Notas iniciais
Sim, eu fiquei uns 4 meses or so sem postar nada. Bottom text.

A garota sorriu assim que Mika abriu a porta. Era um tipo transparente de sorriso. Por um lado, ele a lembrava de suas irmãs, de como elas gargalhavam quando brincavam, ou de como sorriam quando fazia croque-monsieur do jeito que gostavam.

Por outro lado, era literalmente transparente. Mika via a chuva através da garota. Via as casas, as luzes, a cidade, como se ela não estivesse inteiramente ali. "Como aquela projeção", pensou. Ela recuou para dentro novamente.

— Olá — disse a garota, radiante, estendendo uma mão para um cumprimento. — Tudo bem?

Mika permaneceu onde estava, observando a garota de cima a baixo.

A franja do longo cabelo vermelho-escuro tampava um dos olhos, de um ciano intenso. O colete rosa-choque por cima de uma camisa branca com o nome de uma banda que nunca ouviu falar (o que sequer era Yume no Sekai?), os shorts jeans, as luvas sem dedos. A garota tinha absolutamente tudo para ser perfeitamente normal. Mas ela não está viva, não totalmente, pensou. A pele (se é que era possível chamar assim) era de um tom morto de cinza.

— Será que eu posso entrar? — perguntou ela, mudando o peso (se é que tinha um) de um pé para o outro.

— Eu te conheço? — perguntou Mika.

A garota inclinou momentaneamente a cabeça para o lado, não entendendo a posição que estava.

— Sim, nós nos conhecemos agora — respondeu.

— Não! Espera, o quê? — "o que há com ela?", Mika pensou. — Quem é você? — inquiriu com firmeza.

As engrenagens finalmente rodaram, o suficiente para ela entender exatamente o tipo de interação que estava tendo e a posição que se encontrava.

— Ah! Nossa, me desculpe, me desculpe! Eu não queria ser insensível, de verdade! — apressou-se a dizer. — Meu nome é Jill, é um prazer conhecer você! Agora...será que pode me deixar entrar? Tá frio aqui fora...

"Você ao menos sente frio?"

— Bom, a casa não é minha — disse Mika, cuidadosamente. — Não sei se posso deixar estranhos entrarem — explicou.

— Ah, não precisa se preocupar, eu conheço o dono!

— Sério? Então me diz, qual o nome dele? — questionou, séria.

— Érm, é..., o nome dele é...umm...Picasso!

A jovem arqueou uma das sobrancelhas. "Bom, ela certamente tentou", pensou Mika, lentamente fechando.

— Espera! Só um segundo, por favor! — implorou, tentando impedi-la de fechar o apartamento novamente, mas não conseguiu. Assim que tentou segurar a madeira, algo a empurrou para longe, como uma rajada invisível de vento. — Vocês estão protegendo um assassino!

Mika conteve-se.

— Perdão?

— Vocês estão escondendo um pirralho com uma cartola e uma capa brilhante aí, não é? — inquiriu.

Mika não respondeu, apenas segurou o taco de baseball com mais força.

— Eu vou tomar isso como um sim — disse Jill. — Ele é um assassino. Vocês não podem abrigá-lo.

— E por que eu deveria acreditar em você? — questionou Mika. — Você aparece do nada, mente para tentar entrar em uma casa que não é minha, e agora me diz que tem alguém aqui que é um assassino? É isso?

— Sim, exatamente — disse ela, absolutamente simpática.

— Sem chance — e bateu a porta.

Mika se afastou lentamente da entrada.

(...)

Era inútil. Era simplesmente inútil.

Por favor! Por favor! Me deixa entrar! Por favor, eu imploro! Eu juro que explico direito a situação, mas me deixa entrar, por favor! — os gritos percorriam o salão sem muita efetividade. Era quase como gritar para o vazio, que nem naquela vez.

— CALA A BOCA, TEM GENTE TENTANDO DORMIR — disse algum vizinho. Quase.

Jill bateu na porta mais uma vez. Normalmente não deveria sentir nada, não deveria ser capaz de tocá-la, mas ela não tinha uma permissão verdadeira para entrar. Aquilo era meramente uma barreira.

— Por favor! — disse, batendo mais uma vez.

Era...frustrante. Agonizante. Bater, mas não sentir a energia cinética da sua mão contra a madeira, não sentir a dorzinha irritante nas laterais ou nas juntas por colocar força demais. Não poder pegar em uma câmera, não segurar um roteiro em mãos, virar as páginas de uma história.

