A Sombra do Pistoleiro

10 Os Ventos da Vingança


Notas iniciais
Olá, pessoal! Mais um passo da jornada de Enrico! Vamos descobrir quais informações ele teve em sua terra natal. Abraço carinhoso a todos que tem acompanhado essa história. Boa leitura!!!

Saindo do “La Buena Muerte”, Enrico seguiu para o hotel a fim de se registrar. Em seu quarto, tomou um banho, pôs suas roupas para lavar e se jogou na cama. Na hora em que saíra do saloon, um homem o abordara:

— Olá, amigo. Sou Diego, funcionário do estábulo municipal. Aquele belo alazão é seu? – e apontou para Muchacho.

— Sim, é. – confirmou Enrico, orgulhoso.

— Gostaria que eu cuidasse dele? Posso levá-lo para o estábulo para amanhã, bem cedo, escovar o pelo dele, dar uma boa alfafa e verificar as ferraduras.

— É uma boa ideia.

— E só vai te custar um dólar adiantado, senhor.

O rapaz pagou o homem e foi desamarrar Muchacho. Conversando carinhosamente com o animal, entregou as rédeas a Diego dizendo:

— Cuide bem dele, amigo.

Diego concordou e se afastou levando o alazão pelo bridão.

Agora, deitado em sua cama, com as mãos apoiando a nuca, Enrico dormia profundamente. Quando amanheceu ele se ergueu, vestiu-se e foi tomar o desjejum. Depois rumou para o escritório do representante da Lei.

O xerife Pablo não era antigo no cargo – estava há apenas dois anos como xerife – e não parecia muito disposto a ajudá-lo. Olhava Enrico com evidente desconfiança. Não gostava de estrangeiros, achava que eles eram os maiores responsáveis pelos problemas da cidade. Enrico ficou sabendo que Gonçalo, o xerife que investigara o ataque a ele e sua mãe na época, havia morrido em duelo dois anos antes.

O xerife Gonçalo era o único que poderia ajudá-lo por estar a par de maiores detalhes. O médico Marco Antunes, que salvara a vida de Enrico, se mudara para o Leste dos Estados Unidos com a família. O jovem De La Cruz sentiu uma ponta de desânimo. Subitamente teve vontade de visitar o túmulo dos pais. Agradecendo ao xerife, deixou o escritório dele, desceu a rua principal com passos rápidos e na primeira esquina virou à direita. O pequeno e modesto cemitério se localizava no final da rua, um pouco afastado das casas.

Enrico se encaminhou para lá sem ser incomodado por ninguém. Localizou o túmulo da mãe; estava ao lado do de seu pai, à sombra de um imenso e frondoso carvalho. As lápides de Maria Dolores e Javier eram muito simples, com duas modestas cruzes de madeira, seus nomes escritos e alguns arranjos de flores. A surpresa do rapaz se deu quando viu uma terceira lápide ao lado da de seus pais. Seu nome estava escrito nessa lápide, juntamente com seu ano de nascimento e sua data de “falecimento”. Mesmo sem encontrar o corpo de Enrico, Monterrey o havia sepultado. Também havia um vaso de bonitas flores sobre sua sepultura, o que demonstrava o zelo do coveiro local.

Enrico sentiu uma inquietude inexplicável ao ver seu nome numa lápide. Voltou os olhos para o túmulo do pai.

Pobre Javier!

Morrera tentando dar à família uma vida melhor. Por mais triste que fosse sua morte, Enrico já estava mais conformado, fora uma fatalidade. No entanto, quando olhou para a lápide da mãe, sentiu o sangue ferver nas veias e a revolta crescer no coração.

A vida de sua mãe fora interrompida de modo muito injusto, não por acidente, mas com um assassinato planejado. Maria Dolores era uma mulher bela, jovem e cheia de vida. Não merecia ter morrido daquela forma, jamais fizera mal a alguém.

Os olhos negros de Enrico brilharam sinistramente e uma sombra passou por seu rosto jovem. Para ele, outro nome deveria estar escrito naquela lápide. Um nome que parecia emergir das profundezas do inferno para visitá-lo todas as noites, transformando seus sonhos em alucinantes pesadelos.

Para Enrico, aquela sepultura deveria ser a de Francisco Herrera.

— Não se preocupe, mãe. – murmurou o rapaz, como se Maria de fato pudesse ouvi-lo. — Em breve aquele covarde terá seu lugar a sete palmos de chão. Eu me encarregarei disso.

A seguir, abaixou a cabeça respeitosamente e, em silêncio, fez uma oração pelas almas de seus pais.

Minutos depois deixou o cemitério sem saber exatamente o que fazer. Não estava mais tão seguro de si, as coisas não corriam conforme ele planejava. Passou no estábulo municipal para buscar Muchacho. O alazão, ao vê-lo, levantou as orelhas, contente. Enrico sorriu. Despediu-se de Diego após elogiar seu trabalho e agradecê-lo. Montando Muchacho, rumou rapidamente para a saída da cidade. Quando passou a galope diante do escritório do xerife, o homem da lei sorriu satisfeito por imaginar que estivesse partindo.

