Notas iniciais
Olá! Desculpe pela demora. ^^
Boa leitura a todos!

O som do contato entre meus tênis e o chão é compassado e ritmado em uma batida lenta. Levo comigo duas grandes e pesadas sacolas, uma em cada mão, e vez ou outra acabo tendo de desviar de algum obstáculo, desde lixo acumulado no caminho até pessoas jogadas pelo chão, bêbadas ou que simplesmente não terem um lugar melhor para estarem. Meus olhos, de um cinza claro e tranquilo, percorrem cada canto da larga calçada esburacada, com desconfiança, e meu corpo já se encontra pronto para qualquer rápida reação, caso uma fosse necessária.

O céu de praticamente toda a cidade de Shibuya encontra-se radiante, mas aqui, na periferia, ele não poderia estar mais nebuloso e cinzento, apesar de que ainda nenhuma gota caia das nuvens escuras. Incrível como até a condição atmosférica é contrastante; não que isso me incomode, afinal este clima mais úmido até que se torna agradável depois que você se acostuma...

O terreno baldio para onde os restos do Himmelreich haviam sido transferidos já estava logo à frente, numa das únicas esquinas desprovidas de ruínas de prédios velhos, os quais eram normalmente ocupados por miseráveis de todo tipo. Aquela região era a parte mais antiga e mal cuidada da cidade, e também o refúgio dos que não tinham para onde ir. Era um verdadeiro amontoado de sujeira e restos, mas o único local realmente adequado para Neko e eu, no momento.

Há três anos, depois de todo o alvoroço do rei Incolor e do sumiço de Shiro, o Scepter 4 voltou às suas tarefas normais, e, por acaso, o seu primeiro intento seria a destruição dos destroços do Himmelreich, que havia sido explodido durante a confusão. Apenas depois de muito esforço e insistência é que Neko e eu conseguimos uma audiência com o quarto rei, Reisi Munakata, e assim o convencemos a nos ceder a aeronave — ou o que restara dela — e uma área para podermos reconstruí-la. E assim os reparos já duram três anos.

O trabalho é árduo, afinal a aeronave é antiga e muitas de suas peças deixaram de ser produzidas no meio tempo, mas ao menos temos o tempo ao nosso favor. Não há porque termos pressa, afinal Shiro sequer voltou ainda e, enquanto trabalhamos, o albino some de nossas mentes ao menos um pouco e o tempo parece correr mais rápido, para nosso alívio; ou seja, é também uma forma de distração para nós do clã Prata, que não temos nada a fazer sem nosso rei.

Agora não resta muito mais a ser feito, tudo graças aos meus esforços em concertar a máquina, ato feito com minhas próprias mãos; o que não é nada além de minha obrigação, afinal sou um membro do clã Prata e farei o possível e o impossível pelo meu senhor, Isana Yashiro.

Deslizo os olhos, cuja tonalidade praticamente iguala-se a do céu naquele momento, ainda preso em meus próprios devaneios. Ao fim, eu era incapaz de parar de desejar o seu retorno. Justo quando eu estava entendendo novamente o que significado de não estar sozinho. Não que eu desconsidere a existência de Neko, mas não é a mesma coisa, não sem o Shiro.

Suspiro brevemente, perguntando-me desde quando eu era assim tão íntimo do garoto. Não nos conhecíamos há tanto tempo quando tudo aconteceu e, ainda assim, sinto que o seguiria ao inferno se ele pedisse. Simplesmente quero estar com ele novamente, e desta vez para sempre, até a morte.

Meus pés tocam o chão de terra batido e um tanto arenoso do terreno baldio ao mesmo tempo em que meu olhar volta enfim ao horizonte, finalmente deixando de lado o céu escurecido. Uma brisa forte e gelada balança meu longo rabo de cavalo, mostrando-me que logo choveria; as nuvens não aguentariam por mais muito tempo toda aquela umidade e logo cederiam.

