MEDO

Queria muito poder prolongar por mais um mês seu retorno às aulas, mesmo tendo claro em sua mente que apenas um milagre poderia lhe proporcionar tamanha felicidade. Como não era o caso, Alisson apenas resolveu aceitar e ir direto para a escola — a rotina habitual voltava. Fez isso, inclusive, com certa pressa. Não por ânsia de retomar seus estudos e ampliar seu conhecimento, mas sim, pelo sermão que ouviu da mãe pelo banheiro molhado. Com tanto a se fazer no dia anterior, chegou exausto do trabalho (e até da vida em alguns minutos), esquecendo-se então do banheiro encharcado por Dan de manhã. A lembrança também o fez agilizar seu café e preparativos para a escola e sair de casa de uma vez. Não precisava lembrar daquilo.

Apesar dos pesares, havia saído de sua problemática turma. Não suportaria encarar qualquer um dos ex colegas, principalmente por já ter arranjado encrenca com eles durante boa parte do tempo convivido. A história da foto foi apenas a desculpa perfeita para pedir sua troca de turma. Queria ter absoluta certeza do sumiço dela, aliás. Não confiava na garantia da supervisora de que todas as cópias haviam sido deletadas. Internet é uma terra sem lei, como poderia o atrevido rapaz não ter a enviado para alguma plataforma em nuvem? Seria um escândalo, na época, qualquer um dos amigos a verem. Porém, após tantos acontecimentos, achava até graça daquilo. Antes um flagra de beijo, do que de uma transa.... Correto? Se tivesse tempo, investigaria mais a fundo, mas sem ajuda de ninguém, ficava difícil. O jeito era entubar e rezar para ninguém ter a ousadia de publicá-la.

Parou bem em frente ao portão da escola, assim que voltou das nuvens por onde seus pensamentos voavam. Encarou bem cada uma das figuras juvenis entrando na instituição tal como ovelhas a caminho da tosa. Via aqueles rostos indo a passos largos para o calvário, sorrindo e fingindo estar tudo na mais plena harmonia. Revirou os olhos, querendo sumir dali.

Sentia uma apatia tão grande diante de tudo aquilo que mal sabia descrever. A única coisa boa ali foram, por muito tempo, as garotas. Por elas dedicava seu tempo aguentando os surtos da professora de Matemática que “tanto amava”, os trabalhos pouco ou nada empolgantes, aulas monótonas e sem vida. Mas nem isso lhe agradava mais. Amora conseguiu azedar seu paladar. Portanto, existia ali, só isso. Fugindo do deprimente pensamento, buscou focar na novidade que era estar em uma nova turma. Talvez, no 3B, fosse mais feliz no último semestre gasto em sua vida dentro de uma escola. Pensamento positivo. Buscava-o para enfrentar mais uma batalha.

Ao cruzar pelos corredores e entrar na nova sala, já viu os rostos conhecidos. Sabine e Jeferson sentavam um ao lado do outro, entretidos com seus respectivos celulares. Além destes, por infelicidade, o olhar fuzil de Amora também se alinhou ao seu, tendo a certeza de que a moça iria reagir.

Dito e feito. Na mesma hora, ela levantou de onde estava e foi até Alisson, com seu andar rebolado e jeito mimado de levar a vida. Sua cabeça, pensou, devia estar sob efeito tóxico de alguma droga. Como pôde pensar que se tratava de uma garota legal, liberal e divertida?

— Sala errada. O 3A é aqui do lado — O ar de superioridade, somada a pose de patricinha americana, apenas deixou Al com vontade de agir à altura.

— Eu não sou demente ainda, Amora. Troquei de turma. Vamos ser coleguinhas a partir de agora — levou aos lábios seu conhecido sorriso de deboche.

— Jura? — pareceu surpresa, ajeitando seus cabelos — Poxa… Que pena. Quando me contaram sobre um colega novo, pensei ser alguém mais… homem.

— Pois parabéns. Tá na frente de um.

— Não. Com certeza — riu, dissimulada — É só um gurizinho, como todos os desse colégio. É uma pena, sabe? Quando ficamos a primeira vez, te achei com mais firmeza na vida.

