A Teoria das Cores
10 Amarelo II
COMUNICAÇÃO
(Protagonista Secundário: Ian)
Durante nossa estadia no plano terrestre, uma das maiores conquistas que um ser humano pode ter, depois de ter paz interior, é a liberdade. Lutamos todos os dias com garra e determinação, movidos pela vontade de um dia sermos livres desses sistema carcerário que a vida nos impõe. Alguns de nós conseguem isso com facilidade... Outros já nem tanto.
Ian, por exemplo, fazia parte dos que conseguiam com facilidade. Seu alto astral, bom humor e carisma tornaram dele uma pessoa única. Mas não foi sempre assim: O garoto passou por várias situações que o tornaram mais resistente. Claro que ele poderia escolher guardar mágoas, mas preferiu tornar todas as suas mágoas em sorrisos. Queria ser feliz... Queria dar e receber felicidade. E da carcaça de um menino reprimido, surgiu uma linda flor.
Acordara na sexta feira animado. A noite com Ágata tinha sido proveitosa, é verdade. Mas antes disso, estavam conversando e ele acabou por contar seu drama sobre a faculdade. A garota sorriu, o beijou e disse que era certo que iria lhe conseguir um emprego, só que na área de música. Isso o fez ficar mais alegre e... Bom... Presenteou a garota com mais uma noite alucinante. Estava com seu peito nu, só vestia sua cueca samba canção azul marinho. Espreguiçou-se e delicadamente levantou da cama. Vestiu uma camiseta que estava em cima do criado mudo e estava para vestir suas calças quando sentiu um beliscão em seu traseiro.
— Desculpa. Não resisti – Ágata ria de seu feito.
— Engraçadinha – O garoto se juntou a risada.
Ele chegou mais perto da garota e lhe deu um beijo.
— Que fofo foi tu apertando tua bunda depois que eu belisquei. Bem que tu se assustou, né?
— Claro que não. Sou macho esqueceu?
— Homem que paga de machão: Eva e Adão. Never forget— Brincou ela.
— Tu anda lendo fics demais. Mas tenho que concordar.
— Então não é machão? – Prensou ela.
— Sou um machão que curte machão. Admito – Ele fingiu cara de tristeza.
— Ai, nossa! Meu boy é gay! Oh Deus! – Ágata entrou na brincadeira e fingiu surpresa arrancando risos do garoto.
— Como somos arriados.
— Essa é a graça, tigrão.
Foi a vez dela roubar um beijo.
— Vamos descer e fazer o café? – Sugeriu ela.
— Partiu.
A garota então se levantou exibindo seu corpo magro e curvilíneo enquanto se vestia.
— Vê se não esquece de arrumar isso aqui, porque tá uma fuzarca!
— Eu vou arrumar. Prometo.
— Acho bom. Olha essa montanha de roupas e esse lixo todo espalhado aqui... Por favor, né?!
— Tá bom, tá bom – Ele revirou os olhos e sorriu de canto.
— E fora que tu não exala exatamente um perfume de rosas né, então abre a janela pra entrar um ar.
— Nossa, tu e o Dan parecem minha mãe falando.
— Vamos descer logo – A garota riu.
Ian tinha seus dotes, e um deles é saber cozinhar. Quer dizer, não é como se o rapaz fosse um chef de cozinha, porém de fome ele não morreria certamente. Fritou dois ovos e esquentou quatro fatias de pão sanduiche. Ia fazer panquecas americanas (Para surpreender a ficante), mas a preguiça e a leve brisa de frio só faziam o garoto pensar em sua cama. Ágata preenchia uma jarra de água com suco de laranja e colocava dois copos na mesa, além de dois pratos.
— Tua tia é uma alma muito boa cara, sério – Comentava ela – Deixar um marmanjo desses morando na casa dela sem trabalhar... Se fosse minha mãe, já tinha te posto pra correr.
— O marmanjo aqui vai arranjar um trampo— Sorriu – Graças a mina dele, aliás.
— Hum... Graças à mina dele? Que moça generosa – Debochou – Só não me lembro de tu ter falado nada sobre ela ser tua mina.
