A Teimosia De Yatogami Kuroh
6 6. Amargura
Notas iniciais
Eu escrevi o capítulo mais rápido que me foi possível e, bem, aqui está ele. Já aviso de antemão que não acontece nada de muito surpreendente no capítulo, mas isso não o torna desnecessário.
Boa leitura! ^^
Quando enfim meus olhos se abrem, isso sendo já no dia seguinte, a primeira coisa com que se deparam é com a luz forte do Sol, que trespassa pelas janelas do andar térreo. Nenhuma delas está inteira e os vidros encontram-se totalmente quebrados.
Depois de observar por considerável tempo o salão familiar e em parte iluminado, concluo que devia ser pouco antes das sete e meia da manhã. A strain ainda dorme, no mesmo local em que se posicionara na noite anterior, mas seu corpo havia tombado para o lado, de forma que agora ela o tem estendido pelo chão, um pouco encolhida por causa do frio. Meu casaco preto também permanece sobre si, funcionando como uma fina coberta — a qual não estava a desempenhar muito bem sua função, por estar parcialmente caída.
Meus olhos seguem então ao chão, recoberto este pelo grosso e gasto carpete carmesim. Eu estou cansado e sinto que nunca antes eu havia me metido numa situação tão complicada. Mas é apenas o começo, e eu sei bem disso. Tudo apenas pioraria, e pensar isso já é suficiente para me fazer ter medo do que o futuro me guarda.
Entretanto, meu temor não significa que eu também me arrependa; minha situação era, nada mais, nada menos, que o resultado de minha própria decisão de ter o Rei Azul como inimigo.
Uma decisão que não poderia ser distinta, por sinal.
Uma pessoa normal poderia até questionar minha sanidade perante minhas ações e decisões de ontem; porém, como eu disse, apenas uma pessoa normal. Um vassalo, por outro lado, fosse seu Rei qual fosse, já compreenderia perfeitamente minha situação e concordaria com meus atos.
Reisi Munakata havia nos oferecido um recomeço, uma nova vida ao seu lado. Era a chance para que Neko e eu pudéssemos sair desta situação complicada que temos vivido nos últimos três anos. Poderíamos trabalhar para um Rei poderoso e responsável, para o Quarto Rei. E, ainda por cima, não teríamos mais que temer o abandono de nosso mestre.
Ainda assim, a resposta dada por mim nunca poderia ser diferente. Estou certo, inclusive, de que ele sabia disso.
Quero dizer... Como alguém em sã consciência pensaria que nós, do clã Prata, abandonaríamos o Rei que temos aguardado por tanto tempo? Nós, que sempre fomos tão leais e otimistas quanto ao seu retorno aparentemente impossível!
Além de que, o azulado sabia que Yashiro estava vivo, e sabia também que eu, ao menos, estava igualmente ciente desse fato. Não tinha como ele realmente acreditar que aceitaríamos sua proposta.
Mas então essa minha conclusão apenas complica ainda mais as coisas...
Sinto minha cabeça latejar levemente, ao que levo uma de minhas mãos à testa e massageio a têmpora. Um suspiro foge-me aos lábios ao que subo os olhos mais uma vez à altura normal e ponho-me em pé. Agarro o guarda-chuva e, depois de lançar uma última vez o olhar prateado à garota, subo os degraus da escada, a fim de alcançar o segundo andar.
Afinal, se o que ele realmente pretendia não era o nosso recrutamento como seus vassalos, só resta uma outra opção: ele desejava que nós nos tornássemos oficialmente seus inimigos. Ele queria que nós o negássemos e tivéssemos assim que fugir.
Tudo isso fazia parte de seus planos, os quais haviam sido bem sucedidos até este ponto.
Agora, Neko e eu somos algo que se poderia chamar de foragidos. Só nos resta nos esconder, descobrir o que realmente está acontecendo e localizar o Shiro. Afinal, ele mesmo disse, o Rei Azul disse. Ele e o Primeiro Rei são inimigos.
Ou seja, Shiro corre perigo. O nosso Shiro, o nosse mestre.
Mesmo que não possamos ajudar muito — afinal não há como um simples vassalo se meter entre a briga de dois Reis -, ainda somos necessários ao Shiro; talvez até mais do que nunca. Afinal, o simples fato de estarmos ao seu lado significa que teremos o poder de impedir que ele faça alguma decisão estúpida e irresponsável — de novo.