Apresso-me ao interior do terreno, onde, ao centro, encontra-se o Himmelreich e, ao canto, entre a parede do prédio vizinho e uma grande e larga árvore, a barraca de tecido amarelado encontra-se montada. Meus passos voam pelo chão e o peso das sacolas torna-se subitamente desprezível, de forma que o rápido trajeto tornara-se ainda mais rápido, e logo eu já levantava o pedaço de pano que improvisava uma entrada.

Meus olhos caíram primeiramente à garota de longos cabelos brancos, que, com ares impacientes e distraídos, mantinha-se sentada num pequeno banco bem diante à porta. Mas meu olhar logo se desprendeu da figura albina e seguiu ao outro ser, que se encontrava, imponente, no lado oposto da barraca, com feições sérias, mas tranquilas. A presença do visitante surpreende-me, de forma que demoro um pouco a reagir de alguma forma.

Meu joelho bate forte na terra do chão durante minha reverência ao importante visitante. As sacolas foram repousadas rapidamente sobre o chão e eram, agora, completamente ignoradas. A jovem, ao finalmente notar minha presença, ergue-se do pequeno banco em que se encontrava sentada e sorri largo.

– Boa tarde, Segundo Rei. – proclamo, ignorando a jovem que me balançava o braço, desejando chamar minha atenção – Desculpe aparecer apenas agora, eu não sabia que o senhor estaria vindo hoje.

– Tudo bem, Kuroh. Não tem problema, afinal a falha foi minha por vir sem prévio aviso. – ele dá uma curta pausa, ao que também se ergue de seu banco, pondo-se ao meu lado e apoiando sua mão em meu ombro, amistosamente – Mas não pude evitar, pois eu estava curioso para ver como os reparos no Himmelreich estavam indo. O que ainda resta a ser feito?

– Não muito, senhor. A maior parte já foi feita ou está apenas restando finalizar ou montar, como já deve ter visto como seus próprios olhos. – digo, enquanto levanto-me, ao mesmo tempo em que tento afastar a strain que tentava se agarrar a mim, jogando-se sobre meus ombros – Na verdade, falta apenas o deck. Aquele piso está sendo difícil de arrumar, ainda mais com aquela tecnologia secreta do Adolf K. Weismann, a qual fazia o chão reagir aos seus passos... – um suspiro cansado escapa-me pelos lábios.

Afinal eu já procurava pelas misteriosas peças a um tempo considerável, mas é difícil procurar algo que você não sabe exatamente o que é; acabava por ser uma busca às cegas. As feições do senhor tornaram-se um tanto entristecidas subitamente.

– Eu queria poder ajudá-lo, Kuroh, mas tudo que eu sabia sobre a aeronave de Adolf eu já o disse. Esse tal segredo não foi conferido sequer a mim, seu melhor amigo na época, pois ele dizia que assim perderia parte da magia. Desculpe-me.

Balanço a mão diante do rosto, em movimentos sutis e desconfortáveis, enquanto um leve e educado sorriso permanece em meus lábios.

– Por favor, senhor Daikaku Kokujyōji, não se desculpe, não depois de toda a ajuda que tem nos oferecido nos últimos três anos. Não teríamos chegado os reparos tão longe, e em tão pouco tempo, sem seu financiamento e descrição tão perfeita da aeronave. Somos extremamente gratos a você, sinceramente.

– Bem... Eu também desejo ver o Himmelreich nos céus novamente. Nada mais justo que um pouco de colaboração.

Ele bate-me nas costas, enquanto sorri. Ele certamente era uma pessoa interessante, o Rei Ouro. Não que eu sequer um dia pensara que ele fazia tudo isso por bondade a nós, afinal ele tinha os seus próprios desejos egoístas, mas eu realmente apreciava cada vez mais aquela figura tão imponente.

E, além disso, é interessante ver como Adolf era para ele tão importante quanto Shiro é agora para mim.

– Porém, agora me despeço. – ele diz, de repente, pegando um chapéu de tom castanho e o pondo na cabeça.

