A Tempestade
1 Capítulo 1 - A Macieira

A Tempestade — Macieira
Leões rugiam em combate no alto do céu, enquanto seus estrondos perpetuavam ao longo da horrenda tempestade. Era como um deus furioso batendo contra sua janela, com seus punhos gélido de ventos arrebatantes.
E foi sobre um grito de pavor em que jovem em torno dos doze, pele clara e cabelos tão acastanhados como as avelãs em seus globos oculares, despertou com olhos esbugalhados.
Os noticiários anunciaram uma forte tem tempestade naquela noite, mas ninguém alertou-os de uma guerra sobre as nuvens negras. Trovões e relâmpagos cortavam os céus sobre uma violenta chuva que veio de repente.
E em um campo afastado das cidades grandes, haviam as fazendas dos agricultores da região. A sua maioria em grandes negócios, sucessos absurdos de compra e venda, mas há aquele que não se destacava... A fazenda dos Thompson, pobre financeiramente, um ano horrível de colheita, animais adoentes... Sua única alegria e até em então, sustento de vida, era a gloriosa macieira plantada ao portão de casa.
Seu tronco é largo e rígido como rocha, seus galhos são extensos e fortes, mas flexíveis como bambus, seus galhos fartos de folhas e frutos. Onde em uma tempestade como aquela, a macieira dançava sobre a penumbra da noite, rebatendo seus galhos sobre a janela do único filho do casal Thompson... Apavorando-o.
Por um momento a chuva parecia ter desaparecido, talvez a batalha de feras havia obtido seu vitorioso, pois o único som em seu quarto eram as batidas rápidas de seu coração assustado.
O garoto respirou fundo e engoliu em seco a saliva, enquanto seus olhos realizavam uma varredura em todo o ambiente a sua volta. Começando pela penteadeira ao lado cama, os pôsteres sobre as paredes verde-musgo, seguiam com cautela pela porta branca e iam para o guarda-roupa fechado, e deslizavam para o baú de brinquedos trancado aos pés da cama.
Sentindo-se reconfortado pela segurança de seu quarto, o filho dos Thompson tenta retomar o sono perdido, mas um som ainda mais apavorante o desperta. E dessa vez, sua curiosidade o incita a procurar o culpado de seu despertar.
O suor frio pelo seu corpo, os poucos pelos que há em sua pele arrepiados sob alerta, sua respiração ofegante e a mão tremula são claros sinais para recuar diante o estrondo vindo de fora do quarto. Mas ele se recusa a obedecer os sinais e prossegue em direção a janela.
O breu, a escuridão do campo rural noturno, o pouco de verde e vermelho que se pode ver chacoalhando na macieira maior que sua janela.
E para quem encara a escuridão por muito tempo, em algum momento, enxerga a luz... O fulgor branco no horizonte que o obriga a cobrir os olhos e irradia seu quarto, é quase mais amedrontador que a escuridão.
Onde será que o raio atingiu para criar aquela luz tão forte? Ele não sabia, mas havia algo se escondendo dela... Algo na escuridão. Foi preciso erguer metade da janela, só a metade que se é possível ser erguida, sentindo as gotas geladas da chuva sobre seu rosto infantil, a brisa congelante cortando seu corpo e afastando o calor de seu quarto.
Seus olhos são pressionados ao máximo tentando maximizar sua visão, mas não aquilo que ele esperava ver... Não na macieira, não naquele momento, naquela noite. O grito agudo de uma coruja oculta no aconchego do interior do tronco.
O guincho da criatura noturna o faz tombar para trás, caindo sentado sobre o tapete de veludo que cobre o chão de madeira. A chuva, o vento, precisava fechar as janelas rápido. Seus pequeninos dedos tocam a madeira da janela e uma força extrema é feita para desce — lá, e como uma guilhotina que ceifa suas vítimas, a janela tirou a vida de ser sem vida... Seus olhos perplexos encaravam a metade de uma maçã, caída sobre o tapete.
O que uma maçã fazia em sua janela? Como uma maçã havia sido posta daquele jeito em sua janela? Não importa... Pelo menos, não naquele momento. O filho dos fazendeiros correu para sua cama e armou sua proteção, escondendo-se debaixo dos cobertores, onde permaneceu até seus sua consciência o deixar.
