BRINCALHÃO

Quarta feira, 12 de Julho. O dia iniciara melhor do que os dois que o antecederam: O sol voltava a raiar. Feixes de luz solar invadiam timidamente o quarto de Dan, tirando um pouco do breu que se encontrava o lugar. Não era como se o ato fosse fazer o rapaz despertar, já que pela primeira vez em algum tempo acordou sem o auxílio do despertador do celular. Estava deitado em sua cama, com as mãos atrás da cabeça escorando-a. A única coisa que lhe cobria era o short de dormir, o que lhe dava uma bela visão de seu tronco ainda semi definido.

Encarava o teto em silêncio, vagando por seus pensamentos tão perturbados. No fim, mesmo sem querer, Ian havia mesmo lhe beijado. Por mais que não tivesse sido propriamente um beijo ardente, sabia que indiretamente tinha desejo e um amor por parte do mais velho. Ian queria aquilo. Ian desejava aquilo. Desejou tanto que se cumpriu, em termos pelo menos. Ou assim ele acreditava.

Nunca, nem em seu pior pesadelo, tivera vontade de experimentar algo com qualquer um de seus primos. Considerava-os irmãos, afinal eram sangue do mesmo sangue. Inúmeras vezes (E hoje entendia melhor o porquê) fora questionado se queria ver o outro lado da moeda: Como seria receber amor e carícias de um homem? E se fosse seu primo? Negou todas as vezes que teve oportunidade de descobrir. Agora, diante daquela situação, sentia que tudo aquilo tinha ido por água abaixo. No fim, acabou acontecendo de qualquer jeito.

Pensava em como iria se portar diante do mais velho. Não podia recriminá-lo afinal aconteceu sem qualquer pretensão. Se perguntava como ele estaria após o acontecido. Chegara a conclusão de que, na pior das hipóteses, tivera uma noite bem agitada com a lembrança. Revirou os olhos com certo nojo só de pensar. Como seu primo conseguia pensar coisas tão obcenas a seu respeito? O pensamento lhe foi trazendo mais lembranças, que não ajudaram muito aliás: Os banhos de piscina ou na lagoa do sítio; todas as vezes que, no auge do verão em Porto Alegre quando ia visitá-lo, não ficara só de cueca no quarto para ver se o calor amenizava; Os abraços; Os toques... Isso e muito mais parecia lhe dar as respostas. E o que lhe causou espanto, foi sorrir ao lembrar de tudo isso. Foi lembrar de como Ian lhe fazia feliz. Estaria na hora de ceder?

Saiu da posição de deitado e sentou-se na cama assustado com o pensamento. Como podia ter levado aquilo em consideração? Chacoalhou a cabeça para dispersar e levantou. De maneira impensada, encarou seu trevo. Ficou observando-o por algum tempo.

— Como tu não morreu ainda?

Pegou-a com cuidado do vasinho de planta e levou até o banheiro para colocar um pouco de água, retornando para o quarto em seguida. Separou suas roupas e foi para o banheiro novamente. Fez sua higiene matinal sem pressa – Se atrasasse um pouco, dava de ombros. Não estava com humor nem para ser pontual. Que ligassem para até para o Papa se quisessem dizer que estava chegando atrasado, não iria mudar nada.

Vestiu-se, arrumou-se com toda calma do planeta. Calma essa aliás que raramente possuía. Tênis Oxto Los Angeles preto e branco, Calça Jeans Slim Stone azul forte, uma camiseta xadrez manga cumprida vermelha com listras pretas compuseram seu look. Colocou seu perfume, pegou sua mochila e desceu até a cozinha a passos lentos e temerosos. Não notou se Ian estava em seu quarto, queria evitá-lo ao máximo para não criar um possível clima.

Em vão. Lá estava o garoto de olhos azuis tão profundos quanto o próprio mar a comer seu café da manhã. Como se fizesse parte de seu ser habitual, sorria. Dan não tinha certeza se o fato ocorrido contribuía ou não, porém decidiu seguir como se nada tivesse acontecido. Era o melhor a se fazer.

— Bom dia – Tentou soar convincente, contudo sua voz saiu falha e temerosa.

— Bom dia, primo – O outro respondera em seu tom comum – Quer torradas?

— Eu já faço uma pra mim. Valeu – Se aproximou da mesa – Tu vai dar aulas hoje né?

— Aham. Tô pensando em ensinar uma música pra eles, não sei se comentei contigo.

