A Tapeçaria da Existência
1 Um ruído na gravação
O estalo acontecia a cada quatro segundos.
Leena contou seis vezes antes de aceitar que não era coincidência. Manteve os olhos no pequeno gravador aberto sobre a bancada enquanto esperava mais um ciclo, embora já soubesse qual seria o resultado. O chiado do alto-falante continuou baixo por alguns segundos, uma voz antiga surgiu no meio dele e, exatamente quando Leena esperava, o estalo seco interrompeu a gravação.
— Droga.
Ela desligou o aparelho, e a voz morreu no meio de uma frase.
Ficou imóvel diante da bancada, com uma chave de precisão presa entre os dedos e a irritação particular de quem acabara de descobrir que uma solução tecnicamente correta resolvera o problema errado. O gravador ocupava um pouco mais que a palma de sua mão. A carcaça cinza havia amarelado nos cantos, duas rachaduras atravessavam a região próxima ao compartimento de energia e uma fita transparente segurava a tampa havia tantos anos que a cola parecia ter se tornado parte do plástico. Não era um aparelho valioso segundo qualquer critério razoável, e restaurá-lo já consumira mais tempo do que seria necessário para comprar algo capaz de reproduzir a gravação com qualidade muito melhor.
Esse nunca fora o ponto.
Ao redor dele, a bancada oferecia evidências suficientes para sugerir que Leena não compartilhava uma definição convencional de organização. Duas placas abertas ocupavam o espaço ao lado de ferros de solda, três recipientes separavam parafusos que pareciam idênticos até alguém cometer o erro de misturá-los, cabos estavam enrolados em torno de uma caneca sem alça e um microscópio portátil descansava sobre uma caixa de ferramentas. Numa bandeja próxima havia componentes retirados de aparelhos que Leena já não se lembrava de possuir, embora ainda soubesse para que servia a maioria deles.
Havia também uma colher entre dois cabos de teste.
Ela não sabia por quê.
Isso não significava que a bancada estivesse desorganizada. Leena sabia onde estava tudo o que importava e, até que precisasse saber por que havia uma colher ali, considerava a questão administrativamente irrelevante.
Ligou o gravador mais uma vez.
A pequena luz vermelha acendeu com dificuldade. Um chiado baixo surgiu no alto-falante, mais limpo do que estivera na noite anterior, e então a gravação conseguiu atravessar décadas de deterioração.
— ...não põe isso na boca — disse uma voz feminina.
Uma risada de criança veio de algum ponto mais distante.
Leena inclinou ligeiramente a cabeça. Antes do reparo, as vozes pareciam atravessar uma tempestade antes de alcançar o alto-falante. Agora conseguia distinguir palavras, o arrastar de alguma coisa sobre uma mesa e, ao fundo, uma música baixa demais para identificar. A melhoria era considerável. Se tivesse parado ali, poderia ter classificado a tentativa como bem-sucedida.
O estalo veio quatro segundos depois. Ela esperou. E depois veio outro.
— Você não fazia isso ontem.
O gravador respondeu no intervalo esperado.
Ela olhou para o relógio projetado no canto da bancada e descobriu que eram 08:17. Continuou olhando até o último dígito mudar, como se a passagem para 08:18 pudesse ser negociada caso recebesse atenção suficiente.
Mas não podia.
— Merda.
Precisava ter saído oito minutos antes.
Desligou o gravador, pegou a pequena placa que substituíra naquela manhã e a ergueu contra a luz. Era nova, o catálogo indicava compatibilidade e todas as características que conferira antes da instalação estavam corretas: voltagem, frequência, dimensões e conectores. O gravador funcionava melhor depois da troca, o que tornava o novo defeito particularmente irritante.
Virou a placa.
No verso, impresso em caracteres pequenos o suficiente para parecer provocação deliberada, estava o código completo da variante.
Terminava em C7.
Ela precisava da C9.
Leena fechou os olhos por um instante. Não era uma peça incompatível. Se fosse, o problema teria sido mais fácil de identificar. A C7 operava dentro de quase todos os parâmetros necessários, o que explicava por que o aparelho funcionava e por que a busca inicial do catálogo a apresentara como substituta possível. A diferença aparecia apenas num comportamento secundário que, naquele circuito específico, provavelmente explicava o estalo periódico.
Portanto, quase correta.
E quase correto era uma categoria que ela achava particularmente irritante.
