A Stopped Clock
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Já avisarei que tenho minhas dúvidas sobre o resultado deste capítulo, isso porque eu não sou nenhuma expert no Suíça. Quem puder, me diz o que achou e me da umas dicas. Ok?
Boa leitura.
Estou nervoso.
Nunca uma simples porta de madeira me parecera uma barreira tão intransponível. Mantenho o pulso firme e o dedo indicador esticado a poucos centímetros da campainha. Será que eu não estava indo longe demais por aquele idiota? Solto um suspiro cansado e pressiono o botão, escutando uma melodia simples preencher os interiores da casa. Não demora muito para que a porta seja aberta por uma pessoa que, no primeiro instante, pensei ser o jovem Zwingli, mas logo notei que era a pequena Lili, que nunca me lembrara tanto o irmão.
– Oh! Rod! – ela diz, se jogando em meus braços em um forte abraço. – Você veio mesmo me ver! Eu sempre soube que você voltaria!
– É claro. Eu estava ansioso por vê-la novamente, Lili. – digo, sorrindo para a menina. – Você cresceu...
Passo os dedos pelas pontas loiras do cabelo da jovem, que, da última vez que eu vira, tinha ainda duas tranças caindo-lhe pelos ombros. Há quantos anos eu não a via? Cinco, mais ou menos?
– Com quantos anos você está? – pergunto, apenas para confirmar.
– Eu estou com catorze. – ela responde alegre, com um sorriso gentil e doce na face rosada. – Tio Rod, você viu que eu cortei o cabelo?
– Ah, sim... Como não notar? Você ficou linda.
Ela deu uma baixa e tímida gargalhada.
– Estou parecida com meu irmão, não estou? – diz sorridente, rodopiando na ponta dos pés.
– Sim... Incrivelmente parecida... – sinto um desconforto me tomar de repente o corpo – E, falando no seu irmão... – meu nervosismo aumenta. – Ele se encontra?
Ela acenou positivamente com um gesto da cabeça.
– Você quer que eu vá chamá-lo? – propõe, com sua voz aguda e suave.
– Por favor.
A menina convida-me a entrar, pedindo que eu aguardasse na sala, e parte rapidamente pelo estreito corredor que levava ao pequeno escritório do suíço, nos fundos da casa.
Acomodo-me no confortável sofá, e, movido pela minha curiosidade, rodo os olhos pela sala: era simples, mas bem aconchegante, apesar de não possuir muitos móveis; o único que realmente me chamou a atenção foi uma cômoda larga, encostada à parede, em que várias fotos estavam dispostas em molduras: a maioria era de fotos da menina, mas, entre elas, a que mais me atraiu foi a velha fotografia de um jovem loiro e sorridente – o menino de minhas lembranças, o antigo Vash Zwingli.
O som de fortes e teimosas passadas me fez voltar o meu olhar novamente ao corredor, pelo qual o alto e zangado loiro vinha em minha direção, seguido de perto pela irmã.
– Espero que seja importante, Edelstein. Diferente de você, eu não tenho tanto tempo livre.
– Desculpe-me, Zwingli. Tentarei não ocupar muito de seu tempo. – digo firme, pondo-me de pé em um salto.
– Assim espero. Tenho mais o que fazer. – diz ele, rígido, pondo-se diante de mim e cruzando os braços sobre o peito, de maneira irritada e contrariada.
Desço os olhos à menina, que me parecia um tanto insegura. Depois de alguns segundos, o suíço finalmente compreendeu o meu repentino silêncio.
– Lili, poderia nos dar licença?
– Ah? Claro... – diz ela, retirando-se de pronto, vagamente entristecida.
Vash se senta em uma larga poltrona, imitado por mim, que volto a me sentar no sofá. Ele me olha com atenção, e os braços permanecem cruzados de maneira impaciente. Espero até que ele se pronuncie.
– Quanto tempo mais pretende me fazer esperar? Diga-me logo para que veio aqui!
– Perdoe-me... – digo, um tanto ofendido. Não tenho culpa se me parecia mais certo que ele, o dono da casa, desse a primeira palavra! Como sempre, Vash Zwingli se mostrava um homem impaciente e teimoso. – A Lili cresceu bastante...
– Sem enrolações, Edelstein. – cortou-me.
– Você continua impaciente como sempre.
– E você continua sendo um idiota excêntrico. – responde, com frieza.
