A Teoria das Cores
104 Malva IV
MELANCÓLICO
Cada minuto que passamos dentro da roda da vida é contabilizado pela precisão de ser único e impossível de se ter de novo. As infinitas máximas sobre como devemos dar valor ao mais simples dos momentos já são batidas. O problema é que, de tão batidas, doem. Sofrer isso na própria carne nunca é uma experiência agradável. O gosto amargo que fica na boca acompanha a vida dos envolvidos para sempre, junto ao eterno pesar de não ter dito tudo quando havia tempo.
Acordar naquela manhã do dia 18 de setembro foi apenas o início de algo o qual gostaria muito saber ser apenas um delírio seu, nascido do uso de alguma substância ilícita. A lembrança do celular tocando com uma Ágata aos prantos do outro lado falando que estava em um hospital após Diógenes ter sofrido um acidente cortou seu coração em mil pedaços. Saber que alguém tão moço deu adeus a este mundo, sem realmente querer fazê-lo, era mais profundo do que triste. Era horrendo.
O tempo em Nova Petrópolis pareceu respeitar o sentimento deles. As nuvens cinzentas cobrindo todo o território da cidade, somada a brisa fraca, mas gélida, mostravam suas condolências a todos os envolvidos na vida do rapaz recém falecido. Ian vestiu a roupa preta arrumada pela tia com uma sensação horrível dentro do peito, algo com o qual não pensava em lidar tão cedo. O terno, sempre com ares de elegância, de repente perdia seu brilho. Uma estrela que se apagava diante do espelho, tal qual seus olhos, sempre um azul vivo como uma lagoa, ali um mar salgado.
Tanto Isabel quanto Bruno ficaram até mais tarde em casa para dar suporte ao sobrinho, ajudando-lhe no necessário. Tomaram café com o rapaz, tentaram conversar e se dispuseram a levá-lo no velório. Daniel a mesma coisa. Tão logo acordou foi procurar o primo para lhe dar um abraço, uma vez que soube tarde da noite por Vanessa, lhe mandando mensagem contando e pedindo que desse suporte ao primo, uma vez que devia estar sofrendo.
Questionando se o mais velho queria que fosse junto, Ian negou, já que ele sequer conhecia Dio. Antes de ir para escola, dá mais um abraço e diz que poderá contar consigo sempre. Emocionado, o maior agradece. Isabel, porém, impediu Dan de ir sozinho, alegando que lhe levará para resolver “aquele assunto” pendente. Coube a Bruno a incumbência de levar o sobrinho ao local indicado. E assim fizeram. Concluído o café da manhã, foram até a igreja dada por endereço via Ágata.
Bruno procurou respeitar o momento de Ian, afinal sabia bem como era bom quando alguém não ficava puxando conversa demais, ou querendo se meter sem necessidade. Não abriu a boca, apenas para perguntar das coordenadas. Mesmo porque, vendo-o daquele jeito, seria difícil manter qualquer tipo de diálogo. O garoto de olhos claros não podia ter ficado mais agradecido. O dia não era de pôr os assuntos em dia. Ao chegarem, Bruno questionou se gostaria que viesse lhe buscar, mas o rapaz negou, alegando pedir um motorista de aplicativo depois. O homem sorrindo, dando um ligeiro abraço no sobrinho, pedindo que tivesse força. Ele agradeceu, descendo do carro e caminhando até a capela onde tudo fora preparado.
Sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha à medida em que caminhava até o local. Era a primeira vez depois de alguns anos que precisava encarar algo daquela magnitude. A última, ainda tinha viva na memória, quando se despediu de sua avó. Um momento no qual nem sabia direito o que sentir, tampouco fazer. Agora, passado tanto tempo, a sensação seguia. O pior era saber que, mesmo dolorosa, o ciclo da vida não havia sido alterado. Já ali, Diógenes tinha muito o que viver e descobrir.