Seu comunicador vibrou sobre a bancada. Leena o alcançou sem desviar imediatamente os olhos da peça e encontrou uma mensagem de Mara.
Mara: Você ainda se lembra de sexta-feira ou preparo meu sermão sobre prioridades?
Leena olhou para a mensagem e depois para a C7 entre os dedos. Abriu a câmera, fotografou a placa e enviou a imagem sem acrescentar explicação.
A resposta levou três segundos.
Mara: Você está mexendo naquele gravador de novo?
Leena: Mandaram a peça errada.
Mara: Imagino o sofrimento. Sexta, às 20h. Pode deixar isso desmontado por uma noite.
Leena sorriu e digitou com uma mão.
Leena: Eu lembro. Vou estar lá.
Mara: Vou guardar essa mensagem.
Guardou o comunicador no bolso, recolocou a placa e remontou o gravador. Já havia perdido tempo suficiente naquela manhã e poderia procurar uma C9 depois do trabalho.
Antes de sair, porém, parou junto à bancada.
— Hoje à noite.
Olhou para o gravador e apontou um dedo para ele como se tivesse acabado de estabelecer um acordo juridicamente vinculante com um objeto incapaz de consentir. Depois saiu do apartamento.
Ela não havia andado longe da porta quando percebeu que o elevador do prédio não estava funcionando. Isso, isoladamente, não era novidade suficiente para justificar irritação adicional. Leena já havia incorporado a confiabilidade aproximada do elevador aos cálculos de deslocamento havia meses, embora normalmente a falha ocorresse no fim do dia, quando subir pelas escadas era mais inconveniente do que descer.
O problema naquela manhã estava no térreo.
Dona Emma permanecia do lado de fora da entrada principal, segurando duas sacolas de compras enquanto discutia com o painel de acesso.
— Eu moro aqui.
O painel respondeu com a serenidade sintética de um sistema que não precisava lidar com as consequências sociais de suas decisões.
— Credencial não reconhecida. Por favor, procure a administração do edifício.
— Eu sou a administração do edifício.
— Credencial não reconhecida.
— Mas eu reconheço você, sua porcaria!
Leena parou junto à porta.
— Bom dia, dona Emma. Está assim há muito tempo?
A mulher virou o rosto para ela.
— Uns quinze minutos. Saí para comprar pão e agora isso não me deixa entrar. Já passei a credencial de tudo quanto é jeito.
Leena aproximou o pulso do leitor. Imediatamente, a luz ficou vermelha.
ACESSO INDISPONÍVEL.
— Também não quer você — observou Emma.
— Pelo menos é consistente.
Ela se agachou diante do painel. A tampa inferior possuía dois parafusos aparentes e um terceiro escondido sob o lacre de manutenção. Conseguiria abrir aquilo em pouco tempo. Provavelmente descobriria o problema em dois minutos e, com sorte, resolveria em mais três.
Mas também receberia uma notificação da administradora explicando, em aproximadamente seis páginas, por que moradores não deveriam violar lacres de sistemas certificados de segurança predial.
Levantou os olhos para a câmera acima da entrada. A lente permanecia voltada para a porta.
— Melhor chamar a manutenção.
— Se for pelo aplicativo, já chamei. Disseram que receberam a solicitação.
— Vou tentar falar com alguém.
Leena abriu o comunicador e acionou a central de manutenção. Uma voz sintética informou que o tempo estimado de espera era de quatro minutos. O relógio marcava 08:26.
Emma ajeitou as sacolas nas mãos.
— Pode ir, minha filha. Você não tem que trabalhar?
— Dá tempo. Deixa isso no chão, vai machucar seus dedos.
A espera de quatro minutos durou seis. Quando uma pessoa finalmente assumiu o atendimento, Leena precisou explicar o problema três vezes, fornecer duas vezes o código do edifício e convencer o atendente de que reiniciar o terminal pelo menu interno não era uma alternativa particularmente útil quando o problema do terminal consistia em não autenticar as credenciais de ninguém, o que impossibilitava o acesso ao menu interno.
O atendente pediu que aguardassem. Dona Emma colocou as sacolas no chão e começou a examinar o pão como se considerasse a possibilidade de terminar o café da manhã ali mesmo na entrada.
Quando o atendente voltou, pediu que Leena aproximasse novamente a credencial.
Ela obedeceu.
