A Teoria das Cores
113 Branco IX
ANGÚSTIA
Aquele dia 07 de Outubro tinha demorado a dar às caras. Passada a primeira semana após descobrir, sem querer, o envolvimento do filho com outro rapaz, a vida ainda não tinha reajustado os ponteiros a tal ponto que o curso voltasse ao de sempre. Ao contrário, quanto mais os minutos passavam no relógio, mais desajustadas ficavam a cabeça de todos presentes na cena de Bruno.
No fundo, a surpresa não se dava pelo choque em si, afinal de contas, mesmo já tendo enfrentado tanta coisa e já visto tanto do filho, Isabel lutava dia após dia para compreender o fato simples de nada ter mudado além do fato de, ao invés de estar com uma moça, estava com um rapaz. Não era uma tarefa simples reinventar a roda naquela altura, mas seguia firme por Dan. O que tornou a reação de Bruno uma ferida provocada por um cão raivoso ansiando de ver a pele rasgando de ponta a ponta, foram as decisões tomadas na sequência.
A cabeça do homem pareceu ter dado a volta à lua e esquecido de voltar. Foi como se tivesse sido preso em um sonho psicodélico pelo uso abusivo de entorpecentes e tudo não fizesse mais sentido. O prato com os petiscos foi todo ao chão, atraindo olhares de gato curioso na mesma hora. Pressentindo qual era a razão, Isabel e Marisa foram até com toda força de suas pernas. Para infelicidade das mães, foi em vão. A respiração de Bruno começou a dar indícios de querer falhar, mas, nos suspiros que conseguia emitir, implorou à esposa que o levasse para casa.
Dan, mesmo com um embrulho no estômago somado a um iceberg grudado em sua coluna vertebral, foi acudir o pai de imediato, mas o mesmo sequer quis lhe dar ouvidos, ordenando que ficasse ali até segunda ordem. Isabel, apavorada, tentou contestar. Nada. Bruno havia decido a estadia do filho fora de sua casa naquele instante até seus ânimos acabarem de processar o que seus olhos captaram. Na hora, o menino ficou estático encarando o pai ser carregado com a ajuda da esposa e do cunhado. Daquela fatídica decisão a manhã de sábado da semana seguinte, nada havia mudado. A cinza névoa se instaurou na casa da família “Dos Anjos”, de tal modo que até Isabel, com o coração sangrando, nem dirigia a palavra ao marido.
Bruno tinha conhecimento do quão invasiva e cruel sua decisão havia sido. O problema era ter frente a si uma realidade invertida a qualquer relação que tivesse com o filho. De repente, o jovem rapaz a quem tinha dedicado anos de sua vida, vendo-o namorar sempre meninas deslumbrantes, arranjou alguém para dividir as cuecas. Sua cabeça reformulou a cena do momento onde acordava até o de ir dormir. Nada nela lhe fazia sentido. Nada. Foi como se ele próprio tivesse acordado e se dado conta de ter tido relações com algum homem. Simplesmente estava incrédulo.
O clima com Isabel em nada facilitava. A esposa dedicava-se ao trivial, aquilo realmente necessário, para manter contato. No mais, fingia ser um estranho, que tinha invadido sua casa e colocado seu filho para fora de lá. Tamanha força e empenho por parte dele que começava a se sentir assim. Encarava-se no espelho e o borrão provocado pelo vapor do chuveiro parecia não distorcer sua imagem, mas sim, trazê-la à tona. O peso de sua atitude começava a pesar mais do que poderia ter imaginado.
O único que tentava apaziguar os ânimos era Ian. O menino, apesar de carregar as dores dos últimos acontecimentos, com a conversa com Ágata havia conseguido recarregar ao menos um pouco das energias, o suficiente para tentar seguir em frente. A barreira inesperada, entretanto, foi a briga do primo com o tio. Dividia seu tempo em visitas à casa de Marcella e Ronaldo, ao passo em que, voltando para casa, encarava o bloco de gelo invisível, mas tão sólido quanto qualquer móvel ali presente. Desceu naquele dia faltavam vinte minutos para as nove da manhã, encontrando Bruno apagado na mesa mexendo a colher numa xícara de café já fria enquanto Isabel dava seguimento aos afazeres domésticos sem trocar olhares com o marido, nem mesmo de desprezo.
