A Tale of Efraria: Sharp Teeth
2 Prólogo: Parte 2
Notas iniciais
Passos pesados na neve podiam ser ouvidos conforma a alcateia seguia em marcha, a uma velocidade mediana, em direção aos campos de caça, guiados pelo elo mais forte que tinham com o ambiente hostil ao seu redor, o seu instinto predatório. Na frente da matilha, o grande lobo negro os liderava para campos que ele cruzou durante toda a sua vida, memorizando cada local mais proveniente para um abate bem-sucedido, afinal, todos ali dependiam dele. As trilhas na neve do campo aberto eram limpas pelo bailar do vento que soprava a neve, impedindo que a maioria das pegadas servisse como método de rastreio, mas o alfa havia outra carta na manga, seu potente olfato capaz de detectar o menor dos esquilos a quase cinco quilômetros de distância.
Haviam sido forçados a sair da floresta que os privava da luz, já que muitos dos animais que viviam ali haviam migrado para regiões mais altas em buscar de brotos, visto que a maioria da revoa da floresta era aniquilada durante o duro inverno. A única opção era seguir a manada de uapitis, cervídeos de grande porte capazes de quebrar o crânio de um lobo com alguns chutes certeiros, conhecidos por tirarem a vida de muitos canídeos inexperientes, porém, com a ida dos javalis não se havia outra opção para alimentar todos da alcateia.
Com sua grande pata afundando na neve fofa, Ardósia levava seu focinho ao solo, sabia que por mais cautelosos que fossem suas presas não poderiam anular totalmente seus rastros. Logo, as pupilas do canídeo se dilataram conforme seus caninos eram expostos, havia conseguido, o lobo agora estava em uma trilha promissora, sangue derramado de um possível animal ferido. Em uma arrancada, com sua cauda levantada mostrando plena confiança, o canídeo saiu a frente adentrando o solo proibido e devastado das planícies, onde demarcava a fronteira de suas terras com os “isolados”; lobos sem alcateia.
Ambos alfas cruzaram seus olhares, diante das terras sem fim, onde só se via o infinito mar de neve em direção ao horizonte, com o sol oculto pelo céu obscuro, cujos ventos progrediam a uivar, levantando flocos e pintando dunas na paisagem. De fato, parecia desolada, mas o odor deixado pela urina de um forasteiro era o suficiente para provar a vida local. Com maior confiança, o lobo negro das cicatrizes deu um passo à frente em direção ao incógnito do futuro, se colocando à mercê do desconhecido conforme o resto da alcateia seguia seus passos, menos a fêmea da pelagem prateada, que permaneceu ressentida sobre sair de sua casa, dando meia volta em direção a proteção dos carvalhos.
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20 de Janeiro – Terra dos Isolados – Inverno
No reino redigido pelos urros da algidez do vento norte só podia se ver o solo envolto em brancor, deixado a prova da ventania sólida que criava uma barreira, dificultando o uso da visão e irritando os olhos de quem ousasse enfrentar a hostilidade do ecossistema. Entretanto, no reino animal uma lição serve de fundamento para a determinação, sempre siga em frente, uma manada jamais olhará para trás. Isso se colocava em prova quando os cascos de inúmeros uapitis se chocavam contra o solo, pintando sua grossa pelagem do inverno de branco conforme seu espírito os dizia para seguirem em direção aos pastos menos afetados pela condição climática.
Com pernas longas eles faziam seu caminho pela neve com ferocidade, usando suas largas orelhas para detectarem o mínimo ruído em suas costas. Olhos posicionados nas laterais de suas cabeças lhes davam uma visão panorâmica de seus arredores, porém, a mesma não era útil quando já coberta pelos flocos. Seus pelos haviam se tornado grossos para suportar a temperatura, ainda se podendo ver a típica coloração caramelada e o bege na região do seu tronco, mas lentamente a natureza estava lhe pincelando com a cor alva.
Das sombras formadas pela geada, logo tomaram forma, se podendo ver o macho esbelto da pelagem negra expondo a sua arcaria dentária composta de grandes caninos, rosnando enquanto arqueava sua cauda, sentindo cada músculo estalar com a aspiração da caçada. O seguindo, seu companheiro observava o modo em que a manada se movia, tentando identificar alguma fraqueza ou falha em sua formação.
Com a chegada dos lobos logo as terras ficaram em silêncio, com o vento sendo cortado por um bramado agudo, que usava a grande planície para alertar os seres vivos de sua presença, tal som era capaz de trazer medo e respeito aos corações até dos menores habitantes de Efraria. Quem emitira tal frequência era um grande macho uapiti em sua marcha na direção contrária das fêmeas, mostrando sua estatura física e músculos para os predadores enquanto fazia sua presença. O silêncio perpetuava enquanto a enorme besta fazia seu trote entre a neve, como se andasse sobre uma passarela, mas essa era uma das maneiras mais eficientes de mostrar aos canídeos que eles não tinham oportunidade se dali resultasse um combate.
Ardósia então se virou e começou a recuar, em um conflito interno quanto à necessidade e o risco que aquilo poderia lhe proporcionar a medida que aquelas grandes galhadas e cascos afiados se aproximavam do mesmo. Ao dar meia volta, uma chama de determinação brilhou dentro do canídeo que enfrentou o cervídeo de cara, mas até mesmo os de coração mais valente devem saber recuar quando o perigo bate em sua porta. Se sentindo ameaçado, o uapiti levantou suas patas sobre a neve e galopou em direção ao alfa que só teve como opção dar meia volta e tentar se esquivar dos cascos afiados, que facilmente poderiam realizar um ferimento grave.
