MEDO

Saber da história da própria vida é o sonho de qualquer um que não tenha uma parcela de informações a respeito de si próprio. O problema é que nem sempre saber de sua história pode ser necessariamente bom. Era o caso de Al naquele momento. Ter noção dos fatos que rodearam seu nascimento, não fora tão promissor quanto ele sempre sonhou que seria. Ao contrário, o fato tirou de si às já limitadas esperanças que tinha de um futuro melhor.

Estava deitado em sua cama encarando a foto onde estava seu “pai”. Encarava este com um olhar que podia ser compreendido de muitas formas: Medo, decepção, tristeza, estranhamento e decepção eram alguns dos atributos que podia ser usados para descrever tal ato.

— Filho — Marisa começou — Eu só quero que saiba de uma coisa: Independente de tudo, tu ainda é o meu filho amado. Não interessa o que levou ao teu nascimento e em quais circunstâncias ele aconteceu.

Al então levou seus olhos ao rosto da mãe. Era nítido o desconforto que esta sentia por ter de tocar naquele assunto. Seria assim tão ruim? O que de tão grave poderia ter acontecido?

— S-se a senhora não quiser, não precisamos falar sobre – o garoto respondeu quando a mãe o interrompeu.

— Tu tá certo filho. Eu... Não posso te negar o conhecimento da tua história. Teu pai não está aqui por um motivo e tu merece saber o porquê.

Sentiu seu estômago gelar. Agora estava tão próximo de descobrir a verdade, de saber sobre sua origem... Mas o medo lhe causava uma sensação tão estranha que nem mesmo conseguia descrever em palavras. Era como se soubesse que uma bomba estava para estourar em seu colo e não pudesse fazer nada para impedir. Quer dizer, poderia ter feito, o problema é que sua vontade em ter as respostas que tanto procurava o deixaram cego demais para perceber que talvez fosse melhor certas coisas ficarem no passado.

Encarou a foto novamente. Desta vez com um ar de desconfiança no olhar. Passou a observar cada um dos sujeitos presentes nela a fim de descobrir qual deles poderia ser o homem que causou tanto mal a sua adorada mãe. Talvez pela aflição do momento, não encontrava nenhum que fosse parecido consigo. Mordeu o lábio inferior por causa do nervosismo aparente.

— Quem ele é? — perguntou, com a voz rouca. Parecia ter se formado um nó em sua garganta.

— Esse aqui — Marisa então apontou para um homem que estava abraçado a outra moça.

Tratava-se de um sujeito que, a julgar pelo ângulo da foto, era alto. Tinha cabelos negros assim como seus olhos, um porte atlético mostrado sem pudor já que estava sem camisa e usando calção de banho vermelho. Sorria para a foto.

— Sim. Ele era namorado... Da tua tia.

— DA MINHA TIA? — exclamou o garoto — Como assim, mãe?

— Antes que tu venha com sermão, me escuta. Só isso que eu te peço.

Mesmo contra a vontade e bufando por dentro, acenou em sinal positivo para ela com a cabeça.

— Pois bem — Marisa — Como eu te disse, ele era na época um namoradinho da tua tia. Nos divertíamos muito juntos, sabe? Todos nós, aliás. Sempre os quatro, reunidos pra fazer bagunça, coisa de jovem. Ele frequentava lá em casa, assim como o meu namorado da época também. Eram tidos quase como filhos pelos teus avós, afinal, tínhamos um relacionamento estável com ambos.

Al ficou por algum tempo encarando o teto processando a informação.

— E... Quando foi que aconteceu tudo? — questionou, fazendo a mãe suspirar fundo.

— O desgraçado soube que minha irmã e meu namorado tinham ido para o trabalho juntos, pois trabalhavam no mesmo lugar lá em Caxias do Sul. Aí resolveu que ir lá em casa pra não me deixar sozinha para os malandros da rua. Como se ele mesmo não fosse...

— E aí... Vocês...

— Se não tivéssemos feito, tu não estaria aqui — Marisa foi direta — Um erro, eu sei que foi. Mas ele tinha uma conversa boa e um jeito de enrolar a gente assim... Tu não faz nem ideia.

— Até agora não vi motivos pra ter omitido ele da minha vida por tanto tempo.

— Eu sei. Ainda não contei a parte difícil da história.