Foi uma tarefa difícil para o rapaz ficar inerte naquela situação, afinal de contas, sentia carinho e gratidão pela acolhida dos tios em sua casa. Tinha ciência do fato de não terem obrigação de aturar suas vontades apenas por ser de seu interesse ficar próximo de Dan. Mesmo assim, lhe aceitaram como todo amor e respeito, acolhendo-o como a um filho mais velho. Precisava conversar, tirar do tio aquela angústia expressada em seu rosto. Serviu uma xícara de café e sentou frente a ele na mesa.
— É estranho, né? A casa sem ele… — comentou, a fim de ver como iria ser a reação. Agradeceu aos céus quando a conversa engatou.
— Às vezes eu fico encarando as escadas pra ver se ele irá descer e… — engoliu seco, tomando um gole do café frio sem esboçar o menor desgosto por tal — Tu que é novo e entende isso, Ian, me explica. Como uma desgraça dessas foi acontecer? Como?
— Qual desgraça, tio? Dan por um acaso matou ou feriu alguém?
— Feriu meu coração, no momento que me apunhalou pelas costas com essa história tão… absurda! Pra dizer o mínimo!
Ouvindo a conversa enquanto estava na lavanderia, Isabel, com rosto de poucos amigos, fez questão de passar na frente deles apenas para dar um conselho ao sobrinho.
— Não perde teu tempo com ele, Ian. Esse aí nasceu na Idade da Pedra e foi descongelado no ano em que supostamente veio ao mundo. Ignora que é melhor.
O rosto do homem baixou, enquanto coçava a nuca. O mais novo percebia o quão desgastante e difícil estava sendo para ele. No fundo, apesar de não concordar com a atitude, sabia que a forma como se descobre a sexualidade de um filho pode afetar demais a percepção das coisas. Via, no olhar dele, a mescla exata entre o desamparo e a tristeza de reconhecer seus erros, mas não ver estratégias de como resolvê-los.
— Acho que até um cachorro de rua tá sendo melhor tratado do que eu nessa casa. Que coisa…
Ian suspirou. Mesmo suas palavras sendo duras, poucas soluções fugiam de puxá-lo de volta para a realidade e conscientizá-lo do poder de uma ação impensada.
— Ela só tá magoada. Eu também tô e é natural que estejamos. É o Dan, tio, não um estranho que chegou de repente pra te atormentar. Nada no mundo vai ser capaz de mudar isso.
— E na minha mágoa? Quem é que pensa? — reclamou — Será que nesse mundo arco íris de vocês não tem espaço pro preto e branco, pro sem graça, pra vida real? Eu sei muito bem que ele é meu filho, porque eu ajudei a criar. Por isso mesmo ele não tinha o direito de, já com barba na cara, resolver que…
Mais uma vez, não conseguiu concluir a frase. Palavras pareciam tão pouco inspiradas, saindo com um gosto tão amargo, que nem seu corpo se animava a pronunciá-las por completo.
— Quando eu falei pros meus pais sobre minha sexualidade, foi difícil pacas também — relembrava o menor — Nunca é fácil se expor dessa forma tão direta sobre algo íntimo, que só cabe a quem sente. Mesmo assim, depois de enfrentar eles, contei pra vocês. E cá estou. O mesmo Ian que vocês viram piá.
— É… eu sei — suspirou — Mas é diferente quando é com um filho… Parece que se abre uma fenda entre o abismo e um campo aberto.
— Eu conheço essa história da grama de ‘pode com o vizinho, amigo, colega de trabalho, mas não comigo’ — confessava, frustrado — Mas eu vou dizer pro senhor a mesma coisa que disse pro Dan antes dele resolver tomar atitude: Ou o senhor faz um esforço pra entender, ou aprenda a viver ser um filho. Cabe ao senhor decidir o que, quando o senhor estiver fechando os olhos de noite, vai pesar menos na sua consciência.
Bruno começou então a fazer as palavras entrarem na sua cabeça para lhe dar um norte, um sentido. O sobrinho tinha razão, sabia disso. O problema era tirar da teoria e pôr na prática. Uma vida foi construída com bases as quais ruíram debaixo dos seus pés sem que nada pudesse fazer a respeito. A incisiva colocação do primo de seu filho vinha como um sol quente em dia de neblina, ao mesmo tempo em que os caminhos se abriam, queimava-lhe a pele.
— Acha que eu devo fazer o quê? Por onde eu começo? — questionou — Não posso deixar que minha família rua dessa forma sem fazer nada. Eu… tenho que ter uma solução.
