A Story
5 História, um pouco mais sobre o pequeno demônio umbroso.
Notas iniciais
*Alguns dias se passaram desde que vim morar com Vangar, estávamos na mesa de jantar, onde eu agarrado com Taigar, olhava aquele prato com desconfiança, então cheirei aquele prato e ainda não convencida, olhei para Vangar novamente.*
— Coma uma garfada. *Digo levantando o garfo com a comida e dando a ele.*
— Sua desconfiança é algo que sinceramente me perturba, eu sou tão indigno de sua confiança assim? *Ele me pergunta, mostrando o pulso ainda com os símbolos rosas, e por algum motivo eu mesmo sentia que não precisava desconfiar.*
— Se minhas sensações e sentimentos fossem tudo que eu levasse em conta eu já estava morta a muito tempo. *Digo o olhando com raiva.* — Eu sei que existem magias que confundem tanto as sensações quanto o cérebro, não há o que fazer se ambas são controladas, mas se for só uma... *Deixo a frase morrer no ar, por um momento, levando o garfo para mais perto dele.* — O outro sempre vai estar em alerta.
*Vangar então pegou o garfo e comeu.* — Você profere tais palavras, porque é ignorante em relação a magia que nos liga. Eu já lhe ofereci a biblioteca para estudar.
— Eu não farei nada que não seja uma ordem. *Digo a ele, pegando o garfo e começando a comer do próprio prato.* — Não irei dar motivos para você me castigar, apesar de estar acostumada, eu não gosto de apanhar ou de sofrer, eu não sou uma masoquista, muito pelo contrário. *Digo a ele com um sorriso sádico.*
*Vangar parecia me observar comer com grande interesse, e com um sorriso começou a falar.* — Então, eu como alguém na posição que lhe dá ordens, digo a você que você irá estudar seis horas ao dia, enquanto eu irei lhe tutelar, você tem a permissão de me perguntar sobre o que desejar, e tem a permissão obrigatória de visitar a biblioteca e ler o que assim preferir.
*Engasgo um pouco com a risada que dei.* — Permissão obrigatória? *Dou outra risada.* — Tá bem... tá bem... mas já que você me permitiu perguntar o que quiser... *Digo o olhando de forma astuta.* — Você tem seu próprio quarto, o que significa que o quarto que você me deixou, era de alguém, muito provavelmente sua filha, neta ou parente mais nova, Taigar é um bixo de pelúcia, certeza que você como um velho idiota não iria comprar para você mesmo.
*A medida que falava, eu me senti triste, senti algo que lembrava muito o conceito de saudades que havia lido uma vez, além de uma mistura de raiva e desespero, então olhei para ele e suas feições haviam endurecidos, e ele havia ficado mais pálido.*
— Minha neta. *E ele então deu um suspiro cansado.* — Ela morreu.
*Então abri um sorriso, apesar de estar transbordando tristeza e amargura, morte de crianças era algo que sempre me animava.*
— E o que aconteceu? Você viu acontecendo? Ou... *Começo em um tom sombrio.* — Foi por sua culpa? Foi né? *Dou mais algumas risadas debochadas, ao perceber que a raiva dele ia aumentando e a minha também.*
— Pode se dizer que sim. Meu filho sempre foi ambicioso, mas eu jamais imaginaria que ele iria pegar o caminho mais fácil. Sua esposa era uma maga que dizia procurar redenção, mas tudo que ela fez foi leva-lo para o lado deles me deixando apenas com minha neta.
— Eu não te perguntei a sua história patética e sem sentido, porque eu não me importo, apesar de gostar de estar te vendo finalmente tirar essa máscara de velho pomposo que não sente nada e aparenta ser sábio. Eu só quero saber como ela morreu e se teve sua mão nisso.
*Dou outra risada e abro um sorriso enquanto comia, ainda me sentindo triste e com raiva, apesar de não ter mudado, o que significa que minhas palavras não o afetaram dessa vez.* "Estou começando a entender como essa magia funciona." *Penso feliz, o observando.*
— Anos depois, notícias chegaram a mim graças a guilda que eu participei, a Sabertooth. Informações de que meu filho e sua esposa haviam se tornado demônios da Tártaros. E alguns anos depois disso eu tive a chance de mata-los, destruir os núcleos e não o fiz e há dois anos atrás enquanto eu estava em uma missão... eles vieram e mataram minha neta, a filha deles deixando apenas uma palavra marcada em sangue...