Vermelho.
— Continua bloqueado.
— A senhora poderia manter a credencial junto ao leitor por alguns segundos?
Leena apoiou o pulso diante do painel e esperou.
— A luz ainda está vermelha. Apareceu alguma coisa aí?
Houve outra espera, mais duas tentativas e uma breve discussão entre o atendente e alguém que Leena não conseguia ouvir. Na quarta tentativa, a central finalmente enviou uma autorização temporária diretamente ao painel. A luz ficou verde e logo depois veio o som da porta destravando.
Dona Emma ergueu as sobrancelhas enquanto recolhia as sacolas.
— Sabia que você ia dar um jeito.
— Mandaram uma liberação temporária. Ainda precisam consertar.
Leena segurou a porta para que ela entrasse.
— Para mim, abriu, está consertado.
— Então aproveita antes que mude de ideia.
Emma entrou, mas parou antes que a porta se fechasse e chamou Leena pelo nome. Quando ela olhou para trás, a mulher ergueu ligeiramente a sacola.
— Obrigada.
A resposta automática seria dizer que não fora nada. Leena quase a usou, mas seis minutos de espera, quatro tentativas e um atraso que continuava aumentando constituíam objetivamente alguma coisa.
Fez apenas um gesto curto com a mão.
— Até mais, dona Emma.
Leena esperou a porta fechar atrás de dona Emma antes de consultar o horário. Guardou o comunicador e apertou o passo, passando direto pela padaria da esquina. Na estação, dois quarteirões adiante, o aviso de chegada do trem soou enquanto ela atravessava a catraca. Desceu os últimos degraus depressa e entrou no vagão com tempo apenas de se afastar das portas antes que fechassem.
Não havia lugares vagos. Leena se segurou numa barra e enviou a Ivo uma mensagem avisando que estava a caminho. Ele respondeu com a fotografia de um copo de café sobre a mesa dela. Só então percebeu que não tinha comido nada. Guardou o comunicador e procurou no painel a contagem de paradas até o complexo administrativo.
O Departamento de Investigação Criminal ocupava o décimo andar de um edifício de administração pública na zona central. A rota mais evidente passava pela entrada principal, pelo controle de acesso e pelos elevadores que atendiam aos andares administrativos. Leena não utilizava essa rota havia bastante tempo.
O transporte rápido tinha uma conexão direta com os níveis inferiores do complexo, de onde um elevador secundário subia quase até o departamento. Em condições normais, a diferença era de aproximadamente três minutos.
Três minutos não pareciam particularmente relevantes quando considerados uma única vez. Multiplicados por duas viagens diárias, cinco dias por semana e aproximadamente quarenta e oito semanas úteis por ano, começavam a representar uma quantidade de tempo que Leena considerava suficientemente grande para justificar a mudança de hábito.
Fizera a conta uma vez.
Nunca mais precisara fazê-la.
Por isso, quando as portas do elevador se abriram no décimo andar, Leena já sabia quanto tempo perdera com o gravador, quanto fora consumido pela situação de dona Emma e quanto poderia recuperar se não parasse para comprar café.
O Departamento já estava acordado. Terminais projetavam relatórios sobre mesas, conversas atravessavam divisórias e uma das três equipes de suporte técnico discutia ao redor de um monitor portátil aberto. Alguém havia deixado duas caixas de comida sobre uma estação vazia com um bilhete dizendo PEGUEM, instrução que aparentemente metade do departamento interpretava como obrigação imediata.
Quarenta e dois investigadores ativos trabalhavam ali, além das equipes técnicas, dos dois supervisores de turno e da chefe do departamento, que havia sido uma investigadora excelente antes de uma promoção transformá-la numa administradora adequada. Leena considerava o resultado melhor do que a maioria das promoções conseguia produzir.
Para ela, isso bastava.
A chefe do departamento a cumprimentou pelo nome quando ela atravessou a entrada. Durante os primeiros meses, Leena considerara impressionante que ela parecesse lembrar de todos os funcionários. Depois descobrira que o reconhecimento facial do acesso enviava ao terminal dela o nome de cada pessoa assim que entrava.
A habilidade perdera parte do encanto.
Ela continuava usando-a.
— Bom dia, Leena.
— Bom dia.
