ACOLHIMENTO

Às vezes, por mais que se expliquem, não há esforço no mundo que faça certas ações terem um peso menor sobre a alma humana. Esta, sempre uma uma tênue linha, com facilidade absurda de ser penetrada por o mais ínfimo grão de areia com poder de uma rocha. Ian bem tentava remar contra a maré vinda tão próxima de si, mas seus braços já não davam conta. Pela primeira vez na vida estava esgotado.

Sempre teve em Daniel a certeza de uma vida mais tranquila, algo sólido que estaria ali independente das tempestades. Entretanto, sabia que, de certa forma, isso nada mais passava de uma ilusão criada para suportar a terrível verdade dele não poder ser seu, por várias razões. Primeiro por ser hétero, depois pela insegurança e agora pelo coração dele ser de outro. Não impediria-o de viver aquilo pelo que considerava puro egoísmo seu, tampouco conseguia evitar se machucar em decorrência disso.

Chegou a tal ponto que não pôde mais esconder isso sequer do seu ambiente de trabalho. Desde quando havia entrado no Instituto àquela manhã, Manolo, seu chefe, teve um olhar minucioso sobre suas ações. Viu-lhe se esforçar para manter a boa aparência, o estilo de sempre. Porém, viu no olhar dele uma aura perdida de quem tentava encontrar uma nova rota em um mar que já lhe era desconhecido. Ele bem tentou ministrar a aula com empenho, paciência e amistosidade, conseguindo com êxito até, mas não foi suficiente para deixar omissa sua condição.

Logo que encerrou a primeira turma daquela manhã, guardava os instrumentos e partituras como de costume, quando viu o chefe pedir licença para entrar, tentando chegar contando piadinhas e elogiando seu trabalho a fim de deixar o clima mais alto astral. Procurou não enrolar muito, indo direto ao tempo depois de “quebrar o gelo”. A resposta do garoto seguiu a linha do questionamento: alegou que certos momentos da vida todos passamos por um complexo período de reflexão e, de certa forma, luto pelos caminhos escolhidos pela vida, mas que em breve retomaria tudo com a garra que sempre teve. Mesmo com certo temor se iria se concretizar ou tratava-se apenas de um desejo íntimo do funcionário, Manolo desejou melhoras antes de se retirar, torcendo para seu rápido restabelecimento.

Outro desavisado do assunto foi Diógenes, a quem simplesmente adentrou na sala contando feliz sobre a oportunidade surgida para tocar em Gramado com sua turma, aproveitando para agradecer aos ensaios, percebendo que seriam de grande ajuda no tal evento. O menino não parava de tagarelar do assunto, nem se dando conta de que Ian nem prestava atenção em suas palavras. Não por ignorância, inveja ou afins. Só não estava para conversas. Tanto que, já no limite de suas forças, interrompeu o rapaz e pediu se poderiam conversar quando fosse a sua casa. Dio, estranhando o gesto, questionou-o a respeito, tendo a resposta de que sua próxima turma começaria em alguns minutos e tinha de trocar os materiais utilizados. O outro concordou sem problemas, ainda que sua mente ficasse um tanto quanto surpresa pela expressão dele.

Como não era seu dia de sorte, até Andreas resolveu ligar aquele horário. Perguntou-se qual a razão de estar sendo testado daquela forma pelo universo, sendo que seu único pedido era o mesmo de sempre: paz. Atendeu com voz quase sonolenta, para tentar de forma desesperada, fazer o primo compreender que não estava muito no clima. Para seu infortúnio, o rapaz sequer deu bola. Tratou de ir questionando a razão de Gil estar ali, inclusive lhe acusando de ter pedido para ele apenas para ficar bisbilhotando sua vida. Sem querer, o mais novo começou a rir do destempero da fala dele.

— Que história é essa, Drê? Tu não tinha voltado pra Porto Alegre e o Mica ia pra aí?

— Pedi pra ficar mais uns dias. Daí ele acabou voltando pra casa. Mas não muda de assunto, c*r*lho! O que esse guri faz aqui?

— Por acaso tu te lembra que eu e ele terminamos?

— F*da-se! Pelo jeito dele e o que eu conheço de ti, não parecem estarem tão afastados assim!

— E isso me dá o direito de ordenar que ele pare a vida dele e vá pra aí ficar de tua babá? Por favor, né Andreas? Até pra ser sem noção a gente tem que ter limite!

