A Teoria das Cores
3 Daniel
Notas iniciais
Sonhar... É tão bom, não é? Nos leva para longe. Faz com que o impossível se torne possível e vice versa. Dizem até que sonhos podem nos revelar muito sobre nós mesmos, verdades que procuramos esconder dentro de nós de maneira que ninguém consiga sequer imaginar a existência delas. Mesmo assim, o mítico mundo dos sonhos parece o lugar onde tudo acontece. O mundo perfeito.
Daniel sonhava estar num campo aberto de grama verde e fresca. O céu estava alaranjado. Estava deitado na grama com os olhos fechados. Por alguns instantes, pareceu sentir o aroma da grama entrando por suas vias nasais. Conseguia também imaginar os pássaros migrando para algum lugar distante, podia jurar que ouvia o som que eles emitiam felizes.
Sorriu, pois se sentia livre, a paz lhe percorrer cada centímetro de seu corpo. Como amava aquela sensação. Passava horas e horas imaginando quando seria o dia que encontraria algo – ou alguém – que lhe trouxesse essa paz. De repente, ainda sonhando, abriu os olhos. Agora visualizava com perfeição o que lhe cercava. Sentou com as pernas cruzadas. Não queria falar, pois parecia ter medo de quebrar a paz do lugar. Só que algo lhe chamou a atenção: Uma silhueta que corria em sua direção. Levantou-se e ficou a esperar até que a silhueta que corria até ele tomasse forma. Porém, infelizmente, o despertador tocou. Era hora da realidade.
Não levantou com boa expressão, apesar do sonho que julgava um de seus melhores. Ultimamente, sonhava muito com ele, e sempre terminava do mesmo jeito: Nunca sabia quem era a silhueta que corria até ele. Não entendia muito o significado que sua mente queria dar para aquilo. Seria um sinal?
Suspirou, coçou seus olhos para tentar espantar o sono e caminhou até o banheiro. Estava usando samba canção que sua mãe lhe dera no Natal. Odiava, mas sua mãe comprou numa viagem que fizeram perto daquela data e adorava a estampa. Por isso fazia questão que o filho usasse. Seu peito estava desnudo. Tirou o que lhe cobria as partes baixas e entrou na água. Arrependeu-se por não ter esperado a água esquentar, mas não saiu. Estava deprimido demais até para respirar.
Sua mente viajava. Pensava no fim de semana que podia ter aproveitado, mas passou deitado vendo séries e comendo bobagens. Havia tido um encontro com uma formanda de Psicologia, só não contava com a desgraça que arruinou tudo. Só de lembrar que chegou perto de perder sua virgindade com uma garota como aquela e desperdiçara por culpa de bobagens românticas...
Daniel não era como os demais da sua sala que queriam só transar com qualquer garota que estivesse dando sinal verde. Ele queria ter a experiência toda: Desde o contato dos olhos até o ato em si. Isso dificultava sua vida sexual, pois apesar de não querer transar casualmente com qualquer uma, tinha necessidades que o estimulo com a própria mão já não lhe trazia com satisfação plena.
Tanto tinha implorado para aquele encontro dar certo, todavia parecia que alguma força do mundo além deste não queria colaborar consigo. Fizera tudo como mandava o roteiro: Tomou banho, fez a higiene completa (Sim, isso inclui a intima), passou perfume, uma roupa casual para descontrair e um lugar bacana. Quando começaram os amassos pensou que estava tudo certo, mas quando chegou na hora... Não, não queria mais lembrar daquilo. Resolveu parar e se apressar para ir logo para escola, lugar que mais detestava no mundo...
Ficou cerca de mais cinco minutos no banho quando terminou. Saiu do Box a surpresa: Esqueceu a roupa no quarto.
— Que filho da- Quase terminou a frase, porém suspirou, pegou a toalha, enrolou-a na cintura e saiu do banheiro.
O banho não tinha acordado em atividade total. Ainda estava dormente, tanto que não percebera o primo passar por ele e arrancar sua toalha da cintura.
— Que delícia ver tua bundinha de manhã cedo, hein Dan? – Mexeu maliciosamente Ian, o primo mais velho.
— Vai se f*der cara – Retrucou o outro.
— Vou é te f*der isso sim.
Daniel não respondeu, foi depressa para seu quarto. Estava de muito mau humor para aturar o humor negro do primo. Ian morava consigo e seus pais desde que começara a cursar Logística numa faculdade da região. Apesar de gostar do rapaz, este conseguia ser irritante quando queria.
