A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
8 A Noite — Parte 1
Notas iniciais
Era uma tarde de chá quando ele se dirigiu ao quarto de Murasakibara.
Tudo estava meio frio, até os olhares das pessoas. Esse era o lado ruim de um tempo assim, as pessoas pareciam morrer um pouquinho as vezes. Não que ele ligasse muito, em geral elas eram ativas demais, especialmente em uma escola só para garotos, e havia gritos e todo o resto.
Nesse tempo as pessoas se vestiam melhor, também. Menos Kagami e Aomine, eles nunca se vestiam melhor, o uso de cores e estampas para os dois deveria ser algo muito difícil de ser entendido, eles escolhiam cores que os faziam parecer estar em um dos filmes do Wes Anderson. Murasakibara também não era um grande fashionista, mas ele ao menos aceitava suas críticas e trocava de roupa.
Reclamando durante três horas pelo esforço, parecendo um velho secular, mas trocava.
Ele bateu na porta de madeira a abrindo quando ouviu a permissão. E lá estava o quarto de Murasakibara. O grandão dividia um quarto com um veterano que estudava consigo na mesma sala. Pelo que ele conhecia do garoto — Nunca foram muitos amigos — ele era um cara bem comum. Tirando a neurose que ele tinha por organização, claro.
Esse era justamente o problema em Murasakibara e seu colega de classe comum dividirem o quarto. Os dois protagonizavam discussões inteiras devido a isso, já que Murasakibara era um desorganizador nato e ele não apenas não era organizado, mas ele desorganizava o organizado, era uma espécie de dom quase.
Não deixava de ser uma neurose, também, mas ele se perguntava se o grandão o fazia deliberadamente ou inconscientemente.
Os dois eram os colegas de quarto que mais brigavam, sendo seguidos de perto por Aomine e Kagami e quando as discussões alcançaram seu auge, ele próprio se cansara de ser acordado repentinamente por nada e criara um método para uma convivência mínima dos dois.
O método clássico: Divisão do quarto em dois. E pronto, desde então os dois não brigavam sempre, Murasakibara dormia entre embalagens de alimento e seu colega dormia na fração do quarto mais limpa que muitos hospitais.
— Himu-chin? — Perguntara a voz monótona.
— Sinceramente... Não deveria ter sugerido esse acordo, você está quase soterrado. — Himuro disse.
Murasakibara estava deitado na cama, a cama era menor que o corpo dele, mas ele parecia confortável lá. Himuro riu levemente com as pernas gigantes encolhidas, enquanto o outro jogava um joguinho no celular.
Ele se aproximou e puxou o outro pelo braço. — Vem.
O enorme adolescente mal fez menção de se levantar. — Está frio lá fora. — Disse a afirmação como uma resposta.
Himuro andou rápido até o guarda-roupa, sentindo-se um Jesus da era contemporânea ao andar sobre o mar de porcarias industrializadas. Ele tirou uma blusa que parecia ser quentinha, não o suficiente para o Alasca, mas também não só para fins estéticos. Quentinha.
— Pronto, agora vamos.
Murasakibara reclamou baixinho, naquele jeito de aposentado que ele tinha. Himuro tinha certeza de que quando a mãe do amigo o parira, ele não chorara, mas saudara um mundo com um monólogo em tom de reclamação.
Himuro sempre andara rápido, era uma dessas pessoas que andava no limite do correr. Para ele não existia caminhar observando a paisagem, ele acabava sempre se preocupando em ultrapassar as velhinhas e os lerdos nas ruas. Não era impaciência, era só otimização do tempo.
Já Murasakibara andava meio arrastado, se houvessem tapetes pelo dormitório sem dúvidas ele teria feito todos enrugarem até formar uma montanha com seus pés de criaturas medievais. E mesmo lerdo daquele jeito ainda conseguia tropeçar... Himuro negou com a cabeça, pensando que se ele tivesse aquelas pernas de um metro ele seria a pessoa mais rápida na face da terra.
— Para onde vamos?
— Espere e verá. — Respondeu com aquele sorriso cordial de sempre, sabendo que era o mesmo sorriso que irritava o grandão.
Não demorou muito tempo para estarem andando pelo campus da escola. Himuro estudava ali havia três anos, já. E nunca se acostumara com o sentimento de parecer estar estudando em uma igreja. A família era católica, e ele por consequente estava acostumado com a religião, mas sinceramente... Que católicos visitavam constantemente a igreja? Quase nenhum. E sua família não era exceção, a última vez que estivera em uma fora na missa de sétimo dia do tio.