O garoto tornou a encarar a mãe com um olhar apreensivo. Aquele incômodo voltou, ainda mais forte. Algo o alertava para a difícil fala vinda a seguir.

— Que parte difícil?

A mãe então pegou ambas mãos do filho e as encarou por um tempo. Não estava sendo nada fácil para ela relembrar aquilo tudo. Doía, porém, se fazia necessário.

— Sabe aquele ditado que diz: Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento?

— Sei...

— Teu pai, Alisson... Teu pai é exatamente esse ditado personificado — o tom da mulher era um misto de raiva, vergonha e nojo. Tudo ao mesmo — Não bastasse ter feito eu trair o cara que eu gostava de verdade, ainda tinha um caráter podre daqueles.

— O que... O meu pai fez?

— Um tempo depois que eu descobri que tava grávida, eu fui lá falar com ele. Não tinha a menor possibilidade de esse filho ser do meu namorado, disso eu tinha certeza. Quando eu cheguei à casa dele...

Marisa parou então de falar, ficando pensativa. Sua feição indicava que estava recordando aquilo. Por mais que quisesse evitar que a mãe sofresse, queria saber a verdade.

— Quando chegou à casa dele... — insistiu para que a mãe continuasse seu relato, mesmo vendo a dor em seus olhos.

— Ele... Ele tava apanhando de... Um pai de uma guriazinha de doze anos.

Al sentiu seu estômago gelar. Seus olhos ficaram expressivos e assustados com o que ouvira. Seu olhar encarou os olhos da mãe. A informação veio como um raio, atingindo e destruindo tudo ao seu redor. De repente, seu chão se rompeu, deixando-o se afogar no mar conturbado de sua mente naquele momento. Tudo perdeu a razão, o sentido de existência. Restava um vazio imenso, difícil de ser tratado. Alisson ficou desolado, apavorado com aquela triste revelação.

— Não... Não precisa continuar — com os olhos já querendo liberar as lágrimas soltas, foi direto para seu quarto, encostando a porta. Deitou em sua cama e afundou a cabeça no travesseiro.

Então aquele era seu pai. Um homem daquele tipo, era seu pai...

***

— Quero todos os primos ali tirando fotinho! – ordenou Adriana, animada.

Assim que todos acordaram, deu-se início ao tradicional churrasco aos domingos. Mas enquanto os pais curtiam uma das poucas ocasiões em que podia aproveitar a companhia dos parentes, O clima entre os primos era de confusão. O conflito ali iniciado poderia provocar sequelas nas ligações que todos sempre tiveram e isso assustava, principalmente os que não estavam envolvidos na situação. Os pais nem de longe notaram o estranhamento deles, e Ian torcia para que nem percebessem. Ao que parecia, estava tudo nos conformes.

— Ahhh, qual é! Inventaram essa agora? — Dan reclamou.

— Cala boca e vamos lá – Pediu Ian.

— Mas, Ian, e o Andreas hein?

— Vamos fingir que não rolou nada. Só vai lá, tira foto e volta pra tua mina.

— Mas-

— Por mim, Dan... – O mais velho encarou-o com seus brilhantes olhos azuis.

O mais novo bufou. Odiava o jogo sujo usado pelo primo para tirar vantagem sobre si.

— Tá. Que seja.

Foi tudo que Ian queria ouvir. Pegou o primo pela mão e fora até a parede da sala de estar onde tirariam a foto. A parede em tons de azul já desbotavam por conta do tempo e da quase nula utilização daquele ambiente, por mais que no passado tenham ficado quase verões inteiros ali.

— Eu fico do lado do Mica! — Ian se apitou — Sou o segundo mais velho depois do Drê. Tenho direito.

— Pra quê isso agora? — Drê não ficara muito contente.

— Porque eu quero, ué — respondeu, em tom de repressão — Nossa, Mica, que bundão, hein? — bateu com a mão aberta nas nádegas do primo — Quando que eu vou me divertir com ele?

— Só no dia que tu tiver uma ppk bem gostosa pra eu te f*der, querido primo — O aniversariante respondeu, de forma irônica.

Um “Bah” ecoou pela mesa onde estavam todos os primos reunidos.

— Podia ter dormido sem essa, gurizão — Mexeu Levi.

