A Sociedade Da Investigação Dos Pinguins
11 Capítulo 11 - A Ciência da Dedução
Notas iniciais
Olá.
Acho que eu tenho que narrar a história agora, né?
Meu nome é Rodrigo. Pelo menos, foi isso o que me disseram.
Eu lembro como começou. Acordei numa cama. A sala era branca. Tinha um pinguim ao meu lado, que sussurrou: “Boas notícias... vencemos.”.
“Quem é você, quem sou eu, aonde estou?”, perguntei, confuso. “E vencemos o que?”.
“A guerra, oras...”, falou o pinguim.
“Que guerra?”, perguntei.
“Acho que você está com amnésia, tsc, tsc.”, falou o Pinguim. “Qual é o seu nome?”.
“Não sei... não lembro. Não lembro de nada.”, admiti.
“Realmente...”, falou o pinguim. “Sou um médico. Encontraram você inconsciente no meio da guerra, e te trouxeram pra cá. Ah, falando nisso, tem gente aqui pra te ver. Diz ser um amigo seu.”.
E então, entrou um pinguim. Ele usava um gorro vermelho estranho. Tinha a cor azul.
“Oh, Rodrigo, você está bem?”, perguntou ele.
“Rodrigo? Esse é o meu nome?”, perguntei.
“Ele está com amnésia.”, disse o médico.
“Sim, você se chama Rodrigo. Eu sou o Azul. Éramos amigos.”, falou o pinguim.
“Desculpa, mas... acho que não lembro de você”, falei.
“Tudo bem... mas, tá tudo ok com você?”, perguntou Azul.
“Não sei direito... deixe-me tentar andar aqui pra ver se está...”, falei. Levantei-me e logo senti uma dor mediana e um pequeno desequilíbrio na perna esquerda. “Não sei se vou conseguir andar direito...”, falei.
“Aqui, tente com isso.”, falou o médico, me passando uma bengala.
“Melhorou.”, falei. E tinha melhorado mesmo.
“Bom, receio que não há mais nada que eu possa fazer, sr. Rodrigo. A dor deve passar em algumas semanas, então creio que você já está liberado.”, concluiu o médico.
Sai do hospital, acompanhado do tal Azul. Fomos até o café, aonde ele me pagou uma xícara.
“Ai, ai. Não vou poder trabalhar por um tempo. Você disse que moro num iglu, certo?”, perguntei.
“Sim.”, confirmou Azul.
“Ótimo. Vou vende-lo pra ganhar um dinheiro.”, falei.
“Mas, e ai, aonde você vai morar?”, perguntou Azul.
“Realmente... quem ia querer dividir um iglu comigo?”, falei.
“Sabe... você é a segunda pessoa que me diz isso hoje.”, disse Azul.
“Sério mesmo?”, perguntei.
“Sim.”, confirmou ele.
“E quem foi a primeira?”, perguntei.
Fomos para o laboratório de análise da EPF. Parecia vazio, quando vi que havia um pinguim lá, mexendo e analisando diversas máquinas.
“Azul, pode me emprestar seu celular?”, perguntou o pinguim. “O meu não está funcionando.”.
“Desculpe, mas o meu está sem créditos.”, falou Azul.
Tateei meus bolsos e achei um celular.
“Aqui, pegue o meu.”, ofereci.
“Obrigado.”, disse o pinguim.
Teclou, teclou, teclou e depois me devolveu.
“Obrigado, sr. Rodrigo.”, disse ele.
“Como sabe meu nome?”, perguntou.
“Presumi que você ganhou o celular recentemente num evento comemorativo como natal ou aniversário. Além do estado novo, dá pra ver que foi mal embrulhado sem caixa, por causa das marcas do nome “Rodrigo” de quem escreveu o nome na etiqueta por cima do celular”, explicou ele.
Olhei pras costas do celular. Realmente, se você prestasse muuuita atenção, dava pra ver marquinhas que sugeriam o nome “Rodrigo”.
Voltou a mexer nos equipamentos da EPF.
Então, decidi puxar a conversa. “Então, sobre dividir o iglu...”
“Ah sim, já até o comprei. Estou pensando em dividirmos despesas e contas. Passe lá amanhã, traga suas coisas. 221B, rua Baker.”, falou o pinguim. Então, foi caminhando até a porta, para ir embora.
“Espera!”, falei. “Nós vamos dividir um iglu e eu ainda nem sei o seu nome!”.
“Sou Ghe.”, falou ele, e saiu.
Fiquei parado lá por alguns segundos.
“Ele é sempre assim.”, advertiu Azul.