E isso não era nada reconfortante. Ter a religião associada apenas a mortes era meio desagradável.
Do seu lado Murasakibara andava alheio a tudo isso, as pálpebras meio fechadas que pareciam sempre pareciam estar pegando no sono. Ele se perguntava se o amigo pensava o mesmo ou se ele via tudo como um borrão gótico.
Deveria ser estranho ser Murasakibara.
— Ali não é o Kaga-chin com o Kuro-chin?
Eram eles mesmos. Os dois sentavam em um banco de madeira virado para a ala esportiva do colégio. De longe o professor parecia bem pequeno perto de Taiga, algo que de certa forma dava uma sensação reconfortante no peito. Eles continuaram a andar.
— “Kuro-chin”? Ele é um professor, Atsushi.
O garoto de cabelo lilás — Himuro sempre achava que era mais rosa do que lilás — assentiu. — Mas ele não parece ligar muito para isso, o que é estranho. Ele é Mestre em Literatura Francesa, sabia? Se eu fosse mestre em algo, faria até a caixa do supermercado me chamar de mestre.
Himuro riu, negando com a cabeça. — É só um título, afinal.
— Mas é um título de mestre! — Atsushi respondeu, perdendo um pouco da preguiça habitual. — De Mestre!
Himuro riu mais alto, dessa vez concordando. — De fato, se eu tivesse um título desses ia obrigar a todos me chamarem de mestre, e ainda ia mudar meu nome para Yoda ou Jedi.
— Whoaa, Himu-chin é afinal um desses nerds clássicos.
Tatsuya apenas sorriu, vendo que finalmente chegavam perto do refeitório ele sinalizou com a cabeça para que contornassem o edifício. Lá atrás, uma pessoa com uma blusa de moletom e touca caindo sobre os olhos, o esperava.
— Trouxe o dinheiro? — A pessoa perguntou de imediato.
Himuro continuou andando até ela, com Atsushi logo atrás. — Só se você trouxe o que pedi.
— Himu-chan. — Murasakibara sussurrou alarmado. — Você não devia se envolver nessas coisas.
Himuro quase riu. Ele tirou algumas notas do bolso e as deu para a pessoa, que por sua vez tirou um conteúdo embalado da blusa.
— Confere aí, pra ver se ‘tá tudo certinho. — Era um homem falando, dava para perceber.
Himuro abriu e concordou. — Está sim, valeu.
Quando eles se despediram, Murasakibara ainda se encontrava atrás de si, mais alarmado do que antes, mas só o fato de ainda estar ali, o acompanhando o fez sorrir.
— Isso é perigoso, ainda mais na escola. — Himuro disse. — ‘Cê não fez PROERD, não?
Tatsuya riu. — Eu tenho de me lembrar de nunca convidá-lo para uma passeata a favor da descriminalização da maconha. Mas não é nada disso, bestão. — E estendeu o pacote. — Abre e veja.
O grandão negou rapidamente com a cabeça, como se fosse uma criança, fazendo Himuro rolar os olhos, quase enfiando o pacote no peito do outro com as mãos.
— Vê logo.
E o amigo abriu o pacote, quase tremendo, mas abriu. Para logo depois arquear as sobrancelhas. — Pizza?
— Custou-me um rim, quase. Eles não traficam pizza, deu um trabalhão convencer. — Himuro sorriu, enquanto dava de ombros, em um gesto limpo, que nem ele sabia ao certo o que representava. — Mas pelo menos você não fica chorando por aí, quase um emo, ouvindo Simple Plan, porque está com saudades de comer.
Atsushi apertou o pacote entre os braços, os cabelos tingidos voando sobre os olhos bonitos, ele deu uma fungada que fez Himuro arquear as sobrancelhas. — Você é um grande amigo, não esquecerei seu esforço. — O gigante disse.
— Cobrarei se surgir a oportunidade.
Murasakibara o encarou sério, assentindo. — É uma promessa.
E Himuro riu, porque o grandão estava sério demais para algo como aquilo. Sinceramente... Murasakibara era um idiota, dois metros e um crianção, onde já se viu jurar lealdade por uns pedaços de pizza fria?
Antigamente o que comprava homens eram ouro e mulheres, hoje é massa com molho de tomate e um recheio de sua preferência.