— Também achei que tu fosse boa de beijo — revidou, deixando-a em fúria — Mas não ficou nem no meu top 3. Nem sempre temos o que queremos, entende?

— Como tu ou—

— E se tu fala em homens, provavelmente tu quer os mais velhos então... — aproximou-se do ouvido esquerdo dela, sussurrando algo para deixá-la ainda mais furiosa — Porque tu não tenta um asilo? Já é cheio de caras assim.

Nem perdeu tempo escutando uma resposta mais pejorativa — até porque Amora, aparentemente, ficou indignada com o comentário e saiu da sala, com suas amigas logo indo atrás. Com a vitória garantida, Al foi para a classe vaga atrás dos amigos. Estes, por sinal, sequer se interessaram na cena.

— Calma, gente! Um de cada vez! Sei que mandei bem! — Ironizou, por fim atraindo o olhar assustado de ambos.

—Hã? O quê? — Disseram juntos, com a maior sincronia.

O garoto riu da situação, dando seguimento ao assunto.

— Teve algo de importante ontem?

— Nada não. Só coisas de revisão — Jeff respondeu, com um largo sorriso em seus lábios — É bom te ver de novo, meu guri.

— Também — Fez um cumprimento com as mãos — E a viagem? Foi tri?

— Teria sido melhor se o Jeferson não tivesse querendo dar rolê toda noite, em um lugar que nem conhecíamos — A loira alfinetou, já largando seu celular.

— Assim ficamos conhecendo tudo, ué. Larga mão de ser velha — rebateu.

— Aff… — revirou os olhos, encarando em seguida Alisson — E por aqui? Nada de bom ou novo?

— Nada não — deu de ombros, ignorando os fatos bizarros que aconteceram em sua vida no período de férias. Definitivamente, não era a hora e o lugar para discutir aquilo.

— Certeza? — pressionou, com seu tino de desconfiança apitando mais alto que o normal.

— Sim — passou convicção ao falar, aquietando assim o faro da amiga.

Como por impulso, olhou a hora em seu celular. Para seu espanto, Daniel não havia chegado ainda, tampouco mandado mensagem explicando os motivos. Por que aquele sumiço tão repentino? O que poderia ter acontecido? Talvez estivesse precisando de ajuda, ou com algum resfriado, comum da época do ano — e mais ainda com as variações de temperatura, insistentes em não obedecer as “leis” das estações.

Então, o susto: O que raios aquilo lhe importava? Havia prometido a si mesmo não alimentar qualquer resquício de sentimentos mais profundos por rapazes, e agora estava se preocupando com Dan? Balançou a cabeça, tentando distrair sua mente e ligar o “dane-se”. O gesto, claro, foi visto com curiosidade pelos amigos, mas nada comentaram a respeito. Tentaria esquecer aquilo o máximo que conseguisse, se precisando, beijaria até outras bocas, mas jamais moraria em um coração de um rapaz. Ou… assim pensava…

Elis, como de costume, entrou com seu ar de autoritário, ordenando silêncio sem ao menos ter posto os dois pés dentro da sala. O olhar passava fixamente por cada um dos rostos de seus discentes, procurando dois em especial. Encontrou o primeiro, estranhando o segundo não ter aparecido. Apesar da encarada, Alisson sequer a observava. Preferiu ficar inventando sujeira para tirar das unhas só para não ter de encará-la. A professora logo tratou de chamar sua atenção, rangendo a garganta. Só então o rapaz tratou de se manifestar.

— Já tá aí, é? Poxa, nem tinha visto — usando seu tom debochado, começou a comunal troca de farpas com aquela que mais odiava dentre todos os professores dali.

— Cheguei sim. E já queria aproveitar para conversar contigo em particular. Pode ser?

— Não tenho nada pra falar com a senhora em particular, não. Pode falar daí mesmo que eu escuto.

— Tudo bem — disse, suspirando para manter a calma — O senhor certamente se lembra da prova aplicada há um tempo atrás, onde—

— Ah… Isso de novo?! — revirou os olhos — Ninguém nem lembra mais dessa prova.