— Limite é algo que nem a tua língua nem a do Micael vão ter quando reencontrar os dois!

Ian não aguentou. Acabou rindo dos exageros e dramas que mais lembravam Daniel do que o próprio Andreas. Mesmo assim, a ironia da situação foi hilária demais para ficar inerte, ainda que o mais velho não visse tanta graça naquilo.

— Nem tô acreditando, mas valeu por salvar meu dia, Drê.

— Dia? Mas a recém começou…

— Pra tu ver, né? — deixou no ar — Como o Gil tá? Vocês se falaram?

— Não sei. A gente se viu no mercado agorinha quando fui comprar pão. Não fiz muita questão de papo, e pelo visto nem ele.

— Velhos hábitos nunca mudam, né Andreas? — revirou os olhos — Vê se cuida aí. Na medida do possível, cuida do Gil também.

— Tá de sacanagem, né? É uma piada?

— O que tu tem de útil pra fazer aí além de enfiar areia até no c* na praia, Andreas?

— Pro teu governo tô pensando em arrumar um trampo por aqui, deixar Porto Alegre… Não sei. Tô estudando ainda a possibilidade. E não é cuidando de marmanjo ex do meu primo que vou conseguir chegar a algum lugar!

Ian riu.

— Tenta pelo menos, ok? Será que dá pra ser altruísta um dia na vida, ou prefere continuar mentindo que tá fazendo tratamento e coisas assim?

Andreas engoliu seco. Nem imaginava que o primo fosse lembrar de algo como aquilo, afinal de contas tanto havia se passado. Sem maiores alternativas, o único jeito que conseguiu foi concordar, mas alegando não ficar feito cão de guarda do rapaz. Mesmo assim, o mais novo agradeceu pela gentileza, falando que talvez aquilo até fosse lhe fazer bem. Dando de ombros, o mais velho não se estendeu na ligação. Desejou um bom dia e desligou sem sequer aguardar resposta, o que em nada surpreendeu o outro. Conhecia-o suficiente para saber quando ele estava de beiço e aquela, não duvidava, era uma das ocasiões.

A última situação aconteceu quando alguns de seus aluninhos da turma seguinte começaram a entrar. Sentiu seu celular vibrar quando cumprimentava alguns pais. Assim que eles foram embora, foi verificar do que se tratava e percebeu ser uma mensagem de Jonathan. Como há algum tempo não se falavam em virtude do cotidiano sempre corrido, ficou com o pé atrás pensando ter acontecido algo de grave. Para sua alegria, era justamente o contrário. O menino com problemas auditivos contou sobre a série de exames que vem fazendo sobre sua condição e acabou por descobrir que o implante coclear se tornou uma opção viável para seu caso, fazendo-o tornar a ouvir melhor. A notícia veio como uma caixa de confetes jogados ao vento.

Parabenizou-lhe de todas as formas, questionando quando seria a data do procedimento. Jonathan explicou que ainda estavam verificando a disponibilidade para cirurgia, mas que havia lhe mandado mensagem mais para fazer um pedido a qualquer outra coisa: Gostaria que, no caso da operação ser um sucesso, ele estivesse lá quando acordasse, argumentando o fato dele ter sido seu primeiro namorado enquanto tentava fazer um charme, ainda que por mensagem Ian riu da atitude, falando que aguardaria a data para poder confirmar, afinal tinha compromissos com seu emprego e não poderia simplesmente sair quando desse na telha. Jonathan compreendeu, mas ficou entusiasmado com a possibilidade de rever o rapaz, agradecendo por isso a ele.

Foi então que Ian percebeu a mágica que era viver. Mesmo quando tudo parecia desmoronar sobre sua cabeça, havia sempre a ponta verde na qual brotava a mais linda flor, precisando apenas de tempo, respeito e paciência para vê-la crescer forte e feliz novamente. Ainda que a situação com Daniel provocasse um mal estar imensurável em seu coração, não deixava de sorrir pela oportunidade da vida em, mais uma vez, lhe encher de bênçãos e alegrias, fazendo ressurgir das cinzas o rapaz cheio com vitalidade invejável que sempre era e pronto para dar sua última aula daquele dia.