Enrico na verdade seguiu para o rancho “La Madre de Dios”.

Não soube a razão. Algo o impelia para lá. Talvez fosse o destino tomando suas providências. Tão logo avistou a porteira do rancho, o jovem mexicano reduziu a marcha de seu cavalo. Seus olhos negros passeavam de um lado para outro, enquanto a mente do rapaz parecia retroceder no tempo, reconstituindo um passado que ele sempre quisera esquecer, mas nunca fora capaz.

Viu o milharal onde se escondera dos assassinos seis anos antes, assim como o lugar onde encontrara a mãe caída. Divisou o curral, e a casa do caseiro, que conhecia tão bem.

Deteve o cavalo diante da residência do patrão, uma elegante construção de madeira, de dois andares, circundada por uma varanda sobranceira que acompanhava toda a extensão térrea da edificação. À direita da entrada havia uma árvore de copa alta e frondosa, em cuja base tinham instalado um poste de madeira para que se amarrassem nele os cavalos dos visitantes. E foi ali, à sombra farta dessa árvore que o recém-chegado viu uma bela garotinha agachada, brincando distraidamente com uma graciosa boneca de pano.

O olhar atento de Enrico também distinguiu um homem na varanda, com as pernas cruzadas e o chapéu sobre o rosto, dormindo sossegadamente numa cadeira de balanço. A luxuosa cadeira rangia ao balançar com suavidade.

Quando Enrico desmontou, a menina finalmente notou sua presença e, erguendo-se, virou-se para olhá-lo com curiosidade. Ela era morena, com os negros e lisos cabelos presos em duas trancinhas laterais, ao estilo “Maria-Chiquinha”. Era uma criança linda, de olhos negros e vivos, bem vestida. Devia ter no máximo uns seis anos.

— Olá! – saudou Enrico sorrindo – O dono do rancho está em casa?

Ela fez que sim com a cabeça, abraçando timidamente a boneca.

— E será que eu posso falar com ele?

Novamente ela sacudiu a cabecinha de modo afirmativo.

— Lucinda, quantas vezes eu já disse para você não conversar com estranhos?

Enrico e Lucinda olharam ao mesmo tempo para o alpendre da grande casa, de onde procedera a voz apreensiva. Viram um homem já idoso, moreno, de estatura média, magro e de olhos brilhantes, atentos. Apesar da idade, as feições do homem transmitiam vigor, força, autoridade. Seu olhar era severo.

A garotinha correu para junto do velho e disse alegremente:

— Desculpe, vovô. Mas aquele moço quer falar com o senhor.

O ancião afagou a cabeça da neta, deu um passo à frente e, pondo as mãos na cintura, bradou:

— E então, forasteiro? Posso ajudá-lo?

Era o mesmo homem da cadeira de balanço. Na certa, acordara ao ouvir a voz do rapaz.

O rancheiro não se apresentou, mas também não seria necessário. Enrico já sabia de quem se tratava quando falou:

— Vejo que o passar do tempo não foi cruel com o senhor, Hector Gonzáles. Não mudou muito. É quase o mesmo de seis anos atrás.

O velho espantou-se ao ouvir isso. Sua curiosidade aumentou:

— Será que eu o conheço?

Dando dois passos adiante, Enrico replicou:

— Pode apostar que sim. Eu sou Enrico. Enrico Aguilar De La Cruz.

Hector ficou branco como o leite e balbuciou:

— Mas que brincadeira é essa, garoto? Enrico De La Cruz está enterrado no cemitério de Monterrey, ao lado dos pais. Foi morto por pistoleiros há seis anos, aqui neste rancho.

— Tem certeza absoluta disso? O enterro de Enrico não passou de uma cerimônia simbólica, pois nunca encontraram seu corpo. – enquanto falava o rapaz andou em direção a Hector e estacou bem diante dele: — Olhe bem para mim, Sr. Hector. Pareço um homem morto?

Face a face com o jovem, reconhecendo naquela fisionomia os mesmos olhos de Maria Dolores, o rancheiro não teve mais dúvidas e quase gritou:

— Será isso possível? Enrico, meu filho, como você cresceu! Se esteve vivo durante esse tempo todo, por que não apareceu?

Hector abraçou furiosamente o rapaz e depois o afastou para olhá-lo de novo:

— Graças a Deus e à Virgem por você estar vivo! Que bons ventos o trazem de volta, Enrico?

— Não sei se são bons, senhor Hector. São os ventos da vingança.

O rancheiro teve um estremecimento.

— Entendo. Vamos entrar. Está com fome? Venha almoçar conosco.

Enrico concordou. Hector chamou dois vaqueiros para cuidar de Muchacho. Enquanto almoçavam, Enrico contou toda sua história e seus planos futuros.

Hector o ouviu e depois comentou:

— Que canalha esse tal de Francisco, hein? Bem que o xerife Gonçalo desconfiava dele! Mas nunca se teve provas para botar as mãos no patife legalmente.

