A Tale of Terraria
1 Slimes, Árvores e Zumbis.
Azul. O céu estava azul. Logo uma nuvem manchou o azul de branco e outras a seguiram. A leve brisa tocou meu rosto. Senti a grama recém molhada em meu braço. O vento aumentou e folhas de uma arvore próxima caíram em mim. Pássaros cantavam, um coelho se aproximou de minha mão. A temperatura era tão agradável, tudo era tão agradável. Estava no Paraiso... ou talvez não, como em breve descobriria.
ploc ploc ploc .... PLOC
Subitamente algo pulou em mim. Senti algo gosmento, gelatinoso e gelado no meu rosto. Minha visão se tornou turva e ficou difícil de respirar. Comecei a me sentir asfixiado, como se tivesse me afogando. Esse sentimento não durou muito. A falta de ar deu lugar a uma sensação de anestesia e prazer. Estava fechando os olhos quando uma flecha penetrou a gosma em cima de mim. Entrou rápido, diminuiu sua velocidade e saiu levando a criatura junto. O céu azul retornou e a sensação de anestesia passou. Um homem alto armado de um arco surgiu no meu campo de visão.
—Ah, mandaram mais um? Eles não cansam?—Virou então o rosto para mim e me estendeu a mão—Hey garoto, o que acha de se levantar?
—Ahn? Oque?
O homem soltou um suspiro e disse:
—É sempre assim, vamos, levante —pegou meu braço e me colocou de pé—melhor assim —lançou me uma bolsa— toma sua mochila. Então garoto, qual seu nome?
—Desculpe, eu não lembro... não, eu lembro sim. Me chamo Ômega. Você é?
—Hum, tenho muitos nomes, mas muitas pessoas me chamam de Guide. Hum... Jeff, me chame de Jeff
—Certo, Jeff, mas onde estou? O que está acontecendo? O que era aquilo?
—Você pergunta de mais jovem. Mais tarde tentarei sanar suas dúvidas, mas primeiro você precisa construir um abrigo. O sol vai se pôr em três horas e você não vai querer ficar ao ar livre à noite, não no seu estado.
—Como? Perdão, eu não entendo.
—Esse é mais burro que os anteriores. Abra sua mochila, tem um machado aí dentro. Esse mesmo. Agora, vê aquela arvore? Derrube ela.
Com o machado em minhas mãos bati na arvore. Nada aconteceu, mas o homem, Jeff, me mandou continuar. Continuei batendo na arvore e eventualmente algo aconteceu. Por alguma razão esperava que ela fosse cair, mas para minha surpresa ela se despedaçou e toras de madeira choveram do céu. Novamente me surpreendi: esperava que fossem me atingir, mas antes de baterem em mim sumiram.
—Ótimo. Abra sua mochila agora, coloque a mão lá dentro e pense que está segurando um pedaço de madeira.
Enfiei a mão dentro da mochila como Jeff disse e pensei na madeira. Como mágica senti a tora em minhas mãos, puxei e de dentro da pequena mochila saiu um enorme pedaço de madeira.
—Isso garoto! Você deve ser algum tipo de gênio. Agora o próximo passo. Feche os olhos e sinta a madeira em suas mãos, sinta a madeira que ainda está na sua bolsa. Imagine dez delas. Agora imagine as dez como uma só e aos poucos dê a forma de uma mesa pequena e plana, que te permita trabalhar.
Fiz exatamente como me disse e quando abri os olhos eu estava segurando uma pequena mesa de trabalho. Fiquei maravilhado, mas continuava confuso.
—E agora?!
—Agora? Agora que você já sabe acessar seu inventário e manufaturar itens é hora de dar o próximo passo. Sinta sua mochila, quanto de madeira ainda tem aí dentro?
—Cerca de sete toras.
—Certo. Derrube mais arvores. Você vai precisar de mais umas 250. No seu inventário deve ter também uma picareta de cobre e uma adaga de cobre. Mine algumas pedras no caminho e não se preocupe com os slimes, eu vou te cobrir.
—Slimes?
—Depois eu explico.
Após cerca de duas horas eu juntei tudo que me foi requisitado.
—Tem tudo aí?
—Sim.
—Certo, já está quase anoitecendo então você vai ter que ser rápido. Primeiro pegue algumas toras e imagine elas uma em cima das outras, como se quisesse fazer uma parede. Repita isso nas quatro direções até fechar um quadrado.
A madeira, sem precisar de cola ou pregos, ficou grudada uma na outra com uma aparência resistente.