Levanto os óculos, esforçando-me para não perder a compostura. Ele continua a não perder uma única oportunidade de me maldizer.
– Soube que você está ciente das dívidas dos Beilchmidt.
– Sou o gerente, logo, isso já era de se esperar. Mas o que isso tem a ver com você?
– Preciso que me diga o valor, e...
– Pode esquecer. – interrompeu-me.
– Como?... Pois fique sabendo que o próprio Ludwig me mandou procurá-lo e que tenho a autorização para isso!
– Quem se importa com permissões? Eu não vou te falar nada, porque eu assim decidi. – ele dá uma rápida pausa. – Se eles realmente quisessem sua ajuda, teriam-no informado eles mesmos, o que não aconteceu.
A rigidez de suas palavras, acima de tudo, me abalou. Mesmo que o que ele diz faça sentido, eu decidira que iria ajudá-los e não pretendo voltar atrás agora. Por que ele sempre insiste em se opor?
– Por que você sempre fica contra mim?
– Apenas não vejo motivos para te ajudar. – ele diz, indiferente.
Encaro-o, desejando que meu olhar afiado o pudesse cortar. Eu simplesmente não compreendo esse ódio que ele sente por mim.
– Você não muda nunca, sabia? – solto um suspiro cansado, descruzo as pernas e assumo uma postura maisdesleixada, para a surpresa e curiosidade do suíço – Você quer falar sobre aquilo? – dou ênfase à última palavra.
– Se você está se referindo ao que penso estar, já aviso que não estou interessado.
Levanto os óculos, de modo a posicioná-los no lugar. Meu olhar sobre Vash Zwingli é sério, e talvez por isso ele vire o rosto, um tanto incomodado.
– Eu já disse que não quero discutir aquilo. – ele volta a falar, já irritado com meu olhar fixo nele.
– Por que você insiste tanto em fugir do nosso passado? – sinto-me tomado por certa irritação. – Tudo bem se não significou nada para você, mas isso não quer dizer que eu sinta o mesmo!
Ele pareceu um tanto atordoado com minhas palavras, como se lhe custasse a acreditar.
– Você não sabe o que diz, Edelstein...
Trinco os dentes e cerro os punhos, sentindo a face quente de raiva.
– Você é que não sabe o que diz!
Quando percebi, já havia levantado, e agora erguia o loiro pela gola do suéter. Ele me parecia muito confuso e surpreso, e, quando me dei conta de minhas ações, senti o mesmo, largando-o e me afastando, incrédulo.
– Desculpe-me...
Ainda de pé, e a poucos centímetros da poltrona onde Vash estava novamente sentado e me observando, levo a mão aos cabelos e puxo-os para trás, com força.
O suíço suspira, fazendo-me voltar minha atenção a ele mais uma vez.
– Você me parece impaciente como sempre... Roderich... – diz, um tanto desgostoso por pronunciar meu nome depois de tantos anos.
A menção ao meu nome me é uma surpresa; e essa surpresa com certeza transparece em minhas feições. Volto a me sentar no sofá, ainda sob o olhar do loiro.
– Vash, eu só preciso do valor e vou embora... – anuncio, já cansado. – Nenhum de nós deseja estender ainda mais esta conversa, então por que você, uma vez na vida, não me ajuda e simplifica as coisas?
– Até onde sei, o único complicado aqui é você. – ele fala, na maior naturalidade. – Afinal, por que quer tanto assim se envolver nesse problema? Isso não é de seu feitio...
Viro os olhos ao chão.
– Eu não sei.
– Se você me dissesse, pelo menos, eu até pensaria em te ajudar.
– Eu realmente não sei. – repito firmemente.
Um denso silêncio se forma na sala: por vários minutos, nenhum de nós disse nada e nem mesmo nos atrevemos a trocar olhares.
– Você faz isso por se importar com o bem dos dois irmãos ou tudo é apenas por interesse próprio? – o sério timbre do suíço pareceu arranhar meus ouvidos, depois de toda aquela quietude.
Aquelas palavras atingiram-me em cheio, deixando-me, além de incrédulo, ofendido; ainda mais porque ele não aparentava estar brincando. Procuro pelos olhos do loiro, que me observavam atentamente.
– Eu...
Eu queria respondê-lo, mas não sabia exatamente o quê.