Marcos Veil estava na mesa dele quando ela passou, o que por si só não ajudava a determinar se chegara cedo ou simplesmente nunca fora embora. Aos cinquenta e oito anos, vinte e seis deles passados no Departamento, Marcos adquirira a aparência de alguém que dedicara décadas a aperfeiçoar a habilidade de parecer mais relaxado do que realmente estava. O cabelo grisalho havia abandonado qualquer compromisso com a intenção estética, e sua postura sugeria permanentemente que estava prestes a levantar, embora raramente o fizesse tão cedo quanto o corpo prometia.
Também havia o café.
Sempre havia um copo de café na mão de Marcos. Leena não se lembrava da última vez que o vira beber.
Ele ergueu os olhos quando ela passou, consultou o relógio e voltou a olhar para ela sem dizer nada.
— Nem começa.
Marcos levantou o copo numa saudação discreta.
— Só ia dar bom dia.
— Sei.
Ela seguiu até a própria mesa.
Ivo, seu parceiro desde que começara no Departamento alguns anos antes, a esperava na mesa ao lado. Ao contrário de Marcos, não demonstrou qualquer interesse em desperdiçar a oportunidade.
— Vinte minutos.
Leena colocou o casaco sobre a cadeira.
— Vinte e sete.
Ivo piscou.
— Você está corrigindo o próprio atraso?
— Se vai reclamar, reclama com precisão.
— Certo. Vinte e sete minutos. Aconteceu alguma coisa?
— A porta do prédio resolveu não reconhecer mais ninguém. Dona Emma estava presa do lado de fora.
Ivo empurrou um copo na direção dela.
— Ainda deve estar quente.
O cheiro resolveu a identificação antes que Leena precisasse olhar.
— Obrigada.
Ela experimentou o café.
Estava ruim.
— Foi na máquina daqui?
— A outra estava em manutenção.
Leena tomou outro gole mesmo assim e ativou o terminal.
Na parede principal, o painel de ocorrências atualizava a fila conforme novas informações chegavam. Havia furtos, fraudes de identidade, violação de acesso, dois conflitos comerciais, uma agressão ocorrida durante a madrugada e um veículo autônomo que aparentemente decidira ignorar três quarteirões de regras de trânsito antes de terminar dentro de uma fonte pública. Nada exigia imediatamente a atenção dela.
— Peguei uma ocorrência para nós — disse Ivo. — Um técnico se feriu no Terminal Planar Norte. O relatório está aí.
Leena abriu o arquivo.
INCIDENTE TÉCNICO — TERMINAL PLANAR NORTE
SETOR DE MANUTENÇÃO 4C
EQUIPAMENTO: ESTABILIZADOR PLANAR AUXILIAR
ESTADO PROGRAMADO: ISOLADO
EVENTO: ATIVAÇÃO NÃO PROGRAMADA
FERIDOS: 1
CAUSA PRELIMINAR: FALHA DE PROCEDIMENTO OPERACIONAL
Ela continuou lendo.
O funcionário ferido chamava-se Cael Dorn, técnico de manutenção de segundo nível com seis anos de trabalho no terminal. Sofrera queimaduras nos braços e no lado esquerdo do pescoço, sem risco imediato de vida. O estabilizador deveria estar isolado para manutenção quando entrara em atividade, e o sistema registrara uma interrupção da sequência de segurança vinte e dois segundos antes da ativação.
A conclusão preliminar estava praticamente pronta.
Erro humano.
— O terminal recomendou o encerramento — acrescentou Ivo. — Mas houve um ferido com o equipamento sob isolamento. Precisa passar por nós.
Leena procurou o horário do acidente e depois o horário em que a classificação fora inserida.
— Quarenta e três minutos entre o acidente e a conclusão. Foram rápidos.
Ivo se aproximou da tela.
— O registro aponta uma interrupção do isolamento. Devem ter partido disso.
— E o técnico?
— Contesta. Está no depoimento, mais abaixo.
Era uma transcrição automática produzida no posto médico do terminal. As perguntas seguiam um formulário padronizado e as respostas eram curtas.
O EQUIPAMENTO FOI DEVIDAMENTE ISOLADO ANTES DA INTERVENÇÃO?
Sim.
O OPERADOR CONFIRMA TER EXECUTADO TODAS AS ETAPAS DO PROTOCOLO 4C-17?
Sim.
O SISTEMA REGISTRA INTERRUPÇÃO DO PROCEDIMENTO DE ISOLAMENTO. O OPERADOR RECONHECE A INTERRUPÇÃO?