— Falando nisso, tu podia dormir sem cueca né pra gente brincar um pouco — Ian revidou.

— Ihhh, e agora, Levi? Vai resistir a tentação? — Mica provocou.

O garoto ficou vermelho.

— F-fica quieto, Ian!

Os demais primos riram.

— Eu vou dormir BEM longe de ti, sua cadela no cio — Luan brincou com Ian.

— Isso aí, Luan! – Micael exclamou cumprimentando de mãos o primo – Vamos nos cuidar, porque se a humanidade dependesse dos nossos primos e do teu irmão pra procriar...

—EI! — Dan se manifestou — Eu sou hétero também, viu?

— Aham, Daniel. Acredito — ironizou o outro.

— É sério!

— Cadê a tua mãe com o celular pra tirar essa p*rra de foto, Micael? – Drê reclamou.

— Pois é, mano. Ela tava aqui e do nada sumiu — respondeu o mesmo.

— Ainda bem, né? Imagina se ela ou alguém ouve essa conversa... – Levi agradeceu.

Os demais concordaram com a cabeça.

— Desculpa a demora, meninos, mas meu celular tava com o tio de vocês — Adriana respondia — Sorriam!

Todos os primos mostraram seus sorrisos de comercial de pasta de dente e a foto foi tirada. Pediram para tirar mais algumas com caretas, a contra gosto de Drica que só estava interessada na foto bonita que tirara do filho com os sobrinhos. Nita, Isabel, Ronaldo e Clara é que ficaram felizes em ver todos ali juntos e, na teoria, muito felizes com a companhia deles. Ao perceberem a foto, foram correndo assistir a cena.

— Eu peguei essa pirralhada no colo, Nita! – Isabel controlava umas lágrimas que queria descer.

— Nem me fala, mulher! Nem me fala. Quantas noites acordada quando o Andreas teve dor de ouvido aos quatro meses? Meu Deus — recordava-se ela – E hoje estão aí. Homens feitos e sadios.

— Essa gurizada vai longe, meninas — Ronaldo comentava com a irmã e a cunhada, pensativos — Podem escrever.

— Eu acho linda essa relação deles, vocês não acham? — Clara perguntava — O Ian gosta tanto dos primos... Aliás, acho que vive em função deles.

— Eles são as coisas mais lindinha juntos — Isabel babava — Cadê o Pedro que não veio com o Luan e o Levi?

— Guria, com esse negócio da separação dele com a mulher a situação tá meio punk sabe? Até concordei quando ele disse que só traria os meninos.

— Tadinhos... Eles mereciam que o pai tivesse aqui com eles.

— É, mas fazer o quê né? – lamentava – Pelo menos eles estão aqui se divertindo com os primos, e não em casa ouvindo pai e mãe se engalfinharem.

— Verdade.

E se encerrou aquele assunto. Logo voltaram a babar pelos primos juntos.

***

— Vai ficar aí encarando essa foto muito tempo? – Marisa aparecem na porta com as mãos cruzadas a frente do corpo.

— Nem sei – respondeu, pensativo.

— E por que tá fazendo isso?

— Porque eu depositei esperanças de uma vida toda nessa foto, mãe. E todas elas ruíram sem eu poder fazer nada pra impedir.

Marisa então encarou o teto por alguns segundos antes de falar.

— Eu sei que é difícil pra ti, Al. Eu sempre soube que seria e justamente por isso não te contei.

— No fundo até foi bom, sabe? – o garoto sentou-se na cama – Explicou muita coisa.

— Do que tu tá falando, filho?

O garoto baixou os olhos.

— Sabe quantas pessoas depositam fé em mim? — ergueu o olhar até alcançar o da mãe — Uma. Que é a senhora.

— Que besteira é essa?! — questionou, com um tom nada contente – De onde tu tirou esse absurdo, Alisson?

— Sabe, mãe – começou a explicar – Eu sempre imaginei que no dia que eu conhecesse meu pai ele seria como aquele pai de filmes clichês, tá ligada? Um cara que... Sei lá, vacilou no passado, mas tava afim de reparar o erro. Aí vem a vida e me mostra isso? Que meu pai era um b*sta de um pedófilo!

— E o que isso tem haver contigo?

— Será que a senhora não percebe? – os olhos castanhos já marejavam – Uma pessoa que tem uns genes de um cara pau no c* como ele, não é sinônimo de esperança da humanidade.

