A Sombra do Pistoleiro
15 Uma Donzela em Perigo
Notas iniciais
A situação não poderia ser pior. A diligência estava parada no meio do deserto e a noite se avizinhava. Lentamente o sol desaparecia, convertendo-se num disco de fogo que se escondia atrás da longínqua linha do horizonte. O tom vermelho-alaranjado que tingia o céu se esvaía, dando lugar às primeiras sombras da noite.
Algumas estrelas já podiam ser vistas no céu que escurecia livre de nuvens.
John, o velho condutor estava inquieto; na verdade, ele se achava com os nervos à flor da pele. Trabalhava com afinco na roda que estava bastante avariada, se tornara quase inutilizável depois que a diligência passara velozmente sobre uma pedra do caminho trilhado arduamente pelo terreno irregular e arenoso do deserto.
John verificou a situação; percebeu que seria possível prosseguir, mas sabia que seguir em frente significaria expor seus passageiros a grandes e desnecessários riscos. A diligência poderia acabar tombando. Seria pior. Então o velho condutor decidira tentar consertar a roda. Tarefa complicada, poucos recursos. Olhou ao redor e soltou uma praga. As trevas já estavam envolvendo o carroção com toldo, próprio para transporte de passageiros.
— Estamos tão perto! – resmungou John, e bufou irritado.
Denver situava-se a menos de duas horas de viagem, e talvez eles tivessem que passar a noite no deserto. O homem foi sacudido por um forte estremecimento; a ideia definitivamente não lhe agradava. O deserto era um local cheio de perigos como animais selvagens, animais venenosos, assassinos, ladrões, e toda a corja de foragidos da Lei da pior espécie.
Além disso, havia o fato de, à noite, um lugar ermo e aberto como aquele ser assolado por um frio insuportável. A morte parecia espreitar os viajantes durante todo o tempo. John apenas desejava estar em casa, com sua família.
Virando a cabeça, viu seu inexperiente ajudante, o jovem William. Pensou em seus seis passageiros, as três garotas e os três rapazes. Lucy, Linda e Catherine eram jovens adoráveis e indefesas. Bryan e Marvin pareciam ser bons garotos, impecáveis; porém, como civilizados homens de negócios vindos do Leste, com certeza não saberiam sequer segurar uma arma. O mesmo se dava com William, o qual, mesmo sendo seu ajudante, também contava mais como passageiro. Em outras palavras, se surgisse algum problema, o velho John estaria sozinho, podendo contar somente com seu potente rifle Marlin de doze tiros. Não conseguiu evitar uma pontada de medo.
O pior é que seus temores se justificaram, pois logo depois cinco homens armados surgiram do nada para cercar a diligência. Pareciam ter brotado do seio da terra. Corajosamente, mesmo sabendo ser apenas um velho diante de um quinteto de assassinos, John esticou o braço e alcançou seu Marlin apoiado na lateral do veículo. Apesar de sua bravura, não teve chances de usar a arma: recebeu um tiro certeiro de revólver no peito e caiu pesadamente de costas, gemendo. Os bandidos gargalharam ao se aproximar do carro, de armas em punho.
— Mãos ao alto! – rugiu um deles, mantendo o trêmulo William sob a mira.
Os outros olharam para dentro depois de abrir a porta do compartimento de passageiros.
— Boa noite, senhoras e senhores. Isto é um assalto. – dizia o que parecia ser o líder, com imenso cinismo. – Passem para cá os pertences de valor, e bem rápido! Se alguém quiser morrer hoje, basta bancar o espertinho como o condutor velhote de vocês, caído aqui fora.
Ao passo que os capangas recolhiam relógios, carteiras, jóias e demais objetos de valor, o chefe aproveitava para examinar as garotas, seus instintos libidinosos vindo à tona. Gostou de todas. Entretanto, a do meio lhe chamou mais a atenção por ser a mais jovem e ter rosto e corpo tão belos.
— Você! – intimou o patife apontando seu dedo asqueroso e manchado de nicotina para a escolhida moça aterrorizada – Venha aqui fora.
A pobre Catherine, paralisada de medo, não se moveu.