Apresentou seus sentimentos aos pais do menino, seguindo pelos parentes próximos. Amigos não cumprimentou, apesar de alguns estarem mais chocados do que alguns parentes presentes que pareciam estar vendo um estranho. Cumpriu a etiqueta, parando frente ao corpo frio do menino sobre o caixão. Parecia dormir o sono dos justos, mergulhado em um descanso tão tenro e sereno que nada mais poderia lhe atingir. Não se viu capaz de segurar algumas das lágrimas escorridas por seu rosto cor de areia molhada. Um aperto enorme lhe tomava fôlego de vê-lo.
Manolo, assim que o encontrou, fez questão de cumprimentá-lo, sabendo de sua proximidade. Junto aos demais membros e conhecidos de Diógenes, avisou que as aulas estavam suspensas por alguns dias, para fins de respeitar a dor da família de seu aluno e também para que todos se restabelecessem com o mínimo de descanso. Ainda próximo do rapaz, o chefe lhe sugere ao pé do ouvido conversar com Ágata, uma vez que a moça deve estar despedaçada. Ian recua, alegando a necessidade dela processar tudo. Conhecia-a bem demais para saber onde a corda apertava.
Mesmo porque logo depois de se despedir, a morena foi para casa, sem também fazer menção em trocar algumas palavras consigo. Não podia julgá-la. Já havia passado coisas demais na vida para precisar lidar com uma tragédia uma segunda vez. Nada ali também era favorável à criação de maiores empecilhos. Diante disso, aproveitou a deixa para ele mesmo desejar um último adeus, pedindo perdão pela última conversa deles. Não sabia se seria ouvido ou não, mas tinha esperança de que, onde estivesse, ele compreenderia. E poderia testemunhar também a decisão que havia tomado de reverter certas atitudes…
***
Poucas coisas no universo são capazes de serem mais fortes do que uma mãe na defesa de sua cria. As matriarcas carregam consigo a força de um leão, e despertam-na quantas vezes se fizerem necessárias até ver tudo são e salvo outra vez. No caso de Marisa, depois de descobrir da forma menos convencional possível sobre seu filho estar se relacionando com outro rapaz, sentiu necessidade de, ao menos no primeiro retorno à aula, dar apoio a seu menino.
A atitude, entretanto, não implicava no desejo do rapaz de que aquilo se concretizasse. Ao ser acordado pela mãe e ouvir dela que lhe levaria até a escola, perguntou se havia retornado ao jardim de infância para ser levado quase pela mão até a sala. Marisa, sempre espirituosa, entrou na ironia do filho, revelando estar a um passo de lhe pôr fraldas para ver se conseguem, nestes termos, segurar as cagadas feitas pelo filho. Arrastando correntes, acabou aceitando a ‘carona’. Edu acabou, mais uma vez, indo sozinho no seu carro, sem abrir a boca para reclamar. Até porque sacou a estranheza da namorada e as indiretas dela quanto ao assunto do filho.
Depois de muitos resmungos e implicâncias, chegaram à frente do colégio. Alisson até se entusiasmou pensando que ali acabaria tudo, mas não durou segundos. Foi só o tempo de ver Marisa descer do carro e caminhar como em uma passarela até seu lado. Quando olhou para frente, poucos metros, percebeu a razão do afronte: O pai do rapaz agressor vinha com o filho em semelhante circunstância, mantendo o ar de grão-duque ao notar a presença de sua, àquela altura, inimiga. Curiosamente, ambos filhos tentaram escapar, sendo impedidos por seus pais, pegando-lhes pela gola da camiseta.
— Bom dia, meu senhor — começou a mulher, sem emoção — Poderia, por obséquio, repetir aquela baboseira que disse na minha cara de novo? Isso se a presença do meu filho não lhe incomodar, claro.
— Um dia em que seja obrigado a enfrentar uma situação lamentável dessas jamais pode ser bom — alfinetou o outro — Lamento. Não sou papagaio pra repetir coisa alguma. Só vamos conversar de agora em diante na presença de um advogado. Já disse isso antes! Deixem-nos em paz!
— Precisar de um advogado pra conversar… Mereço isso, filhote? — manteve o tom da discussão.