— Acho que não... Não me lembro bem.

— Pois é. Mas é isso.

— Não são piás?

— São.

— E como tu vai ensinar uma música pra eles?

— Ensinando ué. Nenhuma criança ali não tem capacidade de aprender.

— Ok né. Tu que sabe.

Ficaram mais alguns minutos em silêncio enquanto Dan arrumava sua refeição. Achocolatado e torrada de queijo com presunto foi o que decidiu comer. O clima estava estranho para ambos, na visão do mais novo. Parecia difícil puxar conversa diante do que aconteceu. Sentia-se estranhamente incomodado com aquilo. Gostava de conversar com o primo pela manhã, e não ter aquilo era como se seu dia não tivesse sentido. Sentiu-se assim nas vezes em que brigou com ele, mas seu orgulho sempre o impediu de correr atrás do que queria de verdade.

— Tem alguma prova ou trabalho hoje? – Ian perguntou.

— Tenho sim. De Biologia e Física. Um c*.

— Tu vai se dar bem. Tenho certeza – Sorriu.

— Ficar de recuperação ia ser uma m*rda. Aí ia ter que ficar estudando e estudando...

— Muito que tu estuda, né mangolão?

— Ué, não quero ficar de provão no último ano. Quero passar tranquilo.

— Sobre o que são as provas?

Dan ia responder. Ficara alguns segundos tentando lembrar a resposta e nada. O ato fez o primo rir.

— Tu tá numa m*rda federal hein? – Debochou.

— Cala boca! – O mais novo revidou – Eu vou me dar bem. O Jeff vai me dar cola.

— Será? Tu não se meteu em encrenca um tempo atrás por causa disso?

Naquele momento Dan se perguntava por que diabos contava tudo ao primo.

— Isso foi antes. Agora vai ser diferente – Garantiu.

— Olha lá hein? Mete juízo nessa cabeça avoada.

— Parece minha mãe falando.

— Por falar em mãe – Ian ficou ligeiramente desconfortável em tocar naquele assunto, mas sentiu que era necessário – A praga que ela te rogou deu certo, né? – Tentou brincar.

Dan então coçou a nuca envergonhado.

— Não vejo como – Disparou tentando parecer convincente – Se tu diz isso pelo que aconteceu ontem...

— Como tu se sente? Lembrando daquilo?

— Como eu deveria me sentir?

— Tô te perguntando como tu se sente, não o que tu deveria.

O menor revirou os olhos.

— Sei lá, velho. Tipo, não foi algo tão estrondoso que mereça a minha atenção. C*r*lho, mal encostou em mim e foi tri rápido. Não viaja.

— Por muito menos tu já fez um fiasco. Imaginei que dessa vez não seria diferente. Até pensei que teria sermão – Sorriu – Mas fico feliz que tu só virou a página e seguiu.

— Como eu disse, não foi algo tão estrondoso. Fora que foi um acidente.

— O melhor acidente – Ian levou sua mão esquerda a mão direita do primo – Cá entre nós, teria feito melhor se soubesse que aconteceria.

— Eu sei que sim, seu p*to – Dan sorriu – Eu só quero que tu entenda que... As chances daquilo se repetir são-

— Mínimas. Tô sabendo – Se desfez da mão do menor – Mas existem.

— Muita pretensão tua achar que tem chances “mínimas” ao invés de nenhuma, né?

— A esperança é a última que morre. Já dizia o ditado.

Novas risadas.

— Eu vou indo nessa. Boa sorte com a gurizada.

— Boa prova. E Dan...

— Fala – O encarou.

O garoto engoliu seco. Todas as vezes que dissera aquela frase para o primo fora com intenções fraternais, mas diante das novas circunstâncias, com Daniel sabendo de toda a verdade e os sentimentos seus sobre o mais novo á flor da pele, era como enfrentar um leão com um graveto. Seu estômago começou a embrulhar, como acontecera em poucas situações em sua vida. Perdeu-se no olhar castanho e curioso do outro, que parecia decifrar o que falaria e estivesse se acostumando com a ideia. Tomou fôlego, encarou-o de novo e pronunciou:

— Eu... Te amo.

Como previsto, Dan já sabia do que se tratava. Sorriu de canto e respondeu:

— Também te amo, primo.