—Agora faça o mesmo na horizontal acima de nós e abaixo, feche o teto e faça um chão. Boa garoto! Chupa gravidade.
—Está um pouco escuro aqui.
—Sim, mas não por muito tempo. Aquelas criaturas gosmentas que te atacaram antes se chamam slimes. São bem burros e fracos sozinhos, mas em grupo podem ser letais. Eles secretam uma substancia chamada gel que anestesia a vítima. Contato continuo com gel pode te fazer desmaiar. Depois que a vítima para de lutar eles se dissolvem em cima de ti. Os corpos dessas criaturas são feitos puramente de gel e ácido digestório. Passe algumas horas ali você vira um suco de nutrientes e logo será absorvido. Aquele slime que te atacou te pegou de surpresa e por isso já estava secretando gel, mas caso eles estejam sem um revestimento de gel e te toquem você pode sentir um choque, ou queimadura, depende do slime, então tenha cuidado. Bem, vamos ao que interessa, o gel é altamente inflamável. Tente misturar um pouco com madeira.
—Oh, uma tocha.
—Sim, faça várias, você vai precisar. Coloque algumas aqui dentro.
—O que mais devo fazer?
—Tem três coisas que você deve fazer agora. Tornar essa casa habitável, conseguir uma armadura e algo melhor para se defender. Primeiro a casa. Bem, você não está sentindo uma sensação estranha? Como se ainda estivesse ao ar livre?
—Sim, não compreendo.
—Tente criar uma mesa normal, uma cadeira e uma porta. Depois coloque-os como achar melhor.
—Qual a relação?
—Tente.
Criei a mesa e a cadeira e as coloquei num canto. Depois fiz uma porta e a coloquei num buraco que havia feito na parede. Subitamente senti algo mudar no ambiente. Mesmo com tochas ainda era difícil de enxergar, mas agora podia ver tudo perfeitamente. O frio e a sensação de estar em perigo sumiram e deram espaço para o calor de aconchego de um lar.
—O que aconteceu? Me sinto tão mais... seguro?
—Ha. O mundo reconheceu sua construção como uma casa. Monstros não vão aparecer aqui e suas feridas se curarão mais rápido.
—O mundo?
—É, em alguns lugares chamam de Gaia a força que governa o mundo. Aqui chamamos de Terraria.
—Wow, você disse isso e foi como se do nada eu entendesse completamente o que você disse. Tem tanta informação na minha cabeça agora. Vejo também coisas que posso fazer com as coisas que tenho. O que está acontecendo?
—Ah, finalmente você está acordando então. É assim mesmo, não sei como funciona. Bem, ainda temos dois problemas a resolver. Agora seu cérebro está conectado com sua mochila você já deve saber como prosseguir.
—Sim.
Fiz uma cota, elmo e perneira de madeira e os vesti. Na verdade, não precisei vesti-los, apenas precisei segura-los em minha mão e pensar que estavam em meu corpo. Imaginei que me sentiria pesado, mas na verdade nada mudara, continuava leve. Esculpi então uma espada longa de madeira, a adaga que eu tinha era feita de cobre, mas seu alcance era muito pequeno.
—Bom, bom. Recomendo fazer também um arco e flechas. Nesse mundo versatilidade é tudo.
Após criar o arco e flecha fui chegar minha mochila, mas quando toquei minhas costas notei que não tinha mais nada lá.
—Onde foi parar minha mochila? Ela sumiu.
—Ela continua com você, mas não nas suas costas. Ela está em outro lugar, mas você pode acessá-la normalmente. Não vê nada diferente?
—Agora que mencionou, eu consigo ver tudo que está na minha mochila. Como isso é possível?
—Não me pergunte, eu sou o guia, mas não tenho todas as respostas.
—Falando nisso, Jeff, quando nos encontramos você disse que eu era “mais um”, o que significa isso? Há outros?
—Bem, de tempos em tempos esse mundo se transforma e pessoas como você aparecem. Você não é o primeiro, talvez não seja o último.
—Existem outros então? Onde estão?
—Err, sim. Basta olhar pela janela.
Olhei e vi olhos gigantes flutuando e corpos em decomposição andando.
—São zumbis, os corpos sem alma daqueles que vieram antes de você e falharam. À noite eles saem da terra e vagam pelo mundo, devorando todos aqueles que tiverem o azar de cruzar com eles.
—Oh...
—Bem, não fique desanimado, existem outras pessoas por aí. Mas a maioria deles são como eu, reencarnantes.
