Por todo o mundo, existem criaturas misteriosas chamadas Pokémon. Há séculos os Pokémon vivem em harmonia com os humanos: alguns são parceiros domésticos, outros ajudam no trabalho manual, e a maior parte destas criaturas vive na natureza, longe da civilização. Existem também aqueles que são usados por pessoas que se denominam “treinadores”. Estes Pokémon unem-se aos seus treinadores em batalhas que vão desde simples amistosos até batalhas de prestígio, onde muita coisa está em jogo.

Morando na pequena cidade de Faywick, está Don, um jovem que acabou de fazer dezessete anos. Seu cabelo é um platinado esticado até o pescoço, deixando uma impressão diferente de outros moradores da cidade. Ele afirma ter nascido assim, mas alguns habitantes da cidade suspeitam que ele seja um enviado sagrado.

Depois de passarem a noite inteira sem dormir, pensando no que faria depois de ter concluído o colégio, ele e sua parceira Eevee, Veevee, decidiram juntos que partiriam numa jornada para descobrir o que queriam fazer da vida.

Claro, essa decisão não foi inesperada. Na noite anterior, Don testemunhou o acontecimento mais doloroso de sua vida: sua amiga de infância Jolteon deixou o mundo. Dezessete anos se passaram em um piscar de olhos, e ele desejou poder ter vivido esse tempo de forma melhor.

Pelo menos ele ainda tem Veevee, que é o que mais importa. Sabendo que morar naquela casa só traria a dor de perder um Pokémon tão querido, os dois decidiram que a melhor coisa a se fazer era ir embora.

Às 8h, o alarme de Fletchling no quarto de Don tocou. Os dois, menino e Pokémon, já0 estavam acordados e vestidos, e trocaram olhares antes de se levantar. — Tá pronta, Veevee? — O menino perguntou, olhando para o céu claro do lado de fora da janela. — Já estamos de saída.

Ebae! — reafirmou a Eevee com um sorriso convicto nos lábios, antes de saltar e escalar até o topo da cabeça de Don, onde costumava ficar sempre que passeavam.

Depois de respirar fundo, Don deu um passo à frente, o primeiro de muitos. Ao chegar à escada que o levava ao andar térreo da casa, pegou uma mala branca (já a havia preparado na noite anterior), que continha o equipamento necessário para a jornada, e desceu as escadas.

— Mãe, hoje é o em dia que começo, o dia que dou o primeiro passo! — Ele anunciou para a mulher, que estava sentada calmamente à mesa para o café da manhã. — Ainda não sei o que fazer, mas tenho certeza que encontrarei a resposta.

— Já conheço suas novidades, meu filho, sei o que aconteceu ontem. — A mulher de cabelo preto contrastante com o loiro platinado de Don respondeu com pesar — Tudo que posso fazer é te desejar boa sorte. Mas não se esqueça de que sua senhora vai sentir saudade, venha ver a mim de vez em quando.

— É claro. — Confirmou o rapaz, acenando positivamente com a cabeça.

Vee! — Concluiu a Pokémon, abanando a cauda, animada.

— A propósito, você está com a Pokébola da Veevee? — Ela perguntou quando viu que o cinto que Don recebeu de seu falecido pai estava vazio.

— Com certeza! — Ele respondeu e em seguida, procurou pelo objeto em um bolso da mala.

Assim que Veevee viu a bola vermelha, ela imediatamente se fez vigilante e começou a observar o dispositivo de perto.

— Aqui está. — Don mostrou e sorriu para sua velha — só que a senhora sabe que ela não gosta nada dessa ideia. — Ele lamentou, sorrindo sem graça, antes de devolver a Pokébola ao bolso, o que fez Veevee se acalmar imediatamente.

— Então creio que tudo está pronto. — concluiu a mãe, tomando um gole de sua xícara de achocolatado. — Está liberado, divirta-se e cuide muito bem da Veevee. — E então direcionou o olhar para a Pokémon. — Veevee, cuide muito bem do Don para mim, também.

Os dois recém-formados aventureiros assentiram em sintonia, e então Don disparou para fora de casa, correndo pelos belos gramados que circundavam sua casa, até chegar à estrada principal da vila.

Sutoppu! — Uma voz familiar gritou, forçando-o a brecar os pés repentinamente.

Veevee precisou se agarrar firme ao cabelo do seu amigo para não cair com aquele freio atordoante.