— Pois o meu caderno lembra — levantou-o assim que citou — O seu ‘zero’ ainda está muito bem anotado.

— E daí? — deu de ombros.

— Eu sugiro que vá se preparando para a prova de recuperação trimestral. Afinal de contas, o senhor quer se formar, certo?

— Sim. Mas só pra não ter que ver certos rostos por mais a p*rra de um ano — sorriu, alfinetando a professora.

Perdendo a paciência, a mulher não teve dúvidas em mandar Alisson dar uma “ilustre’ visita à Rebecca, supervisora da escola. Como, aparentemente, a aula já seria tediosa, o rapaz só arrumou suas coisas e foi até lá. Elis até tentou forçá-lo a deixar o material e retornar depois, ao fim do período, mas o garoto nem ouviu sua sugestão. Fazia o que lhe ocorria, como sempre. Aproveitando seu “intervalo”, foi em direção ao bebedouro e, em seguida, seguiu até o lado de fora da sala da equipe diretiva.

Sentou em um dos bancos, ou atirou-se neles, pegando o celular e observando quando fora a última vez que Dan havia entrado no aplicativo. Seria indicativo de algo além de amizade querer mandar mensagem? Querendo ou não, o carinha mexia com seus brios. Era um garoto-bomba, explodindo a qualquer hora e lugar. Talvez até isso o tirasse do sério — essa espantosa semelhança, em termos, consigo mesmo. Estava longe de engolir tudo fácil, todavia, se esforçava ao máximo (quando lhe convinha) para entender exatamente o ponto de vista alheio. Enquanto seu amigo… Achou uma boa mandar pelo menos algo para alfinetá-lo… Ou não? Sentias-se uma garota nervosa em frente ao rapaz que tanto deseja. Mais do que isso — sentia-se ridículo por tal.

Como se o destino quisesse brincar consigo, ainda mais uma situação desagradável lhe aconteceu. De repente, sentiu um desconforto, não interno, mas externo. Virou para o lado e pôde ver a razão — um rapaz o encarava, desconfiado, como se tentasse descobrir algo. Não disposto a ficar quieto, chamou sua atenção.

— Tô pelado por um acaso?

— Eu acho que te conheço — disse o tal sujeito , se aproximando. O sorriso malicioso formado em seu rosto deixava claras suas “más” intenções.

— Difícil não me conhecer. Sou quase o mascote dessa escola — tentou fugir pela tangente. O rapaz até riu, mas negou com a cabeça.

— Te conhecer mesmo, não conheço. Mas te vi sim. E lembrei onde — continuava sorrindo, arrepiando a espinha de Alisson — Uma festa no sábado. Foi na casa de um camarada meu.

— E..? — Não gostava do rumo daquilo.

— Nada, ué — sem cerimônias, sentou ao seu lado, colocando o braço por trás de Al — Sabe, eu tô na Educação Física agora. Tava jogando, mas cansei. Então tô de bobeira agora…

— E o que eu tenho haver com isso, meu irmão? — levantou imediatamente, sentindo o coração pulsar mais rápido do que um cometa.

— Não sei… — ajeitou seu calção de jogo, mordiscando o lábio inferior — Me diz tu aí.

— Cara, eu não curto essas coisas, beleza? Não é porque o Gil é gay que eu também seja.

— Mas bem que eu vi ele te seduzindo. E tu curtiu sim. Eu vi — estava determinado — Qual é, cara. Também não sou via—

— Gay — corrigiu, sério.

— Gay — repetiu — Só não tenho frescura pra essas coisas. Tanto é que… Se tu quiser meter…

— Quer vazar daqui e ir pra tua aula?! — sem saber se seus hormônios aguentariam aquilo por mais tempo, ordenou sua vontade. Sabia o quão fácil estava sendo ficar excitado com as palavras certas…

O garoto nada mais disse. Apenas riu, suspirou e seguiu andando para o ginásio da escola. Mas Alisson não ficou em paz — mesmo sem dizer uma palavra, o dito cujo conseguiu fazer a proeza de ser a cereja do bolo. Como bem notava, o sujeito usava um calção de jogo, tecido leve e cor azul forte, deixando nítida a marca de seus glúteos.