Dan não se importou em ir sem a toalha (Já que o primo não a devolveu) até seu quarto, já que os pais aquele horário já haviam saído para trabalhar. Assim que chegou, vestiu sua calça skinny preta, cuturno da mesma cor, uma camiseta qualquer por baixo de dois blusões de lã e um casaco. Em seguida, desceu para tomar seu café da manhã.
— Nossa... Tudo isso é frio? – Ian questionou. Estava sentado na mesa do café quando o primo chegou.
— Tu tá com algum problema comigo hoje? – Rebateu. Era definitivo: Aquele não seria seu melhor dia.
— Calma cara. Só tô brincando. Relaxa – Disse o mais velho, sorrindo malicioso – Ainda tá com biquinho por causa da mina aquela?
— E o que tu tem haver com isso?
— Eu não tenho nada. Até por isso acho bom desamarrar essa tromba comigo porque não fui eu que-
— Quer saber? Não tô com fome – Interrompeu-o e foi saindo.
— Tá! Eu fico quieto! – Exclamou, sem sucesso. O outro saíra a passos largos rumo à escola.
Morava há alguns quarteirões da escola, mas nunca se importara em ir a pé. Nem mesmo depois que, por infelicidade do destino, foi assaltado. A mãe insistiu para que o primo, que tinha um físico mais preparado, o acompanhasse. Todavia, o problema era o mesmo: Dan gostava do primo, só que ele conseguia ser irritante.
Andava olhando para o chão. Seu olhar estava vago e distante. Pensava na desculpa que daria aos amigos para não tocar no assunto encontro. Não entrou em contato com ninguém desde a noite de sexta e sabia que segunda chegaria e com ela uma multidão enlouquecida e curiosa. Bem... Multidão não... Os mais íntimos certamente. Naquele momento, só queria saber da musica que tocava em seus fones de ouvido.
“People fall in love in mysterious ways (As pessoas se apaixonam de maneiras misteriosas)
Maybe just the touch of a hand (Talvez apenas com o toque de uma mão)
Well me, I fall in love with you every single day(Eu, me apaixono por você a cada dia)
And I just wanna tell you I am (Eu só quero te dizer que eu estou apaixonado)”
Ed Shreeran cantava sua ‘Thinking Out Loud’ e a mente do rapaz ia lembrando de momentos incríveis que tivera até então: Quando conheceu Vanessa (a veterana) e começaram a se falar e encontrar pontos em comum, achou que tinha encontrado a garota certa, aquela que viveria uma história bonita que se um dia tivesse filhos e netos pudesse contar. Porém, se enganou, e era hora de assumir isso para si mesmo e partir para outra.
A distração nos pensamentos o fez não enxergar a pessoa que estava vindo em sua direção, igualmente distraída. O trombo foi inevitável.
— Poxa, foi mal mesmo viu – Disse a voz. Dan reconheceu o timbre suave, era Vanessa.
Ambos se olharam fixamente durante alguns segundos, como se tentassem ler o que a mente do outro tramava. Por que a vida tinha que ser tão irônica? Sempre foi pelo mesmo percurso até a escola e nunca tinha visto a garota. Agora que estava um clima no mínimo tenso entre os dois, lá estavam. Visivelmente constrangida e ansiosa, a loira seguiu seu caminho com passos rápidos até sua faculdade.
— Maldito dia que minha vida cruzou com a tua – Sussurrou Dan. Esperou até a garota sair do seu campo de visão, o que não tardou a acontecer.
Minutos mais tarde, chegou ao colégio. Por conta do ocorrido tinha se atrasado. Era o segundo naquele mês.
— Mais um e teremos que ligar para sua mãe, Daniel – Alertou a secretária enquanto entregava o papel para Dan.
— Eu sei. Não vai rolar de novo – Respondeu seco, já saindo e indo em direção a sua sala.
Passava pelos corredores e via todos aqueles cartazes sobre dia dos namorados, data que estava bem próxima. Achava aquilo uma idiotice, aliás, que tudo naquela escola era uma idiotice.
— Tô entrando – Anunciou sem cerimônia. A professora de Matemática o encarou – Por que as filas das carteiras estão alinhadas?
— Vejo que esqueceu que temos prova hoje não é, senhor Daniel dos Anjos? – A mulher falou.
O garoto revirou os olhos. Se aquilo era para testar sua paciência, estava conseguindo.
— Que seja. Tá aqui o bilhete que cheguei atrasado – Limitou-se a responder.
— Ótimo. Então se acomode que já entregarei as provas a vocês.
Deu de ombros e sentou na carteira vaga mais próxima de si. Por sorte, Jeferson estava sentado ao seu lado.
— Esqueci as provas na sala dos professores. Já retorno – Anunciou Elis, a professora.
