Notas iniciais
Olá, galera! Enrico, apesar de jovem, já viu muita maldade nesse mundo, e seus sofrimentos estão longe de terminar. Mas já é hora também dele conhecer um pouco de bondade, não acham? Espero que gostem!!! Boa leitura!!!

Enrico Aguilar De La Cruz voltou a si e abriu os olhos algum tempo depois.

Não soube precisar o tempo que estivera desacordado. Levantou-se com grande dificuldade e andou cambaleante para fora do milharal.

Sentia-se fraco e uma dor aguda o incomodava. Levou a mão ao ombro ensangüentado e fez uma careta de dor. Um líquido quente e viscoso também escorria por suas costas, colando a camisa de flanela ao seu corpo suado. Lembrou-se que também fora baleado ali.

Saiu do meio da plantação e olhou para os lados, hesitante, certificando-se de que os assassinos tinham ido embora de fato.

Nem sinal dos monstros.

Passeou a vista por várias direções e deteve o olhar sobre sua mãe, imóvel, caída a uns quinze metros de onde ele estava. Ela tinha o rosto na terra e parecia não respirar.

Uma poça vermelha rodeava seu corpo.

Enrico sentiu o coração falhar uma batida dentro do peito. Parecia viver um pesadelo. Tropeçando, ele venceu a distância que o separava de Maria.

Madrecita... – disse o menino, com um fio de voz, ao ver o buraco sangrento nas costas dela. Era um rombo enorme, feito por uma arma potente, de grosso calibre. Talvez o tiro viesse de um revólver calibre 45.

Enrico balançou a cabeça, angustiado. Nunca entendera de armas, nem sequer segurara uma. Além do mais, naquele momento, a arma do assassino era o que menos importava. Sua mãe estava morta bem ali, aos seus pés. Suas pernas vacilaram e ele se deixou cair de joelhos ao lado da mulher que lhe dera a vida e devido à ambição dos outros, acabara perdendo a sua própria vida.

Virou-a com delicadeza para olhá-la de frente. O rosto bonito de Maria Dolores estava empoeirado e crispara-se na morte, ostentando uma expressão de dor, os olhos fechados e apertados, os músculos contraídos, a boca um pouco torta. Talvez a dor que sentira ao morrer nem fosse tanto a causada pelo tiro certeiro, mas sim, a de saber que deixara sozinho no mundo um filho tão pequeno.

Enrico abaixou a cabeça. Duas lágrimas rolaram silenciosamente por seu rosto moreno. De repente, ele ouviu o som de patas de cavalo que se aproximavam e ergueu os olhos, tentando enxergar algo através do pranto. Viu um único cavalo montado por um homem vestido de preto. Seria também um pistoleiro, pronto para acabar definitivamente com ele?

O cavaleiro deteve seu animal, apeou e se aproximou com passos rápidos.

Não era um pistoleiro. Enrico o reconheceu, era o padre Emanuel, o homem que lia para eles as cartas de Javier.

O religioso parou junto dele, sem dizer palavra. Olhou diretamente para o menino e Enrico viu luto em seus olhos. Repentinamente o jovem tombou de lado, respirando com dificuldade.

Só então o sacerdote viu o ferimento em suas costas. Sem pensar duas vezes, o padre pôs o menino desacordado atravessado na sela de seu animal e rumou às pressas para a cidade.

Queria salvar ao menos a vida de Enrico, já que por Maria Dolores não podia mais fazer nada. Assim que pudesse, avisaria o xerife e chamaria o serviço funerário.

O reverendo Emanuel, algum tempo antes, se encaminhava para um rancho vizinho para atender confissão do rancheiro que se encontrava de cama e não podia ir à igreja, na cidade de Monterrey.

No meio do caminho ele escutara a fuzilaria e, prevendo algo terrível com os De La Cruz, o padre corajosamente girara seu animal e seguira a todo galope para o rancho “La Madre de Díos”.

Agora, preocupado, fazia o caminho de volta, correndo contra o tempo.

Quem quer que tenha feito aquilo, não deveria saber que o garoto vivia, pois poderia voltar para liquidá-lo.

Logo, o padre tomou uma decisão. Quando entrou na cidade, o fez de modo furtivo e, cuidando para que ninguém o visse, levou Enrico para a sacristia da igreja. Lá havia um velho sofá, sobre o qual pôs o menino. A seguir, voou para a casa do médico que, por sorte, não era longe. O doutor seguiu Emanuel após ouvir o que acontecera, o padre explicara em poucas palavras. Evitando ser vistos além do suficiente, os dois homens rumaram velozmente para a sacristia da igreja.

O doutor Marco Antunes era um profissional competente e operou o garoto com extrema habilidade, extraindo as duas balas em pouquíssimo tempo.

O machucado na testa de Enrico era apenas superficial.

Doutor Antunes costurou os buracos abertos pelos tiros e fez curativos para estancar o sangramento. Limpou o filete de sangue coagulado na testa do menino e pôs uma gaze sobre o arranhão.

— Ele vai ficar bem? — perguntou o padre, sem esconder sua ansiedade.

— Não sei dizer ainda, reverendo. Ele perdeu bastante sangue. A bala nas costas fez um furo profundo, quase lhe atingiu o pulmão esquerdo. Vou ministrar alguns medicamentos contra a dor e possíveis infecções. De sua parte, o senhor deve fazê-lo manter repouso absoluto, tomar bastando líquido e alimentá-lo bem. Ah, e o principal: dever rezar bastante. Apenas Deus e o tempo irão decidir se Enrico há de sobreviver.

A partir daquele instante iniciou-se a batalha de Enrico De La Cruz pela vida.