E ele certamente já agira impulsivamente por uma vida inteira. Ele deveria se preocupar mais consigo mesmo e com os que se importam com a figura tão inimaginável que ele é.
Afinal, o que será de nós do clã Prata se ele realmente morrer ou sumir verdadeiramente? O que faremos se ele desaparecer para não mais voltar? O que eu farei? Ele não devia apostar tanto na própria sorte, tampouco confiar em sua imortalidade dessa forma irresponsável.
É. Ele não devia...
Adentro os quartos nunca antes visitados, analisando-os com um olhar cansado, mas ainda atento. Todo o piso é recoberto pelo mesmo carpete, que me seguia desde a entrada. Tudo está silencioso e isso apenas me perturba ainda mais; pois aquela quietude denunciava não ter ninguém naquele lugar.
Yashiro realmente não está aqui.
Não que tenha sido por este motivo que eu me decidira pelo esconderijo, mas acho que uma fagulha de esperança permanece acesa em meu peito. A esperança de vê-lo uma vez mais.
O desejo pelo reencontro.
Sento-me na beirada da cama de casal de um dos quartos, coberta esta por lençóis listrados, vermelhos e brancos, e dois travesseiros um tanto amarelados. Exceto pela cama, havia também uma pequena cômoda em razoável estado encostada à parede, perto de uma janela razoavelmente ampla e cujo vidro permanecia quase intacto, não fossem algumas trincas.
Suspiro, sentindo ainda a cabeça latejar de tão cheia. Usando de todos os meus esforços para me desestressar ao menos um pouco, tento pensar sobre outras coisas. Por exemplo... Que tipo de lugar este um dia fora? Um amplo salão de entrada, uma elegante escada ligando os dois andares da construção, quatro quartos igualmente decorados e dois banheiros razoavelmente grandes, apesar de um estar inutilizável no momento...
Eu pensava sobre as mais variadas possibilidades quando ouvi o barulho do rangir das escadas. Ergo-me em um salto e, sem mais perder tempo, me adianto ao local, depressa. Deparo-me com a albina, que sobe os degraus com um olhar um tanto vazio e o qual fora então direcionado a mim.
Por longos instantes, nenhum de nós nada diz. Ela apenas dá um leve e atrasado sorriso e fica a me encarar, calada.
– Bom dia. – eu digo, por fim, suavizando minhas feições e os ares que nos rodeiam. Sinto sobre meus ombros o peso de minha consciência, pesada esta por causa do assunto “Shiro”, que ainda não havia sido abordado.
– Ah, sim... Bom dia.
Ela alarga o sorriso que tem na face e se aproxima de mim. Seu longo cabelo balança enquanto ela sobe os degraus restantes com certa pressa. O cumprido e velho moletom de cor caramelada, que ela usava já há quase dois anos, subia à altura de suas coxas toda vez que ela se movimentava. Seus pés batem depressa contra o carpete e vêm calçados com uma sapatilha da mesma tonalidade da roupa, que fora um presente do Segundo Rei, ganho por ela mais ou menos na mesma época em que a garota conseguira a camisola.
– Está com fome? – foi a primeira coisa que perguntei a ela.
A jovem strain cora de imediato e, em um movimento aparentemente inconsciente, ela envolve o abdômen com os braços. Ela então anui a cabeça de leve.
– Okay, eu vou ver se arrumo algo assim que possível. – um sorriso discreto brota em meus lábios, mas logo torna a desaparecer, dando lugar à feições mais sérias – Agora eu tenho que falar com você sobre algumas coisas. Então...
Com um gesto com o braço, aponto em direção aos quartos. Minha face está repleta de uma visível culpa e sou incapaz de encarar a garota. Eu nada mais digo, o que gera o retorno do silêncio anterior.
Neko estava surpresa com meu tom sério e tão repentino, mas ela não era estúpida ao ponto de não compreender nossa situação. Havíamos perdido tudo que tínhamos e, ainda por cima, a nossa única ligação com nosso Rei havia sida destruída bem diante de nossos olhos, a aeronave.
– Vamos nos sentar então?... – eu pergunto, insistentemente, perante a falta de resposta da albina, e eu ainda apontando em direção a um dos quartos.