Nada mais falou. Terminou de fritas os ovos, passou manteiga numa fatia do pão, colocou o ovo frito no meio e concluiu colocando a outra fatia em cima. Pão com ovo frito. Não existia coisa que ele gostasse mais de comer pela manhã do que essa especialidade. Assim que terminaram a refeição, Ian lavou sua louça e a garota a dela e sorriram um para o outro. Olhavam-se como se vasculhassem a alma um do outro procurando respostas para suas perguntas. Não tardou, o rapaz puxou Ágata para um beijo demorado. Era incrível a sensação que ela lhe proporcionava sendo que se conheciam a tão pouco tempo.
Foram interrompidos por Daniel que invadiu a cozinha.
— Que bela recepção – Disse – Se conseguirem me dar bom dia antes de se engolirem, ficarem agradecido.
Ambos pararam o beijo e começaram a rir.
— Quiser se juntar a nós primo. Por favor – Pelo visto, Dan tinha comemorado cedo demais.
— Tava demorando...
— Gente foi tudo ótimo, mas eu realmente to indo. Os trabalhos de Literatura e Biologia me esperam – Ágata comentou.
— Não quer ficar mais um pouco? Eu posso te ensinar biologia – Ian disse malicioso.
— Deixa pra outro dia. Prazer ainda não me dá nota – Ágata riu – E tu, vê se pensa com carinho sobre a Van. É hoje o grande dia?
— Sim – Dan disse – Se vir ela, diz que eu tô bem nervoso.
— Posso dizer por mensagem, porque ver ela não vou. Vou baixar a Jimmy Neutron da Literatura e Biologia.
— Tá bom – Dan disse sorrindo.
Ágata se despediu de Ian com um último beijo e um beijo na bochecha de Dan. O rapaz tinha que admitir como o aroma que vinha da garota era hipnotizante. Assim que ela saiu, Ian sorriu e falou:
— Acho que é ela, cara.
— Ela é o quê? – Questionou.
— Sabe, a mina dos sonhos. Velho, p*ta que p*riu, ela é muito f*da!
— Usou bem a palavra certa: F*da – Dan riu.
— Idiota. É sério mano, eu nunca tinha visto uma gata como ela antes. Tá, o sexo é bom, mas ela tem mais conteúdo que mais da metade das minas que já fiquei.
— Isso é bom. Parabéns – Dan deu um leve sorriso de canto – Também queria uma mina assim.
— Tu TEM uma mina assim. E se ratear, vai perder ela por burrice.
— Burrice? Ian, ela já-
— Não interessa o passado, Dan. Pensa no presente, cara.
Ian pegou seu celular e começou a vasculhar uma rede social a procura de algo.
— Ah! Achei! – Exclamou ele – Essa aqui é a tal da Vanessa, né?
Dan desviou seu olhar do celular.
— Não quero ver.
— Olha.
— Não!
— Tô mandando tu olhar c*r*lho!
— Eu já disse a p*rra de um NÃO!
— Eu vou te beijar de língua se tu não olhar!
— Tu não faria- Dan nem terminou a fala quando lembrou da conversa do dia anterior – Tá, eu olho.
Com receio, Daniel foi levantando a cabeça e fixando seu olhar na imagem que a tela do celular do mais velho exibia.
— É ela – Limitou-se a responder.
— Viu? ELA! Tu disse ELA! Por quê? Porque tu vê uma GAROTA!
— VER uma garota e SER uma garota são duas coisas bem diferentes.
— Ah é? – Ian cruzou os braços – Se é assim, por que que tu só foi descobrir que ela é trans agora e não descobriu logo de cara?
Daniel pensou um pouco pra responder.
— Porque ela escondeu bem, oras.
— Ela escondeu que é trans, não a personalidade dela, o jeito dela... Concorda?
— Sei lá c*r*lho! Só não – Dan começava a ficar nervoso e chateado – Só não queria perder ela desse jeito.
— E tu não precisa perder – Ian abraçou o primo – Tu é um bom rapaz. Só tem que sair dessa mente quadrada que tu implantou ai.
— Valeu, Ian... – O garoto mais novo agradeceu.
— Sempre a disposição, delicia.
Ian deu um tapa no traseiro de Dan, que surpreendentemente riu.
— Tu é ‘mó’ ótário.
— Agora, com todo respeito – Ian dizia com um sorriso malicioso – Que mina gata essa
Vanessa hein? P*ta merda. Com ela e a Ágata do meu lado...
— Ihh, sai fora o guru do amor! Uma delas é minha! – Dan debochou.
— Esse é o espírito! – Ian comemorou – AH! Te falei que a Ágata tá vendo um trampo legal pra mim?
