A Teoria das Cores
120 Azul Céu II
INFINITO
(Protagonista: Alisson)
Poder aproveitar as maravilhas da vida sem que o mundo ao entorno desabe sobre a cabeça é um privilégio que deve sempre ser enaltecido. A correria do dia-a-dia, os problemas que surgem como um acidente de carro, brigas e discussões causadas, muitas vezes, sem fundamentos… todas e muitas outras são cargas de energia pesada que, quando não bem ministradas ou encaradas, levam uma pessoa a total fase de não estar plena de suas faculdades mentais. Ter essa folga do mundo, diante de um cenário desses, põe para fora a liberdade tão almejada, mesmo que por algumas horas.
Alisson não podia se queixar. Depois do jantar com Marisa e Edu à mesa, no quarto fizeram a sobremesa. Eufóricos com seus hormônios saindo pelo ladrão, conseguiram aguentar cinco rounds antes de seus corpos nús caírem sob o lado do outro e apagarem até às dez horas da manhã seguinte. Se por um lado perderam o trote dos desenhos infantis, por outro tiveram a casa inteira para eles. Como era de se esperar, fizeram bom proveito da solitude.
Ao chegar a tão aguardada sexta feira, 13 de outubro, o sol raiando a pino no céu parecia espantar qualquer mal que se atrevesse a desequilibrar a harmonia dos amigos. Por sorte, a folga de Alisson era naquele dia, o que os deixava livres após a escola para organizar tudo. Jeferson, Amanda, Adrian e Daniel tiveram longos processos de conciliação para conseguir alinhar suas folgas também, podendo assim se dedicar mais aos preparativos, os quais não eram poucos.
Já começaram ao longo da semana, construindo enfeites, comprando outros; Jeff levou algumas luzes coloridas as quais tinha no quarto; Adrian e Amanda foram responsáveis pelas vaquinhas a fim de comprar comes e bebes para a noite, estando com tudo encaminhado; Alisson e Daniel se encarregaram de liberar o espaço da sala para conseguirem trazer os puffs bolão preto e laranja conseguidos por uma conhecida de Sabine, a quem se negou a falar o nome; E a loira, por sinal, além de organizar uma playlist, fez a relação de gastos, procurou os melhores preços, enfim, abraçou a parte burocrática.
— Me digam, pelo amor de Deus, que foram atrás de fantasias — comentava ela, enquanto estava em cima de uma escada colocando as teias de aranha feitas com arame e nylon, além do próprio animal de plástico colado com cola quente nela — Sem repetir, de preferência. ‘Bora trabalhar a criatividade, né?! Por favor!
— Loira exigente! — debochou Jeff, seu ficante. Além de dispor os puffs, colava alguns enfeites de E.V.A em formato de abóboras — Escolhi o Darth Vader. Tinha uma fantasia da hora na loja do lado onde eu trabalho e o preço do aluguel tava bem em conta até.
— Mal aí, Bine, mas minha criatividade tá do tamanho da do Jeff — alfinetou Adrian, rindo. Colocava o aparelho de som no devido lugar — Vou vir de vampiro mesmo. Tenho a capa que reciclo todo ano, então é só pôr a pintura básica e já era!
— Minha mãe vai me ajudar com um look de princesa mutilada que vi na internet e amei! — indagou Mandy, animada enquanto colocava um festão de Natal laranja decorando a escada para o segundo andar.
Sabine revirou os olhos.
— Al e Dan, façam a gentileza de salvar a classe dos homens e me digam que escolheram algo mais interessante. Até agora, Amanda tá ganhando com fôlego!
Foi a deixa perfeita para Alisson, sempre a espera de uma oportunidade capaz de deixar seu namorado espumando pela boca de raiva, encará-lo e lançar seu veneno, sugerindo-o que fosse de sereia canibal. Na mesma hora, Dan revirou os olhos e jogou uma bolinha de isopor roxa na cara dele, mandando-o tomar bem longe, arrancando, com isso, risos involuntários dos amigos. Cenas como aquela já haviam se tornado rotina, nem surpreendendo mais.