Ele negou com a cabeça e sorriu, os céus sorriam, frios, mas sorriam. E Murasakibara devorava.
Era o melhor ano de Himuro, e ele se surpreendeu ao lamentar o final desse período que ainda não chegara.
— Tem molho de tomate no canto da sua boca.
Ele só descobriu naquele momento que não gostava de despedidas.
xXx
— E aí a série é sobre o Batman e tudo que o envolve, mas não tem o Batman. — Kise suspirou. — Dá para entender Gotham, Kagamicchi?
— Eu tenho certeza que o intuito da série não é mostrar o Batman. — Ele respondeu.
— Mas... Não faz sentido. Tem uma série só para a cidade, daqui a pouco vai ter estudo demográfico, dissertações sociológicas...
Ele só riu. — É, simplesmente, impossível discutir com você, Kise.
O loiro sorriu de lado, mais encantador do que era permitido para qualquer humano o ser. — Aominecchi fala a mesma coisa. — Parou pensando, para logo depois soltar uma risada. — Mas depois me chama de idiota e me dá um chute.
Kagami riu alto. Definitivamente parecia algo que Aomine faria. O falso ruivo se atentou com aquele sorriso que era sorriso, mas que não deixava de ser um pouco triste, do outro. Notou também o tom mais leve e suave ao falar sobre Aomine.
Era algo que estava na sua cabeça havia um bom tempo já: Ryouta estava completamente caidinho por Aomine. E kagami não pôde deixar de se sentir um pouco mal pelo outro, Aomine era simplesmente hétero. Ou assim parecia, já que, durante esses poucos meses que compartilharam o quarto, Aomine agia como um clássico hétero.
Em outras palavras, seu gaydar em momento algum apitou com o outro.
Diferente de Kise, por exemplo. E diferente até do próprio Kise em relação a si. Os dois nunca discutiram sexualidade, mas havia algo de libertador entre os dois. Quando fora pela primeira vez falar com Kuroko, fora Kise que lhe enchera o cérebro de idiotices, escolhendo roupas e produtos estéticos.
Era um estereótipo que Kise soubesse daquilo, claro. Estereótipo idiota até porque nem ele mesmo sabia, só depois foi descobrir que Kise só sabia o que eram todas aquelas coisas pela aproximação dele com a moda. A irmã do loiro era modelo e o próprio já tinha modelado algumas vezes, aliás.
O caso é: Ambos nunca sequer tocaram no assunto, e desviavam dos temas que poderiam ser relacionados ao universo LGBT. A única exceção era de quando discutiam suas divas, Kagami tinha uma predileção astronômica pela Beyonce, enquanto o amigo era um grande fã da Katy Perry.
Como alguém consegue ser fã da Katy Perry, ele não sabia. Mas amizade é isso, aceitar o outro independente do mau gosto dele.
Ele voltou o pensamento ao relacionamento que Aomine e Kise compartilhavam. Sinceramente, Kagami até conseguia entender os sentimentos de Kise. Aomine era um cara legal, mais do que o jeito selvagem e seco, aparente, faziam qualquer um supor. Com o tempo ele se amolecia para algo mais normal e até deixava passar algumas delicadezas de vez em quando.
E o moreno tinha um bom corpo, ele não iria negar isso... Nem poderia, os dois tomaram banhos relativamente próximos muitas vezes. Não que ele ficasse olhando, analisando as minúcias e tudo mais, mas... Ele até fazia isso, céus, ninguém é de ferro. Instintos são instintos. E ele só tinha quinze anos. Caso é: Aomine tinha um bom corpo.
Ele riu enquanto pensava, Kise tagarelava sobre algo e pareceu supor que sua risada viera de algo que falara, então Kagami conseguiu continuar a linha de pensamento.
Aomine tinha um bom corpo, mas nem de perto era tão bonito quanto Kise. Ninguém naquela escola era, nem Kuroko, nem a Vênus de Botticelli nos livros de história, nem as risadas que compartilhavam quando estavam n’A Sociedade. Era uma luta injusta, afinal.
— Hey, hey, Kagamicchi, você já tem algo pronto para falar na próxima sessão?
Ele negou com a cabeça. — Não, mas acho que vou falar sobre algum filme...
Kise pareceu pensar. — Eu queria ler um poema, mas queria falar sobre filmes, também.
— Nada te impede de falar os dois.
