar tão bem quisto pelo chefe a tal ponto, ganhando confiança e credibilidade em suas ações. As palavras de seu Antero perpassavam simples elogios a sua performance como funcionário, mas também eram cobertas por uma membrana de carinho e afetividade. Seu Antero era sequer chefe, mas líder, atento a cada movimento dentro de seu estabelecimento e se preocupando com cada uma das vidas envolvidas ali. Palavras pouco seriam suficientes para agradecer o tamanho da gratidão existente dentro de seu peito.

Já ao fim do expediente, surpreendeu-se ao sair e dar de cara com Daniel lhe esperando do lado de fora. Comentou sobre terem combinado de se encontrar mais tarde, mas o menor justificou sua ida pelo fato de não terem especificado onde, então, pelo sim e pelo não, optou por baixar ali. Al não aguentou, acabando por rir da cena. Para não se sacrificarem tanto, chamou um motorista, a quem demorou dez minutos para chegar e mais cinco até lhes largar em segurança na frente da casa do mais velho.

Ao entrar, encontraram Marisa e Edu descendo as malas enquanto conversavam eufóricos sobre a viagem. Notando a presença do filho e do genro, logo a mulher parou tudo o que fazia para cumprimentá-lo e confessar estar com o coração aliviado e agora conseguiria viajar em paz. Edu não ficou atrás, estendendo a mão a Dan e tecendo elogios por sua performance, no mínimo, corajosa. O rapaz, coçando a nuca, até agradeceu, ainda que quisesse se enfiar debaixo da terra. Não era costume ouvir elogios por conta de suas ações impensadas, então, quando acontecia, se assemelhava a uma criança recebendo um presente pela primeira vez.

Antes de subirem para o quarto, porém, ouviram a advertência em tom de brincadeira da mãe de Al sobre não utilizar sua cama para coito enquanto estivesse fora, o que arrancou toneladas de risos deles. Já com maior privacidade, para não perder o costume, pegou o menor pela cintura e deu-lhe um beijo, questionando qual problema havia surgido para precisarem conversar aquela hora da noite. Mesmo com a língua quase dando nos dentes, Dan resolveu testá-lo, rebatendo sobre um relato seu de que também tinha acontecido algo surreal no ‘Wunder Bar’. Alisson então sorriu.

— Cara… Tô até agora tentando processar aquilo. Sério mesmo, sem frescura! — comentava — Desde que comecei a trabalhar ali, só fiz o que achei que fosse minha obrigação fazer. Devo ter feito bem pra c*r*lho, porque…

— Fala, bebezão! Sem mistério! — ordenou, com o coração na boca.

Al então respirou fundo e, por fim, revelou.

— Seu Antero quer que eu assuma o posto da Gina como gerente adjunta. Na real, o primeiro nome foi o Gil, mas daí ele me sugeriu e seu Antero curtiu a ideia.

Foi como receber um balde de água gelada e com um saco de gelo extra para dar mais ênfase. Baixou seu olhar, encarando o chão enquanto se perguntava o quão relevante era contar, depois de uma revelação bombástica daquele tamanho. Al estranhou, claro, perguntando se ele não havia curtido ou tinha alguma objeção a respeito.

— Bem… É que hoje a Van me chamou pra conversar e me sugeriu junto com a Ana, ou Pedro agora, e tu pra montarmos aulas de dança na Casa de Cultura Mário Quintana. Não sei se tu conhece…

— Já tive lá algumas vezes — recordava — Mas é só isso mesmo ou tem mais?

Dan franziu a sobrancelha.

— E precisava de mais coisa pra isso ser um pepino na nossa vida?

Al riu da reação. Ainda com as mãos na cintura, deu-lhe um beijo antes de pegar seu queixo com o polegar e lhe encarar.

— Pateta, isso não tem que ser pepino nenhum. Ninguém aqui tá dentro daqueles livros ou fanfics de amores cheios de renúncia, sofrimento e aquele monte de viadagem. Se queremos ter um namoro adulto, tá na hora de agirmos como tal. Tu concorda?

Continuou lhe encarando, tentando decifrar suas palavras.

— Tu… tá me dizendo que—

— Que tu deve aceitar, ir pra POA junto com a Ana ou Pedro, e eu fico aqui. Simples assim.

Daniel então desfez o grude de seus corpos e foi procurar a cama do mais velho para se sentar. Lembrou-se da sensação de quando Vanessa lhe disse com todas as letras que iriam pôr um ponto final em sua história. As situações eram desiguais, todavia o gosto amargo na boca e os olhos pesando dava traços fraternos a ambas.

— Viver separados? Justo agora?

— Ué, faz parte — deu de ombros, sorrindo — Pateta, um grande amor não pode ser empecilho pra felicidade no trabalho e nas conquistas da vida. Se tu conseguiu essa chance, aproveita! Hoje a gente tem tanta ferramenta pra nos vermos, podemos marcar de alternar finais de semana pra ou eu ir a POA ou tu vir a Nova Petrópolis… Opções não faltam!

— Mas eu não sei se vou—

— Tu vai — garantiu — Agora quando tu começar o tratamento psicológico, vai ver essas sombras todas sumindo. Além do mais, a distância só separa quem não se ama. Não é o nosso caso.

O rapaz mais novo sorriu de volta, dando um beijo no namorado. Sempre soube de sua segurança e firmeza nas decisões, coisas que, volta e meia, lhe faltava. Alisson era muito objetivo, mas ao mesmo tempo passional; queria ver seu sucesso, mas extraía do fracasso a fórmula para subir e melhorar. Isso era o que lhe deixava com pensamentos enlouquecidos ao flagrá-lo com uma lógica que ele mesmo gostaria de ter. Por fim, prometeu pensar a respeito.

Satisfeito com a resposta, ajudou Dan a deitar-se em sua cama enquanto seguia lhe dando beijos. Em dado momento, parou, questionando-o se seria muito ruim dormir ali aquela noite. Riu, falando sobre o fato dos pais terem ido até a padaria dos tios lhe buscar e nem passar a noite em casa. Al deu de ombros, justificando terem dormido dezessete anos sobre o mesmo teto e ele começava há pouco, arrancando risos.

Até tentou justificar também o fato de não ter fantasia para o trote do dia seguinte, mas de novo Al tinha a solução: matarem aula. A desculpa foi que, já tendo a festa de sexta-feira 13 para arrumar, ficava pesado e cansativo várias festas, então que encarrassem a da data sinistra para fazer mais sentido. Quando Dan concordou, foi a deixa para o filho de Marisa sugerir coisas bem mais interessantes, que na hora da fala lhe fizeram perguntar se sua mente estava se ocupando só daquilo e ouvindo a confirmação, a fim de tirar os dezoito anos de atraso.

Dan riu da bobagem do namorado, mas acabou cedendo e dormindo ali. Não era o maior sacrifício já feito por si. Além do que, o desenrolar daquela história lhe parecia interessante demais para se contentar com pouco. Experimentaria mais e mais, a fim de tirar de dentro da cabeça qualquer resquício de infelicidade capaz de minar o paraíso que construía junto a Alisson.

CONTINUA