Numa atitude mais do que inesperada, foi até Ian, o puxou da cadeira e lhe deu um abraço forte. Um abraço reconfortante para este, que se sentia no paraíso. Aquele abraço... Como descrever tamanha sensação? Certamente só alguém que tenha abraçado a pessoa amada (Seja no amor fraternal ou não) saberia entender o que se passava na cabeça do jovem de olhos azuis. Adorava o abraço de todos os demais primos, porém o de Dan era especial. Não era um rapaz que costumava distribuir abraços, só o fazia quando muito necessário ou quando estava transbordando carinho.

Por mais incrédulo que pudesse parecer a qualquer um que conhecesse Daniel, Ian acreditara que seu gesto fora de todo seu coração. Foi para mostrar que, independente das armadilhas que a vida colocasse entre ambos, sempre estaria junto dele para o que precisasse. Seriam como irmãos, fiéis e bravos na defesa um do outro. Era um abraço de conforto, de afeto. Aquele abraço que se dá quando tudo vai mal, quando nossos pedaços estão espalhados pelo chão da vida e alguém ajuda a uni-los de novo.

Seu coração batia tanto que nem sentia mais. Era como se tivesse, como já dito, sido levado ao paraíso. Uma lágrima escorreu por sua pele bronzeada sem que este percebesse, ao contrário do primo que notou e resolveu brincar.

— Vai começar com boiolice de manhã, Ian? Sério?

O garoto riu e secou a dita cuja.

— Fazer o que né? Faz parte de mim – Respondeu feliz – Valeu por isso Dan. Significou muito.

— Pra mim também, acredite – Desfez o abraço – Somos quase irmãos cara. Chega ser até ridículo a vida não ter nos tornado isso de fato.

— O que importa não são os laços de sangue, Dan, e sim, os do coração – Pegou a mão do menor e colocou em seu peito – Tá vendo? Isso é meu coração demonstrando que tá ligado ao teu.

— Parece uma escola de samba.

Ambos riram.

— Tinha que estragar o momento, né? – Debochou.

— Tava tudo muito emotivo. ‘Bora se animar um pouco.

— Tá bom, espertinho. Vai pra aula de uma vez, vai.

— Até.

Deram um cumprimento de mãos e Daniel seguiu seu trajeto convencional até a escola.

***

Arrumar-se de manhã cedo para ir para a faculdade era um hábito que Vanessa não conseguia se desfazer. Gostava de ir até o local, em especial a biblioteca, para adquirir mais sobre esse mundo que tanto gostava: Psicologia. Achava um universo extremamente desvalorizado, visto que muitos a encaram como algo somente para pessoas mentalmente doentes ou loucas. Mas a verdade é que queria ser psicóloga para ajudar todos aqueles que necessitem de ajuda, que se sentem perdidos no mundo e querem alguém que lhes mostre que há uma luz no fim do túnel.

A decisão por essa faculdade surgiu um pouco antes da readequação de gênero. Antes até de descobrir que era uma garota trans: Foi numa época em que considerava a hipótese de ser um garoto gay. Sofria ao saber de tantos conhecidos que viviam essa dor e não tinham apoio de ninguém. Tantos garotos expulsos de casa, tantas meninas lésbicas molestadas, tantos insultos e humilhações... Achava aquilo revoltante e injusto. Queria poder ajudar seus semelhantes a entenderem que eles merecem respeito e apoio incondicional.

E agora, tão próxima da formatura, tudo parecia estar tão perto de se realizar. Todos os estágios, ás noites em claro, os percalços na impressão de artigos e trabalhos acadêmicos pareciam ter valido a pena. Teria certamente enlouquecido, não fosse não ter mudado em nada sua rotina. Saia quando queria, se divertia, ria... Não queria acabar com seu psicológico. Em sua apresentação de TCC, foi determinada. Não tremeu, não gaguejou. Dominava o conteúdo e sabia disso. Só não recebera dez por conta de um ou dois detalhes (Que, em sua opinião, não valiam para tirar os pontos), o que a deixou com nota 9.5.

Caminhava pelas ruas que levavam até a faculdade, carregando um ar de nostalgia. Era a última vez que o percorria. Andava devagar para observar coisas que em condições normais lhe passaram em branco: O senhor que varria sua calçada pacientemente enquanto cumprimentava as pessoas que por ali passavam; Uma mulher, sempre com uma roupa formal e elegante que sempre levava a filha de condução para a escola; a padaria cuja dona era uma senhora idosa, sempre resmungona, mas fornecia os melhores queijos da região... Detalhes simples, bobos, mas que para ela agora tinham um novo significado.