— Só quero que a justiça registre esse ato marginal e imprudente cometido pelo seu filho. Nada mais justo, não acha?
— Alisson, meu filho. Me faz um favor então — sequer esperou o menino tomar palavra. Já o incubiu da missão — Dá próxima vez que esse piazinho aí te chamar de qualquer coisa, mesmo que faça menção nas entrelinhas, me chama. Já que esse senhor quer levar a coisa aos tribunais, vamos com gosto.
— Isso foi uma ameaça?!
— Promessa seria o termo mais próximo — alertou a mulher, sorrindo como um gangster vendo a vítima implorar clemência — Com o meu filho ninguém mexe. Fui clara?
Vendo o olhar dela, Arthur, o menino agressor de Dan, não ficou comendo mosquitos. Saiu tropeçando nos próprios pés, de tamanha pressa, para dentro da escola, enquanto o pai revirava os olhos e ia embora sem ao menos fazer menção em se despedir. Aquilo foi como ganhar um torneio para Marisa, no entanto faltava a copa. Alisson, no meio do fogo, apenas gargalhava da situação. Achou, no mínimo, cômico. Era bom ver o galo virando pintinho no primeiro aperto.
Para surpresa de ambos, Isabel não tardou a chegar com Daniel. Sua expressão de quem viu alma penada lhes fez deduzir o óbvio: havia visto o homem e seu filho se aproximando. Comentou até sobre a expressão indigesta a qual ele saíra dali, além do filho ter saído como uma galinha da Angola, em sua opinião.
— Eu também sairia assim se a mãe de alguém ameaçasse distribuir bolachas aos montes.
Ninguém segurou a gargalhada.
— Pelo visto nossas mães tiveram ideias bem parecidas, né? — Dan comentou, sarcástico.
— Alguém ameaçou me pôr até fraldas. Acredita? — Al retrucou, no mesmo tom.
— Quem manda aprontar, né? — advertiu Isabel — E nada de ficar aceitando provocação à toa. Depois desse episódio, o pessoal da direção deve ficar de olho em vocês.
— Qual é, mãe?! A gente sempre se virou aqui. Não vai ser agora que—
— Não me interessa. Agora vocês têm que andar na linha. De acordo?
Mesmo com expressões de terem acabado de comer um prato de sopa de pedras, aceitaram. As opções variam pouco daquilo de todo modo. A grande sacada realmente estava em engolir, se não todos, a maioria dos sapos gordos em seu caminho. Não eram ingênuos. Os boatos e cochichos ficariam ainda piores depois daquele escândalo, mas a decisão de tentar se controlar e seguir em frente era, de longe, a mais sensata.
Ao entrarem na sala, pouco antes da aula, foram a atenção principal até se sentarem. Em dias normais, Alisson iria dar um berro capaz de ensurdecer meia dúzia para que ficassem de olho em seus próprios umbigos. Porém, uma promessa havia sido feita. Ainda que não fossem propriamente os envolvidos na confusão os donos daqueles olhares, qualquer reação mais exaltada e correriam para a saia de Rebecca. Eram caçadores à mercê das caças.
A aula em si ocorreu como água de poço. Arthur, o garoto provocador, mal piscava um cílio. Estava com a corda no pescoço tanto quanto eles, mesmo as evidências estando a seu favor, de certa forma. Sentindo na pele o que ambos poderiam fazer com quem ousasse se meter a besta, também ajudou a contrair suas ironias e perseguições. Na opinião de Al, havia virado uma gazela em perigo, escondendo-se atrás do pai para conseguir ser imaculado.
Dan também notava a diferença na composição dele. Era um rapaz com tanto topete, vide o dia em que lhe afrontou frente a todos os colegas, e agora não fazia absolutamente nada que não fosse encarar o quadro e copiar os exercícios. Por um momento, tentou adivinhar como estaria sendo a situação em casa. O pai envergonhado por um filho ter apanhado de dois ‘viadinhos’; A mãe, deduziu, nem ia tão longe, contentando-se em sofrer só pela agressão mesmo. Irmãos não sabia se tinha, mas, caso tivesse, deveriam estar querendo seu fígado e o de Al. Hipóteses cuja confirmação ou negação jamais teria conhecimento.