Respondendo ao questionamento da ficante de Jeferson, Al comentou ter pensado em se vestir como Jago, personagem da franquia de jogos Killer. No entanto, quase caiu para trás ao perceber as caras deles de quem lhe ouviu praticar conversação em Alemão nas aulas de Elrew. Debochado, alegou não merecerem seu respeito, afinal, em sua opinião, tratava-se de uma jóia dos consoles e não conseguia admitir um ser vivo simplesmente ignorar sua existência. Querendo responder a altura, Sabine alegou não terem culpa de escolher algo criado na época de Pero Vaz de Caminha, mostrando-lhe um dedo médio e um sorriso cínico para complementar, arrancando risos dele.
Curiosa para saber de quem se trata, Amanda logo tratou de parar e pesquisar sobre a tal figura. Não demorou a achar, sorrindo de canto de boca, comentando que ele ficaria muito bem se prosseguir com a ideia. Com a pulga atrás da orelha, Sabine desceu e foi até o encontro da amiga, notando na tela do celular. Viu-se na obrigação de concordar com ela. Por fim, o filho de Isabel também se mostrou interessado e caminhou até onde estavam as meninas, mas, ao contrário destas, fez questão de alfinetar seu namorado, afirmando terem as mesmas feições de quem adora receber estocadas.
Apesar dos amigos rirem e dizerem um ‘Bah!’ coletivo, Al não se acovardou. A réplica veio como um foguete, questionando-o se seu orifício já havia fechado para se achar no direito de falar do seu. Dan, mostrando o dedo médio, alegou que o último a fazê-lo não tinha sido si, dando assim início a um bate boca que durou dez minutos, até se esgotarem os argumentos. Os demais só riam, perguntando-se como conseguiam viver juntos daquele jeito.
Mudando o foco da coisa (depois de ter dado a cartada final, lógico), Alisson perguntou sobre o retorno de Vanessa, Ágata e Ian a respeito de virem a festa ou não. Dan, indignado internamente por ter sido vencido, acabou respondendo de maneira objetiva que as meninas trariam mais alguns comes e bebes, mas que Ian, a princípio, não tinha dado certeza se conseguiria chegar a tarde, contudo, a noite era certa sua presença.
Por fim, brincando que o primo de seu namorado só apareceria de corpo, acabou se vendo obrigado a morder a língua tão logo terminou de falar, quando ouviu a voz do menino chamando por si no portão. Zoando, o filho de Isabel pegou a chance de revidar as provocações, falando sobre ter ganho mais uma estocada nos fundilhos para aprender a não ser presunçoso. Al, antes de ir abrir, revirou chamando atenção para o fato de Dan ter curtido tanto a coisa, que sua mente não pensava mais em outra coisa.
Quando o rapaz entrou, recebeu o cumprimento de todos e um questionamento por parte do filho de Marisa sobre Jonathan e sua cirurgia, afinal, àquela altura a história já lhe tinha sido passada por intermédio de seu namorado. O mais velho explicou então o sucesso do procedimento, do tempo levado para uma recuperação boa, exercícios que precisava fazer, fisioterapia e todo o rol de compromissos agora que reaprendia a ter percepção auricular outra vez. Falou também que, na manhã seguinte, iria baixar em POA a fim de conferir se tudo estava dentro dos conformes, arrancando um comentário risonho do outro, que disse que ele só poderia ter ganho na loteria para ter condições de ir e voltar tantas vezes de lá, acabando por lhe arrancar risos também.
Como poucas coisas ainda restavam a serem feitas, o menino de olhos claros acabou ajudando a conferir a questão dos gelos, refrigerantes, sucos e bebidas alcoólicas refrigeradas, além dos detalhes da decoração. Não compreendia porque trazer o Halloween como temática principal de uma data como aquela, mas não negou o quão bonito e caprichado tudo tinha ficado à medida em que ganhavam seu espaço decorando cada espaço da sala de estar de Alisson. Tudo de bom gosto, construído com o empenho de todos. Isso era o que lhe deixava mais boquiaberto.
Quando terminaram tudo, atirando-se no sofá, aproveitou a deixa para questionar o anfitrião se poderiam trocar dois dedos de prosa. Apesar do cansaço, aceitou, indo com ele até a cozinha. Ian, na realidade, não programou alguma pauta específica ou frase capaz de organizar seus pensamentos. Queria deixar seu coração de primo e eterno apaixonado de Daniel falar, botar para fora o sentimento guardado dentro de seu peito a respeito daquilo tudo, pois pouco puderam conversar em virtude dos recentes acontecimentos. Se estava tendo a chance, julgou ser sua obrigação aproveitá-la. Sentaram lado a lado à mesa, com o mais velho respirando fundo antes de começar.