Poucos minutos mais tarde e já havia chegado à faculdade. Entrava como aluna pela última semana antes de sua formatura. Sorri verdadeiramente com o feito. Voltou a andar, quando um pouco antes da entrada do local avistou um rapaz. Analisou-o bem antes de concluir que era um rosto conhecido para si. O dito cujo estava deitado ao lado da porta de entrada, com algumas garrafas vazias em seu entorno e com uma aparência fantasmagórica.

Aproximou-se lentamente, fazendo gestos para ver se ele reagia. Nada. Estava com os olhos entreabertos e inchados, indicando que havia chorado muito.

— Hã... Moço? – Arriscou – Tá precisando de ajuda?

Nada. Nem uma palavra. O rapaz sequer a olhou.

— Eu acho que te conheço de algum lugar... Qual o teu nome mesmo? – Tentou pela segunda vez.

— Ian – Falou enrolado.

— Ian?

— Sabe onde ele tá?

— Desculpa, eu não tô te entendendo.

Ele então fitou os olhos da garota a sua frente, que tinha um olhar perdido sobre si. Inclinou-se um pouco mais para frente, tocou sua mão de forma delicada e já com a voz chorosa suplicou:

— Traz o Ian aqui... Por favor... Só traz ele aqui...

— Por acaso é um guri de olhos azuis e que tem um primo chamado Daniel?

— ISSO! – Exclamou – Chama ele, por favor.

— M-mas eu não tenho o número dele – Lembrou a garota.

— Não tem problema. Eu tenho aqui no meu celu- Não terminou a frase. Começou desesperadamente a tentar ir para a tela de bloqueio. Sem sucesso – Acabou a bateria – Disse novamente com a voz chorosa – Acabou a bateria...

— C-calma. Olha, eu não sei bem onde tu mora, mas se quiser posso te ajudar a chegar em casa. Pode ser?

— Não. Vai pra tua aula – Respondeu escorregando pela parede.

— Não tenho aula de manhã. Só à noite. Vem, vem que eu te ajudo.

A loira pegou o tal rapaz pelo braço e, com toda sua força, o ergueu apoiou seu braço por de trás do seu pescoço. Com um pouco de dificuldade, foram seguindo pelas ruas indicadas, de maneira fria, pelo garoto. Caminharam um pouco, mas a duras penas conseguiram chegar ao local.

Depois que entraram, Vanessa ajudou o garoto a se acomodar na cama.

— Eu não vou te dar banho porque... Bom, seria muito constrangedor – Explicou ela, sorrindo.

— Tudo bem – Disse sem vontade – Valeu pela ajuda, de qualquer jeito.

Quando virou-se para ir embora, notou que, atrás da porta do rapaz, tinha um grande pôster: Estavam ambos em frente ao que parecia ser uma igreja de arquitetura bem antiga e de cor rosada em um tom bem claro. O rapaz beijava a bochecha de Ian enquanto este fazia uma careta. Van não pôde deixar de sorrir diante daquilo.

— Foi em Chapecó, ali em Santa Catarina, no dia dos namorados de 2015. Ian disse que queria ir pra lá porque ele simplesmente ama essa cidade – O garoto comentou.

— Muito bonita a foto – Elogiou a garota – Porque ainda tem isso? Desculpa, mas é porque agora ele tá saindo com a minha amiga e-

— Ah... Sei... – Fez uma cara de poucos amigos.

— Desculpa. Não queria ter te magoado – Falava.

— Quem me magoou foi ele quando veio a minha casa, mais de um ano depois de termos posto um fim em tudo – Lamentava – Maldito seja aquele dia. Maldito seja.

— Qual o teu nome mesmo?

— Gil. Por quê?

— Olha Gil – A garota sentou na cama dele – Eu posso tentar falar com o Dan e ele se comunicar com o Ian. Mas queria saber se... Isso realmente te faria bem.

— Me faria ótimo. Só que aquele coisa linda do teu namorado não vai com a minha cara, então duvido que faça algo por mim.

— Espera – A loira o encarou – Então... Tu sabe quem eu sou?

— Acho que já te vi no “Wunder Bar”. Com uma outra loira.

— Pelo visto não tá tão bêbado assim. Se lembra de tudo – Comentou a garota – E tenho quase certeza que tu me viu no dia que saí com a Sabine.

— É... Acho que sim – Estava quase adormecendo.

“Desculpa, Dan, mas tu poderia mandar uma mensagem pro Ian? Eu encontrei o ex namorado dele numa situação meio chata e ele pediu muito por ele. Bjs” – Enviado para Daniel.