Ao ouvirem o sinal para o intervalo, não perderam tempo e sumir da vista de Elrew, professor de Língua Alemã, indo para um lugar mais sossegado ao lado da quadra, porém mais ao fundo. Entre conversas sobre a leitura da recém concluída aula e as notas quase às vésperas de serem publicadas, conversar sobre Diógenes foi inevitável. Não o conheciam diretamente, mas o fato de Ian ter um elo com o rapaz, ainda que estremecido, tornava o assunto pauta da rodinha de conversa.
Comentando com Alisson sobre o pedido de sua ex, o filho de Marisa prontamente concordou. Com o apoio e suporte que viu o atual ficante receber do primo, era a oportunidade deste retribuir o amor fraterno o qual sempre se fez presente. Um pouco encabulado, Dan confessou não ter a menor ideia de como abordá-lo ou mesmo se mostrar solidário a sua dor. O mais velho então lhe sorriu, dizendo que, ainda que conhecesse o primo dele quase de vista, tinha certeza que só sua companhia já seria o suficiente.
Num ato singelo, Alisson acolheu o menor em um abraço, com direito a beijo na testa. Sabia da importância do rapaz de olhos azuis em sua vida, e o quão lhe fazia sofrer vê-lo sem eira nem beira. Dadas as circunstâncias, achou importante dar todo apoio possível. Queria mostrar-lhe que estava seguro, havendo uma barreira entre ele e o mundo a qual jamais seria quebrada, a menos que fosse desejo seu. Vendo a maneira como sua armadura cedia, sabia bem qual a resposta. A atitude gerou olhares, cochichos entre os grupos. Contudo, não moveu um músculo de como estava, apenas encarou cada uma das pessoas a quem apelidou de ‘Aves de Rapina’, para que compreendessem com quem estavam lidando.
Minutos mais tarde, Rebecca os encontrou e pediu para conversarem. Ambos, como de costume, reviraram os olhos, indo atrás da moça negra e alta o que já sabiam. Mal ela fez menção em abrir a boca, o filho de Marisa lhe cortou.
— Olha, se quer falar sobre o vídeo que o imbecil do Arthur gravou, ou da ameaça do pai dele, pode esquecer. A gente não tá interessado.
— Guris, por favor. Só escutem, ok? — pediu a moça, com cortesia — Existe todo um respaldo legal em cima dessa situação que beneficia a ação que o pai do menino agredido.
— Menino agredido… Quem ouve pensa que aquele c* c*gado é uma flor de pessoa! — Dan contestou — Aliás, falando em flor de pessoa, valeu por nos expor para nossas mães. Incrível da tua parte.
— Lamento muito, mas não tínhamos muita escolha enquanto escola. Precisávamos reagir logo.
— Deviam ter reagido logo quando ele veio com aquela tiradinha pra cima de mim. Agora é meio tarde, não acha?
— E já que tá tão preocupada com ele, te aconselho a ficar fria — disse Al — Ele vai mudar de opinião.
Rebecca então os encarou como um gato escaldado.
— Guris, nada de criar confusão com—
— Não vai ter confusão nenhuma. Ele simplesmente vai debandar porque sabe que o filho dele é uma patente abandonada. Aguarda pra ver.
A mulher não ficou muito contente com a convicção do rapaz em lhe dizer aquilo, mas como morrer de véspera também não fazia o menor sentido, o jeito foi pensar em formas de se precaver no caso dos meninos aprontarem alguma pior ao tal homem e que isso respingasse em suas relações com a escola.