—Reencarnantes?
—Sim. Por mais que morramos sempre iremos reencarnar num corpo igual, talvez com outro nome, mas sempre voltamos. As memórias que ganhamos após encontrar vocês, passageiros, são perdidas para sempre, no entanto. Ah as vezes aparecem mais de um passageiro por vez, mas eles aparecem sempre aqui perto uns dos outros então já teríamos encontrado se houvesse outro.
—Bem, supondo que há outra pessoa e você não encontrou ela.
—Certo.
—Você esteve comigo o tempo todo e me ensinou todas essas coisas.
—Certo
—Então essa pessoa que não sabe de nada e está desarmada está lá fora no meio de todos aqueles zumbis e olhos estranhos.
—Err certo, mas não tem ninguém relaxa. Como disse já teríamos encontrado-
Antes que Jeff pudesse terminar de falar um grito ecoou pela noite. Definitivamente havia outra pessoa. Olhei Jeff nos olhos e levantei minha sobrancelha em tom sarcástico. Ele respondeu dando de ombros.
—Bem não adianta nada, daqui a pouco vai estar morto e-
Novamente antes que ele pudesse terminar o ignorei e corri para a porta sacando minha espada.
—Você vai mesmo fazer isso? – Suspiro– Acho que não tenho escolha então.
Logo que coloquei meu pé fora da casa todos os zumbis em volta viraram sua atenção para mim. Um zumbi pulou em mim, mas uma estocada o afastou. Golpeei sua cabeça repetidas vezes. Após vários ataques o monstro caiu no chão sem vida. Mais dois vieram me atacar dessa vez e com um golpe horizontal consegui joga-los para longe de mim. Um terceiro me atacou pelas costas, no entanto, antes que pudesse me tocar sua face foi alvejada por uma flecha de Jeff.
—São muitos. Não podemos lutar com todos.
—Você está certo. Vou seguir em frente afastando-os com minha espada, cubra minha retaguarda.
—Entendido.
Mais zumbis vieram nos atacar, mas agora estávamos correndo e os evitando. Eventualmente um olho avançava em minha direção, apenas para rapidamente serem atingidos pelas flechas precisas do Jeff. Eram necessárias múltiplas flechas para destruir apenas um: eles eram resistentes. Apenas defendendo e só contra-atacando quando necessário forçamos nosso caminho através da legião de monstros. Outro grito cortou a noite, dessa vez estávamos bem mais perto. À nossa direita não havia nenhum zumbi. Em vez disso estavam se acumulando em torno de um ponto. Devia ser quem procurávamos.
—Jeff! Ali!
—Estou vendo. Rápido.
Uma saraivada de flechas atingiu o grupo de zumbis que se viraram para focar o Jeff. Enquanto estavam distraídos eu disparei com minha espada para abrir caminho no amontoado. Dentro da roda havia uma garota, afastando os zumbis com uma picareta.
—Hey! Você está bem?
Terrificada, a garota que lutava pela sua vida se limitou a olhar para mim enquanto perfurava a cabeça de um dos monstros com a arma improvisada.
—Jeff! Achei ela, agora me ajuda a tirar ela daqui!
Mais flechas choveram nos zumbis. Tomei a mão dela e a puxei para junto de mim antes que os zumbis colapsassem nela. Corri para junto do Jeff, mas estávamos cercados.
—Foi interessante te conhecer garoto.
—Isso não vai acabar hoje. Hey, moça, sabe usar isso? –Disse mostrando minha espada para ela
—Si-si-im. –Respondeu gaguejando.
—Então use.
Dei minha espada para a garota e saquei o arco. Lentamente afastamos os zumbis mas para cada um que matávamos mais dois apareciam. Cada vez mais zumbis estavam a nossa volta. Do desespero, então, surgiu uma ideia.
—Ei vocês, me deem cobertura.
Guardei o arco e peguei a picareta e cavei um buraco.
—Hey garoto, eu tou quase sem flechas. O que você ta fazendo?
—Confie em mim, ta quase pronto.
Alguns segundos depois o buraco estava grande o suficiente.
—Pulem! Rápido!
Os dois entraram na cova e logo após eu selei seu teto.
—Quanta ironia, cavamos uma cova para fugir dos mortos —disse Jeff ofegante.
—Me ajudem aqui, precisamos cavar um túnel rápido.