— Jura?
— Sim – O mais velho estava animado – Vou dar aulas de música aqui perto! E dá até uma grana boa sabe?
— Tu como professor? Bah, eu saia correndo.
— Idiota. Mas sério, tô muito animado com isso velho.
— E tu sabe se vão te contratar? Tipo, não querendo ser pessimista, mas teu curso é outro.
— Por enquanto, meu guri, por enquanto.
— Vai trocar de curso?
Ian sorriu, tal como criança quando quer aprontar.
— Eu já me informei e tem vaga no curso de musica. Como toda documentação tá no meu nome, meus pais nunca vão saber que troquei o curso. Pra eles, vou dizer que diminui o numero de cadeiras que faço.
— Tu acha que eles vão engolir?
— Eles não tem que achar NADA! Se eu conseguir me promover na escola, posso até ganhar mais. Daí se eles não quiserem mais pagar a minha faculdade, f*da-se.
— Tomara que consiga – Disse esperançoso.
Após a conversa com o primo, os pais do mesmo se juntaram a eles. Ninguém nem tocou nos assuntos que conversaram há pouco. Assim que chegou a hora do almoço e Daniel saiu, o rapaz foi para seu quarto arrumá-lo. Iria manter a palavra que deu a Ágata de organizar aquela bagunça. Levou em torno de uma hora nisso. Suspirou aliviado. Com o quarto ajeitado, o ambiente ficava com outra cara. Finalizou abrindo a janela e deitando em sua cama.
Abriu seu celular. Ficou a encarar a tela por alguns segundos e foi direto para seus contatos, na verdade em um especial: Gil. O numero desse rapaz estava bloqueado, e Ian lembrava-se bem porquê.
“- Como assim tu ficou com outro guri na festa de sexta?! Tu tem demência por um acaso?! – Lembrou-se do tom alterado que usava naquela entardecer do inicio do verão em 2016.
— Fala baixo! Meus pais podem ter chegado – O garoto alto, cabelos e olhos negros tentava acalmar o outro.
— F*da-se velho! Tu me TRAIU e quer que eu fique como?!
— E-eu vacilei, Ian. Mas eu tava bêbado e-
— Sério que tu vai culpar a bebida? Gil, quantas vezes eu sai pra beber e nunca encostei minha boca em ninguém desde que a gente começou a sair?!
— E-eu não sei o que te dizer velho. Só posso te pedir perdão...
— Perdão? – Ian o encarou incrédulo. Em seguida, virou em direção à saída— Perdão é a ultima coisa que tu vai ter de mim”
E lá se foi, jurando a si mesmo que nunca mais retornaria. Porém, sabia que nunca iria cumprir aquilo. Por mais raiva que tivesse de Gil, sabia que teria de encará-lo.
— Vou me livrar de ti hoje – Disse pensativo.
Desbloqueou o numero e viu que ele não havia o trocado, pois apareceu no seu aplicativo de mensagens. Mandou um oi e esperou que o rapaz respondesse o que não tardou a acontecer:
“O que tu quer?” – Enviado por Gil.
— Sério que ele vai se fazer de ofendido? C*r*lho! – Ian revirou os olhos em desaprovação.
“Quero esclarecer algumas coisas contigo que não esclareci no nosso último encontro...” – Enviado para Gil.
“Ian, na boa, o que faltou esclarecer? Tu ficou bravo por eu ter feito aquilo. Ponto”
“Se tu não quiser falar comigo beleza. Fui”
O garoto largou o celular com raiva em cima da cama. Passou as mãos em seu rosto e refletiu por que cargas d’água lembrar de Gil agora. Sua mente deveria estar focada em Ágata, não em um garoto que não sabe o que quer da vida. Mas cerca de cinco minutos depois, veio à mensagem:
“ Vem aqui em casa. Não tem ninguém daí podemos ter privacidade”
Ian sorriu. Ia se livrar de uma vez daquele peso em sua vida. Não gostava de guardar sentimentos tão ruins dentro de si desde que tomara rumos diferentes na vida. Não fazia parte dele ser tão rancoroso. Só queria fazer as pazes com o ex, só isso. Vestiu uma calça jeans azul clara, um all star, uma camiseta com escrita “Sorry girls, but I like boys too” por baixo de um casaco forrado de lã. Passou perfume e lá se foi para encontrar Gil.