— Sei que tu deve tá quebrado por estar montando tudo aqui, mas é que eu precisava falar contigo, entende?
— Capaz! Nem esquenta! — sorriu — Tu é uma parte importante do coração do Daniel e respeito isso. Mesmo que estivesse quase sufocando, ainda te daria direito de fala.
Retribuiu o gesto de igual forma.
— Sabe, Alisson, sempre tive pra mim que as coisas acontecem porque uma parte da gente ainda não aprendeu o suficiente. Vê o meu caso, por exemplo, com o Diógenes. Pouco a pouco, tô aprendendo sobre a questão da perda e dela ser tão importante quanto o ganho, capaz de nos passar lições valiosíssimas sobre ser gentil com alguém em todas as vezes que isso for possível e até nas impossíveis, para não carregarmos esse fardo das palavras engasgadas.
— Te entendo. Esses chacoalhões nos desacomodam, mas são bons professores. Juro como jamais iria entender tanto a questão de ser parte desse mundo bissexual, do movimento LGBT por si só, se tivesse vivendo a vida como antes.
— Eu sei — riu — Aquele dia lá na casa do Dan, quando tu e o pessoal chegaram pra pegar Gil e eu no flagra, deu pra sentir a carga negativa que tinha em ti. Acho que, se pudesse, teria nos estrangulado ali.
O outro riu, fraco, coçando a nuca.
— Não sou alguém que pratica violência de forma tão gratuita assim. Ficaria p*to, sim, não te deixaria chegar perto de mim, mas acho que bater só se tentasse forçar a barra. Aí, não posso garantir isenção.
— Por isso que te ver tão mudado é incrível — confessou — Tu e o Dan… Vocês praticamente se reconstruíram no meio das cinzas do que restou de seus antigos ‘eus’! Estão deixando o lado gurizinho hétero metido a gostosão para serem homens bissexuais convictos e felizes. Não é qualquer um que encara essa barra, não, hein?!
— Estamos fazendo o que podemos, né? — indagou, humilde — Tenho feito tudo pro Dan se sentir bem, ver que não tá sozinho nessa…
— Ele sabe. Dá pra ver no olho dele que sabe, e te agradeço por isso.
Ouvir aquelas palavras de Ian lhe dava confiança necessária para compreender que o trajeto deles estava sendo trilhado da forma como deveria, conhecendo tudo, aprendendo lidar com as novas versões de sentimentos sempre com olhar mais puro, verdadeiro, sem as vestes do preconceito e negacionismo. Conseguiam compreender que a felicidade era advinda de vertentes das mais diversas, com maneiras convencionais ou não de se mostrarem na vida de alguém. O fato do primo mais velho de seu namorado, tão experiente e grande conhecedor das regras e funcionamento do universo, lhe parabenizar, causava um alívio imenso por saber que, apesar de todas as dores, ainda conseguia dar e receber amor, fosse quem fosse o doador ou receptor deste.
— E a psicóloga? Ele me contou que foi essa semana… — questionou Al, curioso.
— Foi o jeito ‘Daniel’. Aos trancos e barrancos, resistente. Quem via parecia estar em um interrogatório da CIA e não num lugar capaz de ajudá-lo — confessou o mais velho — Mas é assim mesmo. Nem todo mundo tem boa impressão da psicologia. Com o tempo, ele vai tornando as visitas parte da rotina, vendo que ninguém tá ali pra apedrejar, e sim, achar um caminho… Tu vai ver. É só aguardar.
Não lhe restavam dúvidas disso. Apesar das constantes oscilações de sentimentos, com ondas que variam de tamanho a cada minuto do dia, Daniel fazia um esforço genuíno reconhecido pelos rapazes, disposto a encarar seus medos de frente e começar uma vida a dois como sempre havia de ser. Antes de voltarem à sala, Ian sugeriu um aperto de mão para selar de vez o acordo firmado tempos antes de que cuidariam bem de seu menino. Porém, Alisson foi mais longe, abraçando o mais velho, pois, mais do que fazer uma promessa, tinha certeza que estava cumprindo-a.
Com o término dos preparativos e tudo encaminhado, o grupo resolveu cada um ir para sua casa para se arrumar e depois, perto das oito da noite, retornarem e curtirem o resultado de seus esforços. Sozinho em casa, Al se permitiu deitar no sofá e pensar na doida reviravolta de sua vida. Impressionava-se como um ano poderia lhe reservar tantas surpresas e emoções.