— Tem várias, na verdade, tio. Cabe ao senhor decidir qual tem mais valor pro senhor — sorriu — Pra não deixar tão vago, acho que seria bom refletir. Não é legal receber esse monte de informação e sair tomando decisões que darão errado lá na frente. Pensa, amadurece a ideia. Quando o senhor perceber o quão irrelevante é o fato de, ao invés de ter uma nora, ter um genro, o resto vai se conquistando. O tempo se encarrega.
Tão logo terminou suas palavras, o menor seguiu até terminar seu café, lavar a xícara e ir ajudar a tia com as tarefas de casa. Encarando a própria xícara, viu no líquido preto a própria cor de como seu interior refletia. As coisas não podiam ficar daquele jeito. Sentia ser sua obrigação como pai tomar uma atitude, compreender e ajudar. Porém, como fazer? Suas mãos estavam amarradas em tudo aquilo que ouviu de seu pai, e que seu pai ouviu de seu avô. Criações diferentes, baixo astral, quando comparadas a avidez da contemporaneidade. Querendo ou não, precisava encará-los de frente, ou corria o risco de ver sua amada esposa e, principalmente, seu filho, jamais tornarem a lhe ver como um ser humano.
***
Quando nosso coração está ligado com o de alguém, torna-se difícil a tarefa de aceitar apenas a parte que lhe cabe ao ver quem amamos sem rumo, a mercê da melancolia. Fica ainda pior ao percebermos que, por mais que nos desdobramos, é difícil reinventar a roda da vida e fazê-la girar a seu gosto, só para não magoar ninguém. Alisson queria muito aquilo, o universo era sua principal testemunha. Não houve um só minuto em que seus pensamentos cessassem os pedidos para deixarem-lhes em paz: Ele e seu amado.
Com a desgraça instaurada na vida do mais novo, a única coisa que Al sabia que estava a seu alcance era acatar seu desejo de permanecer uns dias sozinho no seu canto. Garantiu não estar bravo ou magoado consigo, apenas queria um tempo para processar a grotesca cena protagonizada por seu pai, e encontrar uma solução. Doía seu peito ficar longe dele num momento tão frágil, com tanta necessidade de ter um porto seguro onde se abrigar, mas forçar qualquer contato era pior. Precisou entubar até na escola, deixando-o quieto em seu canto enquanto si, apesar de estar na roda de amigos, estar se sentindo em um buraco fundo e escuro, sem um feixe de luz para lhe trazer de volta.
O sentimento passou longe de ser exclusividade sua. Via nas expressões e falas de seus amigos o quão pesado e doloroso era vê-los tão perto, mas tão longe ao mesmo tempo. Para a alegria dos encrenqueiros de outrora, gozando de sua tristeza como em frente a um espetáculo de circo. Nem forças para revidar Al teve. Não valia a pena. Sequer levou em consideração, até porque, no fim das contas, havia transformado sua vida num espetáculo querendo ou não. Tinha provocado uma briga para defender Dan, bateu de frente com Deus e o Diabo, então considerou até natural, os quem denominou de mal agouro, estarem se lambuzando com sua derrota. Deixou que ficassem. Acreditava na lei do carma. Seus problemas eram maiores do que a vontade de quebrar seus narizes.
Estava deitado em sua cama quando ouviu a porta batendo. Marisa havia entrado com algumas mudas de roupa, mas seu rosto entregava outras razões. Foi impossível, após ter visto a cena, não ficar de cabelo em pé com a atitude radical do pai de Dan. A mulher percebeu no olhar dos rapazes o susto de uma criança ao ver os pais se agredirem física e verbalmente. Tentou ajudar como pôde, conversando com Isabel por telefone, apoiando o filho pelas beiradas para não se intrometer demais na dor dele… Suas intenções eram boas e Al valorizava isso, apenas não tinha clima de agradecer.
Sentou nos pés da cama, chacoalhando de leve as pernas do filho enquanto carregava um sorriu leve, mas com um ar de quem precisa dar uma triste notícia.
— Sabe, mãe — começou o rapaz — Quando eu vi aquela cena bizarra, só me perguntei se meu pai não faria igual ou pior…
— Que diferença isso faz, filhote? Esse homem não merece teus pensamentos. Nem que tu se preocupe com o julgamento dele.
— Não tô preocupado. Só queria saber — insistiu — Eu sempre… Criei na minha cabeça a imagem de um cara que imaginei que ele seria e tentava reproduzir isso, entende? Aquele que consegue as gurias que quer, tem um charme irresistível… De repente eu me vejo assim…
— Assim como? Tentando ser feliz? Buscando companheirismo em um guri? — rebateu a mulher — Onde tá aquele Alisson forte, guerreiro, que sentou no sofá da sala e garantiu que enfrentaria tudo por esse amor? Era só fogo de palha mesmo?