Sem nem se pronunciar, a jovem se adianta ao quarto mais próximo e senta-se sobre a beirada da larga cama. Eu a sigo e encosto-me à parede amarelada, decidido por permanecer em pé.
Ela tinha os grandes olhos coloridos presos aos meus e aguardava, ansiosa, o meu pronunciamento.
– Então... Acho que já ficou claro que teremos que nos virar agora em diante. Não poderemos contar com mais ninguém e deveremos sair deste esconderijo o menos possível.
– Kuro, e se procurássemos o Segundo Rei? Tenho certeza de que ele nos ajudaria! – ela diz, agitada, no exato instante em que terminei de me pronunciar.
Era bem típico dela agir e falar daquela forma, guardando sempre sua opinião para o momento que ela considerava como mais oportuno e adequado; tão típico seu que nem me surpreendi.
– Não é uma boa ideia. – respondo, de pronto.
– Por quê?! Ele sempre nos apoiou e estou certa de que ele não perdoará o Quarto Rei pelo que ele fez com o Himmereich! Ele também se importava muito com a aeronave, e foi você mesmo quem disse isso!
– Neko, acalme-se. Não adianta ficar agitada desse jeito.
– Mas!...
– “Mas” nada! Deixa eu explicar o porquê de não podermos contar com ele! – eu a interrompo, sem mais nem menos. Meu olhar é firme e rígido.
Ela desvia levemente a face, ao que suas feições se entristecem um tanto. Depois de ter a certeza de que eu não seria interrompido durante a explicação, prossigo:
– Daikaku Kokujōji certamente não ficará feliz quando descobrir o que aconteceu com o Himmereich, você está certa quanto a isso. Muito certa! Mas ele não vai simplesmente se meter numa briga com o Rei Azul apenas para nos apoiar e nos proteger. Ele é poderoso, sim, sem dúvidas. Mas igualmente é o Reisi Munakata. O Segundo Rei tem coisas demais deste país para se preocupar e arrumar conflito com o Quarto Rei certamente não está em seus planos.
Dou uma curta pausa, para recuperar o fôlego perdido. A garota voltara a encarar-me, muito bem atenta.
– E mesmo que existisse a chance dele nos ajudar, como faríamos o pedido? Eu não tenho mais um celular, pois tive que o deixar na cabana durante a fuga. Usar um telefone público seria arriscado, pois poderíamos ser rastreados. E nem preciso falar que ir até ele é uma ideia estúpida, preciso? Seríamos capturados assim que adentrássemos a cidade de Shibuya.
– Mas... Mas, Kuro, então o que vamos fazer?
Ela encara-me com os olhos brilhantes, tomados estes por visível preocupação. Ela agarra-se às bordas do próprio moletom, de forma impaciente e aflita.
– Nós... Teremos que esperar mais um pouco e então sair a procura do Shiro. – depois de alguns segundos, nos quais eu fui observado a todo instante pela garota, que estava bastante confusa e surpresa, voltei a me pronunciar – Neko, eu não te disse antes porque achei que assim seria melhor, mas não posso mais esconder isso. Eu me encontrei com o Shiro, aqui, neste prédio, na tarde de ontem.
Ela abre os lábios e os deixa entreabertos. Sua surpresa era mais que evidente, e o mesmo pode-se dizer de sua confusão. Ela parecia se remoer por dentro, tentando se convencer de que havia escutado errado.
Ela tentava se convencer de que o que eu dissera não passava de um mal entendido seu.
– Neko... Você me ouviu?
– N-Não. – sua voz falha e mostra-se bastante aflita – Pode repetir?
Ao sentir a pressão sobre mim aumentar, devido ao seu encarar tão profundo, fujo os olhos a um canto qualquer do quarto. Fecho os olhos, tentando relaxar um pouco, mas meu nervosismo permanece ainda assim. Quando volto a encará-la, instantes depois, enfim pronto para lhe dar uma resposta, Neko permanecia na mesma posição e com as mesmas expressões.
– Eu encontrei o Shiro, por acaso, neste prédio, na tarde de ontem.
Os segundos que se seguiram foram os mais desconfortáveis e silenciosos que eu me lembro de um dia ter vivenciado.
Os seus olhos coloridos não demoraram em se marejarem, tampouco demorou até que sua face claríssima fosse tomada por aquela cascata cristalina e morna.