O grande macho perseguiu Ardósia e então parou subitamente, exalando ar quente de suas narinas enquanto balançava sua cabeça e chifres. Apenas a força que colocava os seus cascos no solo era o suficiente para fazer os alfas recuarem. Pelas laterais, os dois canídeos de pelagem prateada correram entre a neve tentando causar distúrbio no rebanho, ou tentando a sorte, mas as próprias fêmeas começaram a os perseguir, arqueando seus pescoços enquanto tentavam os acertar com os seus cascos, colocando os agressores na corrida pela sua vida.
Esses confrontos podem levar dias, mas era uma estratégia válida visto que os canídeos não conseguiam atacar de forma precisa sem uma perseguição se iniciar, porém, conforme o clima começa a ficar pior e a tensão aumenta enquanto bramados e grunhidos raivosos podiam ser ouvidos, abanados de cauda, provocações e cascos pesados na neve, se percebia que se esse plano fosse perfeito não haveria mais nenhum lobo no lugar. O grande macho estava perdendo o controle de suas fêmeas que se distanciavam cada vez mais perseguindo os jovens prateados, que as irritavam com choramingos e rosnados.
A caçada se dá início quando uma jovem fêmea perde sua calma, logo sendo seguida pelas outras e os membros mais fracos e vulneráveis, que ficavam no centro do rebanho, longe de qualquer perigo. Os acompanhando logo atrás estava o caolho e o grande macho negro, enquanto os mais jovens e rápidos irmãos de prata acompanhavam a manada das laterais, sendo postos em seus lugares por fêmeas de uapiti agressivas que se viravam para os mesmos, os ameaçando ao levantarem suas patas na neve e urrando em tons agudos e finos, mas definitivamente agressivos. Neve era levantada, criando uma cortina no final da perseguição e trazendo a natureza do lugar à tona, levantando revôos de aves que saiam do solo às pressas com o tremer dos cascos.
O terreno plano e a neve funda resultava em problema para os cervídeos que se moviam como um só, mas sem esperança de conseguirem despistar aqueles lobos tão cedo, sua única chance era se manter em linha e permanecer resistentes, pois se olhassem para trás cairiam nas presas que teceriam o seu destino entre a vida e a morte. Os lobos, no entanto, ganhavam terreno facilmente no rigoroso inverno, já que suas presas tinham que realizar um grande esforço para se mover no ao mar de algidez, mas eles estavam naturalmente adaptados com patas revestidas e corpos em forma de míssil, conseguindo atingir altas velocidades até mesmo nas condições mais precárias.
A manada se manteve junta, desafiando o urro dos ventos sólidos enquanto lutavam para enxergar a sua frente, movidos pelo seu instinto a tentarem escapar mas sem um rumo próprio, o que poderia ser a sua perdição no vale. Após um carvalho, agora um tanto quanto cristalizado, uma linha de cerca separava as terras do parque dos campos de caça e de lavoura dos aldeões, mas no desespero do momento nenhum animal se atenta a essas restrições, o que importa no final do dia é o seu coração ressoando em vida; em batimentos. Para proteger seu rebanho, o grande macho acelerou seu passo, saltando à frente das fêmeas ele usou suas galhadas para puxar a cerca de arame farpado para cima, usando toda a força que lhe tinha, no entanto, um dos arames passou pelos seu olho direito, retalhando o mesmo, fazendo com que o grande animal se encontrasse em berros e extrema dor. No desespero da caçada, movido pelo medo da morte que corria logo atrás deles o uapiti apenas jogou a cerca para cima, fazendo um corte do seu olho até onde dava início as suas galhadas, cobrindo a face do cervo em sangue escarlate que jorrava no solo, mas contra todas as expectativas ele se colocou a correr novamente.
O tumulto do líder do rebanho causou pânico entre as fêmeas que em pleno desespero se esbarravam e pisoteavam, fazendo com que os mais fracos ou que caíssem no solo fossem recebidos com inúmeras pisoteadas em um amontoado de uapitis, que pulavam um por cima dos outros até que a cerca se encontrou completamente derrubada, agora dispersando os cervídeos e nem se atentavam mais a ficarem juntos. A adrenalina que corria em suas veias só era respondida de uma maneira no seu cérebro, correr.
Deixada para trás, uma uapiti com um tornozelo torcido se levanta com dificuldade, finalmente passando pela cerca, mas foi puxada a força para o solo novamente por dois lobos prateados, desesperados para abater qualquer membro que fosse já que também haviam ficado um pouco assustados com o tumulto. Recobrando o terreno que haviam perdido os alfas logo chegaram onde se encontrava a presa. Ardósia a atacou pela garganta, torcendo seu pescoço na tentativa de o quebrar enquanto o caolho ajudava os demais a virarem o cervo, até que então, um estouro foi ouvido pelos lobos, vendo então o seu renomado alfa de pelagem negra, o qual cresceram junto e passaram todos os momentos de sua vida, cair no solo frio, sem expressão alguma, ou batimentos.
— Pegamos ele! Pegamos ele!!
Tais vozes ecoavam da região acima da montanha enquanto passos eram ouvidos na neve pelos ouvidos sensíveis dos canídeos. Sem opção e desordenados com a morte de seu líder, principalmente Olho de Lua por ver seu companheiro morrer em sua frente, se colocaram em retirada, enquanto o uapiti conseguiu se levantar e fugiu na direção oposta. Porém, por mais que os lobos tentassem fugir, jamais algum retornou daquele lugar.
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