— Claro que não, mãe! — exclamou — Eu sei exatamente tudo de dentro de mim. O problema é—
— O problema é tu estar pensando no teu pai ao invés de focar no que realmente importa! — interrompeu — A vida não é um parque de diversões, Alisson. Tem muita dificuldade nas coisas do dia a dia, num relacionamento, trabalho… Se a gente for se abalar a cada apertada no calo! Meu Deus!
— Mas, mãe—
— Me diz, filho. O que tu quer que eu tenha de ti? Pena, compaixão, tudo junto? — continuava — Porque nesse momento eu tenho orgulho. Quer que eu mude de ideia?
Alisson então encarou a mãe, como se suas palavras parecessem surreais quando processadas pelo cérebro. Com tantos desafios pela frente, coisas a serem resolvidas, ter uma notícia assim acalentava sua alma por um lado, mas criava uma série de outras dúvidas do outro. Um dilema incomum, com o qual não compreendia bem a forma de se lidar.
— Como assim?
Marisa levou suas mãos ao encontro das do filho, alisando-as como se tocasse a pele de um anjo. Suspirou fundo antes de seguir com sua fala.
— Eu ando refletindo muito, sabe filhote, muito mesmo, sobre o que é ser mãe. Sim, porque, quando eu fiquei grávida e até depois disso, me contentei com a prática, né? Mas depois que eu vi a tua garra, a vontade de viver um romance com o Daniel, soube ali qual o significado de dar a luz a uma criança, educar com todo amor e carinho…
— Mas o que isso tem haver com minha situação, mãe? Não tô ligando os pontos.
— Querendo ou não, te criei sozinha, Alisson. Não tinha teu pai, teu avô, tua avó ou tia pra me ajudarem. Tive que ir errando, acertando, e até acho que errei mais do que cometi acertos, mas tu fez valer cada minuto meu quando decidiu ouvir teu coração. Por mais difícil que fosse, tu encarou de peito estufado, lançando mão de qualquer artifício pra construir essa história. Como não ter orgulho de ti assim? Pode me dizer?
Era a primeira vez em muito tempo que ouvia um elogio tão direto. Mesmo os avós e a tia tendo falado, soava diferente por não serem figuras recorrentes em sua vida. No mais, sempre viveu empurrando tudo com a barriga por mera obrigação. Era assim com a escola, por exemplo. Julgava estar em uma areia movediça, decidindo parar de se sacudir a fim de afundar com mais calma. No entanto, as palavras da mãe foram o cipó que precisava se agarrar para sair dali em segurança, fazendo seus pés alcançarem um chão palpável para dar os próximos passos.
Não hesitou em erguer-se para dar um abraço nela, mesmo porque precisava de colo. A grande infelicidade de sua vida era não poder ser uma muralha, capaz de aguentar os bombardeios sem ter um único arranhão. Carne, osso, sangue e sentimentos foram misturados na sua concepção. Seus brios não tinham placa de aço. Vez ou outra na vida, buscar aquele colo tão reconfortante parecia lhe dar certeza de tudo dar certo, e os ventos que ali estavam soprando contra, logo seriam a favor.
— É tão horrível estar de mãos atadas — confessava o menino, sentindo uma lágrima tímida caindo de seu rosto — Não posso fazer nada por ele…
— Pode sim — garantiu a mãe.
— O quê?
— Esperar — encarou seu rosto — Saber que vai ter um porto seguro quando a tempestade passar já ajuda muito. Pode apostar.
Marisa tinha razão. Com um problema daquele tamanho nas mãos de Daniel, julgava que sua mente provavelmente estava em curto circuito. Sabia que o filho ter paciência de compreender isso era fundamental se quisessem levar adiante seu relacionamento. A convicção disso foi tamanha que tocou Al, plantando a semente do assunto e já começando a vê-la brotar. Antes de deixá-lo, a única coisa que salientou foi o pedido de que jamais tornasse a pensar na figura do pai, principalmente deduzindo seu julgamento, afinal, ele não tinha qualquer direito sobre si. O menino concordou, enquanto limpava a lágrima escorrida. Mesmo com o coração jogado às traças, precisava retomar suas forças, pois, dentro de seu peito, sabia que Daniel hora ou outra voltaria, e queria estar inteiro para poderem se amar outra vez.