— Tu não tem absolutamente nada haver com ele – Marisa foi ao encontro do filho, abraçando-o – Não é porque ele afundou a vida dele que tu vai afundar a tua também.

— Para e pensa – encarou a mulher – Os professores, se me passarem, vai ser pra se livrar de mim porque eu não sou exatamente um símbolo de aluno.

— E tu acha que eu fui? Tirava notas mais baixas que a temperatura do Ártico – o garoto riu, fraco – Tu acha que eu sou burra por isso?

— Não – respondeu.

— Notas, escolas, professores... nada disso define a pessoa que tu é de verdade, filho – deu um beijo na testa dele – Tu tem defeitos? Sim. Mas quem não tem? Todos temos. Se alguém se acha melhor do que tu por não ter os teus defeitos, é um grande babaca. Quando se sentir pra baixo, pensa o seguinte: O que tu faria se um psicopata chegasse pra ti e dissesse que tu é dramático?

— Eu mandaria ele tomar no c* e enxergar o dele ao invés de cuidar o meu. Além de dizer pra ele se matar.

— Então. É isso que quero te dizer. Não fica pensando que quem te julga é um poço de virtudes, porque não é. E por fim, burro é um animal. Tu é inteligente sim e não é a escola que vai te dizer isso.

— Como a senhora pode saber?

— Quem fez uma fiação de tomada na sala só de assistir vídeos na internet?

— Eu...

— Quem consertou o carro aquela vez que estávamos apertados de grana?

— Eu – já começava a sorrir.

— Quem correu atrás de emprego sozinho?

— Eu.

— Só aí tu já é melhor que muita gurizada que eu conheço — elogiou — Não fica querendo se achar coitadinho só por causa do teu pai, Alisson. Tu é um guri esforçado sim e é mil vezes mais homem do que ele.

O garoto abraçou a mãe, que retribuiu.

— Valeu pela força – deu um beijo na bochecha da mesma.

— Não importa o que aconteça, tu SEMPRE terá tua mãe pra te dar apoio — sorriu — Quer continuar a faxina?

— Querer eu não quero, né? Mas sei que vou levar uma mijada se não fizer.

Marisa riu.

— Se tu quer que eu me arrebente no chão e acabe com a minha coluna, pode deixar que eu faço sozinha.

— Chantagista.

— Coisa amada.

Ambos retornaram então ao serviço doméstico, já com os ares renovados e a esperança de recomeçar. A paz voltara a sorrir para seu lar.

***

Logo após a foto, os primos foram dar uma caminhada juntos pela chácara, impulsionados é claro por Ian. Não tinha alegria maior para o garoto de olhos azuis ter seus adorados primos consigo para rir, chorar, brincar, se divertir... Os considerava seus irmãos, mesmo que gostasse de “usá-los” vez que outra. Mesmo com Dan, seu protegido e preferido, gostava de manter a relação de irmandade. E pensar que já esteve por um fio de se ruir...

Falando em Daniel, esteve ficou tão distraído falando com Micael e os demais primos — além de ficar trocando carinhos com Van — que nem se importou com Andreas. Este, por sua vez, também não parecia interessado em fuzilar Dan com os olhos. Seu olhar estava vago e seu pensamento longe. Não pensava só no que fez com o primo, mas sim e todo o contexto que o levou a fazer o que fez. Sua paixão não correspondida pelo primo o fazia surtar, simplesmente por não se conformar com a vida e com o destino. Para si, Daniel não merecia Ian. Era um garoto muito diferente de “modelo perfeito” de comportamento, cheio de falhas... Como, de todos os primos, Ian foi gostar justo do mais problemático?

— Nunca que eu ia imaginar que tu é via... gay, Luan — Dan comentava — Mas também não vou dizer que não desconfiei, porque sempre achei muito estranho aquelas “namoradas” que tu levava pra gente conhecer. As minas ‘mó gatas, só que nem pareciam tuas namoradas. Pareciam amigas e olhe lá.

— Eram minhas amigas, Dan — o primo respondeu — Eu não tô preparado pra contar pros meus pais. A barra tá pesada lá em casa, tá ligado? Tô com medo de contar e provocar um apocalipse.