– Eu só não quero que ele tenha que vender a casa que ama tanto... Ele parecia tão feliz que... – suspiro cansado – Eu só queria que ele fosse feliz daquele jeito sempre.
– Ele? Está falando do Ludwig ou do Gilbert?
– Do Gilbert... – digo, virando o rosto para o lado, pois sabia que minha face estava um tanto avermelhada.
Um verdadeiro turbilhão de repente agita-me o peito: a minha incerteza sobre meus próprios sentimentos não me permitia defini-los. Um mistura de raiva e irritação juntava-se com a confusão, as dúvidas e um calor aconchegante, tomando conta de meu coração, que batia um tanto acelerado e descompassado. O loiro observava minha reação com certa surpresa.
– Por acaso, você está... – ele dá uma breve pausa. – apaixonado por ele?
Meu rosto é tingido por uma coloração escarlate, que não consegui ocultar. As suas palavras foram tão diretas e impactantes, que não me restou nada além de surpresa e constrangimento; mas eu não era o único surpreso: Vash Zwingli pareceu se transformar em outra pessoa.
– O quê? Isso é sério mesmo? Você, Roderich Edelstein, se apaixonou pelo mais egocêntrico e desleixado ser vivo existente?! – ele ri alto, enquanto se debate na poltrona.
– Fa-Fale mais baixo, tolo!
– Como você conseguiu isso? – ele diverte-se com meu constrangimento – Você não era assim, tão influenciável, quando éramos mais novos.
A menção ao nosso passado atingiu-me em cheio, e aparentemente causou o mesmo a ele – geralmente, nossa infância era tratada como um assunto proibido. O suíço voltou às feições sérias e se calou, desviando o olhar às paredes. Continuo a observá-lo, mas sem ousar me pronunciar. Algo em meu peito se contorcia.
– É. Talvez eu não fosse tanto... – pronuncio um tanto melancólico. Eu simplesmente sentia que aquelas palavras deviam ser ditas. – Acho que, como o passar da idade, nos tornamos mais flexíveis...
Ele estrala a língua em desprezo.
– Não fale com se você fosse um velho, afinal você só tem vinte e quatro anos.
– Na verdade, vinte e cinco. – apresso-me em corrigi-lo.
Ele vira os olhos novamente a mim, encarando talvez minhas palavras com uma afronta ou uma provocação.
– Pare de tornar tudo tão complicado, aristocrata.
– Não me chame assim.
Ele bufou em desdém, fixando os olhos nos meus.
– Eu sempre te chamei assim, então qual é o problema? – confronta-me ele.
– Essa é uma discussão realmente necessária, por acaso?
– Hunf.
Voltamos ao silêncio e não consigo mais desviar meu olhar do loiro à minha frente. No fim, ele não mudara tanto quanto eu pensava — continua com a mesma teimosia -, nossa relação apenas se tornara mais áspera.
– Acho que vou embora, então. – anuncio, ao que me ponho de pé.
Ele passa então a me encarar de forma confusa.
– Você não queria que eu te falasse da dívida?
– Sim, mas você não me parece muito disposto a fazê-lo.
O suíço abre um sorriso sádico.
– É. Talvez não.
Com certa irritação e desgosto, o observo de esguelha.
– Você continua uma pessoa desagradável. – proclamo sério, mas um tanto impassível de emoções.
– Olha quem fala... – responde em tom irônico, enquanto se levantava para me acompanhar até o átrio.
Enquanto o loiro tratava de destrancar e abrir a porta, eu me ocupava encarando-o uma última vez. No fim das contas, essa visita não foi tão ruim e desagradável quanto eu imaginara. Tudo correu bem e sem qualquer problema ou conflito.
Ele termina de abrir a porta e passo por ele, indo assim para o jardim da casa. Ele segue-me alguns passos afora, em silêncio.
– Ei, Rod...
Ouvir o suíço me chamar por um apelido como aquele me foi um misto de susto e surpresa. Nesse momento meu coração bateu mais forte. Viro para ele, transparente como sempre.
– Você sempre teve um péssimo gosto... – diz ele, com um sorriso bobo e infantil e as maçãs da face avermelhadas.
Minha face foi tomada por um calor indescritível. Eu não achava que ele lembrasse daquilo até hoje! E que ainda teria coragem de sequer...
Minha linha de raciocínio foi cortada.
