A Tale of Terraria
2 Mentiras, Confissões e Balé de Espadas
Notas iniciais
Hoje a manhã foi razoavelmente calma. Logo que o sol raiou os zumbis desapareceram e deram lugar a pequenos slimes que quicavam sem rumo. Jeff foi o primeiro a tomar uma atitude. Rapidamente ergueu-se do chão onde estava deitado e caminhou para a porta.
—Aonde você vai? — Disse Phi com uma expressão confusa em seu rosto
—Sei lá, andar por aí. Não há motivos para ficar dentro de casa durante o dia.
Abriu a porta e quando estava para sair o interrompi:
—O que a gente faz?
Jeff suspirou e nos deu um olhar com um certo tom de decepção.
—O que quiserem. Esse mundo é de vocês.
Saiu da casa, alguns segundos depois retornou colocando apenas sua cabeça no vão da porta e disse:
—Recomendo que vocês deem um jeito de achar equipamentos melhores. No subterrâneo tem metais que vocês podem transformar em armas e armadura e corações de cristal que vão te tornar mais resistentes. Ah e mais uma coisa, caso tenham dinheiro o suficiente talvez o Mercador resolva nos fazer uma visita, cinquenta moedas de prata devem ser o suficiente para atrair a atenção dele, mas vocês precisarão fazer outra casa.
No instante em que terminou de dar seu concelho Jeff tirou sua cabeça da porta entreaberta e foi embora.
Nos olhamos meio perdidos sem saber direito o que fazer. Phi me olhou esperando alguma iniciativa minha. Me limitei a levantar a mão e coçar minha nuca, estava tão perdido quanto eles. Sigma se levantou da cadeira em que estava sentado e disse com a voz baixa, olhando para o chão, quase como se tivesse com vergonha:
—Por que a gente não fica aqui dentro? Nós não precisamos enfrentar esses monstros se ficarmos dentro da casa...
A ideia dele era tentadora. Não precisávamos correr perigo ou nos machucar se ficássemos dentro do abrigo, mas algo me deixava incerto. Por mais que a sensação dentro da casa fosse de segurança eu sentia que algo estava errado.
—Eu estou com uma sensação estranha.... Sinto como se alguém estivesse nos observando.
—Do que você está falando, só tem nós três aqui dentro — disse Phi
—Ontem quando estávamos te procurando. Os olhos.
—O que tem eles?
—Alguns nos atacavam normalmente, mas outros se limitavam a nos seguir como se tivessem.... Observando.
—Eles não conseguem entrar na casa. Por que você está preocupado?
—Eu não sei, mas tenho um mau pressentimento. Não acho que devamos ficar aqui, precisamos ficar mais fortes.
Phi então deu de ombros e se dirigiu comigo para fora. Estávamos a alguns metros da casa quando percebemos que Sigma não tinha nos acompanhado. Phi suspirou e disse:
—Me espera, já volto.
Alguns segundos retornou puxando Sigma pela mão. Phi então deu um sorriso que era uma mistura de incentivo de amigo, cuidado de irmão e segurança maternal.
—Vamos você consegue!
Estranhei tudo aquilo, os dois mal se conheciam e mesmo assim ela parecia que era sua irmã mais velha.
—Então Omega, você entende mais. O que vamos fazer agora?
—Bem, vocês dois estão quase nus, pelo menos pros zumbis. Precisamos fazer uma armadura e uma arma para o Sigma. Acho que é bom começaram pegando madeira. Sabem usar o machado?
—Sim, Jeff me ensinou ontem.
—Você Sigma?
—Err não...
Phi tomou a mão dele novamente e abriu um sorriso mais amigável ainda
—Vamos, eu te mostro.
Eu decidi que iria explorar um pouco os arredores. Enquanto andava resolvi dar uma olhada no meu inventário. Vi então um item que não tinha notado antes: um par de algemas. Por instinto as vesti como um bracelete. No momento em que as tranquei no meu pulso direito me senti mais rápido e resistente.
—Um dos zumbis que você matou deixou isso cair ontem—disse uma voz acima de mim. Olhei para cima procurando o dono e vi Jeff deitado no ganho de uma arvore com um olhar triste.
—Por que ele estava algemado?
Jeff suspirou, olhou para cima e disse num tom melancólico:
—Morrer não é a única forma de virar um zumbi. As vezes um passageiro pode perder sua vontade de lutar, sua razão nesse mundo. Então aos poucos ele perde as suas memórias e sua consciência, até que enlouquece. Um reencarnante não pode machucar um passageiro e vice-versa, mas passageiros podem se atacar. — Jeff deu outro suspiro— Eu menti antes, não é tão raro assim mais de um de vocês, mas queria evitar você ter que passar pelo que tantos já passaram. Perder um amigo, um amor e então a sanidade, e a vida. Para não terem que matar o que antes era seu amigo, muitas vezes simplesmente o algemam para que não machuque ninguém. Então o tempo passa e a alma some aos poucos até que reste apenas um corpo vazio vagando em busca de carne e morte. Você destruiu vários rostos que eu conheci e guiei ontem jovem.
Eu não tinha o que dizer, são sabia o que dizer. Estava com medo, não dos zumbis, não de me tornar um, mas de ter que ver um amigo passar por isso.