— Vamos, venha cá. – repetiu o crápula sorrindo malevolamente – Você vai ter a chance de saber como é estar com um homem de verdade. Seja uma boa menina e venha logo para os meus braços; assim talvez eu a deixe viver depois que me cansar de brincar com você.
Os bandidos riram ante o grito de horror das moças, sobretudo o da infeliz selecionada.
Os rapazes esbravejavam indignadamente e infelizmente isso era tudo o que podiam fazer. Catherine se viu puxada para fora do veículo, direto para as garras do líder daqueles malditos.
— Vai ser minha, boneca! – grunhia o homem ferozmente à medida que a agarrava pela cintura perfeita – Vai ser minha, querendo ou não!
— Nunca, seu porco! – gritou a garota de forma repentina e valente.
A seguir, ela o esbofeteou com toda a pouca força de que dispunha. Irado, o homem segurou-a pelo braço e a lançou ao chão com violência. Embora caída e humilhada, a moça olhou para ele com altivez e falou com desprezo:
— Prefiro morrer a ser sua, bandido!
O homem, de pé, sacou o revólver e o apontou para o rosto da garota, rosnando:
— Cuidado com o que deseja, menina.
Os belos e agora úmidos olhos da donzela fixaram tristemente o cano da arma. E Catherine julgou que aquele fosse o fim de seus dias, tão curtos aqui nesse mundo. Ninguém iria salvá-la. Lágrimas quentes rolaram livremente por seu rosto bonito.
Indiferente à sua dor, parado diante dela, o bandido exibia um sorriso cruel. Engatilhou a arma num gesto seco. Aquela garota pagaria pela ousadia de tê-lo rejeitado.
O momento crucial chegara. Os passageiros da diligência, em pânico, assistiam a tudo, impotentes. Os comparsas do assassino se divertiam com a cena.
Parecia de fato o fim.
No entanto, é justamente nessas horas que nos damos conta do quão sábio e maroto pode ser o destino. Por pura obra do acaso, Enrico De La Cruz estava por perto naquele instante fatídico. Protegido pelas sombras, se aproximou sem ser notado e assistia à cena. Julgou seu dever intervir. E então, sua voz rouca e fria ressoou na escuridão fantasmagórica do deserto:
— Escute, amigo. A moça está dizendo que não e, se você não sabe o que significa um não, eu explico: a vontade da jovem é contrária à sua. Penso que você vai precisar de umas aulas sobre boas maneiras para aprender a tratar uma dama da forma como ela merece.
— Sim – grunhiu o assassino, virando-se repentinamente na direção de onde procedera a voz – E você, seja lá quem diabos for, também vai precisar de algo, seu maluco: um caixão!
O bandido disparou com rapidez, mas Enrico já tinha se deixado cair de joelhos e inclinara o corpo para a direita enquanto sacava seus Colts. As balas do facínora passaram por ele sem representar o menor risco. Por sua vez, Enrico deu quatro tiros com a rapidez do relâmpago, tão naturalmente quanto se disparasse sob a luz do dia.
O primeiro projétil entrou zumbindo furiosamente no coração do bandido. O segundo alvejou-lhe a testa, o terceiro o rosto e o último, o pescoço. Violentamente catapultado para trás devido o impacto fervente das balas, o homem morreu bem antes de seu corpo bater no chão.
Sentada no chão, estupefata, Catherine piscava os olhos e tentava enxergar a cena que se desenvolvia na escuridão, bem diante de si.
Enrico era uma sombra ágil entre as trevas. Seu vulto se ergueu, recarregou implacavelmente as armas e falou com ela de soslaio:
— Você, moça, me faça um favor: Fique deitadinha ai, bem quietinha, enquanto me entendo com nossos novos amigos, certo?
A seguir, os quatro bandidos restantes se recuperaram do choque momentâneo e abriram fogo ao mesmo tempo. Inacreditavelmente não atingiram o homem que matara seu chefe. Enrico parecia não estar em lugar algum e, ao mesmo tempo, estar em todos os lugares. Era com um fantasma cercando-os, inimigo invisível e impiedoso, um espírito vingador do deserto.
Tiros riscaram o escuro.