Passou dois meses e meio entre a vida e a morte. Os momentos de lucidez eram raros. Seu tempo era preenchido por um sono agitado, repleto de delírios. Ardia em febre e suava. Balbuciava coisas incompreensíveis. O padre Emanuel passava boa parte do tempo ao seu lado, cuidando dele, pondo panos úmidos sobre sua testa.

Enrico não vira o enterro da mãe nem a encenação de seu padrasto, que fingia com maestria estar sofrendo durante o velório e o enterro de Maria Dolores.

Enrico fora dado como morto, mesmo não tendo sido encontrado seu corpo.

Quando chegara ao rancho “La Madre de Díos” acompanhado por dois ajudantes na ocasião do crime, o xerife encontrou tudo revirado na casa dos De La Cruz.

Os pertences tinham sido remexidos. O dinheiro que estava em casa desaparecera, junto com os objetos de valor. Tudo dava a entender que os bandidos vieram para roubar a indenização de Maria Dolores.

Contrariado, o xerife teve que concordar com essa hipótese. Desconfiava de algo, mas não tinha provas. Não havia sinal dos assassinos. Francisco Herrera De La Cruz ganhou da Lei o direito de ficar com a herança dos De La Cruz. Tornou-se um homem muito rico e poderoso. Viveu algum tempo por ali, depois vendeu suas terras e foi embora para Utah, no Oeste dos Estados Unidos.

Tudo isso aconteceu durante o tempo em que o menino viveu imerso na inconsciência. De repente, começaram as melhoras.

Enrico De La Cruz passou a reagir.

O doutor Antunes, que ia vê-lo todas as noites secretamente, se mostrou estupefato com a recuperação do garoto.

O padre Emanuel achara por bem manter Enrico escondido, já que toda a Monterrey o julgara morto. Poderia ser que algum dos bandidos ainda estivesse por perto, na cidade. Apenas o doutor Marco Antunes sabia do segredo do padre Emanuel Antônio.

Por fim, três meses após a tragédia que quase lhe custara a vida, o jovem Enrico De La Cruz ressurgiu das trevas da inconsciência e retornou definitivamente para junto dos vivos. Nem o padre e nem o médico souberam o que o mantivera vivo.

Enrico sabia: era o ódio.

No dia que abriu os olhos e pode finalmente se colocar de pé depois de tanto tempo, Enrico jurou vingança aos homens que destruíram sua vida e a de sua mãe.

Ao ouvir isso, o padre Emanuel estremeceu e o doutor limitou-se a assentir com a cabeça. Entendia a dor do rapaz e, se estivesse em seu lugar, era bem provável que pensasse o mesmo.

Alguns dias depois, o padre Emanuel recebeu uma carta do bispo, transferindo-o para a cidade de Piedras Negras, perto da fronteira com os Estados Unidos.

Ao que parece, ia ocupar o lugar do padre de lá, que morrera vitimado por uma doença. Despedindo-se do doutor Marco Antunes, na calada da noite, padre Emanuel e Enrico galoparam para Piedras Negras, deixando Monterrey para trás, escondida numa nuvem de poeira.

A partir daí, o padre se tornou o segundo pai de Enrico. Recomeçaram a vida na nova cidade. Piedras Negras era um lugar tranqüilo, bom de se viver.

Enrico chamava Emanuel de pai, não de padre. Além disso, respeitava-o da mesma maneira que respeitava Javier quando era vivo. Sempre o ouvia e o obedecia prontamente. Padre Emanuel ensinou seu “filho” a ler e a escrever. Como também dominava o inglês, a pedido do garoto, decidiu lhe ensinar o idioma.

— Por que quer aprender inglês, filho? — ele havia perguntado a Enrico quando ele veio pedir.

— Preciso saber a língua dos gringos, pai. Isso vai me ajudar a caçar os assassinos de minha mãe, que fugiram para os Estados Unidos.

Enrico tinha agora quinze anos e se mantinha firme em seu propósito de vingança.

Embora contrariado com a resposta, o padre não teve outro caminho e ensinou inglês a Enrico, que sempre se mostrara um aluno aplicado. O garoto estudou muito e aprendeu bem o idioma. Falava corretamente, sem o típico sotaque mexicano. Sua pronúncia era boa, clara.

Ao escrever, seu inglês também era impecável. Era um garoto inteligente.

Aos dezesseis anos, Enrico arranjou um emprego como vaqueiro em um rancho bem perto da cidade. Sabia fazer quase tudo e sua habilidade como cavaleiro despertou a admiração e o respeito dos vaqueiros mais experientes.

No meio do trabalho havia inúmeras pessoas, de todos os jeitos e nacionalidades: americanos, mexicanos, mestiços, negros e índios. Enrico se tornou grande amigo de um vaqueiro americano chamado Peter Davis.

Davis era um bom homem, honesto, sincero e brincalhão. Não fazia distinção de pessoas por causa de sua classe, sua cor ou sua nacionalidade. Isso era uma característica rara em um americano.

Mesmo sendo dez anos mais velho que Enrico, tornou-se grande amigo dele.

Ouviu em silêncio a história do garoto e os planos que ele tinha para o futuro.

— Você sabe atirar? — Davis perguntou sério, olhando para Enrico.

— Nunca peguei em armas. — admitiu o rapaz, corando.

— Precisa aprender então, garoto. Deve estar preparado para quando chegar o momento de enfrentar os assassinos.

— Sim. Mas como?

— Não se preocupe. — disse Peter Davis — Eu vou ensiná-lo.

Notas finais
Olá, pessoal! Depois de ter sua vida revirada por um demônio, nada melhor do que dois anjos para guiarem os passos de Enrico, né? Espero que estejam gostando. Como sempre, espero os reviews de vocês! Até breve!!!