A Sombra
1 Na parede do quarto
Notas iniciais
Virou-se novamente na cama sentindo-se incomodado por pensamentos "animadores".
Já fazia um tempo que ele andava assim, passando metade da noite em claro em meio a devaneios com uma pessoa, a pessoa que lhe atormentava o juízo e a sanidade, Uruha. O primo distante que veio morar com os tios por conta dos estudos, e que desde então vive para encantar Yuu de várias formas.
O menino bonito, educado, inteligente, talentoso e estudioso era tímido e totalmente diferente do primo que sempre fora esquentadinho, nada dedicado aos estudos e de futuro incerto. E talvez fosse por isso que o loiro lhe causasse sensações de bem estar e incomodo ao mesmo tempo.
*****Horas antes*****
-Etto... Ahn, Yuu? -Chamou o mais alto.
-Uhm?
-É que eu queria saber se... Ahn se você vai fazer alguma co-
-Vou dormir, estou cansado- disse mal humorado cortando a frase de Uruha.
-...Coisa amanhã- Suspirou terminando a frase para si e observando Yuu terminar de subir as escadas apressadamente.
Uruha's POV
Só queria saber o que eu fiz pra ele. Sempre tão seco e grosso, nunca fala comigo, eu é que tenho que puxar assunto e mesmo assim acabo levando patada. O meu problema é que eu não consigo evitar falar com ele, na verdade, quando ele responde ainda que grosseiramente, é bom ouvir sua voz.
Seus pais são tão amáveis e gentis, foram tão bons comigo me deixando ficar, mas começo a repensar a decisão que eu tomei, não que eu esteja arrependido, só não quero ser um incomodo pro Yuu. Sabe, essa é a casa dele, as coisas dele, a escola dele, a privacidade dele e eu também estou cansado de ter que falar com as paredes. Na escola eu não tenho amigos, eu tenho muita dificuldade de começar uma conversa e não sei com que milagre isso não é valido quando estou perto dele, parece que qualquer resquício de timidez some. Eu sinto um nervosismo fora do comum e minhas mãos começam a suar e arrepios tomam conta do meu corpo. Sem falar dos sonhos, os sonhos que eu tenho com ele.
Quase sempre eu sonho que ele está me observando, que ele está parado na porta do meu quarto me olhando com a mesma expressão que ele tinha quando nos vimos pela primeira vez em anos, cara de assustado. E quando eu acordo eu olho para a porta e ele não está lá, acho que por isso gosto de dormir com a porta entreaberta só pra ver se ele virá.
-Kouyou?- A voz da tia Keiko. Será que aconteceu alguma coisa? -Oi, está acordado? Vim lhe dar um recado rápido: Eu e meu marido vamos viajar e você vai ficar aqui com Yuu. Por favor, se ele fizer algo grosseiro não se sinta ofendido, eu não sei o que acontece com ele- Disse passando a mão nos cabelos- e qualquer coisa me ligue, ta?
-Tudo bem Keiko-san, tudo irá ficar bem e eu já estou acostumado ao humor dele.
-Então qualquer coisa me ligue- Me deu um beijo na testa e me olhou preocupada aparentando estar com pena de me deixar sozinho de vez já que o filho fazia questão de ignorar minha presença.
A verdade é que eu não sei se tudo vai ficar bem de fato. Ah Yuu por que você é tão complicado, huh?
Yuu POV
-Mas que droga!- Exclamei vendo minha mãe fechar a porta para que "ele" não ouvisse.-Por que isso agora hein?
-Yuu, você já é bem grandinho pra entender que isso é necessário, eu e seu pai não podemos simplesmente cancelar uma viagem de trabalho por frescura sua. E além do mais, você tem que interagir com o seu primo, já faz mais de dois meses que ele veio pra nossa casa e você o trata mal, eu não lhe ensinei uma coisa dessas. Se quer conversar com alguém, converse com ele, tenho certeza que os dois tem muito em comum.- Me jogou um beijo saindo pela porta e gritando do corredor- tchauzinho tenshi.
Agora vou ter que ser forte em dobro, vou ter que continuar ignorando ele, mas vai ter que ser em dobro se eu quiser pelo menos mante-lo aqui em casa perto de mim.
XXXXXXXXXXXX
Ele desceu pro café de pijama, mais lindo que o habitual, ele já era lindo enquanto dormia e acordando então?
-Bom dia- Disse com ainda com a voz rouca cruzando seu olhar com o meu. Olhei pra parede.
-Eu pensei... Que talvez podíamos nos dar melhor, eu faço qualquer coisa pra isso.- O olhei arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços mostrando que pretendia prestar atenção no que ele dizia, mas na verdade eu prestava atenção nos movimentos da boca que estava a metros de distancia da minha a contra gosto.-Tenho me sentido sozinho desde que vim pra cá e achei que você podia conversar comigo de vez em quando, juro que me esforço pra não te chatear, eu só quero alguém com que eu possa falar.- Soltou um suspiro jogado como de alívio e olhou pra mim logo desviando o olhar para o chão.
Como eu queria sair dali e dar uma abraço nele, mas não eu tenho que ser um idiota e me apaixonar pelo meu primo. Porque apesar de muito sexy ele conseguia parecer um criança me fazendo um pedido impossível de negar. Então eu apenas deixei a cozinha e subi para o meu quarto em busca de coragem o suficiente para encará-lo mais tarde.