A noite passou e assim como a tempestade que se acabou, o sol nasceu para espantar os pesadelos com seres noturnos e frutas vivas. Lucas Thompson olhou em cada canto de seu quarto, olhou até mesmo no quintal da casa, mas não haviam maçãs partidas... Ou frutas caídas. O que foi aquilo?
— Bom dia, Senhora Thompson! – Eram os amigos de Lucas, Rafael e Miguel, correndo pela trilha ao longo da campina, com a bola debaixo dos braços. Os melhores amigos do filho dos fazendeiros, não que eles também não sejam filhos de fazendeiros, mas o pai de Miguel é o mais bem sucedido da região. Um jovem saudável, valente e audacioso, pele clara de cabelos negros e olhos verdes claro.
— Bom dia, meninos! Lucas! Seus amigos estão aqui! – Sua mãe gritou, enquanto aproveitava o sol da manhã para botar as roupas no varal.
— Quer ajuda, Senhora Thompson? – Perguntará Rafael. — O temporal de ontem levou nosso trator até o lago, parecia até um furacão. – Comentará Miguel, já pegando um par de meias no cesto para entregar a mãe de Lucas.
— Obrigada queridos, mas podem ir brincar. Eu dou conta. E é mesmo uma pena, eu tive medo do vento levar nossa macieira embora, mas ela agüentou firme e forte. Como sempre. – O sorriso, não é qualquer sorriso, é aquele mágico e cativante sorriso que só a Senhora Thompson possuí.
Um vulto passa as presas pelas roupas estendidas, erguendo-as ao vento. Era Lucas com sua jaqueta xadrez vermelha, correndo e rindo, despedindo-se de sua mãe e tomando a bola das mãos de Rafael.
Filho dos pioneiros da região, vindo de uma família que já foi escrava, Rafael carrega as cicatrizes de seus antepassados, mas é um jovem sadio, bonito e de cabelos encaracolados e grandes olhos mel. Tomem cuidado! Divirtam-se!
Apesar da vida difícil que possuía, Lucas é um rapaz muito feliz com os amigos que tem e com os pais que o amam. Mesmo quando voltam encharcado de barro e arranhões pelo corpo. E naquela noite não havia sido diferente.
Seu corpo se deleita ao toque suave da água quente, enquanto o sabão se encarrega de arrancar as crostas de barro seco que grudam em seu corpo. E por um instante ele estremece ao sentir uma corrente de ar gelada, obra da fresta da janela semi-aberta. Seu fechamento foi imediato e em minutos uma cortina de nevoa quente tomou conta do pequeno banheiro. Era como sua sauna particular.
Registro fechado e corpo seco são os pré-requisitos para enrolar a toalha em sua cintura e abrir o espelho de banheiro, para pegar sua escova e pasta de dente. De um lado para outro, movimento circulares, caretas e imitações de famosos não podiam faltar, onde rindo de suas próprias bobagens, Lucas cospe a pasta e enxágua a boca.
Seu pijama pendurado é colocado, a calça azul clara vem primeiro, seguida da camiseta abotoada de manga comprida que o acompanha. Cabelos bagunçados e um sorrisinho para o espelho e ele estaria pronto, mas havia algo especial ali... O espelho embaçado que não refletia totalmente seu reflexo, precisava de algo. Um rosto feliz desenhado sobre a ponta do dedo.
Seu rosto feliz permanece diante seu criador, mas ao momento em que a luz é apagada a escuridão prevalece, a felicidade desvanece... E a melancolia se sucede.
Ajoelhado aos pés da cama com os cotovelos sobre o colchão e os olhos fechados, o garoto reza, como de costume, pelo dia ganho e a noite que se segue. Novamente a chuva retorna, dessa vez não era previsto, mas era mais calma. Seu som suave é apaziguador, quase como tão bom quanto uma canção de ninar cantarolada pela mãe.
Amem. Parecia ser a palavra chave. O que foi isso? Pois no momento em que se é pensada, um barulho o obriga a abrir os olhos. Procurando por algo fora do comum, Lucas se depara com o som novamente... O Toc pesado e constante em sua janela, tornando-se uma desagradável sinfonia rítmica.
Dessa vez, o medo não levaria a melhor. Engoliu o receio e tomou um copo de coragem, onde se erguer sobre os joelhos trêmulos e com peito estufado seguiu até a janela. O toc sessou... Mas seus pés permaneceram em movimento.