Conheceu a história por trás de seu nascimento, descobriu que sua sexualidade não era tão rígida como pensava ser, beijou e teve relações íntimas com rapazes, provocou e rebateu momentos homofóbicos, acertou-se pela primeira vez com um namorado de sua mãe, começou a trabalhar… uma avalanche de novas possibilidades e uma consciência tranquila de ter aproveitado o melhor de todas elas.
Admitia a si mesmo o fato de Daniel ter sido, sim, a mais grata surpresa do ano. Já amou muito antes dele, conheceu várias moças que muitos rapazes gostariam de ter dois minutos de atenção, flertou com almas boas e com outras nem tanto, mas o equilíbrio de querenças entre ele e o rapaz foi o ápice de todas as formas de gostar de alguém.
Via nele um complemento astral, semelhanças e afinidades capazes de lhes aproximar bem mais do que qualquer vez anterior. Deu-lhe garra, força para querer lutar por sua história e fazer valer cada momento dela. Não sabia como seria o dia de amanhã, mas, sem dúvida, sabia que ele, desde o momento em que lhe beijou pela primeira vez, conquistou um espaço só seu que não cederia a ninguém jamais.
Com os pensamentos, acabou cochilando e só acordando meia hora antes do povo todo chegar, correndo para dar jeito nos suas vestes. Custou um pouco, mas, após o banho, trabalhou com algumas artes feitas com panos mesmo que tinha em casa e muita criatividade. Fez o uniforme azul do lutador do jogo, precisando fazer rasgos neles em virtude das lutas na história (já calculando o sermão de Marisa quando visse), conseguiu uma cinta vermelha para colocar ao lado do peitoral tal qual o figurino, um par de meias pretas e uma sandália que, por sorte, Edu tinha deixado em casa. Não quis correr atrás nem da máscara usada pelo personagem nem das luvas, uma vez que, dado o tempo, seria inútil tentar. Entretanto, seus esforços não foram em vão. Conseguiu, se não fazer igual, emular com honra.
A primeira a chegar foi Sabine e, para espanto do rapaz, não estava sozinha, tampouco acompanhada por Jeferson. Caracterizada como Samara Morgan, a moça brotar ali gerou um ponto de interrogação num primeiro momento, afinal ela sequer havia sido convidada formalmente. Quem se encarregou de esclarecer tudo foi a loira, contando ser ela quem emprestou os puffs sobre a explícita condição de participação da folia. Al revirou os olhos, rindo, questionando quando Amora tomaria vergonha na cara. A resposta veio a jato.
— Uma festa jamais seria uma festa sem mim, gato — apertou suas bochechas — Ah, qual é! Por um acaso São Miguel Arcanjo vai descer pessoalmente e te cravar uma espada no peito caso a gente baixe a guarda por uma noite, só por diversão?
— Tá bom. Fica a vontade… Mas nem tanto ouviu? Olha lá o nível de idiotices que vai dizer! — alertou o garoto.
— Prometo me esforçar — deu-lhe um debochado beijo na bochecha antes de entrar, se encantando com a decoração simples, mas tão bem feita que fazia seus olhos brilharem. Sabine acabou por acompanhá-la enquanto esperava por Jeff, contando os segundos para ele dar às caras.
Demorou poucos minutos, mas logo Daniel e Ian deram as caras. Na sequência, Vanessa e Ágata e, por fim, Jeff, Adrian e Amanda. As ex de Dan e Ian, depois de cumprimentar todos, foram rapidamente à cozinha colocar a torta fria decorada como cemitério e o pudim de tuti frutti na geladeira, enquanto Al e Dan tratavam de acomodar a todos.
Não demorou para o filho de Marisa perceber as caras e bocas de Dan para a Amora, tendo uma leve impressão de saber a razão disso. Riu, aproximando-se enquanto bebia um copo de refrigerante guaraná.
— Sabe que meu lance com ela já até caducou, né? — questionou, com um sorriso sádico nos lábios.
— O que me impressiona é tu ter trocado fluídos com essa criatura — revirou os olhos — Conheço ela faz tempo. Tudo bem, ela é bonita, mas… Bah! Trocar dez palavras com ela tu dá beijo até no Frankenstein pra fugir dela.