— Covarde. *Eu disse a ele antes dele terminar de contar.* — Ridículo, porque vocês pessoas fortes são também tão fracas? Tão patéticas? Indecisos... parecem que gostam, que esse tipo de coisa acontece apenas para aumentar ainda mais a grandiosidade e a dramacidade da história. *Digo rindo para Vangar.* — De qualquer forma, eu pude ver um bom show. *Digo sadicamente com um sorriso.* — Lhe agradeço. *Dou uma piscadela, terminando de comer e indo lavar os pratos, sentindo algo quente escorrer em meu rosto, uma dor no peito e tristeza que eu já sabia que não eram minhas.*
*Algumas horas depois, Vangar que já havia se recomposto, me guiou até a biblioteca, onde sentamos em uma mesa e começamos a estudar, como eu estava curiosa com a magia de dividir emoções, ele me passou um livro sobre magias perdidas e foi então que eu entendi que realmente não havia como burlar e que tudo o que Vangar sentiu e que foi passado a mim era verdade, então o olhei curiosa.*
— Você é uma aberração sabia? *Digo a ele com um sorriso mal.* — Alguém que tem uma magia dessa... Quer dizer se eu me matar agora, você morre também, como você pode confiar a sua vida a alguém que matou tantos, não se arrepende e diz que mataria mais?
*Então ele me olhou novamente com aqueles olhos perfurantes verde-água e eu não consegui me esquivar e encarei de volta, mergulhando naquele oceano.*
— Porque é o que eu quero. Eu não sou alguém que se move por certos ou errados, isso é apenas um sofismo daqueles que precisam de uma razão para agir. Assim como eu decidi sair da Sabertooth por decisão minha, quem julga ser certo ou errado não sou eu, assim como eu decidi te trazer para casa para cuidar de você foi decisão minha, quem julga ser certo ou errado não sou eu.
*Ouço a resposta dele e dou um sorriso, já que nesse ponto pensávamos igual.* — E não é que você fala alguma coisa certa de vez em quando? *Então dou outra risada, mas agora com a informação da magia e as sensações a dizendo que não havia com o que se preocupar...* — Obrigada... *Digo em um tom baixo com um pequeno sorriso.*
*Ele pareceu sorrir também e continuamos a estudar, com minhas perguntas sendo respondidas por ele, durante seis horas estudamos e assim que terminamos, Vangar olhou para mim, e eu senti que ele estava apreensivo.*
— Pergunte logo o que você quer. *Digo com uma risada.* — É o que você quer não é?
*Ele sorri novamente e da um suspiro.*
— Você se lembra de todas as pessoas que você matou? Lembra de seus rostos? Das famílias e pessoas que foram afetadas por suas ações?
*Eu abri um sorriso sádico.*
— Você chega a conhecer a vaca que originou a carne? Você chega a contar o número de formigas que mata sem perceber, apenas andando na rua? Você chega a saber o que aconteceu com os inimigos que você matou? Ou melhor, você chega a se importar com isso? Não... eu não lembro de todos, eu não chego a contar quantos pães eu comi até hoje, que para mim é uma informação tão importante quanto o número de mortes em minhas costas.
— No entanto, para lhe responder com veracidade, eu sei quantos pães eu comi na vida. Foram somente três, eu não gosto deles. *Ele disse com um sorriso cômico, me pegando desprevinida.*
— Você não se importa? Com meu passado? Com tudo o que eu fiz?
— O passado é apenas um grande conjunto de experiências que lhe fez pensar, agir e falar dessa forma, ele não importa mais, não há como mudar, não há como refazê-lo. Você pode escolher o que quiser daqui para frente, porque são nossas escolhas mais do que nossa personalidade que diz quem nós realmente somos.
*Ouço o homem com atenção, e abro um sorriso malvado.* — Se fosse assim, alguém realmente arrependido não precisaria pagar pelos seus crimes, eu inclusive acredito ser alguém de muita sorte, uma vez que não fui para a prisão e estou morando em uma casa com um quarto para mim, comida e tudo o que eu sempre quis ter. Olhando dessa forma, parece mais que eu fui premiada pelas minhas ações do passado. *Digo com um sorriso sádico.*
— O pior castigo é aquele que a própria pessoa se dá, e pode ter certeza que o mundo sabe muito bem como devolver ação por ação, tudo o que você fez.