Jeferson, Sabine, Adrian e Amanda não tardaram a encontrá-los quando notaram Rebecca se afastando. O jogador, inclusive, comentou que ela lhe pegou na entrada para conversar a respeito do episódio, das possíveis consequências caso conseguisse provar seu envolvimento e tudo aquilo o qual os rapazes estavam de orelhas quentes com tantas pessoas repetindo. Os ficantes pediram apenas que todos ali relaxassem, pois, como tudo sempre foi, acabaria em nada. Intrigados quanto à razão de terem tanta certeza, Al justificou que Arthur está muito medroso para levar aquilo mais adiante.
Não ficaram muito convencidos, mas, na falta de opções, o jeito era aceitar aquela até que o contrário acontecesse. Se é que iria mesmo. Vendo a união dos meninos, porém, dava um certo frescor a alma, a certeza de que cada pedra voltaria para seu lugar e não teriam mais problemas dali por diante. O fato chamou a atenção de Adrian, que não conseguiu resistir ao comentário.
— Então agora é compromisso sério, é?
Ambos trocaram olhares cúmplices enquanto sorriam.
— Vamos dizer que… estamos no caminho pra isso — para surpresa dos presentes, Dan afirmou.
— Vendo vocês assim, felizes, sabem que eu faria de novo? — garantiu o jogador — Claro, não era minha intenção largar a escola no último ano com ficha suja, mas antes a escola do que meus amigos.
— A gente te agradece muito por isso, cara — Al indagou — Sem vocês teríamos conseguido, mas não seria tão divertido.
— E não vamos esquecer de mim, que fui o primeiro a me manifestar que iria! Além de ser o único a conhecer todos aqui há mais tempos que vocês entre vocês! — Jeff contestou.
— E as gurias ficam aonde nessa história? Líderes de torcida ou de fandom? — zoou Mandy — Eu e a Sabine sempre ajudamos vocês, dando apoio, conversando… Desde uma certa história com o Gil, lembra, Al? — o rapaz ficou roxo de vergonha — Pois então…
— Bem, a minha contribuição não foi tão ativa assim, nem tão importante, eu acho. Mas, do meu jeito, quis ajudar. Juro — garantiu, por fim, Sabine.
No fim das contas, Al e Dan agradeciam não só externamente como internamente, pelo companheirismo de todos. Em algum momento, fosse por ajuda mais direta ou tirando a venda de seus olhos para enxergarem o óbvio, todos contribuíram para aqueles dois rapazes seguros que cresceram à sua frente. Os medos ainda existiam, os desafios não paravam de chegar. Tendo com quem contar, apesar de tudo, fazia valer a pena.
Ao ouvirem o sinal indicando que precisavam voltar a sala de aula, Al questionou o menor se havia mandado mensagem para o primo. Este negou, dizendo que o faria durante a aula, já que mal tiveram tempo de respirar. O mais velho riu, indo com o braço sobre seus ombros até a sala, ligando um botão de ‘dane-se’ aos olhares mais maledicentes, inclusive por parte de professores atuais e antigos.
Já sentado em sua classe, Dan cumpriu o combinado e mandou mensagem ao primo. Temia pelo estado no qual sua cabeça devia estar com acontecimentos tão importantes vindo à tona quase uns por cima dos outros. De repente, pôde se ver nele quando a cada dia parecia aparecer mais e mais evidências quanto a sua sexualidade. A proliferação de situações deixaram sua cabeça a ponto de explodir, sendo um milagre ainda estar ali. Não queria ver o mesmo acontecer justo com Ian, sempre tão equilibrado e amoroso. O tempo da aula passou e, já para o fim da aula, ainda não tinha obtido retorno.
Alisson, entretanto, tinha seu foco em outro lugar. Aproveitando-se da culminância do dia letivo, não resistiu em perguntar a Arthur se ele tava a fim de ter um particular ainda ou da última vez já aprendera a lição. Com os olhos cheios de ódio, o menino ordenou que ficasse quieto antes da chapa esquentar de novo. Não satisfeito, Al retrucou questionando especificamente a quem iria esquentar, já que na última ocasião havia saído frio… e limpo.
