A Sombra Do Passado - Capítulo Único

1 Capítulo Único - A Sombra do Passado


Notas iniciais
Como na sinopse, um turbilhão de emoções para vocês caros leitores, da total tristeza, ao amor e a depressão. Espero que vocês curtam e eu espero seus reviews ein!!!!!
Beijinhos de açúcar para vocês!!!!!!!!!!!!!

A noite era fria, já passava da uma hora da manhã e eu ainda estava em um canto de meu quarto sentado na mesma posição há mais de duas horas remoendo meus sentimentos, pensando nele, somente nele, nada mais dominava minha mente, sua imagem passava nela a cada segundo, eu lembrava sua voz, de seu jeito “idiota” de ser que me fascinava, mas também com essas lembranças me veio na cabeça um passado tenebroso, um passado que eu já deveria ter esquecido, que eu não deveria mais lembrar, que já devia ter caído nos abismos do Tártaro, no reino de Hades, o senhor dos mortos, mas ainda era muito vivo para mim e eu o enfrentava a cada noite que passava naquela sala, sentado a sua frente, muitas vezes vendo-o, ouvindo sua voz, que para mim era mais pura melodia de um anjo, mas eu sabia que esse anjo era um verdadeiro demônio que destruiu meu coração.

O dia amanheceu e eu ainda não havia dormido, passei a noite em claro pensando nele como seria difícil passar mais uma noite em sua odiada e amada presença, então me levantei fui tomar meu banho de todas as manhãs, santo e milagroso banho que lava a alma e nos faz esquecer a vida, mas eu sabia que essa sensação de leveza não duraria muito tempo, assim que eu saísse do banho, assim que saísse de meu pequeno reino encantado, voltaria para a dura e cruel realidade de um adolescente que foi abandonado pelos pais por ser homossexual e que amava um garoto lindo, alto, loiro, de olhos azuis que penetram n’alma, mas que não o ama, não sente o mesmo, que só pensa em sexo e garotas, que não vê a beleza dos sentimentos mesmo que venham de uma pessoa do mesmo sexo, mas assim é a cruel vida e temos que vivê-la do meio que nos é possível, do meio que ela nos oferece, mesmo que seja um meio difícil não podemos esquecer-nos dos amigos que muitas vezes na hora em que pensamos que ela não tem mais sentido, chegam até nós, nos impedem e dão sentido a ela, mas ainda assim com esse sentido ela não fica completa se não temos quem amamos de um jeito diferente, com um amor que é maior que o amor de amigos, um amor especial que faz nosso corpo tremer por inteiro quando vemos a pessoa amada, que nos faz cair em lágrimas quando pensamos ou quando essa pessoa nos magoa, ainda assim não vou ter como escapar da noite de hoje, tenho prova de inglês na escola, trabalho o dia inteiro então só estudo à noite, a prova será em dupla, só espero não chegar atrasado, como sempre.

Entrei na escola correndo, pois já estava atrasado, não muito, mas atrasado. A professora já estava na sala quando entrei a maioria das duplas já estavam formadas e quando me dei por conta só uma pessoa não tinha dupla, era ele, Gabriel, meu amado, quando percebi isso e quando ouvi o que a professora disse “Adriano, sente-se junto com Gabriel para fazer a prova” minhas pernas começaram a tremer minhas mãos a suar frio, então andei até a classe mais próxima dele, a ergui, coloquei ao lado da sua, puxei uma cadeira, sentei-me e o ouvi dizer:

_ Oi.

_ Oi – disse abrindo meu fichário para pegar meu estojo.

_ Tudo bem?

_ Tudo e com você – indaguei agora olhando para sua beleza inestimável.

_ Estaria melhor se não tivesse essa prova.

Assenti dando um leve riso.

Bem, nós dois fazemos curso de inglês, a loja em que trabalho paga para mim e para outros funcionários já que também atendemos turistas estrangeiros, terminamos a prova por primeiro e a professora nos mandou sair para não passarmos “cola” para os outros, então nos levantamos e saímos, eu fui para um dos bancos do pátio da escola e ele foi em direção a um dos bebedouros e logo depois vindo sentar-se junto de mim mais uma vez tendo que iniciar o diálogo:

_ Então você mora na Rua das Laranjeiras.

_ Como você sabe? – indaguei surpreso.

_ Eu moro na frente do prédio onde você mora – ele disse dando um lindo sorriso.

_ Mas como eu nunca te vi voltando para casa depois da escola?

