O apartamento dela, apesar de pequeno, era bem aconchegante e agradável. Algumas flores espalhadas em vasos por todo o lugar, na estante nenhuma fotografia sequer.

- não liga pra bagunça, eu ainda não tive tempo de arrumar depois que me mudei pra cá.

- faz pouco tempo?

- 1 mês. – ela dizia enquanto colocava os pratos na mesa.

- então você morava em Newark, não é?

- como você sab... ah, me esqueci. A fofoqueira da Suzy contou. – ela soltou um sorriso sem graça.

- eu morei muito tempo lá.

- jura? Que legal. Eu tenho vontade de voltar pra lá um dia. – eu olhei nos olhos dela e ela desviou o olhar. – pena que minha vida seria de novo um inferno.

- por que diz isso? O que aconteceu de tão grave pra que você deixasse o lugar onde nasceu?

- eu nunca disse que nasci em Newark, disse? – ela me olhou em dúvida. – e não foi nada de mais, deixa pra lá. – ela desviou o assunto e foi pra cozinha, voltando em seguida com uma bandeja cheia de macarrão.

- parece bem apetitoso. – eu disse e ela riu.

- tomara que esteja, pois foi a única coisa que consegui cozinhar.

Caímos na gargalhada e esquecemos dos antigos problemas que rondam nossas vidas. Durante o almoço, eu percebia que Jamie me olhava com curiosidade. Ela não dizia nada, mas seu olhar me transmitia todo o seu pensamento.

- eu imagino o que deve estar pensando. – eu disse entre um gole e outro de vinho.

- e no que eu estaria pensando agora, senhor vidente? – ela deixou escapar um sorriso meigo.

- em mim. – ela desmanchou o sorriso e seu rosto ficou vermelho. – em como um rapaz que você conhece há apenas 2 dias pode conhecer sua vida mais do que você mesma, não é?

- e posso saber como você me conhece tanto assim?

- ah, isso é porque...

Nesse momento toca o telefone, quebrando o clima da nossa conversa. Por um lado, até que foi bom, eu não queria relembrar daquilo tudo e arrumar mais confusão... ou talvez queria?

- com licença. – ela se levantou e atendeu o telefone, indo em direção ao que parecia ser seu quarto para que eu não ouvisse a conversa.

Continuei sentado à mesa, olhando pro meu prato ainda cheio de macarrão e uma lágrima pingou na comida. Ouvi passos e sequei o lado molhado do rosto para que ela não me visse daquele jeito.

- me desculpe. Era apenas minha mãe. – ela se sentou novamente à mesa.

- qual o nome da sua mãe, Jamie?

- por que quer saber? – ela não entendeu minha ‘curiosidade’.

- curiosidade. Queria saber o nome da pessoa responsável por sua beleza.

Acho que minha frase fez efeito. Não o resultado esperado por mim, mas mesmo assim foi um ótimo efeito. Ela sorriu e deixou transparecer que não tinha ficado chateada com a minha ‘indireta’. Um ponto a meu favor.

- minha mãe se chama Debbie. – meu sorriso bobo murchou e a esperança diminuiu – e ela ficou morando em Newark com meu pai depois que me mudei pra cá.

- ah... então você tem um pai... – sussurrei triste vendo a pouca esperança que eu ainda tinha evaporar.

- o que disse?

- eu só disse que você é linda. – ela ficou séria e seu rosto ficou novamente avermelhado – e aproveito para dizer que a comida está ótima. – o tom sério do rosto dela sumiu dando lugar a um sorriso encantador.

- jura? Não tá dizendo isso só pra me agradar?

- claro que não! Eu falo sério. Você cozinha muito melhor do que eu! E olha que encontrar alguém com esse talento é muito difícil hein.

- convencido. – nós dois rimos – quer ver um filme? Ainda tá cedo e duvido que você tenha algo mais importante pra fazer do que me fazer companhia. – ela lançou um olhar apaixonante em minha direção enquanto se levantava da mesa.

[...]