Foi o fim da picada.

Correu até dentro da secretaria e praticamente lambeu o chão para conseguiu uma autorização para ir embora. Não tinha a menor condição de permanecer ali sem resolver a ereção crescendo entre suas pernas. Era inútil lutar contra os instintos, precisava aceitar os fatos o mais depressa possível ou iria enlouquecer. Ainda era tão difícil seu coração se conformar com a ideia, todavia, seu corpo já não respondia por si.

Chegou em casa poucos minutos depois, ofegante devido a caminhada em passos largos e rápidos que dera. Só queria um pouco de paz e sossego após o acontecimento. O pior é o tempo ocioso que teria. Não eram nove horas da manhã ainda. O que faria? A única solução foi se arrumar e ir trabalhar. Tinha esperança que aquilo iria tirar qualquer pensamento de sua mente. O corpo, com a caminha, até se acalmou. Porém sua mente ainda estava uma pilha de nervos.

Entre começar e terminar o banho foi um pulo. Isso, por si só, lhe deu uma ajuda preciosa. Assim que saiu do banho, notou seu celular vibrando em cima da tampa do vaso sanitário. Viu pela barra de notificações quem era: Jeff. A primeira mensagem lhe deu uma grande animação — Adrian mandara notícias sobre o time, alegando eufórico a proximidade da vitória, o que significava muito para seus planos de ajudar o “Wunder Bar”. A segunda já foi um problema — A supervisora esteve em sua sala, e pôde ouvi-la falar que era para ir em sua sala logo que retornasse à escola. Achava uma grande baboseira sem sentido, mas não tinha opções. Era outro problema a resolver — por hora só queria trabalhar.

***

Trabalhar fazia Ian se sentir útil. Trabalhar fazendo o que tanto amava então o deixava voando nas nuvens. Música era parte de si, de sua filosofia de vida, sua história, quem era. Desde as primeiras tentativas frustradas de tocar “Pais e Filhos”, de Legião Urbana, aos quatro anos, até tocar e cantar “If Looks Could Kill”, de The Human League, aos 17, enquanto estava no ensino médio, foram anos de prática e aperfeiçoamento de técnicas. Tudo serviu de base para a experiência maravilhosa vivida naquele momento — passar seu conhecimento adiante. Isso fazia tudo valer a pena. Era a garantia necessária de que a arte jamais morreria, e, ao mesmo tempo, de ser eterno no coração e na memória daqueles que ajudou a crescer artisticamente.

Após uma manhã ajudando possíveis jovens talentos, era hora do almoço de boas vindas. Momento para relaxar, curtir, aproveitar e trocar experiências com colegas — e de quebra aproveitar o churrasco generosamente oferecido por Manolo, seu patrão. O clima era o mais informal possível, inclusive com direito a karaokê, jogos de videogame, música e afins. Se Ian um dia sonhava em trabalhar em um lugar assim, o sonho se tornara realidade.

Porém, ao contrário da realidade, certas coisas ainda tinham o poder de mostrar o quão na terra estava. E esse alguém era Diógenes, ficante de Ágata. Cada vez que dava por si estava sendo observado. Odiava se sentir desconfortável, malquisto. Claro, não se sentia a melhor pessoa do mundo, todavia achava não ter dado tanta corda assim para ser enforcado. Infelizmente, Manolo quis dar umas palavrinhas, impedindo assim Ian de ir atrás dos motivos do olhar feio do colega/rival.

— Minha gente, eu realmente fico muito empolgado com retornos de semestre. Não sei, acho que é a energia desse lugar, do orgulho imenso que tenho da minha equipe, tanto dos mais novatos quanto dos veteranos de guerra; do amor e da harmonia espalhadas no coração de cada um dos nossos alunos — comentava, verdadeiro em suas palavras — E isso em tudo se conecta com a arte, porque ela nasce dos mais profundos sentimentos, das mais emblemáticas ou traumatizantes experiências, do viver e aprender. Garanto que sim, vocês passam isso todos os dias aqui. Seja através do Coral, da mini orquestra, das aulas de canto, instrumentalização de sopro…Enfim… Que tudo isso siga sendo a nossa filosofia, e ‘bora escrever mais um capítulo da nossa história!