Mal a mulher deu as costas, começaram os cochichos entre os alunos.
— Não te vi na festa sábado mano. Fiquei lá te esperando com a gata – Começou Jeff.
— Não rolou, Jeff – Sussorrou ele.
— O quê?
— Eu disse que não rolou – Falou em um tom mais alto, mas nada que pudesse alertar terceiros.
— Como assim cara? Por quê? Não me diga que tu-
— Outra hora eu te conto – Dan cortou o assunto – Por que tu não me falou que ia ter prova hoje?
— Se tu visualizasse as mensagens da p*rra do grupo da turma, teria visto.
— Aquilo é pros nerds, além de ser o maior c* que a terra já viu.
Jeff não conteve o riso.
— Tu é doente velho – Falou.
— Falou o cara que ri de piadas tri sem graça como as do Chaves – Dan já começara a sorrir.
— Ei! Chaves é top. Fez minha infância.
— Sua infância foi um c* então.
Ambos riram. Não tardou, Elis voltara com as provas. Fila por fila, a mulher foi entregando as provas aos alunos. Pareciam ganhar um livro escrito em hebraico.
— Me manda as respostas depois – Daniel não falou, apenas mexeu a boca para Jeff, que deu sinal positivo avisando que iria realizar.
Assim, nem se deu ao trabalho de realizar a prova. Sabia que Jeff era o mestre na cola, e o querido dos professores. Nunca desconfiariam dele. Dan então virou a prova e começou a desenhar qualquer coisa que lhe vinha na mente enquanto esperava pelas respostas. Primeiro desenhou um símbolo que nem ele mesmo sabia o que era; depois uma miniatura de um Impala 67 de sua série predileta. Quando terminou, deixou seu lápis rabiscar qualquer coisa enquanto ele viajava.
O que ele tinha de errado? Porque todos os amigos já tinham tido a primeira vez e ele ainda não? Claro que era por algumas questões pessoais, mas seria assim tão difícil encontrar a garota certa? Eram questões que sua mente tentava com exaustão responder, mas parece que quanto mais tentava encontrar uma resposta, mais a mesma sumia de sua vida.
— Belo desenho, rapaz. Mas procure dedicar sua atenção à prova. O tempo é escasso – Ouviu a voz de Elis perto de si. Esta vagava como uma alma sem rumo entre as fileiras à procura de engraçadinhos que colam (Curiosamente, o seu caso).
Surpreso com a voz, olhou para o desenho que tinha feito. Um rosto, apesar de faltar detalhes. Tinha feito os traços do rosto, a boca, o nariz e até mesmo os olhos! Ficara em débito apenas as orelhas e o cabelo. Como teria ele feito tão rápido aquilo sem nem se dar conta? Mais intrigante: Quem era aquela feição no desenho? Olhava atentamente para aqueles olhos que pareciam querer decifrá-lo. Sua mente vasculhava imagens tentando achar o dono, todavia não conseguia identificar. O rosto lhe parecia familiar...
Sentiu algo lhe atingir o nariz. Era uma bolinha minúscula de papel. Olhou na direção de onde ela veio e viu um Jeferson fazendo sinal positivo, indicando que já tinha mandado as respostas.
“Como ele fez essa prova tão rápido?” Questionava ele. Olhou no relógio que havia em cima da porta. Havia passado quase 40 minutos desde o inicio da prova. Tratou de parar de imaginar coisas e fazer a maldita prova. Sua sorte é que tinham dois períodos de Matemática, poderia fazer tranquilamente.
Assim que deu o sinal para a aula seguinte, Educação Física, todos os alunos se levantaram e caminharam em direção a quadra de esportes da escola.
— Senhor Daniel – Falou Elis em tom mais alto – Na minha mesa, agora.
Sentiu seu estômago gelar. Teria ela visto alguma coisa da cola? Jeferson o avisou que o esperaria na frente da porta do ginásio. Foi indo aparentando o máximo de tranquilidade que conseguia.
— Qual o problema? – Foi direto ao perguntar.
— O nome – A professora respondeu – Só reconheci sua prova por causa do desenho.
Dan surpreendeu-se. Tinha mesmo esquecido de colocar o nome.
— Eu dei uma olhada meio por cima – Comentava a mulher – E me parece que você entendeu bem a matéria, não é?
— Isso não é bom?
— Claro que é. Mas achei curioso sabe. O trabalho que eu dei na sexta feira falava exatamente o mesmo assunto e não tiraste uma boa nota.
— Como é que é? – Exclamou.
— Eu é que te pergunto, como é que é? Foi só desatenção mesmo? Por isso foi mal no trabalho e praticamente gabaritou a prova?