Não sei dizer o que houve em seguida, pois tudo que me lembro foi de sentir o impacto da mão da jovem contra uma das faces de meu rosto. Nos poucos segundos seguintes em que pude observar bem a albina, o que vi foram as lágrimas que apenas aumentavam em quantidade cada vez mais. Ela me deu as costas e saiu do quarto, e eu, imóvel, só pude observar o distanciamento de suas costas não muito largas.
Ela desapareceu rapidamente e, momentos depois, pude ouvir muito bem o som de uma porta sendo batida com força e raiva no andar inferior. Enquanto isso, eu permaneço com as costas coladas à parede e a face um tanto virada e ardida. Levo a mão ao local ferido e acaricio de leve, trincando os dentes.
Não é raiva que eu sinto, longe disso.
Eu me sinto abalado, pois não era aquela a reação que eu esperava. Claro, eu já imaginava que ela se zangaria; ela tinha todo o direito, inclusive. Mas nunca que eu pensei que ela usaria de violência. Ela realmente não se segurara. Esse tipo de atitude não era típico seu. E isso só mostra o quão grande fora o impacto de minhas palavras sobre si.
E agora ela fugira, porta a fora, para o lugar que eu acabara de dizer ser perigoso. Além disso, para piorar, eu sou incapaz de me mover. Meu corpo não me obedece e permanece rijo, na mesma posição de até então.
Mas... Eu não tenho tempo para isso. Não tenho tempo para me corroer em culpa e arrependimento...
Inclino levemente a cabeça para frente, sentindo os fios negros escorregarem levemente pela minha testa. Suspiro, profundamente, enquanto me endireito e, juntando toda minha coragem e determinação, saio quarto afora.
Apresso-me para o exterior, o guarda-chuva permanecia até então em minhas mãos, fechado. A essa altura, a garota já havia desaparecido de meu campo de visão e os altos prédios não facilitariam as minhas buscas.
Mas eu não tinha outra opção além de encontrá-la, e rápido.
Eu tinha que a levar de volta á segurança.
Eu tinha que garantir que ela estaria bem.
E, por isso, eu não tenho tempo para me preocupar com mais nada. Eu certamente nunca me perdoaria se algo de ruim a acontece nesse meio tempo; até porque, de certa forma, fora minha culpa.
Talvez eu tenha abordado mal o assunto, quem sabe?...
Ou então meu erro tenha sido, na verdade, o puro fato de esconder tudo de si...
Bem, não importa. O que está feito, está feito. Certo? Ao que arrependimentos me levarão? A nada, eu te digo.
Eu agora só tenho que a encontrar; encontrá-la e garantir que o único desejo, o único pedido, de meu mestre não será descumprido. Eu tenho que garantir a segurança da Neko, pois essa foi a missão dada por ele, para mim.
Se eu não for capaz de a proteger, eu não servirei para mais nada. Afinal, um membro de clã não tem o direito de jurar proteção ao seu Rei, sendo que este nem consegue cuidar de seus companheiros.
Os meus arredores não são tão familiares quanto eu gostaria e isso apenas aumenta minha apreensão cada vez mais. E enquanto meus pés correm apressados pela calçada esburacada, as palavras de Shiro ecoam em minha mente, insistentes:
“Preciso que cuide da Neko e de si mesmo.”
Meus passos aceleram ainda mais, e meus pés levam meu corpo por ruas e estreitos que eu nunca antes percorrera. O tamanho de minha apreensão é incalculável.
O Sol arde forte e provavelmente já é pouco antes das nove horas da manhã...
Eu me pergunto onde ele estaria agora. Estaria nos vigiando, ou tinha assuntos mais importantes a tratar?
Notas finais
E os que puderem comentar, sejam leitores novos ou velhos, me deixarão muito feliz! Não exagero ao dizer que me senti um tanto decepcionada quanto à repercussão do último capítulo. =< Eu preciso de incentivo, e esse incentivo é gerado ao ver que realmente tem gente lendo - ou seja, reviews.
E, lembrando: todas as opiniões serão ouvidas, então, caso você tenha alguma crítica a dar, sinta-se a vontade. ^^
Bem, espero que tenham gostado da long até agora e espero que me acompanhem também no futuro, nos capítulos adiantes!
BJJS e até a próxima~ o/
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