Não.
O OPERADOR DESEJA CONTESTAR O REGISTRO AUTOMÁTICO?
Sim.
No final do documento, uma observação médica informava que a entrevista havia sido conduzida onze minutos depois do atendimento inicial. Leena voltou às perguntas. Todas pediam que Cael confirmasse o procedimento ou reconhecesse a interrupção registrada pelo sistema. Nenhuma pedia que descrevesse o que fizera.
— Ele ainda está no terminal?
— No posto médico, pelo que consta.
Leena fechou a transcrição.
— Vamos falar com ele.
Ivo indicou os registros abertos em seu terminal.
— Eu ia conferir a telemetria primeiro. Se aparecer em que etapa o isolamento falhou, já chegamos com uma pergunta melhor.
— Consegue levar no comunicador? Quero ouvir a sequência dele também. Isso aqui só pergunta se concorda ou não com o sistema.
Ivo voltou à transcrição e percorreu as últimas linhas.
— Não tem relato nenhum além disso?
— Não.
— Certo. Vou pedir os dados completos no caminho. Só mandaram o resumo.
Leena pegou o casaco que acabara de colocar em cima da cadeira.
O registro poderia estar correto e Cael poderia estar enganado, tentando proteger o emprego ou simplesmente reconstruindo a própria memória depois do acidente. Leena não tinha razão para acreditar nele em detrimento dos sistemas. Também não tinha razão para tratar a versão automática como conclusão antes de verificar uma divergência que custaria menos de uma hora para investigar.
Ivo transferiu os arquivos para o comunicador, levantou-se e pegou o café.
Leena olhou para o copo.
— Vai levar isso?
— Ainda preciso acordar.
Ela terminou o próprio café antes de responder.
— Justo.
Ivo jogou o copo vazio no coletor junto à saída e acompanhou Leena até os elevadores. Enquanto esperavam, terminou de enviar a solicitação à central do terminal.
— Pedi os registros completos e o histórico de manutenção. Devem liberar até a gente chegar.
Leena apertou o botão de descida.
— Vamos pela estação. Tem uma linha direta para o Norte.
— Eu sei pegar um trem, Leena.
— Só estou avisando.
As portas se abriram. Havia uma mulher com um carrinho de limpeza ocupando metade da cabine. Os dois se acomodaram no espaço restante, e Ivo esperou o elevador começar a descer antes de guardar o comunicador.
— Consertou o gravador?
Leena olhou para ele.
— Por quê?
— Ontem você disse que só faltava uma peça. Achei que hoje teria boas notícias.
— A peça veio errada.
— Ah.
— Quase certa, na verdade. O que foi pior. Passei um tempão tentando descobrir um defeito que eu mesma tinha acabado de colocar nele.
Ivo puxou a manga do casaco para afastá-la de uma das rodas do carrinho.
— Você escolheu ou mandaram errado?
Leena demorou um instante para responder.
— Eu escolhi. O catálogo indicava como compatível.
— Entendi.
— Esse “entendi” veio com alguma coisa.
— Não, estou aprendendo. Quando você escolhe a peça errada, a peça vem errada.
A mulher do carrinho soltou uma risada curta sem tirar os olhos do indicador de andares.
Leena cruzou os braços.
— O catálogo estava errado também.
— Claro.
O elevador parou nos níveis inferiores. Ivo segurou a porta enquanto a mulher saía com o carrinho, e os dois seguiram pelo corredor que ligava o edifício à estação.
No painel acima das catracas, o próximo trem para o Norte estava a dois minutos.
— E agora? — perguntou Ivo.
— Vou trocar na volta.
— A loja perto da praça?
Leena aproximou o pulso do leitor e atravessou a catraca.
— Se tiverem a variante certa.
— Me lembra de ir com você. Preciso devolver um cabo.
Ela esperou que ele passasse.
— Comprou o errado?
— Veio errado.
Leena olhou para ele. Ivo continuou andando.
Na plataforma, precisaram contornar um grupo reunido diante do mapa das linhas. O trem chegou antes que alcançassem a metade do percurso, e entraram pela porta mais próxima.
Havia dois lugares vagos no fundo do vagão.
Ivo sentou-se junto à janela e acomodou o comunicador sobre o joelho. Leena ficou ao lado dele, tirou do bolso a embalagem da placa e fotografou o código para consultar o estoque da loja.