— A senhora tá me acusando do quê afinal? – Disse impaciente.
— Eu leciono desde que seus pais usavam fraudas, Daniel – Disse ela com um sorriso cínico – Sei bem o que ocorre nesses casos. Esse truque não rola.
— Que truque? – Fingiu desentendimento.
— Quem lhe deu essas respostas? – Fitou os olhos do rapaz.
— Meu cérebro, ué. Venho para aula para estudar .
— Vai mesmo fazer isso?
— Vou, porque não é culpa minha se a senhora não vai com a minha cara e fica inventando tudo pra me ferrar!
— Eu não tenho algo contra ti, guri! Tenho algo contra essa sua atitude! Sabe que eu vou zerar essa prova, não sabe?
— Baseado em quê? Nas suas suposições? A senhora tá me fazendo perder tempo!
A docente suspirou. Como odiava alunos mentirosos que se achavam espertos.
— Vá para a Educação Física. Ainda vamos conversar sobre isso – Rendeu-se por fim.
— Obrigado – Disse o rapaz sarcástico.
Sabia que a mulher não ia deixar isso impune, todavia saiu sorridente por pelo menos ter vencido uma batalha. Não demorou até chegar à quadra de esportes, onde Jeff o esperava.
— Ela descobriu? – Fora a primeira coisa que o rapaz questionou.
— Óbvio, mas não tem provas – Respondeu – Ela vai ter que armar uma teia muito maior pra me deter.
— O incrível Dan em ação! Viva! Meu herói – Jeff debochou, levando um soco de leve no ombro.
— Como tu é retardado cara.
— Sou um gênio isso sim – Falou enquanto mexia no celular.
— Mandando nudes para as gatinhas é?
— Se fosse isso, acho que tava no lucro – Jeff ria – Mas não. Tô é mandando mensagem pra um camarada meu do 3A. Não sei nem se ele vai vir, mas se vir vai tá preparado pra prova.
— Mandando as respostas pra ele?
— Aham.
— Não sei como ainda não te descobriram.
— Eu não envio para os trouxas que vão ser pegos no flagra né?! Envio para quem eu sei que vai dar certo.
— Ta certo – Concordou Dan sorrindo.
As melhores aulas sempre terminam rápido. Pelo menos os garotos puderam se divertir um pouco. Jogaram Handebol, um esporte que tanto Dan quanto Jeff achavam interessante. Ficaram no mesmo time e a vitória se deu basicamente devido a eles. Cinco pontos contra um do time adversário. Foram rápidos nos chuveiros do ginásio, já que nenhum deles gostava de ficar nu, expondo toda sua intimidade para brecha a comentários. Dirigiram-se para o pátio interno ao fim da chuveirada.
— Vi o camarada e a minha amiga por aí. Nos falamos depois – Disse Jeff.
— Nossa, tá com vergonha de me apresentar para os amigos? – Mexeu o outro.
— Se quiser pude vir junto.
— Valeu, mas quero ficar um pouco sozinho mesmo.
— Tu que sabe – E assim foi Jeff procurar os tais amigos.
O garoto podia ir falar com outros colegas, mas de fato queria mesmo ficar sozinho. Foi andando até um canto mais afastado e sentou num toco de árvore que servia bem como assento. Ficou ali parado, ouvindo a melodia de ‘Yellow’ do Coldplay quando sem querer o celular escorregou de seu bolso e caiu na grama.
— M*rda! Sorte que é só grama – Exclamou ele.
Então ele notou algo interessante bem no local onde o celular tinha caído: Um trevo. De 4 folhas.
— Mas que p*rra – Nem conseguiu terminar. Só ficou admirado de olhar aquela planta quase impossível de encontrar. Seria irônico encontrar aquilo na escola. Riu pensando que poderia ser um sinal.
Com muito cuidado, arrancou o trevo ainda com raiz e colocou num copo descartável que estava jogado por ali. Lembrou-se então de fazer um pedido. Olhou bem para a sensível planta, fechou os olhos e pronunciou:
— Que tudo na minha vida se ajeite. Que tudo na minha vida dê certo – Se sentia um idiota fazendo aquilo, mas custava nada tentar não é?
Abriu novamente os olhos. A vida seguia normalmente, só um vento meio incomodo estava a beijar seu rosto. Mas como era inverno, achou que era obra da estação. Do nada lhe veio a lembrança daquela face que desenhou na parte de trás da prova aplicada mais cedo. Se perguntou por que estava pensando naquilo? Porque aquilo lhe impressionou tanto e o mais importante: Quem era a misteriosa figura? De onde a conhecia?
CONTINUA
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