Passeando pela cidade, viu a quantidade de casais felizes que o rodeava. Sonhava em um dia encontrar alguém para si. E desde que viu Ágata, torcia para ela ser essa pessoa. O que o deixava pasmo, era como ficara necessitado dela sendo que a conhecia há tão pouco tempo. Acreditou ser devido a seu jeito parecido com o dele, as piadas, as loucuras, os beijos o sexo... Tudo parecia formar a sintonia perfeita entre os dois. A questão era: Teria ela sentido o mesmo?
Quando passou frente à praça das flores, no centro de Nova Petrópolis, reparou que Ágata estava lá. Ficou surpreso, o que ela estaria fazendo ali? Viu que ela lia livros, só não conseguia enxergar qual era. Deduziu serem os de estudos. Nem percebeu que começou a sorrir, admirando-a concentrada em seus livros. Porém, seu sorriso sem desfez em seguida.
Um garoto, que tinha mais ou menos a sua altura, se aproximou dela. Trazia em mãos dois copos descartáveis com algum liquido quente (Já que saia vapor dele). Sua garganta secou quando o garoto em questão deu um selinho na garota e depois pegar um dos livros e começar a explicar algo para ela. Por mais que estivesse se sentindo estranho ao ver a cena, não poderia fazer nada. Ele e Ágata ficaram duas noites juntos, mas em momento algum foi falado em namoro. Se ela tinha esse direito, ele também tinha correto? Resolveu parar de admirar ambos e foi em passos acelerados até a casa de Gil.
Assim que chamou gritou por ele, que foi lhe atender ainda de pijamas. Usava uma camiseta e um calção de para dormir que ressaltava as coxas pouco definidas do rapaz.
— Tu tava dormindo até agora? – Ian perguntou incrédulo.
— Se tu não tivesse feito a gentileza de mandar mensagem – O outro respondeu seco. O outro não respondeu.
Gil abriu o portão e ambos foram em direção à porta de entrada da casa. A casa era de madeira nobre envernizada. Tinha cômodos relativamente grandes, apesar de ter apenas um piso. Entrar ali trouxe tantas recordações ao mais velho...
— Vai ficar ai vegetando ou vai falar a que veio de uma vez? – Gil perguntou sem rodeios.
— Boa tarde pra ti também. Que eu lembre tua mãe era bem educada. Não tem motivo pra ser assim – Ian não deixou por menos.
— Pelo que eu entendi, tu veio aqui terminar o esporo da outra vez, né? Sério, Ian? Não tinha nada melhor pra fazer?
— Eu vim aqui pra tentar me acertar contigo, cara. P*rra, tu fez m*rda no final do nosso namoro, mas no geral tu foi bacana durante ele.
— E tu pensou nisso quando falou aquilo pra mim? Que perdão era a última coisa que eu teria tua?
— Tá Gil, vamos mudar um pouco o disco. Se eu tivesse te traído, tu ia aceitar?
Gil suspirou antes de responder.
— Sim – Ian não sentiu muita firmeza nas palavras do ex.
— Sim? Tem certeza?
— Absoluta.
— Cara... não faz isso.
— Fazer o quê?
— Cinismo Gil. Tu é mais inteligente que isso. Tu lembra quando fomos com o pessoal pra praia no inicio do ano passado e tu fez a maior cara de c*, porque as minas e até uns caras ficaram me olhando sem camisa?
Novamente o mais novo suspirou.
— Foi pra isso que tu veio aqui? Pra fazer um revival de recordações? – Questionou Gil, visivelmente sem graça.
— Tu mudou de assunto. Tá vendo como eu tô certo? – Ian sorriu.
— Tá! Eu fiz a burrada e paguei por isso! O que faltou ainda me diz?
— Isso.
Ian o agarrou pela cintura e lhe beijou. Ambos tinham quase a mesma altura, mas era o garoto de olhos claros quem tinha mais “pegada”. O beijo não durou muito, o suficiente para tomar o ar do outro e o fazendo ficar pálido e sem reação.
— Beijo de despedida, boneca – Sussurrou Ian no ouvido do rapaz.
Gil não deu uma palavra, deixando o outro satisfeito. Ian nem se deu o trabalho de se despedir, foi até a porta e saiu. Sentia-se finalmente livre do passado. A partir daquele momento, nascia de novo outro Ian, disposto a conquistar o coração de Ágata.
CONTINUA
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