— Você trouxe? — perguntou ele.
— Para trocar.
— Achei que fosse para mostrar a alguém que o catálogo estava errado.
— Posso fazer as duas coisas.
O aviso de fechamento das portas interrompeu a resposta de Ivo. Ele balançou a cabeça e abriu os arquivos da ocorrência.
Quando o nome do Terminal Planar Norte apareceu no painel do vagão, Leena ainda não havia encontrado a C9 em estoque.
O Terminal Planar Norte ocupava seis níveis e se estendia por quase dois quarteirões. Leena e Ivo atravessaram o salão de embarque entre passageiros com malas, funcionários uniformizados e gente que olhava para o horário com a expressão de quem já estava atrasado para o trabalho.
Um aviso anunciou que a próxima travessia sofreria um atraso de oito minutos. Houve alguns resmungos. Perto de Leena, um homem levou o comunicador ao ouvido.
— Vou chegar depois. Não, ainda estou em Aster.
Ela contornou uma família parada no meio da passagem. Além das barreiras de acesso, um dos grandes arcos permanecia ativo. Do outro lado, passageiros atravessavam uma plataforma sob uma luz de fim de tarde.
Na primeira vez que fizera aquela viagem, ainda criança, Leena passara boa parte da volta tentando entender como podia estar anoitecendo num mundo se ainda era de manhã em casa. Anos depois, perdera a última travessia por esquecer de conferir qual dos dois horários estava no bilhete.
Ivo diminuiu o passo para deixar passar uma mulher puxando duas malas.
— Passei por aqui no sábado. Minha irmã está morando a vinte minutos do terminal de lá.
— Ela se mudou mesmo? Pensei que ainda estivesse procurando.
— Achou um apartamento maior pelo que pagava no antigo. Agora não fala de outra coisa. Você precisa ver a cozinha, o espaço, a vista...
— Está tentando te convencer também?
— Achei que estava. Aí cheguei lá e tinha um armário esperando para subir dois andares.
Leena olhou para ele.
— Ela não avisou?
— Disse que precisava de uma ajudinha depois do almoço.
— Você conhece sua irmã.
— Pois é. O almoço estava bom, pelo menos.
Uma nova chamada de embarque cobriu parte da conversa. Ivo esperou o aviso terminar antes de continuar.
— Mas ela fez um bom negócio. Está chegando ao trabalho mais rápido do que antes. Mais rápido do que eu, aliás.
— Você podia tentar ir de trem. Tem uma estação a seis minutos da sua casa.
— E fazer o trajeto inteiro em pé? No carro eu sento, ouço minhas coisas...
Uma mala bateu de leve no tornozelo dele. Ivo se afastou para deixar o passageiro passar.
— E ninguém faz isso — acrescentou.
Leena esperou que ele voltasse a acompanhá-la.
— No carro, espero que não.
Adiante, Ivo conferiu a sinalização e indicou uma porta lateral.
— É por aqui.
Leena se afastou do fluxo de passageiros e procurou a credencial.
O setor de manutenção ficava abaixo das áreas destinadas aos passageiros e não fazia esforço para parecer agradável. Tubulações percorriam paredes e teto, cabos desapareciam sob o piso, portas reforçadas separavam sistemas que Leena presumiu terem boas razões para permanecerem separados, e etiquetas técnicas ocupavam superfícies que nos níveis superiores receberiam publicidade ou instruções de embarque.
O estabilizador auxiliar 4C estava desligado quando Leena e Ivo chegaram. Duas faixas de isolamento bloqueavam o corredor. Um engenheiro e um técnico da segurança do terminal os receberam antes que se aproximassem.
— Vieram por causa do acidente?
Ivo mostrou a identificação, e Leena apresentou a dela logo em seguida.
— Departamento Criminal. Estamos com a ocorrência do Cael Dorn.
Enquanto o segurança conferia as credenciais, o engenheiro indicou o equipamento além da barreira.
— Mantivemos tudo como estava. As fotos e os registros já foram enviados.
— Recebemos — disse Ivo. — Pedi também a telemetria completa. Você consegue verificar se estão separando?
— Vou falar com a central. Faltou alguma coisa no relatório?
— Queremos esclarecer a interrupção do isolamento — respondeu Leena.