Cavamos um túnel de cerca de 15 metros e então pulamos de volta a superfície. Ainda haviam zumbis, mas a maioria ainda estavam concentrados na área onde estávamos antes. Escutei sons de trovão e logo começou a chover. Enquanto corríamos na direção da casa avistei a cena mais ridícula e sem sentido de toda minha vida. Um zumbi com capa de chuva perseguindo um peixe dourado que estava ANDANDO NA PORRA DA TERRA.
—Por que diabos tem a caceta de um zumbi com capa de chuva? E POR QUE TEM UM PEIXE ANDANDO?
—Err, não pergunta cara, só aceita.
Além dos olhos e dos zumbis agora tinham também peixes voadores dando rasantes pela chuva. Esse mundo não faz sentido. Enfrentamos mais alguns zumbis e com alguma dificuldade conseguimos chegar na casa.
—Por um triz não viramos zumbis como eles. Bem, agora que estamos a salvo, você está bem? Se machucou?
—Sim, tirando alguns arranhões eu tou bem.
—Ainda bem... Sou Ômega. Como se chama?
—Ômega... Phi.
—Phi, é um belo nome —disse com um sorriso amigável no rosto.
—Bem, alguém poderia me explicar o que está acontecendo?
—Jeff. Fala com ela.
Algumas horas se passaram enquanto Jeff explicava para ela tudo que tinha me contado. Olhei pela janela e vi o céu. Apesar de alguns ocasionais olhos, o céu noturno era muito bonito. Estrelas brilhavam com uma imensa intensidade e a lua, enorme, parecia até que poderia me engolir a qualquer momento. Jeff e Phi estavam se dando bem, podia escutar até mesmo risadas dos dois no fundo. Estava admirando o céu ainda quando batidas repetidas na porta quebraram meu encanto.
—Me deixem entrar! Por favor me ajudem!
Ao abrir um homem ensanguentado caiu dentro da casa, um enxame de zumbis atrás dele. Rapidamente fechei a porta e tornei minha atenção para o homem. Tinha mordidas por todo o corpo e estava sangrando bastante.
—Jeff, ele está muito ferido.
—Mas que situação.... Você encontrou algum cogumelo enquanto derrubava as arvores?
—Ah, sim. Vários.
—Hum, não temos um frasco, você vai ter que improvisar.
—O que devo fazer.
—Passe um pouco de gel nas feridas dele. Depois faça ele comer dois desses cogumelos com um pouco de gel. Não é o ideal, mas é o que dá pra fazer.
Seguindo as instruções passei gel nas feridas do homem, que imediatamente pararam de sangrar. Cortei então o cogumelo em pequenos pedaços, misturei com um pouco do gel e dei para ele comer.
—O que faço agora?
—Espera. Que coisa estranha, dois passageiros é até frequente, mas três? Isso nunca aconteceu antes. De qualquer forma, você pode fazer uma fogueira para aumentar sua regeneração.
Eu ainda tinha alguma madeira sobrando então fiz uma fogueira e mais três cadeiras. Cerca de uma hora se passou e o homem recuperou a consciência.
—Vejo que está melhor. Sou Ômega, esta é Phi e esse é Jeff. Qual seu nome?
Ele olhou para baixo como se estivesse tentando se lembrar de algo e disse:
—Sigma. Onde estou? O que está acontecendo?
—Seja bem-vindo ao clã dos confusos curiosos então Sigma. De qualquer forma o que aconteceu com você?
—Eu acordei e tinham gosmas pulando de um lado para o outro, fiquei com medo e me escondi numa caverna. Quando a noite caiu começaram a surgir monstros de todos os lados e até mesmo na caverna. Fugi até que fui encurralado e vários deles me atacaram ao mesmo tempo. Consegui rastejar até aqui e então desmaiei.
Phi que estava deitada num canto chegou mais perto e disse:
—Basicamente o mesmo que aconteceu comigo, mas eu consegui gritar mais alto e esses caras vieram ao meu resgate. Sigma, não é? Um prazer te conhecer.
—Bem, aquelas gosmas eram slimes e os monstros eram zumbis. Converse um pouco com o Jeff, ele vai ter algumas coisas para te explicar.
O resto da noite seguiu tranquilamente com o Jeff explicando as coisas para o Sigma enquanto eu e Phi conversávamos sobre a situação em que estávamos. Não demorou muito para a luz do sol atravessar nossa janela. Olhei para fora e vi os monstros indo em bora. Um pequeno slime verde me surpreendeu pulando na janela. Quando vi aquela pequena e patética criatura (que quase me matou antes) eu soube de algo. Eu soube que um novo dia começava.
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