Era estranho, mas não havia nada lá fora que não a chuva. As cortinas foram fechadas e um jovem aventureiro posto para repor suas energias, escolhendo-se no aconchego de seu cobertor.
Correndo... Correndo... Rolando de um lado para o outro, suando frio, os pesadelos das duas da manhã o perturbavam. Em uma campina sombria e sem luz do dia, apesar de haver um sol, tudo era branco e sombrio. E lá Lucas corria para fugir, para sobreviver, para chegar a segurança de seu lar. Lucas... Volte.
Aquela voz de congelar a alma ecoava por aquele mundo bizarro, onde corvos de olhos vermelhos rodeavam seu lar e uma coruja branca estática no alto de um galho da macieira, parecia observá-lo. Devorá-lo com aqueles olhos negros.
O leão despertou e consigo trouxe o novo tom do quarto, onde Lucas salta para o chão em desespero completo. A respiração pesada, os cobertores enrolados e caídos sobre suas pernas, o mundo branco de seu pesadelo veio ao mundo real por alguns instantes. Segundos suficientes para fazê-lo perder o ar e quase se deixar levar pelo pânico.
A mão que passa em sua testa é mergulhada em suor, um suor estranhamente anormal... Seu quarto se tornava uma sauna e se não fizesse nada, ele seria o prato principal. Rapidamente Lucas tira a camisa, em um primeiro instinto, mas não era o bastante para os 30º graus que deveria estar fazendo.
A janela! Não há outra escolha! Ele corre e abre como se fosse um ultimo suspiro de luta e aquilo resolve... O ar gelado da chuva decai a temperatura sobrenatural do quarto rapidamente e assim a blusa é necessariamente novamente. De manhã o tapete estaria ensopado, mas é preciso dormir com a janela aberta... Só aquela noite.
Ele vira-se em direção a sua cama e seu corpo se congela... Sua mente dizia “ande”, mas seu corpo não obedecia. Suas pupilas mudaram drasticamente quando o toque gélido de mãos humanas atravessam os fios de cabelo.
A sensação era sentir gelo sendo passando sobre a pele, sem derreter, mas o toque é macio e suave, é pior ainda por ser humano. E a fumaça branca pairando ao lado de sua face, de lábios que se aproximam de seu rosto... O abraço da morte.
Lucas... Volte.
Jorge arromba a porta do quarto do filho com um bastão de basebol em mãos, vasculhando o quarto atrás de algum invasor. Já Luíza chega desesperada, deslizando ao chão molhado, acolhendo-o em seus braços.
Após o berro de horror que ecoou pela casa dos Thompson, Jorge e Luíza despertaram tomados pelo pânico de prontidão, mas não demorou a correram até o quarto de seu filho, Lucas.
A mãe que o tem em seu colo, tenta reconfortá-lo com palavras doces de segurança, enquanto os olhos arregalados estão em choque para conseguirem interromper o choro. Jorge por outro lado, procura quem haveria sido o bastardo a deixar seu filho em tal estado de pavor.
— Querido... Vamos para o quarto. Por favor. – Implorou Luíza levantando-se com o filho nos braços.
— Tudo bem... Eu só vou fechar as janelas. —
O taco de basebol é posto aos pés da cama e uma nova olhada é feita pela janela, tentando encontrar alguém correndo na calada da noite. Talvez fosse a chuva, mas era impossível encontrar alguém á aquela altura.
O Senhor Thompson abaixa a janela e tranca sua fechadura, dando uma boa olhada para ver se realmente está firme. Mas é sobre o estrondoso trovão e a cintilância do relâmpago, que o Jorge é derrubado. Querido!
Pego de surpresa, Jorge começa a se recompor, enquanto a esposa descrente imagina milhões de formas de como aquela maçã se espatifou na vidraça da janela. O que antes era solida fruta, agora não passava de uma pasta amarelada e vermelha.
— Arvore idiota. Hum. Eu limpo isso amanhã. Vamos querida. –
E assim os Thompson foram juntos para outro quarto, onde adormeceram e a salvos da tempestade estavam. O Senhor Jorge teria pouco trabalho pela manhã ao limpar a janela, pois grande parte havia sido arrastado pela chuva que aumento ao longo da noite.
E do suicídio de uma fruta nasce um bizarro sorriso macabro, que veio com a tempestade e com ela se foi.
Fale com o autor