O estabilizador ocupava boa parte da sala, um cilindro de quase três metros cercado por anéis de contenção e ligado ao restante da infraestrutura por cabos grossos que desapareciam no piso. Próximo ao painel lateral, parte da parede estava escurecida pela descarga.
— A sequência não foi concluída — disse o engenheiro. — Foi por isso que classificamos como erro operacional.
— O registro mostra em que ponto ele interrompeu?
— O resumo acusa a interrupção. O detalhamento fica com a central.
Leena voltou os olhos para ele.
— Então vamos precisar desse detalhamento.
O engenheiro hesitou antes de pegar o comunicador.
— Vou pedir que deem prioridade.
— Obrigado — disse Ivo. — E o Cael continua no posto médico?
Cael Dorn estava sentado numa pequena sala do posto de atendimento do terminal, com o braço esquerdo coberto por uma película médica transparente. As queimaduras se estendiam até parte do pescoço, mas o relatório estava correto ao classificá-las como não fatais. Pela maneira como mantinha a mandíbula rígida e acompanhava qualquer pessoa que entrava na sala, Leena teve a impressão de que naquele momento estava mais preocupado com o que aconteceria depois do acidente do que com a dor.
— Já respondi às perguntas — disse ele quando se apresentaram. — Está tudo no relatório.
— Nós lemos — respondeu Ivo. — Viemos esclarecer algumas coisas que não aparecem ali.
Leena puxou uma cadeira. Ivo ficou próximo à porta, com o comunicador na mão.
— Está em condições de conversar um pouco? — perguntou ela.
Cael olhou de um para o outro.
— Estou. Mas eu não vou dizer que interrompi o isolamento.
— Quero que me conte o que fez, desde o começo.
Ela apoiou o comunicador sobre a mesa.
Cael baixou os olhos para o aparelho e depois voltou a encará-la.
— Eu isolei o estabilizador. Cortei a alimentação primária, esperei a confirmação e coloquei o bloqueio físico. Fiz a leitura da carga residual, esperei os noventa segundos e medi de novo.
— As duas leituras deram zero?
— As duas. Só abri o painel depois disso.
Leena esperou que ele continuasse.
— Tirei a tampa e comecei a inspeção. Não tinha dado nem dois minutos quando ele entrou em atividade. Eu ainda estava ali, na frente.
Cael deslocou o braço ferido sobre o apoio da cadeira e parou, apertando os lábios.
— Conseguiu perceber alguma coisa antes da descarga? Um aviso, alguma mudança no equipamento?
— Não teve aviso. Eu estava olhando para dentro do painel. Se apareceu alguma coisa na tela, não vi, mas o alarme não tocou.
Ivo consultou o comunicador.
— Nesse intervalo, você chegou a mexer nos controles? Para consultar uma leitura, por exemplo?
— Não. Depois que abri, não toquei mais neles.
— Certo.
Ivo registrou a resposta. Cael acompanhou o movimento dos dedos dele.
— O que vocês receberam diz que eu desliguei o bloqueio?
— Diz que a sequência foi interrompida — respondeu Ivo. — Não identifica a ação que causou isso. Estamos pedindo o registro completo.
Cael se acomodou um pouco melhor na cadeira.
— Porque eu não desliguei nada. Faço esse procedimento quase todo dia.
— Tinha outra pessoa trabalhando no sistema? — perguntou Leena.
— Não deveria ter. O equipamento estava reservado para a minha intervenção.
— Você chegou a confirmar ou estava contando com a reserva?
Ele hesitou.
— Estava contando com a reserva. Não falei com ninguém da central antes de abrir.
Ivo fez outra anotação.
— Vamos conferir os acessos também.
Leena apoiou os antebraços na mesa.
— Alguma coisa saiu diferente do habitual? Mesmo que não tenha parecido importante na hora.
Cael ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não que eu lembre. As leituras estavam normais. O painel abriu normalmente. Até ligar, estava tudo como sempre.
— Já teve problema com esse procedimento antes?
— Problema de leitura, sim. Às vezes sobra carga e precisa esperar mais. Mas aí eu não abro.
— Aconteceu recentemente?
— Com esse estabilizador, não.
Leena assentiu. Não disse que acreditava nele, porque ainda não sabia se acreditava. Também não tinha motivo para anunciar o contrário.
— Por enquanto é isso. Se lembrar de mais alguma coisa, mesmo depois que sair daqui, entra em contato.