— C*r*lho… Ciúmes provoca essa ânsia toda, é? Coitado do Gil se tivesse aqui então! — riu, recebendo um dedo médio de resposta.
— Não posso ter ciúmes de algo tão nojento quanto Zoofilia — revidou a zoação, arrancando mais risos do maior.
Percebendo o fato de todos estarem acomodados, Sabine, até então conversando com Amora, Jeff, Amanda e Adrian, levantou e chamou a atenção de todos enquanto tirava de sua mochila o Livro do Terceirão 2017. Explicou o processo de confecção feito por ela e Amora, as subseções divididas em temáticas, e que teriam acesso em primeira mão. Pediu para todos fazerem um círculo em torno dela enquanto começava a folhear.
Os envolvidos ficaram pasmos com a riqueza de detalhes, tanto estéticos quanto gráficos. Viram passar as fotos para todos os membros das turmas de terceiro ano da Presidente Lincoln. Debocharam das fotos de alguns dos envolvidos cuja edição não estava valorizando, mas assim que chegaram na sessão seguinte, de momentos importantes, Dan e Van tiveram motivos de sobra para quererem entrar debaixo da terra e se esconder lá para sempre.
Depois de passarem por ocasiões como quando um colega havia sido pego fazendo ‘coisas’ no banheiro do ginásio; o flagra dos alunos que tentaram escalar o muro para fugir da aula e foram pegos por Elis; a apresentação de Ian no intervalo de uma das aulas; e tantas outras cenas interessantes daquele ano, tinha uma foto de sua discussão no baile dos namorados, justamente bem à frente de onde estavam Amora e Alisson, à época, se curtindo. Ágata, Alisson e Amora foram os primeiros a cair na gargalhada, relembrando o momento icônico. Al, não aguentando, alfinetou dizendo que Dan nada havia mudado daquele dia até então, recebendo um beliscão na barriga por isso.
Já em ‘Diversão Pedagógica’, fotos dos poucos passeios realizados pelas turmas, inclusive, com lamentos dos alunos em virtude disso. Dos poucos, foram a Gramado, o Museu da PUC de Porto Alegre e o Planetário, todas visitas já calejadas de anos anteriores, já não tendo tanta graça quanto os professores teimavam em dizer que tinha. Em ‘Trotes Memoráveis’, registros dos trotes deles, inclusive o da troca de roupas onde Al e Dan, pela primeira vez, tiveram todas as atenções voltadas para si e a certeza de haver algo a mais entre eles. ‘Casais’ e ‘Depoimentos de membros da escola’ tinham poucos, sendo os ali presentes os únicos constando principalmente na aba de ‘Casais’.
Fechado o livro, a nostalgia pareceu tomar conta do ar. Tanta história foi construída ao longo daqueles meses, forrando sua vida com memórias as quais jamais esqueceriam. Um último ano de Ensino Médio valioso, conflituoso, emocionante, cativante… Uma mescla de sentimentos que apenas a maturidade daria o devido valor, disso não tinham dúvidas.
— Como o tempo vai mudando a gente, né? — Amanda comentou, enquanto divagava — Nunca na vida eu me imaginei junto com o Dri, por exemplo. As coisas vão acontecendo e a gente nem nota!
— É uma das mágicas de se viver: o ciclo contínuo da evolução e transformação — Ian complementou — Já terminou o livro, Sabine?
— Não. Ainda tenho coisas a colocar, até porque o ano não acabou ainda, né? Quem sabe quanta coisa bacana não pode acontecer? — a moça sorriu, deixando no ar.
— Bom, galera, tá muito bom o papo, mas ‘vamo botar um som, né? Afinal isso é uma festa, não um enterro! — Amora exclamou, levantando e colocando no equipamento de som, por curiosidade, Dynamite, a mesma dançada por Al e Dan na competição de dança.
Com o passar da música, todos começaram a se envolver em seu ritmo, dançando e encontrando os parceiros para entrarem na onda. Porém, devido aos movimentos sucessivos, as bebidas foram começando a se esvair, o que chamou a atenção de Daniel após a sétima música a tocar. Resolveu, então, ir até a cozinha para pegar mais. Percebendo o gesto, Al, sorrindo como criança travessa, acabou por seguí-lo de fininho, entrando somente ao perceber que o namorado estava de costas para si.