– Mas já? Não me permitirá sequer preparar uma xícara de chá? – afinal eu sabia que Neko não havia feito nem mesmo isso, afinal ela não é do tipo que se preocupa com visitantes. Na verdade, fora-me uma surpresa que ela o estivesse mantendo companhia até agora...

– Desculpe-me, mas tenho compromissos pendentes. Tenho de ir agora mesmo, caso contrário me atrasarei. Deixaremos essa xícara de chá para outro dia, está bem?

– Certo. – digo, fazendo uma reverência rápida ao senhor que já atravessava o tecido que fingia ser uma porta.

– Depositarei mais dinheiro na conta hoje. Boa sorte com a busca e pode ter certeza que o informarei caso eu descubra mais alguma coisa.

– Certamente. – digo eu.

Aceno com a cabeça, agradecendo e despedindo-me. Logo eu já me encontrava sozinho na pequena barraca... Uma corrente elétrica percorre-me o corpo, tornando-me inquieto e confuso. Sozinho?

Rodo o corpo de um lado ao outro, mirando cada canto, mas a figura energética de cabelos claros havia realmente sumido. Levo a mão à cabeça, esfregando o local, pacientemente. Não é a toa que tudo havia subitamente se tornado tão calmo...

Aonde Neko teria ido tão de repente, sem ao menos avisar que estava de saída? Essa garota... Ela realmente não tem jeito. Bem, o jeito seria ignorar sua ausência, afinal ela teria de voltar uma hora, e aproveitar para adiantar ao máximo o serviço no Himmelreich, antes que a chuva enfim se inicie.

– Kuroh.

Viro-me em direção à porta assim que a voz da jovem me alcança os ouvidos. Ela, vestida com um largo e comprido moletom, encontra-se quieta e parada na abertura no tecido, encarando-me com afinco e preocupação. Ela se aproxima alguns passos, vagarosamente.

– Podemos conversar agora? – ela diz, um tanto impaciente.

Suspiro, pesadamente, encarando-a de forma reprovativa.

– Você devia se comportar melhor na presença do Segundo Rei e não importunar os outros quando eles conversam, ainda mais sobre um assunto tão importante. E também não suma tão de repente.

– Eu só me importo com o meu Shiro e eu fiz companhia ao Rei Ouro, não fiz? – ela diz, no típico tom infantil – Além disso, você estava me ignorando completamente e o que tenho a dizer é muito mais importante!

Sento-me no banco, puxando as sacolas e acomodando-as em um lugar mais apropriado, perto de um guarda-chuva avermelhado. Ergo um olhar severo e descrente aos olhos de tonalidades variadas da strain, que se mantinha novamente quieta, talvez esperando que eu concordasse em ouvi-la.

– Então vamos escutar o que você tem a dizer. – digo eu, simplesmente.

Ela sorri e rapidamente aproxima-se e se agacha diante de mim, dobrando os joelhos e se posicionando como um felino.

– Eu queria ter te dito isso logo de manhã, mas você já tinha saído... – a sua voz aguda soa manhosa, mas também alegre por finalmente poder dizer as palavras que, aparentemente, permaneciam estagnadas em sua garganta já há horas.

– Fale logo o que tem a dizer, Neko... – digo, impaciente.

Ela faz uma careta, desgostosa por ser apressada, ao que suspiro, brevemente. Ela enfim prossegue seu discurso.

– Eu sonhei com o Shiro. – ela diz, finalmente.

– Você sempre sonha com ele, afinal você morre de saudades do seu Shiro... – digo, um tanto impaciente por ela estar me fazendo perder o pouco tempo de trabalho que me resta antes de a chuva começar.

– Mas foi diferente! Desta vez era como se ele tivesse invadido o meu sonho. Kuroh, eu não estou mentindo. Eu juro, tenho certeza de que era realmente ele!

– Pare de falar bobagens. – esbravejo eu. – Isso é impossível.