Ela enviou os dados do departamento ao comunicador dele e recolheu o próprio aparelho.
Cael olhou a notificação, mas não se levantou.
— Meu supervisor já recebeu esse relatório?
— Não sei para quem o terminal enviou — respondeu Ivo.
— Ele vai ler erro operacional e achar que fui eu.
Leena manteve a cadeira no lugar.
— A nossa apuração ainda está aberta. Vamos comparar o que você contou com os registros e com o que ficou no equipamento.
— E se o registro disser a mesma coisa?
— Vamos conferir o que sustenta essa conclusão — disse ela. — Foi por isso que viemos falar com você.
Cael passou o polegar pela borda do comunicador.
— Certo.
As fotografias produzidas pela segurança do terminal eram melhores do que Leena esperava. Sentada numa bancada improvisada no setor de segurança, passou por elas lentamente enquanto Ivo analisava os registros técnicos.
O painel aberto aparecia de vários ângulos, assim como as ferramentas de Cael, as marcas deixadas pela descarga, os conectores e o módulo de controle. A sequência das imagens ajudava a reconstruir o estado do local antes que a equipe de segurança começasse a desmontar qualquer coisa.
— A central mandou uma confirmação — disse Ivo. — Isolamento iniciado às nove e quarenta e dois, interrompido às nove e quarenta e quatro. Mas continua sem identificar o que interrompeu.
Leena continuou examinando uma fotografia.
— Nem se foi comando manual ou automático?
— Não. Pedi os eventos brutos e devolveram outra versão do resumo.
Ele abriu a resposta que enviara à central.
— Estou tentando descobrir se falta informação na exportação ou se o sistema realmente não registrou.
— Me avisa quando responderem.
Passou para a imagem seguinte e depois para outra. Nada chamou atenção. Voltou uma fotografia quando percebeu que havia avançado antes de examinar completamente a lateral do estabilizador.
Ivo continuava lendo quando Leena aproximou dois dedos da tela.
No canto da fotografia, parcialmente escondido pelo braço de um técnico, aparecia o painel lateral do estabilizador. A resolução piorou com a ampliação, mas uma pequena etiqueta de inspeção presa ao módulo interno continuava legível.
— Ivo, confere o lote desse módulo para mim?
Ele abriu o cadastro do equipamento.
— O de controle?
— Esse.
Ela indicou a peça na fotografia.
Ivo percorreu o arquivo.
— Setenta e dois. Instalado há três anos, revisão geral há oito meses.
Leena ampliou um pouco mais a imagem e virou a tela na direção dele.
Abaixo do selo de inspeção havia uma sequência curta.
L-68.
Ivo aproximou a cadeira.
— Aqui está sessenta e oito.
Voltou ao cadastro, conferiu a identificação do módulo e depois olhou novamente para a fotografia.
— Pode ter sido substituído na revisão e ninguém atualizou isso.
— Pode. Tem a relação de peças trocadas?
— Não nesse arquivo. Vou pedir a ordem de serviço.
Leena manteve a imagem aberta enquanto ele escrevia.
A etiqueta podia ter sido trocada durante uma manutenção. Podia representar erro de cadastro, reaproveitamento de material ou uma prática interna perfeitamente banal que ninguém considerava necessário documentar. Podia até pertencer a uma peça que não tinha qualquer relação funcional com a ativação.
Provavelmente não tinha.
Mas o estabilizador que deveria permanecer isolado entrara em atividade, o registro dizia que a sequência fora interrompida sem informar como ou por quem, e agora havia dentro dele uma identificação que não correspondia ao lote registrado.
Nenhum desses fatos explicava os outros.
Ainda assim, estavam todos errados no mesmo lugar.
— Vai procurar o lote? — perguntou Ivo.
Leena abriu o histórico de manutenção.
— Quero saber se esse módulo podia estar aí.
— Eu confiro se houve troca. Se a ordem de serviço bater com a etiqueta, pelo menos resolvemos o cadastro.
Ela pesquisou pelo lote sessenta e oito.
Quatro resultados apareceram.
Ivo afastou o copo vazio e abriu espaço para o terminal.
— Ainda acha que terminamos em menos de uma hora?
Leena olhou para os quatro arquivos.
— Eu não devia ter falado isso.
Ele puxou o primeiro relatório de manutenção.
— Não devia.
Leena abriu o primeiro registro e começou a ler.
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