Inesperadamente, de um canto imprevisível surge nova e alucinada saraivada de chumbo enviada pelo mexicano.
Gritos de dor ecoando na noite. De agonia. De morte. Cheiro de pólvora flutuando no ar denso e escuro. Pólvora e morte.
Som aquoso de sangue e miolos se espalhando pelo chão arenoso. Baque surdo de corpos em queda. Depois, silêncio tenso e absoluto.
A jovem e bela Catherine Summers se encontrava em tal estado de perplexidade que até se esqueceu de levantar; continuava sentada no chão do deserto, tentando entender a incrível velocidade com que os fatos sucederam. Teve um sobressalto quando repentinamente, no escuro, braços e mãos viris a tocaram com delicadeza, ajudando-a a se erguer. Compreendeu afinal se tratar de seu misterioso defensor, e aceitou com gratidão o auxílio, colocando-se de pé logo em seguida.
— Você está bem? – a voz de Enrico, que soou bem próxima, era agora um sussurro gentil e tranqüilo, amigável, transmissor de confiança. Demonstrava calma e ternura; em nada se parecia com o timbre frio, cortante e metálico o qual abordara o líder dos bandidos poucos minutos antes.
Catherine percebeu que aquele homem podia ter muitas faces. Podia ser implacável com os inimigos, bem como ser uma criatura doce e amável para aqueles a quem ele quisesse bem.
— Agora estou bem, sim. Obrigada. O senhor chegou bem na hora.
Enrico apenas balançou a cabeça e olhou ao redor. Verificou se o pessoal no interior da diligência estava bem. Constatou que todos estavam.
Foi então que o jovem pistoleiro se deparou com John caído perto da roda quebrada do veículo.
— Por favor, ajude-o! – implorava Catherine — John é um bom homem.
No escuro, Enrico sorriu com tristeza.
Ele acreditava na moça, acreditava que aquele homem ferido fosse de fato alguém bom. Seu sorriso triste se devia à terrível ironia de que, num mundo com tal número de homens bons e dignos, sua mãe tivesse se apaixonado logo por um patife, o qual causara sua ruína. E sua morte.
Apesar disso, Enrico ainda tinha fé na bondade humana. Conhecera verdadeiros exemplos e representantes dela: seu pai Javier, senhor Hector, padre Emanuel, Peter Davis, James Muray, sua mãe Maria Dolores e agora, o pobre John ali estatelado no chão. Num ímpeto, abaixou-se junto do homem ferido e começou a examiná-lo na penumbra. Notou que o pulso estava fraco e a respiração era ofegante. John sangrava bastante pela perfuração à bala, no lado direito do peito, perto do ombro.
Enrico conseguiu uma tira de pano relativamente limpo da manga de sua própria camisa e passou a comprimir o ferimento, tentando reduzir a hemorragia.
Com a ajuda da dupla de rapazes do Leste, o jovem mexicano colocou cuidadosamente John deitado no interior da diligência, acomodando o velho da melhor forma possível junto das senhoritas. A seguir, mandou que William permanecesse ao lado de John, comprimindo o pano sobre o sangramento.
Todos os movimentos de Enrico eram acompanhados pelo olhar atento de Catherine, ainda que a jovem não o pudesse distinguir com clareza. Para ela, aquele jovem era feito de aço, vindo de algum lugar do Céu para ajudá-los.
Subitamente, o “jovem de aço” titubeou. Suas forças lhe abandonaram por um instante. Cambaleando, apoiou-se na diligência para não cair. Estava fraco, sedento, faminto, à beira da exaustão. Afinal, caminhara durante todo o dia pelo deserto, sob o sol impiedoso. O cansaço agora o oprimia brutalmente. Enrico chegara a pensar que morreria sozinho naquela vastidão agreste. Aquela diligência seria sua salvação.
Estava agora inclinado sobre o carroção, o braço direito estendido, reto, e a mão direita espalmada sobre a madeira lateral do carro, apoiando o peso de seu corpo fatigado. Mantinha a cabeça baixa, os olhos cerrados e respirava fundo. De súbito sentiu uma mão delicada tocando seu ombro:
— O senhor está bem?