— Sabe o que deveríamos fazer? — O loiro disse, com os olhos se iluminando em uma ideia. — Uma sessão só de Harry Potter, acho que, provavelmente, não existe ninguém que não gosta na nossa idade.
— Eu daria Crucio no Midorima.
Kise o olhou horrorizado. — Que horror, Kagamicchi. Não se deve dar Crucio em ninguém, é terrível. — Ele disse como se fosse, de fato, possível realizar a maldição. — Deve ser contra os Direitos Humanos, sei lá.
A risada saiu quente de seus lábios e se condensou no ar gelado daquele dia. Era incrível como esse lugar sofria de uma grande variedade de climas. Um dia estavam molhados de suor em um calor quente, no outro tremendo de um frio pantanoso.
Não era ruim, só era estranho. Isso nunca o permitia se enjoar do tempo.
Mas o frio de fato o pegara de surpresa. Ele terminara por usar um moletom qualquer, com estampa dos Celtic, confortável o suficiente para lhe dar a sensação de estar na própria cama durante o dia inteiro. E Kise usava um daqueles suéteres que antes eram de avós, mas agora era coisa de hipster avant garde. Parecia confortável, mas não parecia esquentar muito, era cheio de furinhos.
Estavam perto da área esportiva da escola, na área em que geralmente tinham educação física. Ele gostava dali, não era como se tivesse algo contra Educação Física. Ele se dava bem, provavelmente suas melhores notas.
Ele ergueu os olhos para observar a quadra, mas a primeira coisa que avistou foram tufos de cabelo azul no meio do ar cinzento. Aquela matiz de cabelo era distinguível em quase toda circunstância, menos em uma apresentação do Blue Man Group.
— Certo... Estou vendo que vou ser abandonado. — Disse Kise com um sorriso.
Kagami desviou o olhar, um formigamento suave atingido as bochechas. — Não sei do que está falando.
Kise rolou os olhos. — Você é pior que eu para esconder os sentimentos... — Disse enquanto bagunçava os cabelos e começava a andar de costas para o caminho, mas de frente para Kagami. As mãos se repousaram na própria nuca em uma linguagem corporal relaxada. — Vou na frente, te espero lá, só não demora muito para não ficar sem comer.
Kagami assentiu, o loiro se virara e saíra andando, enquanto ele desviara do caminho de pedras que levava ao dormitório e se dirigia ao banco que o outro sentava. De repente, assim, como aquela encomenda que você jurava ter sido extraviada há alguns meses, a insegurança fez seu estômago remexer.
Tirou o celular do bolso, para olhar no reflexo e ver se havia algo de completamente inaceitável na aparência, notou que havia, mas era uma questão de cirurgião plástico, não poderia fazer nada. Foram poucos passos até que chegasse perto do banco de cimento que Kuroko sentava-se. Tinha se aproximado cautelosamente, quase como se fosse um predador entre a grama alta e amarela da savana, para assustar o professor, mas no final, tirá-lo daquele transe de olhar perdido com um susto parecia um crime.
Apenas se aproximou, chamando. — Professor?
— Hum? — Disse o outro ainda aéreo. — Ah, Kagami-kun, quer sentar-se? — Perguntou enquanto puxava alguns materiais que tinha deixado no banco para mais perto de si. Havia espaço o suficiente para Kagami sentar, então ele julgou ter sido só um gesto acolhedor despreocupado.
Sentou-se calmamente, sentindo falta daquela aura afiada que quase sempre envolvia o outro. — Está tudo bem?
— Estou sim, os pensamentos de um cara as vezes são ininteligíveis, até para ele mesmo. — Sorriu. — Meu foco deve ter se espalhado que nem as esferas do dragão, vim aqui já tem duas horas para ler esse livro — Levantou o livro em questão na mão. — Não consegui ler nem duas páginas.
— Uma média de uma página por hora, seu nível de concentração ‘tá pior que o meu.
— Nem me vem com matemática, fui fazer letras para fugir disso. — Kuroko disse, um pouco do olhar irônico voltando. — Não conto nem o troco que recebo quando vou comprar bala.
Kagami riu e os dois passaram a observar o céu. Kuroko vestia uma camisa social de manga comprida, apenas. Sem blusa, nem nada. Ele se perguntou se o homem não sentia frio. Mas Kuroko estava tão alheio ao mundo, tão disperso, que parecia não viver aquela realidade naquele momento.
