A Sombra do Pistoleiro
27 Epílogo - O Direito de Recomeçar
Notas iniciais
Afinal, há final?
Sim e não, meus leitores.
Como assim? Calma, eu explico. Prestem atenção.
Enrico Aguilar De La Cruz é uma lenda. As lendas tem um começo, mas nunca um fim. Ou então não seriam lendas.
Nos contos do Oeste antigo, temos origens de homens lendários. Sabemos data e local do nascimento de Enrico; porém, ignoramos o dia de sua morte. Como mito, ele vai viver para sempre. Pelo menos em nossas mentes e corações. E é o que de fato importa.
O que se sabe com certeza é que seu amigo Peter Davis felizmente resistiu ao ferimento e à cirurgia, e sobreviveu.
Assim como eu, você agora conhece toda a história de vida do jovem Enrico De La Cruz. E é você também, leitor, quem vai dizer o fim que Enrico mereceu ter. Transfiro para você essa responsabilidade.
Há quem ache que ele sobreviveu, mas não voltou para sua vida antiga, não mais viu Catherine Summers.
Há ainda quem diga que Enrico De La Cruz morreu muito tempo depois, em duelo, num saloon qualquer, finalmente abatido por um desses pistoleiros caçadores de fama.
Outros afirmam que ele se tornou um espírito vingador do deserto, defendendo os viajantes contra os assaltantes.
Também houve quem especulasse que ele teria seguido para as montanhas ao norte, viver entre os apaches, ao lado de seu amigo Garra de Falcão, ocupar seu lugar de direito como Ba’cho Dill, o Sangue de Lobo.
Certa vez um caçador de recompensas, mais bêbado que um gambá, jurou de pés juntos, pela alma da mãe, diante de várias pessoas em um saloon decadente em algum lugar do Texas, que tinha visto Enrico De La Cruz como chefe da Polícia Ferroviária quando passou por Abilene.
Em outra ocasião, um agente funerário do Wyoming deu entrevista a vários jornais locais, dizendo que tinha enterrado um cadáver cuja descrição batia com perfeição à de Enrico Aguilar De La Cruz, um homem jovem que estava na cidade, tinha tentado socorrer o xerife em uma troca de tiros contra assaltantes de Banco e morrera no processo.
Essas são todas suposições.
A incerteza a respeito das lendas do gatilho é o que as envolve em um mistério intrigante, tornando-as inesquecíveis, eternas, imortais.
Então, caro leitor, como é o fim que você dá para essa história?
Não sei se irá concordar comigo, porém, depois de tudo isso que soubemos, não gosto de pensar em morte ou solidão.
Prefiro imaginar que Enrico sobreviveu. E viveu.
Que, sendo encontrado a tempo pelos amigos naquele milharal, tão logo se recuperou dos ferimentos, cumpriu sua promessa e foi buscar a amada de seu coração.
Imagino Enrico De La Cruz se casando com Catherine Summers em uma bela igreja do México, a fachada caiada de branco, cercada por muros de adobe que reluzem ao sol vespertino e ostentando seu sino de prata pura, característica de todo templo construído pelos frades das missões franciscanas. O casamento sendo presidido por padre Emanuel, o pai adotivo do jovem mexicano.
Quase vejo a jovem Catherine linda em seu vestido de noiva, o véu cobrindo o belo rosto jovem e radiante, arrastando a cauda imensa própria do vestuário tradicional da ocasião, atravessando a igreja de braços dados com Gregory Summers o qual, com um sorriso, leva a filha até o noivo vestido elegantemente, aguardando diante do altar. A cerimônia e a festa repletas de pessoas, contando com a presença de amigos preciosos como: Peter Davis, James Muray, Mike e Lauren Sanders e Hector Gonzáles.
Para mim, Enrico se livrou de suas armas, mudou de nome e conseguiu passar o resto de seus dias com tranqüilidade em uma fazenda, em companhia da esposa e dos filhos que com certeza viriam depois, vivendo como um proprietário rural de considerável prosperidade.
Não o veremos sozinho, montando Muchacho, rumando para o horizonte que abriga o sol poente.
Por outro lado, não é difícil imaginá-lo escorado a uma cerca de madeira de seu rancho, os olhos negros perdidos pensativamente no céu tingido de vermelho pelo por do sol, o peito largo aquecido pela esperança de dias melhores. Consegue vê-lo assim, tendo seus devaneios interrompidos pela voz musical de Catherine que, sorrindo, aparece na porta para anunciar o jantar?
Tornou-se alguém livre da sombra de seu passado.
Prefiro pensar assim porque, mesmo sendo uma lenda do gatilho, Enrico foi um homem de carne e osso, com suas virtudes e defeitos, seus erros e acertos, seus dons e seus pecados.
E todo homem tem sempre o direito de recomeçar.

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