Ao fim do breve discurso, Manolo ergueu sua taça com refrigerante, levando os demais a fazerem o mesmo, empolgados, e se comprimentarem pelo retorno. Estava amistoso, legal de se conviver, mas Ian ainda sentia aquela sensação estranha perto de Diógenes. E foi na mesma hora resolver. Aproveitando dos cumprimentos aos colegas, escolheu o próprio para ser o primeiro a dar às boas vindas.

— Um bom semestre pra ti, Diógenes. Que consiga aproveitar bem as aulas que tu vai fazer.

— É… que seja — deu de ombros — Pra ti também.

— Eu… quero começar o semestre bem, saca? Sem problemas, sem neuras…

— Não esquenta comigo, Ian. Guarda teu jeito de bom moço pra Ágata. Eu dispenso.

Foi então que lhe ocorreu — de fato, o rapaz ainda tinha problemas com a ficante. Poderia ter apenas ignorado e seguir em frente (o que, em geral, fazia), entretanto preferiu fazer diferente. Saiu dali, chegou perto de Manolo e fez um pedido em seu ouvido. O homem aceitou de imediato, atraindo a atenção de Diógenes. Primeiro ajeitou a guitarra e chamou alguns conhecidos alunos de certas aulas de instrumentos. Disse a eles a música e logo começaram os primeiros acordes. Não demorou, Ian começou a cantar:

“Eu quero levar uma vida moderninha

Deixar minha menininha sair sozinha

Não ser machista e não bancar o possessivo

Ser mais seguro e não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme”

Óbvio que Diógenes logo sentiu o peso da indireta sobre seus ombros, ficando roxo de vergonha. Tinha de admitir: Ian sabia se “vingar” com classe, sem usar de palavras ou agressões físicas. E enquanto sua mente começava a odiá-lo, a música seguia.

“Meu bem me deixa sempre muito à vontade

Ela me diz que é muito bom ter liberdade

Que não há mal nenhum em ter outra amizade

E que brigar por isso é muita crueldade

Mas eu me mordo de ciúme”

Tanto constrangimento o fez simplesmente servir um copo de refrigerante e ir sentar no sofá da recepção. Estava transtornado com a situação. Se Ágata não queria mais nada, por que não botava um fim na relação? Mais do que isso: Iria aguentar um baque desse tamanho? Queria bem a menina, gostava de seu jeito, sua risada, sua inteligência e, claro, seus dotes de sedução.Isso levou seu coração a desejá-la mais do que tudo. O problema fora Ian surgir no meio do caminho igual uma avalanche. Sempre também teve ciência da liberdade por Ágata almejada e o quanto não abria mão disso. Ainda, sentia algo entre ela e seu rival sem explicação. Talvez fosse paranoia? Devia aproveitar e esclarecer isso?

A distração em seus pensamentos e arrependimentos o fez não perceber quando Ian se aproximou, poucos minutos depois de terminar a música. O garoto sentou em um sofá separado, individual, a fim de não invadir o espaço do outro.

— Belo alfinete. Parabéns — comentou, assim que se deu conta. Ian só riu, tal qual uma criança ao receber cócegas.

— Valeu — respondeu, assim que se recompôs — Eu não sou um empecilho entre a tua felicidade com ela, cara.

— É claro que é. Não mente. Ela te curte horrores!

— Mas tá livre pra tentar contigo se ela quiser — tentava explicar — A gente se curte como dois bons amigos. Só. Te juro: Quando a conheci, até pensei que fosse criar laços mais fortes com ela, laços amorosos. Acabou não rolando por motivos pessoais. Então, vai lá! Conquista ela!