— Violet! — Don exclamou, se animando ao notar que aquela voz vinha de sua amiga de mais longa data.

No entanto, ao se virar para procurar a amiga, antes que pudesse ao menos ver a silhueta da garota, algo veio voando rapidamente em sua direção, e logo, uma dor veio. Uma dor de Bicada, seguida da risada familiar de Violet.

Por mais que se esforçasse, Don não conseguia tirar o que quer que fosse que estava bicando sua cabeça. Foi só quando sua amiga se aproximou e tirou aquela criatura de cima de Don que ele percebeu que era apenas um Torchic.

Vrr... — rosnou Veevee, ainda em cima da cabeça do seu treinador. — Vae! Vae! — ela gritou, brigando com o Pokémon franguinho, um total estranho para si.

Torchic, tor. — Ele respondeu com uma expressão indiferente, fazendo questão de nem olhar nos olhos da raposa.

— Tá tudo bem, Veevee... — suspirou Don, sua voz falhando enquanto ele tentava se recuperar daquele susto. — Torchic é amigo, esse é só o jeito dele de brincar...

Apesar de não acreditar muito naquela afirmação, a raposinha decidiu deixar passar aquela vez, mas prometia a si mesma que, da próxima vez, faria questão de ensinar uma lição para aquele “frangote”.

— Achei estranho te achar por aqui, você não costuma sair de casa. — comentou a garota, notando o equipamento de viagem que seu amigo carregava. — Não me diga que você vai começar uma jornada também...

— Também?!? — Aquela palavra ligou os sentidos de Don novamente, e com suas energias renovadas, ele finalmente conseguiu visualizar a amiga à sua frente: os cabelos vermelhos que ele sabia que eram pintados, com uma fita roxa que os prendia num rabo de cavalo (presente que Don a havia dado há muitos anos), os olhos violeta – estranhamente naturais – brilhantes, e aquela cicatriz no queixo, uma que sempre causou curiosidade no garoto, apesar de que nunca tivesse coragem de perguntar a razão. — Isso quer dizer que você também vai começar uma?

— É claro, burrão. — bufou a garota, se questionando sobre quantos neurônios seu amigo tinha perdido com o tempo que passou sem sair de casa. — Mas isso me parece uma oportunidade. — ela concluiu, deixando um breve sorriso se formar nos lábios.

— É, a gente podia ir junto! — declarou Don, sentindo alguns arrepios com a ideia de dividir sua viagem com alguém. — Você já tem alguma ideia do que pretende fazer?

— Sim, eu e Torchic vamos entrar no torneio de ginásios! — exclamou a garota, erguendo o queixo sem nem perceber, ação que o pequeno Pokémon frango que ela segurava entre os braços repetiu, querendo causar inveja na Eevee do garoto que há pouco havia bicado.

— Hm, entendi. — Replicou o garoto, cruzando os braços. Olhando para baixo, ele pensou um pouco. — Eu não pensei em nada pra fazer, ainda. Acha que eu deveria tentar participar desse torneio também? — ele perguntou, direcionando o olhar para a amiga.

— É claro! — Violet respondeu, encantada com a ideia. — Vamos ser ótimos rivais! E eu já aviso, eu que vou ser a nova campeã.

— Não se eu passar por cima de você primeiro! — Negou Don, com adrenalina fluindo pelo corpo.

Enquanto os jovens continuavam a discutir sobre o que poderia acontecer dali para frente, duas criaturas os observavam, entretidas. Elas podiam sentir vibrações distintas vindo de cada um, vibrações que se contrastavam e se complementavam ao mesmo tempo.

Yatha era conhecida por receber, diariamente, mais de duzentos navios, trazendo, além de muita carga, muitos turistas interessados em conhecer a região. Junto a esses turistas, no meio de muitos navios que chegariam ao porto de Blackpond naquele dia, estava um garoto excêntrico, que chamava a atenção de todos por onde passava. Seu cabelo era pontudo, de forma que pareciam espinhos, além de ter uma coloração totalmente branca. As roupas que vestia não deviam combinar, uma jaqueta preta com uma calça bege, um cinto com Pokébolas, luvas pretas com furos nos dedos, sapatos pretos de cano alto, e uma bandana – preta, para variar – para completar o visual.