***
Com todo o tumulto dos últimos dias, as trapalhadas onde haviam se metidos, Jeferson e Adrian julgavam ter direito a uma tarde ao menos livre daquele ciclo vicioso de encrencas onde estavam, para voltar a aproveitar minimamente a vida, ainda que fosse uma tarefa difícil. O clima entre os amigos de Al e Dan estava longe de ser perfeito, vendo o estrago feito pelo afastamento de Dan por conta dos problemas com o pai, levando todos a um buraco de luto no qual, se não reagissem ali, poderiam cair, sem qualquer previsão de sair.
Quando receberam o convite de amigos do time para jogarem uma partida numa praça da região, aproveitando-se do fato de Jeff estar de folga da loja e Adrian do treino da escola, acabaram topando na hora. Desligaram o videogame para começar a se preparar para irem até lá. Por sorte, estavam na casa do parceiro de Sabine, o que tornava mais prático caminhar até lá do que se precisassem sair da casa do ruivo.
Depois de Jeff colocar seus tênis, despediram-se de sua mãe e começaram a caminhada até o local marcado pelos rapazes. Mesmo com ares de querer sair um pouco daquela redoma, o rapaz negro não conseguiu evitar de comentar com o outro sobre o quão estranha era a sensação de ver seus amigos tão distantes. Até houve uma contestação por parte dele, mas acabou cedendo, afinal de contas era o assunto mais recente. Não havia muito o que fazer, já que as expectativas para a pré estreia de Star Wars: The Last Jedi alguns meses depois saturaram de tanto que haviam espremido.
Adrian comentou que, mais estranho do que aquilo, era terem se unido depois de começarem a conversar por acaso, levando uma coisa na outra como uma grande bola de neve. Não conseguia acreditar que a força do universo fosse tamanha a ponto de criar uma situação de forma tão inesperada, uma vez que ambos sequer se conheciam antes da história da cola. Jeff riu, desdenhando o ruivo por sua falta de fé ser perturbadora. Na mesma hora o outro riu, ordenando que parasse de ficar tirando frases de filmes da cartola só por diversão.
O ficante de Sabine complementou, indo além, falando que a coisa tinha ido a tal ponto que armaram uma arapuca para Arthur e saíram praticamente ilesos da recua do pai do rapaz. Ainda sobre o episódio, compartilhou com ele a dúvida de se algum dia iriam descobrir seu envolvimento e, com isso, resolveriam partir para ação nos moldes da lei. Adrian, cabeça fresca, registrou que se fosse de interesse real, teriam achado meios de provar o envolvimento de todos além de Al e Dan, mas como a incomodação com a justiça seria imensa por conta dos atos de violência cometidos anteriormente por Arthur, era mais fácil deixar aquilo morrer na praia. Diante das alegações, Jeff nem precisou de maiores argumentos para se convencer. Apenas acrescentou que, apesar do medo, a emoção tinha valido a pena, arrancando risos do amigo.
Para sua enorme desgraça, tão logo colocaram os pés na quadra e viram Arthur jogando em um dos times, sendo o único dos presentes no dia do morro a dar as caras no lugar. Por um momento, perguntaram-se sobre a probabilidade daquilo ter sido feito de propósito, uma vez não sendo tão limitada a informação da encrenca entre o rapaz e eles. Optaram por dar a volta e ir embora, mas, de novo, a sorte não lhes mostrou os dentes. Um dos meninos, justamente quem lhes convidou, chamou por seus nomes, já convidando-os para se juntar ao time. Aquela foi a deixa perfeita para Arthur, até então desconhecido o convite, virar surpreso ao ver os dois.
— Vejam só! Os amigos das bichinhas mais famosas de Nova Petrópolis! Que honra! — debochou.
— Cara, não começa. Tu nem foi convidado pra tá aqui. Não vem provocando encrenca — advertiu um dos jogadores.
— Qual é, pessoal?! O que eu fiz?! Eu sou abertíssimo a conversar sobre isso agora! Não é isso que eles e o grupinho deles começaram a levantar? A bandeira do ‘Come c*’? Então! — seguiu na provocação, enquanto Adrian e Jeff seguiam lhe lançando olhares com navalhas afiadas, mas que, cego pela raiva, Arthur sequer sentia — Vocês também já tão se chupando, comendo a bunda um do outro, essas coisas?
Jeff revirou os olhos.