O rapaz suspirou, cansado, ou apenas refletindo sobre as palavras ditas por Ian. Cogitou às barreiras serem fruto de sua mente, mas não fazia sentido. Tudo o que vivera com ela antes da chegada dele fora tão diferente da atual circunstância…

— Ela nem me mandou mensagem nas férias — confessou — Não acho que esteja interessada em mim.

— Dá o primeiro passo então — incentivou, animado — Olha, ninguém chega em lugar nenhum com orgulho. Isso atrasa, puxa pra trás. Se livra desse sentimento e vai atrás da tua felicidade. É ela a verdadeira razão pela qual tu devia lutar e não pensar em desistir jamais.

Mesmo um tanto envergonhado, Diógenes sorriu, tímido, como se agradecesse a gentileza e compreensão. Não o transformou em um santo, lógico. No entanto era bobagem ignorar as palavras ditas por ele. Eram assustadoramente verdadeiras. Precisava levá-las em consideração, sim. Um pouco de incentivo sempre caía bem.

Ian logo voltou para a festa, mais leve e contente pela ajuda oferecida. Gostava quando podia fazer a diferença. E sabia: Tinha feito. Pensou em falar com Ágata assim que possível, a fim de ajudar o menino a alcançar seu objetivo. Poderia até perdê-la como amante, mas jamais como amiga. Seu coração estava disposto a deixá-la partir, caso fosse necessário. Ele, outrora prometido a lutar por seu amor, agora o aceitava ir embora.

***

Nunca um dia havia passado tão devagar quanto aquela terça feira. Daniel sofria o peso dos minutos lhe abaterem os ombros, deixando-o inquieto, apreensivo, ansioso. Sequer conseguiu pensar em ir a aula, e mal viu a hora de fecharem para ir ao labirinto verde se resolver com a namorada — pela enésima vez. Torcia para ser definitivo, fosse o que quer que fosse. Seu coração estava despedaçado demais para sofrer tanto.

Marcella, como tia coruja que era, percebia a inquietude, passara a tarde tentando se fazer útil a solucioná-la, mesmo o garoto repetindo cem vezes que estava tudo bem. Ronaldo também arrumava algum jeito de arrancar a informação de Dan, fazendo “iscas” durante as conversas, jogando assuntos verdes… Nada. O rapaz, definitivamente, não abriria a boca. E foi assim até ir embora.

Despediu-se depressa, como se tivesse esquecido o fogo ligado, e foi a passos largos em direção à Praça da República, lar do Labirinto Verde. Torcia para tudo dar certo e poder continuar sua vida sem maiores problemas. Precisava do apoio incondicional da loira, mas para isso sabia que precisava abrir o jogo. E era exatamente o que faria.

Chegando lá, Vanessa estava com um belo vestido longo, azul celeste, e um salto. Achou exagerado, em sua opinião. Porém, visando não criar mais problemas, elogiou assim que se aproximou. A garota, apesar de agradecer, mantinha o olhar sério, quase frio, de alguém sem ânimo ou forças para lutar. Percebia o quão cansada ela também estava e não podia lhe julgar por isso.

Pegou-a pela mão e a levou até o banco mais próximo, deixando que ela se sentasse primeiro. Ele sentou depois, engolindo seco, sofrendo por antecipação diante de tudo o que iria contar.

— Eu sei que tá tudo muito confuso pra ti. Só queria que tu soubesse o quanto isso pesa pra mim também — buscava se justificar — A minha vida tá um caos e eu tô tentar manter tudo sob controle.

— Tu é o próprio caos, Daniel. Essa é a verdade — Pela primeira vez, a moça lhe encarou nos olhos — Quando eu acho que tô te entendendo, descubro que mal te conheço. Somos namorados há dois anos e MEIO e mal te conheço. Entende o quão estranho isso é?

— Os últimos fatos não me ajudam muito. Sei disso — admitia, cabisbaixo — E tem um ainda que tu não sabe.

— Jura? — foi sarcástica — Nossa, estou pasma. Qual é a da vez? Teu nome não é Daniel? Tu é adotado?

— Aquele guri… O da festa…

— O que tem ele?