— Tu ainda não percebeu que posso f*der com tua vida social, né? — Arthur começava a querer mostrar as garrinhas — Ficou tão preocupado metendo medo nos meus parças que nem se deu conta da câmera saindo do meu bolso.
— E por causa disso tu tá achando que pode f*der com minha vida? Sério mesmo? — gargalhou em sua cara — Como tu já percebeu, eu sei lidar com moscas varejeiras que tentam sujar meu bolo. Então, ao invés de f*der com a minha vida, por que não vai ser f*dido por alguém, hein?
Os amigos em torno de Arthur o seguraram de imediato para que não cometesse de novo um ato de violência frente a todos, afinal aquilo poderia mesmo lhe complicar. Al, aproveitando-se, sugeriu que largassem pois lhe autorizava a lhe dar uma surra, só para depois ir correndo até Rebecca e chorar as pitangas tal qual ele e seu pai haviam feito.
— Que vontade de mandar aquele vídeo pra todo mundo ver como vocês devem gozar muito depois de sair do vestiário dos guris! — Arthur falou.
Dan, já perdendo a paciência, se intrometeu.
— Manda! Manda pra todo mundo! Exibe num telão lá na quadra! Na mesma hora, arranco até as cuecas do teu pai num processo. Tu vai precisar pedir fiado no bar da escola se quiser comer uma balinha de morango fuleira!
— Ouviu, né bocó? Agora fecha a boquinha e coloca o rabo entre as pernas — Al tripudiou, rindo.
Atendendo ao conselho dos colegas, Arthur foi embora sem dizer mais nada a fim de evitar comprometimentos, afinal não eram os únicos ali. Colegas estavam presentes e analisando tudo, ou seja, possíveis testemunhas tanto para o bem quanto para o mal. Al não aguentava o riso debochado diante da covardia dele, nem sequer lembrando o menino capaz de provocá-los frente a todos dias antes, além promover boataria e alarde sobre algo pessoal.
Daniel foi quem ainda tentava encontrar a graça, recriminando o ficante por ter lhes exposto de uma forma tão imatura. O maior não se calou, ironizando justo quem falando em maturidade, complementando ainda que não temia a cara feia de ninguém e lhe aconselhando a fazer o mesmo. Dan revirou os olhos. Era estranho enfrentar aquela situação abertamente, ainda mais diante de tanta gente. Porém, ficou claro que para Al aquilo se tornou habitual, rotineiro.
Ficava ainda mais difícil quando ele usava de golpes, os quais considerava baixos, para aquietá-lo. Após se despedir de seus amigos, Dan comentou que precisava passar em casa para pegar algumas roupas e largar a mochila devido ao peso e o filho de Marisa perguntou se poderia ir junto. Não negou, já que não era castigo algum ficar ao lado do mais velho, por mais bizarro que aquilo soasse quando pensava de forma tão honesta frente a isso. Mal deram os primeiros passos para as mãos de dedos largos de Alisson buscarem as suas a fim de repetir o gesto do dia da surra. Seu coração quase saiu pela boca, engolindo seco na hora.
— Não te causa um ruim fazer isso? — perguntou.
— Claro que sim. Ou acha que pegava na mão do Jeff toda vez que ele ia comigo até em casa? — ironizou Al, arrancando risos do menor — Relaxa. Tudo com o tempo se encaixa.
De fato, era possível acontecer mesmo. Tanta coisa haviam superado ao longo dos últimos meses. Um gesto de carinho em público não era o mais chocante. Dan achou que poderia viver bem com isso.
Ao chegar em sua casa encontrou tudo fechado. Estranhou, uma vez que, dado o horário do velório e enterro, Ian já deveria estar em casa. Foi quando seu celular vibrou, chegando uma mensagem do primo explicando que iria para Pelotas passar uns dias lá para esfriar a cabeça. Sentiu um leve aperto no coração, afinal queria muito estar ao lado dele para ampará-lo com aquela dor, cuja dimensão ultrapassava os limites conhecidos. Como deveria estar sua cabeça? Como reagiria dali por diante? Seria aquele o limite do primo?
CONTINUA
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