-Eu só queria saber o motivo... Por que você me trata assim Aoi?- Meu apelido de quando eu era criança, aquele que eu ganhei no dia em que inventei o dele.- Eu fiz alguma coisa pra você? Eu disse algo que lhe machucou? É só dizer... Me desculpe se eu fiz alguma coisa, mas eu não me lembro, não mesmo.
-Você fez sim, mas isso não é da sua conta. E sabe do que mais? Você apareceu aqui só pra me... Olha só, me deixa ta?- Fui em direção a janela ficando de costas para ele.- Me deixa, assim é melhor.
-Do que você ta falando? 'melhor'? Você tem alguma problema, Yuu?
-Tenho, você.
Só ouvi o som da porta do meu quarto bater e logo em seguida outra fazendo barulho no corredor.
Se ele não tivesse reaparecido, isso não teria acontecido, eu não teria me apaixonado por ele. Será que ele não percebe o que eu to sentindo, todas as sensações que ele me causa? No fundo tudo isso é culpa dele mesmo.
POV OFF
As vezes as coisas são tão óbvias, mas como dizem, o amor é cego e no caso deles é uma cegueira diferente. As aparências não contam ou contaram pra isso acontecer, tudo já havia sido traçado pelo Deus do destino. Shiroyama Yuu e Takashima Kouyou eram amigos na infância, mas agora ninguém sabia o que haviam se tornado. O moreno fazia questão de ignorar Kouyou, que não podia imaginar que o motivo de tudo isso era o mais simples e nobre amor que só tinha aumentado com a volta dele para a cidade. Yuu ou Aoi por sua vez tentava abafar as coisas a sua maneira, da maneira mais estranha possível, tentava esconder seus sentimentos pelo loiro e controlar seus impulsos ficando longe dele e fazendo com que ele o odiasse por estar sendo tão grosso, pensava que assim não teria "perigo". Foi o que ele imaginou.
A noite caiu e Aoi já esperava pelo melhor momento de todo seu dia, quando observava Uruha dormir. Quase sempre visitava Kouyou durante a noite, velava seu sono. Lembrava-se da vez que quase foi pego o olhando encostado a porta, por pouco não foi descoberto.
Sentou-se no chão no canto da parede com a cabeça encostada na porta de Kouyou e começou a observá-lo no seu sono de ouro. O modo como seu peito subia e descia enquanto respirava e os pequenos sorrisos que dava de vez em quando, ou as caretas que fazia parecendo ter um pesadelo. Era realmente uma cena digna de filme, o garoto sempre fora o mais bonito de todos, nos lugares que estava e por onde passava arrancava suspiros, tudo isso com toda essa timidez, impossível não se apaixonar por ele.
-Então você vem mesmo?- Abriu os olhos encarando o que estava na porta.
-Quase todas as noites.
-Eu sempre via uma sombra e achava que tinha sonhado- Deu um sorriso triste para o moreno- Mas agora que eu descobri de quem era a sombra, acho que posso ir embora, não quero te incomodar mais.
Chocado, Aoi estava estático na porta ao ouvir tal coisa, não sabia se pedia para Kouyou ficar.
-Kouyou eu... Me desculpa, não queria que você se sentisse mal.
A coragem veio, caminhou até a cama e sentou-se ao lado de Uruha.
-Por que está me pedindo desculpas agora? Afinal, eu sou um problema pra você e está se livrando, por que pede desculpas agora?
-Porque eu não quero que você vá, eu quero que fique aqui comigo pra sempre.
-Está dizendo que quer voltar a ser meu amigo?- Os olhos do loiro brilhavam como os de uma criança.
-Não.
Entristeceu imediatamente abaixando a cabeça.
-Mais que isso, eu disse que quero você pra sempre comigo.
Segurando o queixo do mais novo e olhando-o nos olhos disse:
-Você não é um problema, o que eu sinto por você que é.
Kouyou's POV
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ele estava mesmo sendo sincero? Estava falando comigo como gente! Não acredito que ele está me pedindo pra ficar e que está confessando seus sentimentos.
-Eu...- Preferi deixar as palavras para depois e o beijei, ainda sem entender muito bem como havia chegado nisso. O momento que eu mais esperei desde que cheguei aqui.
Seu cheiro era indescritível, a pele macia e era carinhoso. Uma sensação de que tudo estava tão certo mas ao mesmo tempo tão errado.
Nos separamos em busca de ar e a consciência me cobrou.
-Aoi, isso ta errado, nós somos primos e dois homens.
-Eu tentei me manter afastado por esses motivos, mas não deu certo, o que sinto por você vai além disso Kou, eu nem sei o que te dizer agora.
O abracei mais uma vez inalando seu perfume, poderia ficar naquele abraço pra sempre. Senti meu corpo deitado sobre a cama agora e ele deitado ao meu lado.
-Eu posso dormir aqui com você?
O olhei pensando se seria certo.
-Juro que não vou fazer nada. É só dormir.
O abracei como resposta me aconchegando ao seu peito.
-E o que a gente vai fazer a partir de agora? Seus pais e os meus? O que a gente faz? -Perguntei ainda tentando imaginar o que seria daqui em diante.
-Eu não sei. -Respondeu-me sincero e apertou mais o abraço.
-Aoi, eu te amo.
-Também te amo Kou, muito.
Fale com o autor