Não demorou muito para o rapaz responder, enquanto a loira via Gil cair num sono profundo.

“Van... Eu não sei se é uma boa. Eles não estão mais juntos e talz” – Enviado por Daniel.

V: “Deixa eles se resolverem. O guri tava atirado na porta da minha facul, cheio de garrafas vazias! Isso é no mínimo preocupante! Conversa com ele e pede pra ele vir aqui depois se puder”

Mais alguns minutos e Dan respondeu:

D: “Mandei msg pra ele. Ele vai ver se vai aí de tarde. Bjos que agr vou ter prova”

A loira sorriu.

V: “Obg :3 Bjs e Boa Prova”

***

Acreditar que tudo em sua vida ia mudar depois do merecido recesso era algo que dava a Alisson esperança de dias melhores. Os últimos acontecimentos o deixaram completamente atordoado – Em especial, o relato sobre seu pai. Aliás, esse fora um dos motivos pelos quais ele decidira mudar e JAMAIS tornar-se algo semelhante aquela figura que outrora admirava em segredo (Mesmo sem conhecer). Não deixaria aquilo lhe consumir. Foi um choque? Foi. Mas agora era hora de provar que não era igual a ele. Iria dar muito orgulho a mãe.

Ter um salário no “Wunder Bar” lhe fez muito bem. Podia fazer compras e dar um “up” em seu visual. Não era um garoto exibido, vestia o que achava confortável não o que o preço da etiqueta indicava. Contudo quem nunca tirou um dia para um trato geral? Fora basicamente nisso que gastou sua noite de Quarta-Feira após um estressante e maçante dia. Convidou Mandy, mas a garota respondeu que estava cansada e queria repousar (Só omitiu que faria isso nos braços de Adrian); Convidou também Jeff e até mesmo Sabine, contudo ambos não tiveram interesse. Quem lhe restara fora unicamente Daniel, que mesmo emburrado de primeira, topou sair.

— Eles acham de certo que eu não trabalho, né? – Alisson reclamava – Aliás, hoje eu só consegui vir aqui porque seu Antero tá com uns problemas familiares. Já tem alguns dias que ele tá nessa função.

— E eu é que pago o pato? – O outro revidou – C*r*lho, podia tá escutando música agora e tô aqui ajudando a Barbie a escolher vestidos.

— Cala boca que tu tá é com inveja.

— Inveja? Ganhei roupas esses dias!

— Quando?

— Esses dias.

— Aham sei. Vamos ali naquela loja de uma vez.

— Sim senhora, Barbie.

— Barbie é o teu c* cabeludo.

— Não fala o que tu não conhece.

Al sorriu malicioso.

— Quem limpa a casa recebe visita, pateta – Provocou – E aí? Vai negar agora?

— AH SEU FILHO DA-

O mais velho começou a gargalhar antes de sair correndo por entre as pessoas, que resmungavam devido aos encontrões que acabavam dando. Dan o perseguira até dentro da loja, quando ambos pararam e retornaram a normalidade.

Foi fácil a escolha de seus looks. Nesse quesito, Al tinha noção de seus gostos. Escolheu duas camisas Red Nose Xadrez Vermelha/ Preta e outra Preta/Bege, três camisetas estampadas (Uma Action Clothing Base 03’ Royal, uma regata Harley Especial Grand Sl Cinza/Vermelha e uma estampada vermelha com os dizeres “LXXI”), um par de tênis Oakley Bettor preto e por fim uma calça jeans skinny Houston azul. Experimentara uma por uma e fizera o amigo avaliar.

— Fico ou não gostosinho? – Questionou, já respondendo – Eu sei, fico.

— Se tu queria um cara pra avaliar tuas roupas, por que tu não pediu pro teu colega? Aquele que tava se pegando com meu primo na sala aquele dia? – O outro foi áspero.

— Nossa, pateta. Não sabia que dizer se eu fiquei top ou não numa roupa ia te magoar tanto – Debochou.

— Tô nem aí se tu anda com roupa boa ou de pijama pela rua. Só não precisava me arrastar.

— Para que tu tá curtindo que eu sei.

— Posso saber por quê?

— Falando sério, o que tu estaria fazendo há essa hora em casa? Vendo pornô? – Falou sorrindo maliciosamente – Então, aqui tu tá fazendo algo de útil.