***

Com a situação de Alisson e Daniel saindo daquele jeito, de forma quase corrida da sala de aula, uma série de pontos de interrogação começaram a surgir por todos os lados da escola, tanto por parte de amigos quanto dos nem tanto. O clima na sala ficou como calçado pequeno em pé grande, com a professora perdendo a paciência por mais de uma vez. Amanda, Adrian, Sabine e Jeferson apenas observavam os cochichos, tentando eles mesmos ligar com seus botões como a notícia do ocorrido na mata havia sido introduzida às mães dos rapazes para estarem tão nervosas daquele jeito.

Já na hora do intervalo, procuraram-se reunir em um canto mais isolado para poderem conversar com maior tranquilidade. Cada um ali tinha um sentimento diferente para demonstrar ante a delicada encrenca na qual haviam se metido. Com a pressão em cima de Al e Dan, era certo serem os próximos a prestarem explicações tanto ao pai do mandante quanto a escola, envolvida por tabela para a revolta dos quatro. Sabine, naquele contexto, era a única a se ver livre daquilo, dando “puxões de orelha” com seus sermões dizendo que, no caso de terem lhe aguardado, jamais teria concordado com tamanho absurdo. O ato, claro, gerou revolta, principalmente por Adrian, questionando-a do lado de quem estava. A moça rebateu alegando querer o bem dos rapazes, mas reforçando o fato de ambos já terem se envolvido em encrencas demais, o que poderia piorar muito a situação caso tivessem de ser enquadrados nos rigores da lei. O resto se entreolhou, perdidos e sem acreditar naquela possibilidade ser realmente viável. Jeff até questionou o fato de Dan ser menor de idade, mas o problema era que Al não. Sabine esclareceu que mesmo Daniel teria uma penitência pela gravidade da infração que cometeu.

— C*r*lho… Tomara que não saia m*rda demais desse esgoto… — indagou Jeff, coçando a nuca.

— Pois por mim não tô nem aí! — exclamou o jogador ruivo — Esse guri vem há horas pedindo por um susto. Hoje ele abriu a boca dele? Disse nem um ‘ai’ agora que viu que a coisa pode pegar!

— Pro lado dos guris, né? Pra esses aí… — desdenhou Amanda — Ninguém vai se dar ao trabalho de ir atrás, ver o que o guri vinha fazendo. Simplesmente vão analisar os fatos e é isso.

— E a gente nisso tudo?! — questionou Jeff, preocupado.

— O que mais me preocupa é o Dri sofrer alguma penitência no time ou coisa assim… Eu mesma acho que a pior coisa que pode acontecer pra mim e pra ti, Jeff, é uma suspensão, talvez.

— E explicar pros meus pais isso?! Querem que eu seja cozinhado em óleo fervendo né?

— Se tinha medo, ficasse quieto, Jeferson! — Sabine tornou a alfinetar — Além do que acho difícil rolar a suspensão. Suspender por quê se não aconteceu na escola? Agora, alguma averiguação ou acompanhamento não me surpreenderia de acontecer.

— Quanto a mim, Mandy, fica fria. Minha consciência tá limpa por ter feito o que achava o certo. Foi o que combinamos, não? Ajudar os guris quando fosse necessário.

De fato, não havia como negar. Amanda pedira no dia da festa de Jeferson. Claro que, em sua mente, algo daquela magnitude jamais poderia ser possível de acontecer. Alisson e Daniel eram temperamentais, até viajavam vez ou outra na arte de revidar provocações, mas aquilo soava como um grande sonho psicodélico digno de filmes slashers dos anos 80. Chegou a comentar com o grupo, que se calou tentando formular alguma resposta para suas dúvidas tão difíceis de serem digeridas.

Adoravam os amigos e nem colocavam à prova suas justificativas para resolverem aquela perseguição alimentada por Arthur, o rapaz que provocara Daniel. O problema consistia em amarrar tudo de forma convincente a fazer com que qualquer ação tivesse, de alguma forma, uma justificativa plausível. Um ato de extrema força de vontade, necessitado de uma concentração absurda, a qual nenhum deles sabia direito se seria o suficiente.

Sabine, mesmo achando isso tão simples quanto acertar um tiro numa azeitona na cabeça de uma criança, tentava tirar daquilo alguma coisa capaz de lhes ajudar também. Os rapazes precisavam de ajuda, sim. Contudo, não eram os únicos naquele barco necessitando de misericórdia e a loira tinha plena ciência disso. Até porque, no impulso desesperado de se salvarem daquela cama de gato, conseguir salvar os amigos junto era tarefa difícil, uma vez que eram tidos como autores do delito.