— Água. – ele balbuciou a custo – Preciso de água.
Rapidamente fizeram com que um cantil chegasse às suas mãos.
Enrico bebeu com avidez, sorveu um longo gole e livrou-se do fantasma horrendo da sede. Molhou o rosto, as mãos e a nuca. Sua respiração então se normalizou.
Sentindo-se melhor, ele agachou-se junto da roda avariada do veículo. Perguntou se havia alguma coisa para iluminar o lugar danificado e lhe entregaram uma pequena lamparina a óleo, que não ajudou muito.
Ainda assim, imediatamente apanhou as ferramentas do velho John e se pôs a trabalhar.
Tinha pressa. Estavam perto de Denver, a menos de duas horas de viagem, se seus cálculos estivessem corretos.
O tempo urgia.
Não podiam permanecer ali, expostos a tantos perigos que aquele deserto oferecia, tais como novos ataques de bandidos, ou de animais selvagens. Além disso, o pobre John precisava urgentemente de um médico, ou poderia morrer em decorrência da perda maciça de sangue. Por isso, o jovem Enrico De La Cruz trabalhava com rapidez e dedicação.
Seus olhos já estavam habituados à escuridão daquela noite sem luar. A lamparina a óleo significava muito pouco em um lugar como aquele.
Aquele não era um serviço difícil; em seus tempos como vaqueiro havia construído muitas cercas de madeira e consertado inúmeras rodas de carroças e carroções.
Não gastou muito mais que vinte minutos para realizar os devidos reparos. A seguir, ajudou Catherine a subir a bordo e aguardou enquanto ela se acomodava junto às amigas. Depois, chamou o jovem Bryan, passageiro vindo do Leste e, após as explicações necessárias, entregou-lhe seu poderoso Winchester 73 recarregado e pronto para ser usado.
Embora um pouco trêmulo no início, Bryan procurou empunhar a arma com firmeza e se dispôs a cumprir bem a tarefa designada, que era a de proteger o compartimento de passageiros de algum atacante o qual, por acaso, tentasse se aproximar pelos lados do veículo. Enrico também verificou a carga de seu mortífero par de Colts 38.
Em pé diante da porta do veículo, olhou para os passageiros antes de seu vulto indistinto falar:
— Boa noite, senhores e senhoritas! Chamo-me Enrico Aguilar De La Cruz, e quero dizer que vai ser uma honra viajar com vocês. Também sinto pelos transtornos de há pouco. Agora podemos e devemos seguir viagem. Como viram, este lugar não é seguro. Está cheio de riscos como índios hostis e animais selvagens. No entanto, nenhum animal é mais perigoso do que estes que acabei de matar. – fez uma pausa e apontou para os bandidos esticados no chão. – Pode ser que existam mais por aqui. Vamos dar o fora. Pessoal, vou fechar a porta agora e, haja o que houver, não saiam dessa diligência. Sr. Bryan, ao menor sinal de perigo, faça como expliquei: aponte a arma e atire sem hesitar. Sua vida e a dos demais passageiros podem depender disso. Agora, vamos embora e que Deus nos acompanhe!
A seguir, Enrico fechou a porta e caminhou para a boleia do veículo. Acomodou-se no banco do condutor, tomou as rédeas, fez o chicote estalar vigorosamente no ar. Os cavalos se puseram em movimento, levando atrás de si o carroção desconjuntado, que sacolejou um pouco. As rodas rangeram e o chicote voltou a estalar no ar.
O surpreendente é que, toda essa cena, desde o momento do ataque dos bandidos até o instante em que Enrico colocou o veiculo em movimento, tudo isso se deu na mais completa escuridão de uma noite sem lua, em pleno deserto. A insignificante lamparina a óleo ficou esquecida no lugar do tiroteio.
Mesmo com os olhos acostumados com a falta de luz, as pessoas não podiam ver umas às outras com nitidez, o máximo que enxergavam eram vultos, sombras. Nada mais.
A diligência seguiu rodando, rangendo e sacolejando através do deserto noite adentro. A viagem transcorreu sem novos problemas e, uma hora e cinqüenta minutos mais tarde, chegaram finalmente a Denver.

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