— Te vendo comprar roupas. Nossa, super útil.

— Quanto tempo faz que não compra roupas?

— Sei lá. A última vez, quem comprou foi minha mãe.

— Por isso tá com essa cara de c*. É um baita de um pão duro.

— PAU DURO É O C*R*LHO! – Exclamou, atraindo olhares sobre si.

Al não aguentou e começou a rir da cara do garoto.

— Eu disse pão duro, seu bocó – Disse entre os risos.

Dan então se sentou na cadeira e pôs as mãos nos bolsos de seu casaco.

— Se já escolheu, vamos meter o pé que eu quero dormir – Responder com um rosto furioso.

— Pau duro, Pau duro... Aposto que pensa nisso o dia todo – Al resmungou baixo, porém não tanto para a audição do outro não escutar.

— O QUE TU FALOU?

— NADA! EU JURO!

Assim que destrocou as roupas (E riu mais alguns minutos da cara de Daniel), foram a caixa (Que também segurava para não rir de Daniel), pagaram as compras e saíram em direção a suas respectivas casas.

— Que bola fora, hein pateta? – Provocou Alisson – Imagina gritar aquilo numa loja cheia de gente.

— Não tava tão cheia de gente assim. E me deixa em paz – O outro fazia cara amarrada.

— Ownn, o bebê ficou magoadinho. Quer colinho?

— Cala boca! – Exclamou – Olha aqui, na próxima vez sai com qualquer um na face da Terra, mas me deixa fora dessa.

— Ahh! Por quê? Foi tão divertido!

— Pra ti que comprou roupas e riu da minha cara, deve ter sido mesmo.

Mais algumas risadas.

— Não dá mancada então.

Seguiram em silêncio pelas ruas, até Dan resolver quebrá-lo.

— Falei em Gil e tava me lembrando... Hoje a Van encontrou com ele na faculdade. Tava todo ferrado.

— Sério? – O tom do mais velho foi de preocupação – Como assim ferrado?

— Ferrado ué. Bebeu todas e tava lá na porta do troço. A Van, toda coração de manteiga, resolveu ajudar e pediu pelo Ian também.

— C*r*lho...

— Tu acha que isso tem algum fundamento?

— Tá perguntando se isso tem razão pra ter ocorrido?

— Sim.

— Tu já teve algum problema com o teu – Al então foi encarado com um olhar fuzilador do menor – Com a tua namorada?

O outro retomou sua atenção à frente.

— Já sim. Mês passado quando... Bom, quando descobri que ela...

— Ah... Sei. Aquele chilique da festa foi por causa disso?

— Aham – Coçou a nuca – Eu gosto da Van pra c*r*lho. Achava que ela não ia ter motivos pra ir correndo pra outro.

— Se minha gata fizesse tanto c* doce como tu, eu poderia te listar os motivos que fizeram ela procurar outro.

— P*rra, tu é metido hein?

— Tô dando a minha opinião. Não gostou? Toma no teu c*.

— Que idiota.

— Enfim, voltando ao Gil – Mudou o assunto – Ele deve ter as razões dele pra sofrer tanto. Pelo que eu vi, ele e o teu primo se gostaram muito.

— Quanta babação de ovo pelo Ian...

Al sorriu e isso deixou Dan com um pressentimento de tirada nova. Não estava errado.

— Tu tá com inveja ou com ciúmes pateta?

— Dá próxima vez, pede pra um cachorro vir contigo. EU é que não venho mais.

— Isso não responde a pergunta.

Revirou os olhos.

— Por que eu teria ciúmes do Ian? Tu bebeu cachaça escondido no provador da loja?

— Ué, nunca se sabe quando alguém quer partir pro outro lado – Disse ao pé do ouvido do menor.

— Seu p*to! Ele é meu primo! E eu já disse que não sou-

— Gay, pateta.

— Isso.

— E nem eu – Dei de ombros – Só que eu pelo menos não dou motivos pra ninguém desconfiar de quanto eu sou macho.

— Ahh é? Que precioso ele é – Debochou – E a tal foto que tiraram de ti e do tal Gil?

Al então encarou Dan.

— É bom tu correr pateta, se tu quiser continuar vivo.

— VIADO!

— PUTO!

— GAYZÃO! – Gritou, já correndo.

— CORRE NÃO! VOLTA AQUI QUE EU VOU TE DAR BILADA NA CARA PRA APRENDER QUE NÃO SOU VIADO! VOLTA AQUI!

CONTINUA