Geralmente, em sua cabeça, Kagami relacionava o comportamento do professor com uma neurose. Só que, naqueles segundos que compartilharam vendo o nada, o garoto sentiu-se acompanhado por um psicótico.
— Hey... O que você acha de tudo aqui? — Perguntou Kuroko, fazendo um gesto de círculo com a mão.
— Tudo?
— É, a porra toda. Aqui. A escola.
Kagami criou um ritmo constante tamborilando os dedos contra a borda do banco. O que ele achava daqui? Não é como se tivesse algo a reclamar.
— Não sei... Não é ruim como eu achava que seria. — Ele sorriu para Kuroko. — Eu conheci gente legal, aqui. Gente importante: Amigos, sentimentos diferentes, professor excêntricos — Ele disse, fazendo questão de frisar com o tom da voz a última parte e assim arrancando um sorriso de canto de Kuroko. — Tem o lado porre da escola, mas acho que escola é porre em todo lugar. É uma constante universal, deve dar até para ser calculada.
O professor deu um riso fraco que deu errado em algum lugar, porque no final virou só um chacoalhar de ombros. Os olhos azuis se voltaram aos céus, a lua já estava lá, em uma daquelas vezes que aparecem cedo e sem estrelas. — Entendo.
E ficaram assim, o mais velho perdido no próprio mundo e Kagami sentindo-se deslocado ao lado dele. Sentia-se quase um maestro de tanto tamborilar sinfonias no banco em que se sentava.
— Está tudo bem, mesmo, professor? — Ele perguntou calmamente, colocando boas frações de segundo entre as frases para que não soasse como uma pergunta negativa.
O professor suspirou, assentindo.
— Talvez seja um pouco de enjoo por estar no barco ébrio de Rimbaud. — Respondeu simples, e ainda que Kagami conseguisse notar que não fora um tom pretensioso ou arrogante, ele não conseguiu deixar de se sentir um ignorante por não saber sobre o que o outro falava.
— Claro, claro. O barco ébrio, — Disse o grandão, com um toque de sarcasmo na voz. — Como não notei antes?
— Certo, acho que mereci. — Os orbes azuis se voltando para a terra verde. — Você saberia se prestasse atenção no que digo na aula, ao invés de ficar me olhando com uma cara de sonso.
É desnecessário dizer que o rosto de Kagami se esquentou e ele se xingou algumas vezes. Achara que estava sendo, minimamente, discreto em suas observações.
Além disso, que costume ridículo era esse que ele tinha se habituado de corar a cada instante. Ele vinha do Japão, e parecia uma de suas meninas de olhos fechados corando apenas por falar com um outro garoto qualquer. Ele provavelmente fizera algum som de desagrado, porque Kuroko logo se desculpava.
— Estou brincando. — Ele disse, um filete de dentes brancos se mostrando. — Barco ébrio é um poema de Rimbaud, em que ele descreve a viagem de um barco até o mar, para no final falar que ele era o barco, e que aquele mar era uma poça d’água. É um belo poema, meu favorito dele.
Kagami notou que ainda não era o Kuroko que estava habituado, de falas rápidas e sagazes. Parecia um cara normal, quase. — Você está se sentindo assim?
Sua pergunta não fora respondida por um tempo, pareceu que o outro realmente refletia sobre o que indagara, mas depois de um instante recebeu um chacoalhar de ombros. — Acho que em alguns momentos todos se sentem assim. Todos acham que sabem bastante, que viveram bastante, para no final ver que tudo que conheceram é apenas uma poça em comparação à toda água que tem no mundo.
Kuroko deu de ombros, novamente, como se não tivesse muito o que falar sobre o assunto, mas o falso ruivo suspeitava que havia muitas coisas, o outro só não tinha vontade de formular o discurso.
Ele observou enquanto o professor tirava os sapatos, seguidos pelas meias para logo depois quase que plantar os pés na terra com grama soltando um suspiro de alívio.
— Deve-se evitar em pensar nessas coisas, elas controlam nossas mentes. É uma bobagem, afinal, porque não há resposta. Além disso enquanto eu tiver a chance de sentir a grama molhada embaixo do meu pé, não tem problema passar algumas horas em um barco idiota. — Kuroko disse, parecendo finalmente mais presente.
Tinha algo de muito íntimo em pés, ao menos isso Kagami pensava. É raro, de fato, se ver o pé das pessoas. O cabelo, braço, pernas... Tudo parece bem acessível aos olhos em diversos momentos, menos o pé. Ele sempre era envoltos por meias e sapatos, e tão longe do olhar. Tinha-se de baixar muito os olhos até encontrar os sustentáculos de uma pessoa.