Fui guiado para meu iglu por Azul. O mesmo comprou o iglu de mim, e, assim, prometi deixar o iglu no dia seguinte, aonde eu iria para o iglu com o tal Ghe.
Assim fiz no dia seguinte. Peguei o que achei de mais importante, fiz minhas malas e fui atrás da tal rua Baker.
Depois de pedir informações para outros pinguins na rua, achei a tal rua. E então, fui para o tal iglu que Ghe havia me falado, o 221B.
Era um iglu de dois andares, e não parecia muito um iglu. Parecia mais um pequeno apartamento. Estranhamente, abri e fui recebido por uma senhora.
“Oh, suba, ele está lhe esperando!”, disse ela. Subi. O andar de baixo era pequeno, era apenas o corredor com a escada, seguido da cozinha e um pequeno quarto com banheiro.
Haviam duas portas, uma de cada lado, separadas por uma pequena sala com um tapetinho e uma mesa com alguns livros.
Entrei na porta da esquerda. Lá estava o tal Ghe, sentado numa poltrona examinando alguns arquivos. O quarto era pequeno, além da tal poltrona, também havia uma porta, (que devia levar à um banheiro) uma mesa com cadernos de anotações e uma cadeira, outra mesa e cadeiras, dessa vez para o computador, uma cama e uma prateleira cheia de livros com... uma caveira em cima.
“Ah, você chegou. Excelente. Aquela lá em baixo é a Sra. Hudson, ela é a caseira daqui. Bem, aquela porta do outro lado do corredor é seu quarto. Pode por suas coisas á, se quiser.”, falou o tal Ghe.
“Oh, ok, obrigado, já vou fazer isso... só por curiosidade, quem é essa caveira?”, perguntei.
“Ah, um velho amigo meu.”, explicou ele. “Morreu na guerra. Perguntei pros parentes dele se tinha problema de eu retirar a caveira e guardar de recordação, e eles deixaram. Sabe, era um dos únicos amigos que eu tinha, além de você.”.
“Eu?”, perguntei.
“Oh, esqueci da sua amnésia, desculpe. Antigamente éramos amigos, sim. Bom, podemos começar tudo de novo. Ser, ou não ser?”, disse, brincando, olhando pra caveira, e depois recolocando-a em seu lugar na prateleira.
“Tudo bem, mas... isso é meio macabro, não?”
“Ah, um pouco. Mas tenho que preservar meus poucos amigos.”, explicou Ghe. “Sem contar que já vi coisas muitos piores no meu trabalho.”
“Qual é o seu trabalho?”.
“Sou detetive consultor.”, disse Ghe. “Eu já te expliquei, mas como você não lembra mais, eu explico de novo. É a profissão que Sherlock Holmes inventa nos livros. Ele e eu somos os únicos.”.
“Sherlock...?”, perguntei.
“Ah, é um personagem de uma série de livros. Eu te mostro.”, falou Ghe. Então, tirou um livro da prateleira e me deu. “Um Estudo em Vermelho, primeiro livro do Sherlock. Senta ai e dá uma lida.”.
Folheei e li algumas das primeiras páginas, mas eventualmente parando pra ver o que Ghe estava fazendo. Ele levou os arquivos que estava examinando para a mesa de anotações, escreveu algumas coisas em um caderno e depois ficou um tempo olhando pra lá até que a Sra. Hudson bateu na porta e entrou no quarto e disse:
“Ghe, seu novo colega cheg... oh, vocês já se encontraram. Bom, era só isso e...”
“Sra. Hudson, pode me trazer um pouco de café?”, perguntou Ghe.
“Eu não sou sua empregada!”, disse ela. “Eu não sou empregada de vocês.”, repetiu, dessa vez olhando pra mim, e foi embora.
“Ela vai voltar, ela sempre volta.”, falou Ghe.
“Então... o que está vendo?”, perguntei.
“Um caso muito estranho. Veja só, tem essa família, os Carvalho. Todos da família foram mortos no mesmo iglu que vivem a gerações, excerto o jovem Aamelo e sua esposa Lila, que moram lá hoje. E todos dizem que eles foram mortos pelo puffle que lá vive, mas até agora, o puffle não apresenta nada de estranho...”, explicou Ghe.
A Sra. Hudson entrou na sala trazendo um bule e uma xícara de café.
“É só desse vez, hein!”, disse ela, zangada, e saiu do quarto.
“Eu disse que ela sempre volta.”, falou Ghe, tomando um gole do café. “Quer um pouco?”.
“Não, obrigado...”, respondi. “Acho que vou no meu quarto arrumar minhas coisas.”.