— Pô, gurizada! Mancada deixarem esse monte de lixo aqui sabendo que a gente vinha! Não é um amistoso? O que esse aí tem de amistoso pra oferecer? Nada — revidou.
— Ah, mano, a gente não teve culpa! Ele que veio se metendo e— um dos rapazes tentava defendê-los, quando Arthur o interrompeu.
— Não dá explicações pra eles, não, afinal é óbvio que eles precisavam de macho raiz, sabe? Jogar futebol com frutinhas consegue ser tão meloso quanto com gurias.
De repente, ouviram um barulho de salto entrando na quadra. Amora, com botas de cano curto e salto médio, calça jeans azul escuro, uma blusa vermelha e óculos de sol, só parou quando alcançou o lugar onde Arthur estava parado.
— Se precisavam de macho raiz, podia muito bem ter convidado teu namorado, né Arthurzinho lindo do meu coração?
Todos os presentes no entorno alternavam tanto olhares de deboche quanto os de espanto. O próprio rapaz parecia não compreender qual era a fala da moça.
— Tu bebeu, guria? Ficou louca de vez?! — exclamou, com o demônio no corpo.
— Ah, vai dizer que tu não sabe? — Amora mantinha na voz a mesma ironia de costume. Tirou entrou de seu bolso o celular, abrindo-o num perfil nas redes sociais — O username MoonInVirgo9802 te soa familiar?
O menino ficou com a pele de um defunto.
— N-não sei do que tu tá falando — gaguejou, sentindo sua testa soar frio.
— Não sabe não, né?! — a moça caiu na gargalhada — É a Web Namoradinha dele, guris! Não é a coisa mais fofa que vocês já viram?!
Os demais não aguentaram. Caíram no riso na mesma hora, acompanhando a delatora. Adrian e Jeff encaravam-o surpresos, sem compreender bem qual a relação daquilo com a acusação feita por ela logo que chegou.
Irritado com as risadinhas, Arthur explodiu de vez.
— Tá! F*da-se! É mesmo! E daí? De onde tu inventou que tenho um namorado?!
— Nunca te passou pela cabeça a ideia de procurar a figura por trás da tal morena dessa foto? Hein? — provocou — Ai, Arthurzinho. Isso não se faz! Podia ser um pedófilo louco pra arrancar a virgindade desse teu r*binho minúsculo. Já pensou que escândalo?
— Cala boca! Tu tá fora de si! Bebeu, só pode!
— Bem que eu queria, mas, na realidade, MoonInVirgo9802 é ninguém menos que um rapaz curitibano que mora atualmente na Argentina. Que bela história de amor, hein?!
Arthur seguia pálido como papel, incrédulo com as revelações.
— C-como? É sério isso?
Amora soube na hora que a batalha havia sido ganha. Sorrindo como uma raposa prestes a devorar um esquilo indefeso, aproximou-se e mostrou a tela do jogo no qual havia conhecido a tal ‘web namorada’, e contando-lhe ao pé do ouvido a verdade por trás daquela revelação.
— Ele é meu amigo ali, sabia? Acabou me confessando que te achou um tesão, por isso fez o nick assim, criando uma imagem fake — sorriu, enquanto sussurrava — Isso é por me chamar de aborto de cadela na partida semana passada, seu grandessíssimo filho da p*ta.
Arthur não conseguiu manter a linha de raciocínio. Seus neurônios lutavam uns contra os outros sem acreditar no absurdo no qual tinha se metido. Sem condições nenhuma de continuar presente, saiu correndo em direção a sua mochila, pegou-a e sumiu como se não houvesse amanhã.
Jeff e Adrian ainda pareciam processar aquilo com uma certa lentidão, ao passo que os demais riam da situação como se tivessem assistido ao filme de comédia do século. Os amigos de Al e Dan aproximaram-se da garota, a fim de pôr em pratos limpos aquilo.
— Por que dessa atitude agora? — indagou o ruivo, namorado de Mandy.
— Não me perguntem o óbvio, lindinhos — apertou as bochechas dele — Vão jogar que ganham mais.
Nem perderam tempo. Uniram-se ao grupo felizes, tanto por estarem ali, quanto pela pisada dada em seu algoz. Amora, sorrindo, virou-se e foi seguir sua vida, com a certeza de que sua cartada tinha sido fatal. Dali em diante, nada lhe colocaria na cabeça que Arthur tentaria qualquer gracinha contra Alisson e Daniel. Finalmente, os meninos estavam livres, mesmo sem saberem disso ainda.
CONTINUA
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