—Por isso vocês devem se tornar fortes. Construir uma cidade mais segura. Vocês estão correndo contra o tempo. Em algumas semanas a lua se tornará vermelha, nos rios correrão sangue e meras portas não vão barrar os mortos. Quem tiver a mente ou o corpo fraco não irá sobreviver a Lua de Sangue.
—Por que você só está me contando isso agora?
—Não queria apavorar os outros. A moça é forte, mas o rapaz está em cacos. Se você deseja que eles sobrevivam a essa noite vermelha, é melhor você se apressar e fazer armas decentes. Pegue algumas pedras, algumas tochas e faça uma fornalha. Depois vá para uma caverna, mas tenha cuidado: o subterrâneo deste mundo é um lugar traiçoeiro. Armadilhas, esqueletos, morcegos e minhocas gigantes vão tentar te atrapalhar no seu caminho. E cuidado com as cavernas de mármore.
Escutando o conselho de Jeff decidi me reunir com os outros.
Após uma breve caminhada e treinar minha pontaria com alguns slimes encontrei Phi demonstrando a Sigma como manejar uma espada. Só agora pude reparar, mas era muito bonita. Tinha cabelos vermelhos e lisos, presos num rabo de cavalo que ia até a metade das suas costas. Na frente uma pequena franja cobria sua sobrancelha esquerda. Seu rosto era delicado, mas ainda sim mostrava a determinação de uma guerreira. Entrou em posição de combate, seus pés razoavelmente afastados permitiam que cobrisse uma considerável distancia em poucos instantes, o corpo posicionado de lado diminuía o alvo que o inimigo tinha para acertar. Sua mão esquerda parecia segurar um escudo imaginário enquanto a direita, mais atrás, a permitia atacar uma grande área ao seu redor. Um slime verde se posicionava ofensivamente em relação a ela. O slime verde saltou e com um movimento da sua mão esquerda defletiu a criatura a atirando-o para o lado. Antes que pudesse recompor sua pose um slime azul que eu não tinha visto aproveitou-se e se atirou nela. O slime era consideravelmente maior, mas mesmo assim não perdeu a compostura e com um golpe ascendente atingiu a criatura jogando ela para o alto. No ápice do golpe sua mão fez um gracioso giro, adicionou então a mão esquerda e somou a força que havia usado no golpe anterior à força da sua outra mão, transformou o golpe num corte descendente na diagonal. Seu golpe dessa vez mirava o pequeno slime verde que foi imediatamente destroçado. Eu já estava encantado com aqueles movimentos quando ela mostrou que ainda não tinha terminado. Novamente se aproveitando do impulso dos ataques anteriores, deu continuidade ao golpe diagonal tornando-o um giro. Seus pés faziam um gracioso movimento que quase lembrava um balé. O giro completou-se para se revelar desta vês um golpe vertical. Seu movimento pareceu desacelerar para então instantaneamente juntar toda a força e momentum acumulados nos movimentos anteriores. O slime que estava no alto veio de encontro a sua espada. O slime caiu rápido e se chocou contra a espada de Phi. Não parecia haver impacto, a espada entrou e saiu sem obstruções. O slime caiu no chão e então se partiu ao meio. Ficaram dois pedaços sólidos de slime por alguns segundos até que perdeu sua forma e dissolveu-se no chão. Não parecia nada com a garota assustada que algumas horas atrás tinha resgatado. A espada em suas mãos lhe dava um aspecto completamente diferente. Girou a lamina de madeira algumas vezes e guardou numa bainha improvisada nas costas. Sorriu, olhou para Sigma que estava tão encantado quanto eu e disse:
—Viu? Não é tão difícil— notou então minha presença e virou para mim— Hey Omega, o que acha de um pequeno duelo?
—Ah não, obrigado. Ontem descobri que era muito melhor com um arco do que com uma espada. Prefiro manter certa distância dos meus inimigos
—Ha! Covarde.
—Fazer o que se valorizo minha vida.
—Você não parecia valorizar muito sua vida quando pulou no meio daqueles zumbis para me salvar.
—Quando uma donzela está em perigo o procedimento é outro.
Disse eu enquanto sorria. Phi correspondeu e soltou uma descontraída risada. Estava confuso, eu acabei de flertar com ela ou é impressão minha? Sigma ainda estava quieto no seu canto. Ontem pude jurar que ele era mais, não sei... másculo talvez seja a palavra? Realmente não sei. Talvez fosse a escuridão e o cansaço ontem que me impedia de ver claramente, mas agora finalmente notei que ele era bem diferente disso. Não no sentido literal da palavra. Sigma tinha traços bem femininos que não pude notar principalmente devido as feridas. Tinha as feições bem delicadas e era bem magro. Notei agora que era um pouco mais alto que eu. Seus cabelos eram prateados, lisos e longos o suficiente para quase baterem no seu pescoço. Para ser honesto ele não parecia ter força tampouco para levantar uma espada, ou para puxar um arco. Como diabos ele vai sobreviver a Lua de Sangue?
Olhei para o céu, o sol estava a pino, devia ser meio dia. Ainda tínhamos 6 a 7 horas de luz. Me aproximei dos dois e sugeri que aproveitássemos o dia para explorar os arredores e buscar alguma caverna. Sigma para variar ficou calado, Phi apoiou a ideia e sem demora partimos para o oeste.
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