– Kuroh, você não entende?! Foi um sinal de que ele está voltando para nós!

– Não é nada disso, é só a sua imaginação.

– Você não acredita em mim?! Eu não estou mentindo! Você vai ver! Ele vai voltar, e logo!

– Eu já disse para você se calar!

Ergo-me da cadeira, empurrando a garota com excessiva força. A voz soara mais irritada e alta do que eu desejava e, agora, sou incapaz de controlar a dor aguda que me toma o peito. Afasto-me da jovem, cujos olhos brilham por conta de umas poucas lágrimas que se acumulam no canto destes. Um alto estourar pode ser ouvido do lado de fora, junto da batida rápida das gotas contra o chão. Havia começado a chover.

– Kuroh...

– Eu... Vou dar uma volta.

– Kuroh, por favor, me escuta...

Agarro o guarda-chuva de tom vermelho que se encontra repousado próximo a mim e me encaminho ao exterior, ignorando os chamados de minha companheira. Eu preciso de um pouco de solidão no momento... Eu preciso pensar um pouco...

Caminho brevemente pela terra batida e encharcada, logo alcançando a calçada de concreto. O vento frio balança os fios negros de meu cabelo, que esvoaçam apesar de estarem ainda presos, e a chuva molha-me as pernas levemente, pois o guarda-chuva não é capaz de protegê-las.

Sinto-me ferido por dentro e minhas forças são levadas embora pela água.

Meus braços pendem e o guarda-chuva, ainda seguro firme em minha mão, deixa assim de cumprir sua função. Sou banhado por aquela água gelada que cai forte e veloz, mas que é incapaz de levar todos os meus pensamentos e sentimentos embora. Ela não é caoaz de tranquilizar-me.

Eu entendo que a Neko ama muito o Shiro e que deseja vê-lo, mais que tudo. Sei que ela é sonhadora e inocente demais, de forma que fala, às vezes, sem antes pensar sobre o efeito de suas palavras. Ela não sabe interpretar os sentimentos dos outros. Ela é egoísta e se importa apenas com os próprios problemas. Ela é, muitas vezes, um problema. Essa é minha companheira de clã, com quem tenho convivido por três anos. Eu não a odeio, apenas sinto-me incomodado vez ou outra por conta de toda a sua irresponsabilidade, afinal ela me machuca com certa frequência, mesmo sem saber.

Ela não é a única que anseia pelo retorno de Shiro... Eu também desejo vê-lo, pois ele é minha esperança. Ele me dará um futuro e um motivo para minha existência. Por isso, eu preciso dele tanto quanto ela, afinal eu também não tenho ninguém. Também estou sozinho.

Por que ela insiste em me encher de esperança com palavras vazias? Assim a dor e a decepção serão ainda maiores!

As gotas da chuva escorrem-me pelo rosto, manchando-o e, simultaneamente, ocultando minhas incontroláveis lágrimas. O cabo do guarda-chuva é esmagado por meus dedos, que tentam se segurar a alguma possível esperança, mesmo que isto seja indesejado.

Eu não desejo viver de sonhos, desejos ou esperanças. Quero viver a realidade e, ao mesmo tempo, a felicidade.

Quero que Isana Yashiro, meu precioso mestre, volte o mais rápido possível, pois é este o meu desejo egoísta. Quero-o ao meu lado novamente.

Notas finais
Obrigada aos que leram mais este capítulo.
E eu também gostaria de aproveitar e dizer que sou muito grata a todos que estão apoiando este meu projeto. Vou tentar não decepcioná-los, então por favor continuem acompanhando!! .-.
E desculpem-me. O capítulo não é muito grande e nem aconteceu nada, e além disso nada do Shiro aparecer! Eu juro que as coisas vão melhorar e se tornar mais interessantes e que o Shiro vai aparecer em breve, o mais breve possível. ^^' Eu apenas não desejo correr ainda mais a estória...
Bem, é isso.
BJJS e até uma próxima~ ^^