E o pé de Kuroko era tão pequeno e delicado que Kagami sentia-se invadindo a privacidade do professor, ele terminou por afastar o olhar e evitar encarar os pés do professor.
— Eu acredito que se todo mundo colocasse, sei lá, durante quinze minutos na semana o pé em contato com a terra tudo seria melhor. — O mais velho parou para pensar por alguns segundos. — Acho que até os conflitos em Israel seriam resolvidos. Nós precisamos disso e... Você ‘tá evitando olhar meus pés?
Taiga se alertou. — Não, claro que não!
Kuroko o olhou divertido.
— Japoneses e seus recatos... Sério? Com pés?
— É algo pessoal e... O que está dizendo, você também é japonês. — Protestou.
— De japonês eu só tenho os olhinhos, Kagami-kun. — Disse com um sorriso de lado. — Não sei falar mais de duas frases. Uma é: “Onde fica o banheiro” e a outra: “Me vê um Ramén de frango”. — Ironizou fazendo o falso ruivo rir. — Mas vamos, sem vergonhas desnecessárias, me mostre seu pé.
Ele só pôde olhar o pequeno professor horrorizado. Negou, com seu rosto fazendo uma carranca exagerada. — Não é preciso, professor. Já entendi.
— Eu quero que sinta a terra, vamos.
— Está frio.
— Você tem quinze anos, não vai morrer por isso.
— Eu estou confortável assim.
— É uma forma de nos tornarmos mais íntimos.
— Outro dia. — Kagami disse, rolando os olhos com a insistência do outro.
— Ninguém rola os olhos para mim. — Kuroko simplesmente disse, para se abaixar e puxar a perna de Kagami quase o fazendo cair.
Kagami tentou protestar, não deu certo. Tentou puxar a perna, mas Tetsuya tinha um aperto mais forte do que parecia impossível para alguém com aquele tamanho. — Okay, okay, mas eu tiro! — Quase gritou. Assim se prevenia de passar vergonha caso alguma de suas meias estivesse furada.
— Com esse pé, você poderia ter atuado em planeta dos macacos. Como você consegue calçados nesse tamanho?
Nem se prestou a protestar, o professor o observava com aqueles azuis enormes, todo o objeto que tinha a cor azul, perto daqueles olhos parecia esmaecido. Parecia que naquelas íris havia todos os espectros possíveis de azul que um homem poderia distinguir.
Não importava se Kuroko se sentia em uma poça, só aquela cor já era mais profunda que qualquer mar, ultrapassando o manto terrestre para além do núcleo. Eram olhos de nebulosas, um azul que só se vê naquelas estrelas longínquas. Mas diferente do brilho das estrelas, eles eram suficientemente quentes.
— Você tem razão, — Kuroko o indagou com o olhar, para que continuasse. — é relaxante. Tem algo de muito bom nisso. Sentir a terra nos pés, digo.
Então as constelações concentradas brilharam nos orbes sinceros e era a vez de Kagami sentir-se no barco ébrio.
Ele encarou o professor, e lhe pareceu que olhar estrelas era algo ridículo de se fazer com olhos como aquele existindo.
Não, barco ébrio era vago de mais.
Sentia-se no Apolo 13 ébrio.
xXx
O ar ainda cheirava à noite quando as duas salas adentraram a quadra esportiva. A aurora dera as caras havia pouco mais de uma hora, foi uma manhã tardia. O sol esquentava lentamente o ar, quase como se preguiçoso, também.
Todos os alunos trajavam seus uniformes para a Educação Física e Kagami sentia-se estranhamente disposto para o dia. Ele entrou na quadra entusiasmado, já começando a se alongar, do seu lado Kise tinha a cara mais amarrada do mundo.
— Eu nunca vou entender isso, você dizia que gostava de Basquete. — O falso ruivo disse. — Mas toda aula de educação física é a mesma coisa.
— Eu gosto de basquete, mas não de jogar com gente ruim no basquete. — Kise argumentou coçando os olhos que ainda pesavam de sono. — Nem quando é sem nenhum sentido. Eu gosto de sentido na minha vida.
Kagami riu do drama do outro. — Mas quase nunca a prática de esportes faz sentido, quer dizer que você quase nunca pratica?