Os lábios do suíço tocaram os meus de forma inesperada, e o susto me fez afastá-lo, empurrando-o pelos ombros.
Ele se afastou e deu um sorriso ainda mais sádico que o anterior, dando assim meia volta e, sem mais nem menos, retornando aos interiores da casa. Eu seguia seus gestos, estático de tão surpreso e escandalizado com o súbito gesto.
– Agora estamos quites, Roderich.
Ele fecha a porta e só então consigo me mover. Aproximo-me rapidamente do lugar onde o loiro estivera, e, tomado por certo desespero, bato os punhos fortemente cerrados contra a madeira, chamando pelo suíço.
– Vash, o que significou aquilo? Responda-me!
Bato com cada vez mais força. Eu não me importava com modos, gestos, opiniões e nem mesmo com a menina que provavelmente estava ouvindo meus gritos.
– Vash!
– Deixa de ser tão barulhento...
Ao ouvir o baixo timbre de voz do suíço, percebi que ele, momento algum, deixara o átrio; muito pelo contrário: eu quase o vejo sentado no chão, com as costas na porta. Parei com os murros e encosto as mãos sobre a madeira, colando o ouvido nela. O suíço estava a falar muito baixo, quase melancólico.
– O que foi... O que foi aquele beijo? – eu digo, deixando transparecer minha confusão — não que eu estivesse sequer me importando em escondê-la.
– Nada de mais. Foi somente algo que eu não pude te dar quando éramos crianças, já que um certo alguém foi embora antes disso... – ele soava um tanto irônico.
– Vash, eu...
– Não fale nada. Não significou nada. Você ama o Gilbert agora, e eu, como um velho amigo, é claro que não vou atrapalhar. Digamos apenas que foi pelos velhos tempos... – ele ainda soava irônico, mas eu ainda percebia seu tom melancólico.
– E se eu não amasse?...
–Eh? Ei, eu posso até ter te beijado, mas isso não significa que eu ainda te ame. Você realmente acha que eu quero algo com um aristocrata petulante e cheio de manias feito você? – de repente sua voz tornou-se mais alta, e não soava mais entristecida como antes – Aquilo não passou de um presente do meu eu do passado.
– Entendo. E é melhor assim. Afinal, nunca ia dar certo mesmo...
– Vai logo embora, idiota! Ou eu vou ter que pegar minha espingarda?!
Um sorriso se forma nos meus lábios, e eu sentia-me satisfeito e sossegado. Um alívio preenchia meu peito, de forma como não fazia há muito tempo.
– Não será necessário. Obrigado por tudo e mande lembranças à sua irmã. – eu me afastava, sem qualquer resposta do suíço. Parei a alguns metros de distância, vislumbrando a porta onde Vash talvez ainda estivesse apoiado. – Você bem que podia pelo menos responder a minha despedida. É o mínimo que uma pessoa com modos tem que fazer. – eu digo, enfatizando minha opinião sobre a falta de educação do loiro.
Eu ainda encarava a porta, talvez esperando uma reação por parte dele, quando a porta foi rápida e brutalmente aberta, por um suíço irritado e impaciente, que me mostrou o dedo médio.
– PRO INFERNO VOCÊ E OS SEUS MODOS, SEU ARISTOCRATA MALTIDO! E EU JÁ MANDEI VOCÊ SAIR DO MEU QUINTAL!
Solto um baixo e prazeroso riso, me afastando até a calçada antes que eu levasse um tiro.
– Apareça lá em casa um dia desses, para tomarmos uma xícara de café. Ok?
– ATÉ PARECE QUE EU IA QUERER TOMAR CAFÉ COM VOCÊ!
Aceno, já dando-lhe as costas, caminhando para casa e para longe do loiro, que instantes antes batera fortemente a porta. Ele pode até agir como durão, mas ele continua sendo o maior dos tolos e sensíveis; talvez por isso eu o amasse no passado e, hoje, guardasse um sentimento por ele, que, mesmo não sendo amoroso, ainda assim é especial.
Notas finais
Estou esperando pelas suas opiniões e dicas. ^^
Agradecimentos especiais às minhas queridas leitoras rewienistas que voltaram a me acompanhar recentemente e que foram meu maior incentivo neste capítulo.
Novamente, peço desculpas caso o Vash tenha ficado um tanto OCC.
BJJS e até uma próxima. ♥
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