“Oh, tudo bem. Nos vemos mais tarde pra falar da divisão de despesas do apartamento, então.”, falou Ghe.
Então, fui para o meu quarto. Era bem similar ao de Ghe, com uma porta que dava pra um banheiro, uma cama, prateleira, uma poltrona e duas mesas com um computador em uma delas. Tirando o fato de que uma de minhas mesas não estava cheia de arquivos e anotações e minha prateleira não havia nenhum livro ou caveira, os quartos eram praticamente iguais. Abri minha mala, coloquei minhas coisas em seus devidos lugares e fiquei um pouco no computador. Decidi pesquisar um pouco sobre o tal Ghe.
“GHEEEE...”, gritei, sem sair do quarto.
“O QUE FOI?”, gritou ele de volta.
“QUAL É O SEU SOBRENOME?”, gritei.
“POR QUE?”, perguntou ele.
“CURIOSIDADE.”, respondi.
“LADDO. SOU GHE LADDO.”, respondeu Ghe.
Abri o pesquisador na internet e pesquisei “Ghe Laddo”. Não haviam muitos resultados relacionados ou relevantes, mas havia um blog, com poucas atualizações, feito pelo próprio Ghe, chamado “A Ciência da Dedução”. Cliquei no blog e vi que não era muito atualizado, mas continha pequenos artigos, e em sua página principal, um texto dizendo:
“Eu sou Ghe Laddo, o único detetive consultor do mundo.
Eu não vou entrar em detalhes do que eu faço porque as chances são de que você não entenda. Se você tem um problema que quer que eu resolva, entre em contato comigo. Apenas casos interessantes, por favor.
Isso é o que eu faço:
1 – Eu observo tudo.
2 – Do que eu observo, eu deduzo tudo.
3 – Depois que eu elimino as possibilidades impossíveis, tudo o que permanece, não importa o quão louco possa parecer, deve ser a verdade.
Caso você precise de ajuda, entre em contato e discutiremos o possível.”.
Abaixo disso, Ghe colocava seu e-mail.
Coloquei o blog dele nos favoritos do navegador e depois fechei, e decidi criar meu próprio blog. Fiz um post me apresentando e depois desliguei o computador. Dei uma lida no livro que Ghe havia me emprestado e depois fui ver como ele estava.
“Então, sobre as despesas do apartamento... você pode me ajudar em meus trabalhos, assim a EPF pagaria o dobro por sermos dois.”, falou Ghe, quando me viu entrando.
“Você trabalha pra EPF?”, perguntei.
“Não, sou um detetive consultor independente. Mas eles me chamam frequentemente quando em algo que não conseguem resolver.”, disse ele.
“E, então, está de saída?”, perguntei, ao vê-lo levantando e pondo um chapéu.
“Oh, sim. Aliás, venha comigo. Vamos resolver o caso do Puffle dos Carvalho.”, respondeu Ghe.
Notas finais
Esse episódio foi fortemente inspirado em Sherlock Holmes: Tanto no Sherlock dos Livros quanto no Sherlock do seriado produzido pelo canal BBC, que engloba como seriam as aventuras de Sherlock Holmes no mundo atual.
- 221B, Baker Street, é o endereço aonde Sherlock e Watson dividem um apartamento.
- O personagem de Rodrigo (Veterano de guerra com problemas na perna, que passa a dividir um apartamento com um estranho) é baseado em John Watson.
- O personagem de Ghe (Detetive consultor esquisitão) é baseado em Sherlock Holmes.
- Um Estudo em Vermelho é de fato o primeiro livro de Sherlock Holmes, e foi o nome do capítulo anterior dessa fanfic.
- Sra. Hudson também é o nome da caseira do apartamento de Sherlock.
- A caveira do "amigo" de Ghe é baseada na caveira que Sherlock tem no seriado da BBC.
- Ghe e Rodrigo se conhecem de modo quase idêntico ao que Sherlock e Watson no seriado da BBC. (Watson é apresentado à Sherlock a partir de outro amigo, num laboratório, e Sherlock pede o celular de Watson emprestado).
- O blog de Sherlock no seriado da BBC também se chama "A Ciência da Dedução" (The Science of Deduction) e o texto na página do blog de Ghe é exatamente igual ao de Sherlock. O mais bacana é que o blog The Science of Deduction existe de verdade, numa brincadeira feita pela própria BBC: http://www.thescienceofdeduction.co.uk/
- A ideia de Rodrigo fazer um blog pessoal também veio inspirada no Watson do seriado da BBC.
Fale com o autor