Seu nome era Aoi, e ele vinha da região de Kanto, mais especificamente da cidade de Viridian. Estava acompanhado de dois Pokémon, um Hitmonchan e uma Kirlia, que, assim como seu treinador, estavam focados, observando o porto que se aproximava cada vez mais. Diferente da maior parte das pessoas naquele navio, Aoi não estava indo a Yatha pelo turismo: havia recebido informações de que a base de operações da Equipe Shadow, grupo criminoso que havia matado sua mãe anos atrás, ficava naquela região. Ele acreditava que estar em território inimigo traria para si enorme motivação e ajudaria sua doce Kirlia a evoluir para uma forte Gardevoir, para que ele então pudesse vingar a morte de sua mãe.

Depois de chegar ao porto e desembarcar, Aoi se sentiu um pouco perdido. O lugar era enorme, e muitas pessoas passavam por ali. Mesmo sabendo que estava com seus amigos Pokémon ali, sua timidez ainda levava a melhor, e ele não conseguia juntar coragem para pedir direções para um estranho.

Tomando-o de surpresa, algo tocou seu ombro. O toque era suave e aparentemente inofensivo, mas foi suficiente para assustar o garoto e deixá-lo em estado de alerta. Ele se afastou rapidamente da origem daquele toque, quase que se jogando contra o chão com o movimento brusco.

— Com licença, — pediu uma voz feminina, calma e tranquila. Aoi percebeu que era uma das comissárias de bordo do navio. — Me lembro de você, estava na viagem que acabamos de terminar, e você já está parado a algum tempo aqui. Por acaso está perdido? — questionou a moça, mantendo o tom de voz anterior.

— E-eu?!? Perdido?!? — arquejou Aoi, tentando manter a calma e falhando miseravelmente.

Como verdadeiros parceiros Pokémon, Kirlia e Hitmonchan também entraram em pânico, refletindo o comportamento de seu treinador. O trio estava com as pernas trêmulas e muito vermelho no rosto, impossibilitados de se autocontrolarem.

— É, pelo visto está. — concluiu a moça, sorrindo brevemente. — Não se preocupe, vou levá-lo para o Centro Pokémon do porto e lá você consegue se encontrar.

E assim a comissária partiu, seguindo para o que parecia a saída daquele porto, e ela teria deixado Aoi e a dupla de Pokémon para trás, caso eles não tivessem se acalmado e disparando em direção a ela, tentando não a perder de vista.

Yatha também tinha um excelente sistema ferroviário, um que era elogiado até mesmo pelos habitantes de Galar, a maior região ferroviária do mundo. Mais da metade das linhas eram compostas de trens-bala, que reduziam significantemente os tempos de viagem entre cidades, possibilitando até mesmo que a Linha Um, que ia do extremo sul ao extremo norte da região, completasse suas viagens em menos de vinte e quatro horas.

E viajando pelos trens, oferecendo seu colo como uma cama para seu pequeno Litten, uma garota um tanto baixinha estava. Seus cabelos loiros com mechas coloridas que se complementavam eram como colírio para os olhos que os avistavam, olhos castanhos e uma pele clara que contrastava com as roupas pretas, salvo por alguns pequenos detalhes num azul pastel. Seu nome era Hiromi, e ela tinha o sonho de se tornar rainha de Yatha. Apesar desse título, não se tratava de uma verdadeira realeza, era o título dado à campeã ou campeão de uma competição de apresentações chamadas de Performances Pokémon, onde a sincronia entre treinador e Pokémon era colocada ao teste. Quem conseguisse encantar mais pessoas durante sua jornada, seria o então rei ou rainha da região por um ano, e teria que defender seu título no ano seguinte.

Aquele trem a levava para Everkeep, a capital de Yatha, que tinha o maior Centro Pokémon do mundo, onde também eram feitas as inscrições para a Liga Pokémon e para as Performances. Por isso, o lugar sempre estava lotado, e o ideal era ir para lá durante o começo do dia ou tarde da noite.

Enquanto esperava seu trem chegar ao destino, Hiromi sonhava acordada, imaginando quais Pokémon conheceria e adicionaria ao seu time de performadores, em que danças eles executariam, e em como seria seu duelo com Aiyumi, a atual rainha de Yatha e membro da Elite dos Quatro da região. Nestes sonhos, Aki, o Litten, sempre era a estrela, e ela amava isso.

Don, Violet, Aoi e Hiromi. Quatro almas interligadas pelo destino, escolhidos nos dias de seus nascimentos. Suas aventuras estão apenas começando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.