*Ao dizer essas palavras, eu pude perceber um sorriso em seu rosto, e uma vontade de se vingar que queimava dentro de mim, claramente dado pela magia, então peguei o garfo que estava segurando e finquei com toda a força em minha própria mão, dando uma risada ao vê-lo se assustar e afastar a própria mão.*
— Você só está com medo de encarar a realidade. *Digo enquanto ria e tirava o garfo da própria mão, mostrando o sangue escorrer.* — A ligação por essa magia, também me permite ver que você tem medo... ao contrário de mim, você é um humano, então haja como um. *Dou uma risada.* — Se quer me acertar, me machucar e me fazer pagar pelo que fiz, faça você mesmo. A vida não vai fazer nada comigo, se assim fosse, ela não haveria me deixado passar por tudo o que passei.
*Então ele deu um grande suspiro e sorriu novamente.* — Kijin, de maneira alguma, você é capaz de esconder o que sente. Eu vejo seu medo, eu vejo que a vida lhe transformou em alguém que não é capaz de senti-lo, apesar de conhecê-lo. Todos aqueles corpos, todas aquelas vidas, você tem medo de seu passado mas ri dele como se não fosse algo importante, porque eu sei que se você o reconhecesse, se você o aceitasse, você iria acabar se matando, viver com tal peso, de tal forma é mais do que penitencia para alguém como você. Viver em constante medo e o ignorar, porque para você não há outra forma, não há beleza na vida, não há o que proteger a não ser você mesma. *Então ele se levantou e começou a andar em minha direção, e eu que recebi aquelas palavras como verdade, uma vez que eu mesma já sabia delas, apenas o olhei nos olhos, porque ali estava alguém que exalava um sentimento de compreensão que eu também jamais havia sentido antes.*
— Eu irei lhe provar minha pequena demônio da umbra. Que nessa vida, há mais do que somente o medo, há mais do que apenas sobreviver. *Ele diz levantando Taigar e me mostrando.* — Há belezas que superam nossa imaginação, há pessoas que fazem nos sentir mais humanos do que somos, e há aquelas pessoas que despertam os nossos demônios interiores, somos feitos para sermos equilibrados, assim como seu nome, estamos entre o céu e o inferno, mas... *Ele deu uma parada com um grande sorriso, em volta daquela barba branca e me abraçou.*
— Nenhuma pessoa consegue parar de sentir tudo, porque se não ela não é considerada mais pessoa, é apenas uma existência, uma boneca que só obedece ordens, um animal irracional apenas com o instinto de sobrevivência. E você não é assim. Eu sinto... bem lá no fundo, bem escondido, que você se arrepende e da mesma forma consigo perceber que você acredita que sua única opção é continuar a fazer o que sempre fez. *Ele solta uma risada, enquanto segura minha cabeça contra seu ombro, não parecendo ligar para minhas ações de querer me livrar dele, a gravidade parecia não surgir efeito nele também.*
— Apesar de dizer que somos nós que decidimos o que fazemos, você não age dessa forma. Apesar de dizer que gosta de matar, torturar, você me avisa, assim como acredito que avisou as pessoas do que aconteceria se aproximassem de você. Apesar de você dizer que viveu a vida sozinha, você ainda se recorda do tempo dos seus pais, e teme mais do que tudo confiar em outra pessoa novamente uma vez que estes podem trair você. Mas comigo... com essa magia... *Ele diz pegando em minha mão e levantando o pulso.* — Não há como se esconder de mim, não há segredos entre nós.
*E eu sentia, toda a verdade, mais do que a sensação que ele passava de confiança, era a verdade. Eu acreditava porque era lógico, então sem perceber eu estava apertando suas roupas e escorando o rosto em seu peito.*
— Engraçado não é? *Ele pergunta, ainda me fazendo cafuné.* — Como que somente algo que faz sentido, algo lógico é a chave para você começar a sentir novamente. *Ele disse dando uma risada.* — É a chave para você conseguir novamente o equilibrio entre emoções e a razão, mas isso... *Ele então se separou de mim com um grande sorriso.* — Só o tempo para resolver.
*Então eu o olhei novamente, com os olhos marejados, mas não chegando a cair lágrimas.* — Vangar. Não ache que eu sou fácil assim. *Digo o olhando com raiva.* — E... *Ele tampou minha boca e me olhou nos olhos novamente.*
— Pare de mentir. Eu sei o que você está sentindo e não é lógico mentir em uma situação assim, até mesmo você consegue entender isso não é?