Foi caminhando na ponta dos pés até se aproximar bem dele e lhe agarrar a cintura, fazendo com que desse um pulo e um grito rápido e agudo, o suficiente para fazer Al cair na risada. Deu-lhe um cutucão na barriga, virando de frente com cara fervendo.
— Não podia avisar que tava chegando, c*r*lho?! Ia custar alguma coisa?! — contestou, revoltado.
— Ia, ué! Não teria sido tão engraçado — justificou, acalmando seu riso e colocando de novo as mãos na cintura do menor — Nem cheguei a te falar, mas tu ficou uma delícia de pirata, sabia?
Dan então abriu um sorriso, mesmo tímido, observando o maior dos pés a cabeça antes de voltar a falar.
— É… Tu também não ficou nada mal com essa daí. O jeito de viado do personagem, então… Ficou idêntico!
Levou um beliscão na barriga na hora enquanto ria, sentindo-se, assim, vingado pelo susto. Porém, mais do que as brincadeiras, havia um assunto ainda que estava assombrando os pensamentos de Al e precisava saber a posição do namorado a respeito.
— Já decidiu sobre a oportunidade que a Van te ofereceu?
— Quer mesmo falar disso hoje? — murmurou o outro.
Al sorriu, dando-lhe um leve selinho.
— Preciso, na real — confessou.
Suspirou. Ainda estava aguardando passar o tempo para, quem sabe, tomar coragem e falar. Vendo o maior ali, precisando daquilo, sabia que protelar seria perda de tempo. Tantas vezes fizera isso e nunca surtiu o resultado que imaginava, então achou melhor tudo estar devidamente esclarecido.
— Vou aceitar — disse, convicto — Mas, se tu quiser, eu fico. Não me importo.
O maior sorriu, passando a mão por seu rosto.
— Amar não é possessividade, Dan. Amar é ser parceiro, companheiro de todas as horas e em qualquer decisão — explicava — Se tu decidiu ir, pra mim é f*da demais! É uma oportunidade bacana!
— Mas e a gente? Como ficamos?
— Aguentamos dezessete anos longe um do outro, não aguentamos? Então! Sem frescura ou dilemas sem sentido! Tu vai e pronto! Fim do assunto!
Dan admirava a postura firme do filho de Marisa. Para ele, não havia tempestade que não pudesse ser enfrentada ou touro capaz de fazê-lo cair. Encarava as coisas de frente, sem rodeios, sabendo direito como a vida funcionava e, ainda que não soubesse, dava seu jeito de descobrir. Um lutador, com todas as características e mais algumas, o que lhe encantava cada vez mais.
Aproximou seus rostos para dar um beijo, daqueles de passar toda energia e desejo com apenas um toque. Como era feliz por poder fazê-lo sem culpa ou amarras que, outrora, lhe impediam de ver um palmo à frente do nariz. Crescia, ainda que a passos de formiga, mas já considerava-se sortudo por tê-lo ao seu lado para ver cada progresso.
— Sabe que já tô com saudade antes de 2018 chegar? — admitiu, rindo.
— Relaxa. Temos a vida inteira ainda para nos pegarmos no p*u… literalmente!
Alisson sentia-se completo por ver Dan mais aberto para que pudesse entrar em seu coração e fazer morada lá. Via através de seus olhos a plenitude de uma alma que encontrou outra para lhe afagar nas tristezas e comemorar nas alegrias. Não tinha dúvidas de que o destino lhes reservava muitas surpresas, mas já tinha fôlego para aguentar todas elas. Aprendeu a respeitar o tempo dele e da vida, aguardando sua vez de ver sua estrela brilhar. Assim recebia Daniel, que, no seu interior, já era a maior prova de que precisava das forças do universo conspirarem não sempre contra si, como a vida inteira julgou ser, mas também lhe davam presentes únicos, os quais lhe marcariam para sempre.
Voltaram à sala com as bebidas bem a tempo de Ágata estar organizando uma selfie com todos, dando as coordenadas de posições. Depois de muito custo para conseguir, registraram aquele momento com a foto, deixando para a história com aquela linda recordação como pontapé inicial para um trilho novo do destino que se abria, representando o que a vida devia sempre ser: uma grande festa. Eram jovens com sede do mundo, querendo pintá-lo de todas as cores. Ainda teriam sua chance, mas, por hora, aproveitar cada minuto era essencial. O tempo se encarregaria de mostrar todo o resto.
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