Comentando com o restante, teve o apoio de Jeff, que complementou a necessidade de acharem um meio de se defender sem comprometer os amigos, afinal nenhum deles havia lhes obrigado a participar da ação. Amanda tentou argumentar, lembrando a vingança de Arthur ter sido viralizar o beijo pela escola e não existir uma viva alma não falando do assunto. O ato, aliás, gerou uma dúvida na cabeça de Adrian: Como havia conseguido filmar aquilo sem levantar suspeita alguma? Era algo que precisava descobrir para, de alguma forma, tentar ajudar. Não compartilhou com os demais, guardando a dúvida a fim de usá-la no momento propício, onde tivesse a chance de arrancar de Arthur a verdade.

O único fato entre eles era a necessidade de se ajudarem e, com isso, trazer maiores alegrias para todos os envolvidos. O clima estava pesado, as angústias assombrando suas vidas, além da total falta de notícias por parte dos meninos… O melhor que podiam fazer, sabiam, era unir forças para vencer a batalha contra aquele turbilhão de confusos sentimentos capazes de tornar a mais mísera onda em algo estrondoso em poucos segundos. Sentiam não poder se dar ao luxo de entregar os pontos, pois, se Alisson e Daniel haviam tido a coragem de se rebelar sem se importar com as consequências, não seriam eles a não seguir o exemplo. Seriam fortes não só por eles, e sim, pela importância de serem tão guerreiros quanto.

***

Mesmo quando todas as adversidades da vida surgem de uma só vez para nos lembrarmos de sermos humanos, e do quão frágeis podemos ser devido a esta condição, Marisa e Isabel não sabiam direito como suas mentes estavam digerindo a bombástica revelação sobre seus filhos. Encarava o horizonte da varanda do jardim da frente como se pudessem, ao observá-lo, perceber as respostas caindo bem diante delas e, com isso, pondo fim a um problema o qual sequer tinham conhecimento da existência até pouco antes.

Marisa tentava refletir cada passo dado ao longo dos anos. Lembrava de vê-lo crescer com garra, força de vontade, incapaz de deixar um desafio tornar sua vida mais difícil. Começou desde cedo a demonstrar isso quando perguntou sobre o pai e ela, sabendo ser importante, contou o necessário saber: que ele tinha como todo mundo, só não morava com eles. Al, como boa criança, até questionou maiores detalhes, perguntando como era, a razão de não terem fotos do dito cujo pela casa… questões só resolvidas anos depois de forma tão não padrão. Quando esbofeteou o rapaz, viu o erro estampado naquela ação. A maior lição daquilo, e que levou para sua vida, é o valor da verdade. Hoje, diante daquela circunstância, percebia que Al também tinha crença nisso, daí a necessidade que teve de abrir o jogo logo de cara, sem rodeios.

Isabel, não muito longe disso, sentia-se dentro de um barco sem remos, longe de qualquer um a quem pudesse gritar pedindo ajuda para lidar. O fato de seu filho ser exposto daquela forma, e lidar com aquilo às escondidas, tinha um sinal precioso de sua relação consigo. Sempre tentou ser uma mãe zelosa na medida certa, sem tanto exagero ou cobranças abusivas, apenas gostava de ser informada ao menos do básico por ele vivido. Descobrir que sua ex nora, em algum momento da vida, teve o corpo de um rapaz, e que agora tinha um genro, era informações de deixar qualquer um fora de órbita. Dava-se um desconto por, simplesmente, não ter ideia de como seria dali por diante. Não enxergava um palmo a frente sobre o futuro, no entanto, o presente tinha pressa. Sabia que precisava reagir.

— Sabe que dessa vez eu consegui me surpreender com o Daniel? — comentava com a outra — De todas as vezes que meu filho me tirou o fôlego, essa ganhou de strike.

— Nem me fala — desabafou a outra — Nenhuma mãe tá preparada para escutar isso de um filho. A gente o cria dentro de uma redoma tão perfeita, com tudo dentro dos conformes achando que tá fazendo o certo, só pra, quando crescerem, vermos aquela máxima sobre cada floco de neve ser único se realizar bem diante dos nossos olhos.