— Espera mais um pouco. Talvez, no futuro, tu conte, ou sei lá... nem precise.

— Como não precisa? — Van se intrometeu — O teu primo não pode viver no armário a vida toda. Só tem a perder com isso.

— Ué, não tô dizendo pra ele ficar no armário. Sei lá, só segue a tua vida. Esse negócio de escolher um dia pra contar que gosta de macho é a maior idiotice pra mim.

— Só tô te contando porque o Ian me garantiu que tu não ia me condenar — Luan confessou.

— E ele não vai, né Dan? – O dito cujo olhou fundo nos olhos de Daniel.

— Não se pode nem ter opinião que já acham que tô ofendendo. P*ta que p*riu, hein? — reclamou o garoto — Relaxa, primo, não vou te condenar. Pelo contrário, acho até melhor.

— É mesmo? — Luan perguntou, confuso.

— Claro. É menos um primo pra ficar dando em cima da MINHA mina.

— Sentiu a indireta, Mica? — Levi, o irmão mais velho de Luan, mexeu.

— Sou inocente. Daniel que é psicótico — Micael se defendeu, fazendo os primos rirem. Menos Dan é claro.

Todos seguiam a conversa quando Ian notou o descaso de Andreas com o grupo. Aparentava estar longe ainda, foi quando se aproximou para lhe trazer de volta.

— Viajando pra onde, Drê? — perguntou, sorrindo.

— Pro passado. Onde tudo era melhor — Respondeu, encarando o céu.

— Deixa o passado pra trás. Pensa no futuro e aproveita o presente.

— Eu queria aproveitar o presente... Com a pessoa que eu amo.

O sorriso de Ian se tornou fraco e sem vontade. Não sabia como proceder diante daquilo. O primo tinha o direito de sentir o que bem quisesse, e, tal como ele, pagava pelo alto preço de não ser correspondido (Ao menos não com a mesma intensidade). Colocou a mão no ombro dele antes de tornar a falar.

— A pessoa que tu ama tá bem do teu lado agora. Por que não aproveita o tempo com ela?

— Porque ela quer pegação. Só isso.

— Não, Drê. Desculpa, mas nem isso vai rolar mais.

Foi quando o mais velho parou e encarou-o.

— Que p*rra tu falou? — perguntou sem acreditar.

— Eu já devia ter parado faz tempo, mas sei lá. Achava que isso era... Só uma fase tua. Eu te ajudei a te descobrir, fiquei do teu lado nos primeiros meses, lembra? Todas os áudios que tu mandava as três da manhã com vergonha de gostar de homens?

O mais velho suspirou.

— Lembro...

— Achava que ia acabar ali. Mas aí eu descubro que tu continua alimentando, e que pior do que isso ainda quer o mal do Dan.

— Não quero mal dele. Só acho injusto tu gostar justamente do único de nós que tu não pode ter.

— Isso é um problema meu, Drê. Tu não tinha que se meter.

O mais velho voltou a encarar o céu azul que fazia naquela manhã, já quase inicio de tarde.

— Eu só não queria tu sofrendo, Ian. Tu não merece isso... — falou.

— Não sofro pelo Dan. Só... Às vezes ocorre de eu ficar um pouco triste mas e daí? Eu quero o bem dele e tá muito feliz com a namorada.

— Que é trans. Como ele fica com uma guria que já foi homem e não fica contigo?

— Tu sabe que são circunstâncias diferentes e para de tentar arranjar desculpas pra acusar o nosso primo. Ele não tem culpa do que eu sinto.

— Tá bom. Tem razão, é só que... — suspirou — Vai passar, ok? Vai passar. Só não se afasta de mim, beleza?

— Nunca conseguiria ficar longe de ti — o primo sorriu — Eu te amo como um irmão, Drê. Não tem como eu ficar bravo contigo.

— Pelo menos isso né...

— Só tem uma coisa.

— O quê?

— Pede desculpas pro Daniel.

— Tá. Eu vou pedir.

Ian se surpreendeu.

— Sem hesitar? De primeira assim?

— Eu fiz burrada, não fiz? Então vou tentar consertar.

O mais velho então tratou de ir ao encontro de Daniel, e ambos acabaram ficando para trás do grupo. O jeito era torcer para que tudo voltasse ao normal o quanto antes.

CONTINUA