— Ele… Não foi só ele que eu beijei…

Na mesma hora, os olhos de Van se fecharam como nuvens tempestuosas. O que mais faltava descobrir sobre o namorado? O melhor: O que tinha dado na cabeça dele para, de repente, resolver beijar meninos?

— Explica. JÁ! — Usou do tom mais imperativo que conseguia.

— O-olha — gaguejou, nervoso. A loira foi irredutível.

— Explica isso agora, Daniel.

— T-tá. Calma — coçou a nuca de nervoso — Vanessa, esses últimos tempos têm sido bem f*das pra mim. Tá tudo um lixo, não consigo ajeitar nada e parece que todo dia me surge algo novo pra resolver. E, foi em um desses dias que aconteceu—

— Essa desgraça — completou, com lágrimas escorrendo por sua face delicada — Essa grande desgraça.

— É-é… — cada minuto a mais parecia que a culpa lhe consumia — Mas olha, não foi culpa minha. Tipo… Não TODA minha. Teve o lance de eu beber e tal.

— Como assim?

Ter de admitir uma coisa daquelas em voz alta era, no mínimo, constrangedor. Após todo acontecido, entre sua briga com a namorada e o momento vivido, tudo se tornava sem sentido. Dois meses antes a recriminava por ser transexual. Agora confessava uma experiência duvidosa com rapazes. Queria fugir, inventar qualquer desculpa, mesmo que fosse a mais estapafúrdia possível, no entanto, sabia o quão inútil seria. O jeito foi aguentar no osso.

— O Alisson, Van — A garota ficou branca como um papel, e estática como uma estátua ao ouvir — A gente saiu pra beber no início das férias e… Acabou rolando. Foi isso.

Seu olhar — um misto de confusão e tristeza — encarava os de Dan com profundidade. Raiva em si não conseguia ter, por algum desses motivos inexplicáveis. A única coisa real identificada em sua mente era decepção. O namorado sempre teve as forças da natureza conectadas no corpo — água, ar, fogo e terra se uniam para formar o ser indomável. Antes mesmo de sua briga já se mostrava difícil conseguiu aquietá-lo, torná-lo mais humano e menos fenômeno extraordinário. Agora então, ele, que sempre fora um vulcão, virou um furacão, levando consigo sonhos e esperanças.

— Como isso aconteceu? — a única frase emitida por ela, ainda sem expressão no rosto.

— A gente bebeu demais. Mas foi só um selinho, eu juro! — tremia de medo da reação fria da namorada — Eu sei que não diminui o que eu fiz, ainda sim tu precisa entender que—

— Então por que não me contou assim que aconteceu? — cruzou os braços — Eu te digo porquê: Tu não sabe como lidar com isso, entender o que acontece. Simples assim.

— Não, Van! Não é simples! —se exaltou — C*r*lho! E-eu… Sei que é uma barra isso. Tô tentando administrar isso da melhor forma possível, só não consigo sozinho…

— Tu deve ter amado quando ele te beijou de novo, né? Quando passou mal no Wunder Bar... — levantou do banco, visivelmente nervosa — Talvez até tenha feito de propósito pra—

— Que isso, Vanessa! Claro que não! — exclamou, no mesmo estado — Eu nem lembrava do beijo naquele dia. Eu tive uma coisa… Meio que amnésia alcoólica, então não lembrava.

— Claro. Aham — virou de costas e saiu andando apressada. O namorado agiu rápido, segurando seu braço — Que é?

— Me perdoa — lágrimas já faziam força para não cair — Eu juro que nunca mais vai acontecer algo assim. Te prometo isso. Nunca mais vou dar motivos pra te perder.

— Tu já tá me perdendo, Daniel — puxou seu braço com força — Tu já tá me perdendo.

E assim a moça saiu, decepcionada, humilhada e sem ter alguém para lhe dar amparo. Era uma dor que precisava conter e lidar sozinha, por mais dolorosa que fosse. Já Dan sentiu seu olhar a vigiando se distanciar — tanto dali quanto de seu coração. Não tinha sido propriamente um término, mas por quanto tempo ainda esse namoro resistiria? E mais: Quando iria admitir que algo estava diferente em seu coração?

CONTINUA