— Imagino. – concordou Enrico – Aquele homem é uma raposa velha. Só não entendo como eu pude sobreviver. Levei um tiro bem no meio das costas, assim como minha mãe.

Hector abanou a cabeça com tristeza quando respondeu:

— Conversei com o médico na época. Ele disse que Maria levou a bala no coração. Morte instantânea. Quanto a você, sabíamos que estava ferido por causa das marcas de sangue. Imaginou-se que os bandidos tivessem levado seu corpo para provar que cumpriram a missão. O médico nunca disse nada a ninguém a seu respeito. Assim que a tragédia aconteceu, eu soube que o maldito Herrera tinha colocado o rancho à venda e decidi comprá-lo novamente. Deixei meu filho tomando conta dos negócios para vir morar aqui. Foi mais ou menos nessa época que minha netinha Lucinda nasceu. Sinto pelo que ocorreu, Enrico. Por que Maria nunca denunciou aquele crápula?

— Ela tinha medo de que ele nos fizesse algum mal. Mas o bastardo acabou fazendo de qualquer forma. O senhor sabe para onde ele foi?

— Para Utah, se não me engano.

— Fica no Oeste americano, não é?

— Sim. – o rancheiro apontou curioso para o colar de Enrico. – O que é?

— Oh, isso? São as duas balas que o médico arrancou de mim na época.

Hector sentiu um calafrio na espinha.

— Vai mesmo matar os assassinos?

— Custe o que custar.

— Precisará de dinheiro. Quanto tem?

— Minhas economias do serviço de vaqueiro. Cerca de duzentos dólares.

— Acredito que seja insuficiente. Vou patrocinar sua vingança. Darei três mil dólares iniciais. Se precisar de mais, me telegrafe.

— É muito dinheiro, Hector.

— Pago qualquer preço para ver aquele patife morto.

— Obrigado, senhor.

— Lembra-se de James Muray?

— Não. Quem é?

— Jim é um gringo que morava aqui, era auxiliar do xerife Gonçalo. Ele estava ajudando Gonçalo na investigação e nunca se deu satisfeito pelo encerramento do caso. Depois que o xerife morreu, Jim voltou para a terra dele. Hoje ele mora em Santa Fé, no Novo México. É o xerife de lá. Vou telegrafar para ele, ver se está disposto a ajudar. Muray sabe muita cosa sobre seu caso, Enrico. Acredito que ficará feliz em colaborar.

— Mais uma vez obrigado, senhor Hector.

— Enquanto isso, você fica hospedado aqui. É meu convidado de honra.

— Mas senhor Hector...

— Não há o que discutir. Meus rapazes estão cuidando de seu cavalo. Vou à cidade agora mesmo telegrafar para o xerife James Muray e encerrar sua conta no hotel.

Enrico assentiu sorrindo e decidiu dar uma volta a pé pelo rancho. Na verdade, achou melhor mesmo ter saído da cidade.

Não queria ser obrigado a matar Ambrósio e o amigo. Eles não eram seus alvos. Parou diante da residência do caseiro, que no momento estava desocupada, e se pôs a observá-la. Seu cérebro ativou mecanicamente a memória e uma seqüência de imagens perturbadoramente vívidas dançou diante de seus olhos.

Lembrou-se de sua infância, quando era ainda bem pequeno. Viu-se trabalhando naquelas terras, cuidando dos animais, ajudando o pai no serviço. Fechou os olhos e quase pode ouvir Javier falando alegremente, contando histórias, rindo. A risada de seu pai era cristalina, contagiante. Aspirou fundo o ar morno da tarde e sentiu o cheiro gostoso do maravilhoso bolo de milho que Maria Dolores costumava preparar. A seguir, pode ver a bela figura da mãe de pé, na varanda modesta, a mão direita sobre os olhos em forma de concha, protegendo-os da luminosidade. A mão esquerda apoiava a cintura. Ela sorria e os chamava para lanchar. Era tudo tão real, tão sensível, que Enrico abanou a cabeça bruscamente para fugir das lembranças.

Recordar que sua infância fora uma fase feliz em sua vida era algo extremamente bom. No entanto saber que tudo isso lhe fora tirado tão injustamente, era algo que doía nele. Algo que abalava suas boas estruturas, pacientemente erigidas pelos anos de convivência com padre Emanuel.

Aquele tipo de reminiscência era um vendaval, soprando com força contra a casa de tijolos construída no coração do jovem De La Cruz por seu pai adotivo.

Algum tempo depois Hector Gonzáles voltou e procurou Enrico:

— James Muray está esperando por você em Santa Fé, filho. Prometeu ajudá-lo no que precisar.

— Nesse caso, parto amanhã cedo.

Os ventos da vingança estavam soprando, e dessa vez levariam Enrico ao Novo México.

Notas finais
E aí? Que acharam? Muito em breve acompanharemos Enrico em sua jornada até Santa Fé. Por favor, deixa um review se puder. Vai me ajudar, e muito! Vejo vocês em breve. Como diria Enrico: "Hasta!" rs