— E a culpa? Onde fica nisso tudo? Eu juro que tô lutando com todas as forças pra não deixar isso dominar minha cabeça, porque a vida inteira achei a maior besteira isso!

Marisa sorriu, fraco.

— A grama do vizinho sempre é mais verde, Isabel. Essa é a verdade — concluiu — Tudo é muito lindo, fácil… Quando é com os outros. Chegou na gente, a coisa muda de figura. Tudo que vivemos ruí bem na nossa cara.

— Exatamente. Como é horrível isso, né?

— É natural. Criamos os filhos para serem perfeitos, não felizes. Claro que só pode dar nisso — explicava.

— Nossos filhos vão precisar muito da gente, Marisa. Não só com essa situação do babaquinha mirim, mas na vida também. Não podemos nos dar ao luxo de quebrar essa confiança no momento mais importante da vida deles. Mas como fazer isso se estamos a ver navios mais do que eles?

Marisa então virou frente a Isabel, atraindo o olhar dela. Sorriu, mostrando confiança e amabilidade no olhar antes de prosseguir com as palavras.

— Se eles tiveram coragem de admitir isso pra nós, veio de alguém não acha?

Isabel retribuiu o sorriso.

— O Bruno é muito avoado pra isso. Pra ele, tudo é água de poço. Dá até ódio, guria!

— Tá vendo? O Daniel tá reagindo agora é graças a quem, então?!

Ambas então riram e, num gesto de cumplicidade, abraçaram-se. Não só por estarem passando por aquilo unidas, como também por poderem contar com um apoio numa hora tão difícil como aquelas. Lidar com o peso do mundo sobre seus ombros nunca foi a mais fácil das tarefas, mas dividindo-a era um alento para os dois corações maternos ansiosos por resolver aquilo da forma mais racional e afetiva possível.

Retornaram à sala pouco depois, com olhares mais amigos e serenos de quando precisaram sair para tomar fôlego. Os meninos aguardavam suas respostas de mãos entrelaçadas, tremendo como vara verde em tempestade. As mães compreenderam, afinal nada ali tinha soluções práticas e as reações tinham possibilidades variadas de culminância de ações. Sentaram lado a lado no sofá onde estavam antes de começarem a falar.

— Acho que a única coisa que falta perguntar é se realmente querem isso pra vida de vocês, guris — Marisa indagou.

Al e Dan então se olharam, vendo um no outro a óbvia resposta. Desde quando se conheceram de verdade ao Daniel tropeçar no balde e cair em Alisson, a vida foi tratando de uní-los com cautela, perfeição, cuidando dos mínimos detalhes para não fazer nada de qualquer jeito, ou destruí-los de tal forma por dentro que não fossem mais capazes de amar. Aquela altura, não eram mais amadores, tampouco profissionais sobre a vida de um casal de rapazes. Aprendiam passo a passo no seu tempo, convivendo um com o outro, lidando com seu jeito e respeitando o máximo que conseguiam. Diante disso, confirmaram com a cabeça para as respectivas mães.

— Então pode contar com a gente — sorriu Isabel enquanto contava — Mas temos que pensar numa coisa.

— O que, mãe? — Dan questionou, mesmo com o coração pulando de tanta alegria.

— Teu pai, né guri? Temos que pensar num jeito de contar! Não dá pra viver assim pra sempre.

— O Edu também, filho — Marisa lembrou — Sei que tu não quer ele fuxicando na tua vida, mas ele mora aqui agora. Precisa saber que—

— Na real, mãe, ele já sabe — coçou a nuca.

— O QUÊ?! — a mulher quase sentiu seus olhos saltarem da órbita.

— Foi sem querer. Uma situação bem chata. Outra hora eu explico melhor.

— Ah, mas ele não entra em casa enquanto não explicar detalhe por detalhe disso! Me paga essa peste!

Isabel e Daniel apenas riam da reação. Quando se recuperaram, Dan explicou que gostaria de ir levando com calma para depois contar ao pai, lembrando que Ian era o único da família a saber por hora. Já recuperada do primeiro impacto daquela informação, a mulher se sentiu confortada, afinal sabia do carinho entre os primos e o zelo tido pelo mais velho com relação a seu filho. Não tinha dúvidas da importância daquele relacionamento para os futuros passos a serem dados, os quais, a partir dali, teriam sua ajuda para serem guiados.

CONTINUA