— Yep.
— Mas eu vi você jogando com o Aomine, você joga bem demais para alguém que não joga constantemente.
Kise deu de ombros, dando uma jogadinha no cabelo. — Há pessoas que nasceram para a glória, Kagamicchi.
— Eu queria saber o que há para que mesmo quando você é arrogante, não parecer completamente detestável. Não ria, é sério. — Kagami disse enquanto se equilibrava em só uma perna para alongar a outra. — Se você não se exercita, como consegue manter esse corpo?
O loiro parou, o olhando seriamente. — Genética. — Disse para ambos começarem a rir.
Eles começaram a se alongar, o grandão tendo que insistir para que Kise começasse logo e não enrolasse. — Vamos dar uma surra na sala do Midorima, tenha coragem. — Kagami disse com obstinação nos olhos.
Em algum momento, durante o alongamento, Kagami citou a grande elasticidade nas pernas de Kise com tom irônico. O que o fez receber um olhar mortífero e pelo menos dez socos em locais espalhados pelo corpo.
— Eu danço, okay? — Kise disse. — Ogro idiota.
— Se você diz.
Vez em quando conversavam com os colegas próximos e trocavam prováveis estratégias. Só depois de um tempo o falso ruivo foi perceber a falta de contato de Midorima com a própria equipe, que ocupava a outra metade da quadra.
— Ele parece bem concentrado. — Kise o indagou com uma careta, “Quem?”. — O Midorima.
Kise deu um sorrisinho triste. — Não acho que seja bem isso.
— Como assim?
— Céus, você realmente tem um contato muito superficial com o resto da escola. — O loiro disse. — A sala do Midorimacchi tem uma leve apatia com ele.
Kagami lançou um olhar fugidio para o outro lado da quadra. — Leve? Eles nem olham na cara dele.
— Leve é um código para extrema, Kagamicchi...
Ele apenas observou o outro. Sabia que Midorima era inteligentíssimo, tinha notas invejáveis, tinha um bom visual, era consideravelmente bonito e bom nos esportes. Tudo isso não o faria ser tratado mal, não nos dias de hoje ao menos. Há um bom tempo que ser nerd não é uma coisa passível de zombaria. Os nerds faziam parte da fauna escolar e em um patamar elevado, já que poderiam salvar os colegas de reprovações ajudando-os nos testes.
Acontecia, porém, que Midorima não tinha só boas qualidades. Kagami conhecia o gênio terrível, a personalidade aparentemente arrogante e superior além, é claro, de ser alguém simplesmente mais quieto. Algo que constantemente dava a ideia de indiferença.
Midorima era tudo isso, não dava para negar. Mas Kagami o conhecera melhor, e bem... Midorima era arrogante, mas depois de saber quanto tempo e dedicação ele dedicava aos estudos, Kagami achou plenamente justo a arrogância inofensiva que ele portava. E no fundo, sabia que a indiferença que o outro aparentava era apenas uma ilusão, ninguém conseguira fazer Kagami aprender e estudar tanta física como aquele garoto de cabelos verdes.
Coisa que não era tarefa fácil, Midorima merecia os parabéns. Quanto ao gênio difícil, bem... Era uma questão de personalidade, no final acabou se acostumando, e nem a via como algo negativo mais.
— Deve ser difícil não ter amigos para conversar na sala de aula. — Kise comentou baixinho.
O falso ruivo rolou os olhos. — Nem todo mundo apresenta um talk show que nem você, tagarela.
Kise nem ligou para sua provocação arbitrária, apenas foi andando em direção ao amigo no outro lado da sala. Taiga arqueou as sobrancelhas e soltou uma gargalhada quando o loiro alcançou e abraçou Midorima na linha do peito. O portador dos cabelos verdes com as mãos estiradas ao lado do corpo e o nariz sendo levemente contorcido.
— Você é incrível, Midorimacchi.
Kagami viu as sobrancelhas dele se arquearem. — Primeiro: Me solte. Segundo: Cadê meu álcool gel? Terceiro: Pode esperar que eu vou conseguir uma ordem de restrição contra você.
— Ahh... Mas abraços são bons.
Kise continuou a protestar, Shintaro a ser detestável e Kagami a rir dos dois. Três pessoas diferentes. Mas mesmo assim os três fingiram não perceber aquele sorrisinho escondido no canto da boca do garoto de cabelos verdes.
Era um dia bom para o signo de câncer, afinal.
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