*Afastei a mão dele.* — Eu não estou mentindo. Você só conseguiu minha confiança por agora... não é diferente do que aconteceu, eu sempre confiei em minha mãe e meu pai até eles me venderem, eles com certeza sentiam da mesma forma que você, até aquele momento. *Digo o olhando com raiva.* — Eu não sei sobre o futuro, você pode sentir dessa forma agora e por agora eu confio em você, mas eu não confio em você do futuro. *Digo com uma risada sádica.*
— Mas eu não sei se temo o que você diz que eu temo, eu não consigo sentir mais o medo, como você mesmo disse, eu apenas o conheço. Então eu posso afirmar com certeza, que eu gosto de matar e eu gosto de ver as pessoas sofrendo eu apenas as aviso, para aterrorizá-los, saber do que esta por vir... *Abro um sorriso malvado.* — Ve-los tremer e agonizar... é da minha natureza gostar disso... *Digo com outra risada, mas então corando um pouco e virando o rosto.* — E tirando os que eu fui obrigada a matar, nenhum deles era inocente... *Digo diminuindo a voz.* — Eles me batiam... jogavam comida estragada em mim enquanto eu dormia... mereceram morrer. *Digo com outra risada, e então sinto novamente outro abraço.*
— Ei! Para de ficar me abraçando! Que foi? Ce curte garotinhas? *Pergunto corando mais e tentando me afastar dele.*
— Mas a sensação que me passou enquanto estavamos abraçados era de que você queria continuar abraçada. *Ele falou dessa vez com um olhar astuto e um sorriso, me encarando, a medida que meus ombros cediam e eu o abraçava de volta.*
— Essa sua magia é um saco, sabia disso? *Digo com a voz abafada e um pouco irritada, por aquilo conseguir ler o que ela sempre conseguiu esconder com sucesso.* — Isso é muito injusto. *Digo com uma pequena risada.*
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— Hã...? *Pergunto a mim mesma, abrindo os olhos e vendo que estava deitada na escrivaninha do quarto, em cima de alguns papeis com letras de músicas.*
— Lil' Devil's Apple Huh... *Dou uma risada vendo o título escrito no papel que estava dormindo, pegando e lendo a letra que havia escrito na noite passada.*
Nagareteku toki no naka de demo
Kedarusa ga hora guruguru mawatte
Watashi kara hanareru kokoro mo
Mienaiwa sou shiranai?
Jibun kara ugoku koto mo naku
Toki no sukima ni nagasare tsuzukete
Shiranai wa mawari no koto nado
Watashi wa watashi sore dake
Yume miteru? Nani mo mitenai?
Kataru mo muda na jibun no kotoba
Kanashimu nante tsukareru dake yo
Nani mo kanjizu sugoseba ii no
Tomadou kotoba ataerarete mo
Jibun no kokoro tada uwa no sora
Moshi watashi kara ugoku no naraba
Subete kaeru no nara kuro ni suru
Konna jibun ni mirai wa aru no?
Konna sekai ni watashi wa iru no?
Ima setsunai no? Ima kanashii no?
Jibun no koto mo wakaranai mama
Ayumu koto sae tsukareru dake yo
Hito no koto nado shiri mo shinaiwa
Konna watashi mo kawareru no nara
Moshi kawareru no nara shiro ni naru
Nagareteku toki no naka de demo
Kedarusa ga hora guruguru mawatte
Watashi kara hanareru kokoro mo
Mienaiwa sou shiranai?
Jibun kara ugoku koto mo naku
Toki no sukima ni nagasare tsuzukete
Shiranai wa mawari no koto nado
Watashi wa watashi sore dake
Yume miteru? Nani mo mitenai?
Kataru mo muda na jibun no kotoba
Kanashimu nante tsukareru dake yo
Nani mo kanjizu sugoseba ii no
Tomadou kotoba ataerarete mo
Jibun no kokoro tada uwa no sora
Moshi watashi kara ugoku no naraba
Subete kaeru no nara kuro ni suru
Ugoku no naraba ugoku no naraba
Subete kowasuwa subete kowasuwa
Kanashimu naraba kanashimu naraba
Watashi no kokoro shiroku kawareru?
Anata no koto mo watashi no koto mo
Subete no koto mo mada shiranai no
Omoi mabuta wo aketa no naraba
Subete kowasu no nara kuro ni nare!
*Enquanto cantava para mim mesmo a letra, e dava um sorriso, me peguei imaginando novamente, aonde será que Vangar estava naquele momento, enquanto balançava um garfo na mão.*
— Onde você tá? Seu velho babão... *Digo com uma risada, e saindo do quarto com o papel em mãos, indo gravar por si só a música que escrevera.*
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