_ É que você sempre está na minha frente e eu nunca tive coragem pra puxar assunto com você depois que fiz aquilo.

_ Tudo bem, é passado e você tá parecendo um pimentão de tão vermelho – disse dando um breve riso.

_ É, eu sei.

Bem, conversamos por um bom tempo até que o sinal bateu, mas ele, para minha surpresa continuou falando comigo e eu falando com ele e ficamos assim a aula inteira, ou seja, naquelas três horas em que ficamos na escola não nos separamos, mas como é de costume saí primeiro que ele da sala e fiz boa parte do caminho até em casa sozinho até que ouvi uma voz gritar meu nome “Adriano”, me virei para trás e vi que meu amado vinha em minha direção e quando chegou até mim disse:

_ Você caminha rápido em!

_ Bem, eu sempre venho só para casa, então...

_ Ei – cortou-me ele – você nunca veio só para casa, eu sempre estava atrás de você, o protegeria de tudo – disse me olhando nos olhos.

Desviei meu olhar e continuei andando, mas agora com ele ao meu lado e me dando certa segurança, pois andava de vagar, bem, estava mais lento que o de costume. A noite foi passando mais devagar, ficando mais fria e o silêncio que havia entre nós não era um silêncio estranho e desconfortável, mas sim agradável e a sua presença ao meu lado já bastava de tal forma que palavras eram totalmente desnecessárias e com tudo o que acontecia dentro de mim nem sei se saberia responder ou dar continuidade a algum assunto com ele. A noite foi ficando mais fria e estávamos demorando em terminar a passagem pela longa Rua das Laranjeiras onde havia somente as luzes dos postes de iluminação acesas e nosso gostoso silêncio continuava, assim como o frio aumentava e isso estava na cara já que eu andava agarrado ao meu corpo, então ele pergunta:

_ Frio, não é?

_ Um pouco – disse apertando-me a meu corpo.

_ Espere. – ele para, tira sua mochila das costas, abre o zíper de seu casaco de moletom e o estende para mim – vista isto.

_ Não, você vai ficar com frio – encontro o moletom estendido até mim e o levo para perto de seu corpo.

_ Eu insisto, vista – novamente estende o moletom até mim.

Largo meu fichário no chão da calçada, pego o casaco, o visto e nesse momento um arrepio percorre meu corpo do primeiro fio de cabelo até a ponta do último dedo pé, sinto seu cheiro e também o calor do casaco, jamais iria tirá-lo, não sairia de meu corpo, eu faria se fundir a mim, então junto meu fichário do chão, colo-o junto a mim mais uma vez e começamos a andar lento e vagarosamente, queria que agora o caminho fosse o mais longo o possível, não queria tirar o casaco, deixar de sentir seu cheiro junto ao meu corpo, deixar de sentir seu calor, aconteceu o que eu desejei, demoramos a chegar a casa quando chegamos vi que ele realmente era meu vizinho, então nos despedimos e ele em um gesto inesperado por mim meu abraçou, me abraçou muito forte para ser um abraço de amigos, eu já me considerava seu amigo, eu gostei do abraço e gostei muito que o retribui da mesma forma, saímos de nosso abraço, gostoso abraço, atravessei a rua e quando cheguei ao portão do prédio onde moro o ouvi gritar meu nome e perguntar:

_ Nos encontramos amanhã na escola?

Virei-me e respondi:

_ Sim.

Ele me deu um sorriso que foi correspondido, entrou em sua casa, sua mesmo, ele já tinha dezenove anos, trabalhava e pagava seus impostos, bem, eu tenho dezessete e também moro sozinho, trabalho, pago as contas de água, luz e telefone, minha mãe paga o condomínio sem meu pai saber e o IPTU, eu acho que sou um pouco independente por não morar no mesmo teto que eles, mas também sou um pouco dependente de minha mãe que só paga isso por mim porque acha que é seu dever, mesmo que não apóie o que eu sou, de me dar um teto.

Já estava na hora da escola e desta vez eu não estava atrasado, percebi isso porque quando cheguei ninguém havia entrado e só para acrescentar, eu estava com o casaco dele, quando me dou por conta e paro de pensar no casaco vejo que ele está ao meu lado olhando para mim e sorrindo.

_ Quer entrar? – indagou em meio ao seu sorriso.

_ Sim – respondi sorrindo.

Entramos, subimos as escadas para o segundo andar da escola, fomos até nossa sala, entramos, fui até meu lugar habitual perto de Ana, minha melhor amiga desde a infância e ele me surpreendendo mais uma vez se sentou a minha frente, mas hoje não conversamos durante a aula por causa de Ana que não me deixava em paz e não dava brechas e quando eu dava ela logo as tapava e foi assim também no recreio, mas no final da aula não, fomos juntos para casa mais uma vez, mais uma vez em um silêncio gostoso e quando chegamos na frente de sua casa ele me abraçou mais forte que na noite anterior e eu mais uma vez correspondi só que desta vez aninhei minha cabeça em seu peito e uma de suas mãos começou a afagar meus cabelos e daí por diante todas as nossas despedidas foram assim, com um longo, forte e gostoso abraço, um abraço que eu finalmente defini como o abraço dos amantes e descobri que ele me amava na mesma intensidade que eu o amava, mas na última noite tudo foi diferente, ele me abraçou, mas quando saímos do abraço ele juntou-me a seu corpo com uma de suas mão e me beijou, era um beijo doce, calmo e cálido, mas eu senti, por algum motivo eu senti que seria nosso primeiro e último beijo e quando acabou meu amado fez a mesma pergunta, mas agora diferente:

_ Nos vemos amanhã meu amor?

_ Sim – eu não tinha certeza.

Eu tinha a sensação de que alguém estava nos observando, mas pensei que era fruto de minha imaginação, então entrei no prédio e fui para meu apartamento.

Já era de manhã e eu estava indo para meu trabalho quando vejo meu amado correndo de alguém e esse alguém era meu pai empunhando uma arma e minhas sensações da noite passada tornaram reais e então ouvi o tiro e vi o corpo de meu amado cair inerte no chão, disparei em sua direção, cai ao lado de seu corpo, o aninhei em meu colo, beijei seus lábios e então desmaie.

Quando finalmente acordei, no hospital, não me lembrava de nada, mas como se fosse um soco tudo veio à tona só depois percebi que minha melhor amiga, Ana estava ao lado de minha cama no hospital. Virei minha cabeça para o lado e perguntei:

_ É real?

Ela não falou nada, mas a resposta estava em seus olhos e ás lágrimas inundaram meus olhos, era real, meu Gabriel estava morto e seu assassino era meu próprio pai, o mesmo que me expulsou de casa agora havia destruído minha vida completamente, agora nem com meus amigos ela não fazia mais sentido, eu não poderia viver sem ele, então olhei para o outro lado que havia um janela e não pensei duas vezes entes de percorrer a distância que havia, mas antes de atingir meu objetivo braços fortes me amarraram, eram os braços de Augusto, irmão mais velho de Ana então supliquei a ele:

_ Deixe-me morrer, por favor – disse entre minhas lágrimas.

_ Não – disse Ana juntando se nós e me tomando em seus braços – você não vai morrer, eu vou te ajudar a superar isso.

Eu duvidava que ela fosse forte o bastante para isso, mas essa dúvida se foi quando a morte de meu amado completou seis meses:

“Era noite e estávamos na rua somente Ana e eu, haviam umas poucas luzes acesas na longa Rua das Laranjeiras, o vento que soprava era frio, o silêncio era quase total, pois somente ouvia-se o som de nossos passos até que Ana falou:

— Que vento frio, não?

— Muito – disse baixando o rosto – muito frio mesmo.

— Você não pode ficar assim todas as vezes que passamos por aqui – ela parou pegando em meu braço meu braço, bota-me de frente para ela, coloca meu rosto em suas mãos, levanta-o e olha-me no fundo de meus olhos invadindo minha alma – Você tem que viver o presente e não a sombra do passado.

Tirei meu rosto de suas mãos e continuei a andar. Ela jamais poderia entender que justamente naquele momento e naquele lugar o passado era muito mais presente que o próprio presente, a cada segundo naquela rua passava em minha mente a imagem de meu lindo, alto, loiro, de olhos azuis que penetram n’alma amado correndo e meu pai, empunhando uma arma, indo atrás dele e então, me lembro do tiro, vejo meu amado cair inerte no chão e caio sobre meus joelhos desabando em lágrimas, sinto Ana me abraçar e a ouço dizer para si mesma:

— “Esta vai ser mais uma noite muito longa.”

Minha dúvida se fora, minha melhor amiga me ajudaria pelo tempo que fosse necessário e eu tinha que me recuperar, pois meu amado não poderia me ver assim de onde quer que ele esteja.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!