Nada…

Por causa dele.

Ela fechou os olhos, se concentrando, expandindo sua consciência, perfurando o véu. Havia ao menos uma permissão parcial, a imagem enevoada de um ambiente surgiu. Linhas de paredes traçadas em bruma, suavemente delineadas, havia um corpo no chão, cercado por caixas e…

Um sibilar agudo soou, Jill sentiu sua frágil existência ancorada no mundo estremecer, sentiu o aperto do Outro Mundo a sufocar, e então foi expulsa.

O que...o que era aquilo?

Ela sentiu algo parecido no passado, mas…quando foi…? Era antigo, e a mensagem foi clara: fique longe. Se afastando lentamente, ela fez seu caminho até a saída. Sua alma ainda queimava, ela mordeu uma das unhas (mesmo sabendo que nada aconteceria consigo por mais que o fizesse). Teria que achar outro momento, teria que esperar.

"Mas seja lá o que foi aquilo, provavelmente vai estar junto com ele", pensou, descendo as escadas. Ela teria que o isolar se quisesse atingir seu objetivo.

Mas e se ele estivesse falando a verdade naquela vez? E se ele realmente estivesse buscando pelo o que disse? Se ela cumprisse o que deseja, o Outro Mundo a clamaria? Se sim, voltar seria a melhor opção. Mas valeria a pena viver no mesmo mundo que aquela criatura repugnante?

A entrada (ou saída) do prédio estava ali adiante. O turbilhão incessante de pensamentos fizeram o ato de descer as escadas em um mero borrão (como todas as outras coisas). E ainda não havia parado de chover...que irritante? Maravilhoso? A garota estendeu a mão na chuva. O líquido atravessou sua forma, mas a essência que ele carregava? Isso sua forma capturou.

Um suave aroma de pimenta, tomates, alho, e sal surgiu em seu âmago tão rápido quanto desapareceu. Era...maravilhoso, por mais que odiasse admitir. Por um momento singelo e infinitesimal havia vida nela. Mas por quanto tempo era seguro fazer isso? E quanto tempo até essas memórias substituírem as que criou?

O portão era uma escolha arquitetônica interessante, retirada diretamente do que o século passado imaginava como seria o futuro. A imagem de um coração humano, que provavelmente dividia-se no meio uma vez aberto, encontrava-se no meio, com as dezenas barras de ferro que deveriam garantir proteção emergindo a partir dele, assumindo a função das veias do corpo. Era completamente inútil, não havia razão para estar ali. Ele não oferecia proteção alguma, qualquer um poderia abrir e fechá-lo, ninguém guardava o local.

Jill concentrou-se, projetou sua consciência, imaginou ela como algo firme, como algo para se defender. E então, caminhou, a chuva escorria ao seu redor, tocando a barreira que fez, caindo ao lado, ela foi até o portão, sua forma ignorou o ferro, atravessando-o. Ela teria que ficar por perto, mas onde? E então, qual seria o…

— Incrível — disse a garota.

Jill virou-se para encará-la. Ela permanecia na chuva, inabalável, era confiança dada forma. As gotas caiam, se acumulavam, e escorriam pelos lados do seu chapéu de caubói. Os cabelos cor de areia, cortados na altura do pescoço, estavam grudados a pele. O interior da jaqueta marrom, feita de pelos de um branco anormalmente puro estavam encharcadas. As esporas douradas da bota rebrilhavam junto a luz dos postes.

— Eu tenho um amigo que consegue fazer isso também — comentou, casualmente. — Nós não somos best buddies ainda, então ele não fala nada sobre como consegue, mas um dia eu aprendo!

Jill se lembrou da primeira chuva que experienciou, em um dreamscape, construído das memórias de um mundo que vagava em direção ao oblívio. A torrente de sabores, odores, cheiros, imagens, tudo de uma vez, foi desnorteante. Conceitos se confundiam, memórias tentavam criar raízes como ervas daninhas, a percepção do mundo ao redor mudava. Os vivos tinham uma vantagem, uma incrivelmente simples: roupas, mas mesmo eles tinham limites, permanecer por períodos extensos causaria danos significativos.

E mesmo assim, ali estava ela. Devia ser indescritivelmente resiliente para conseguir afastar todas as memórias indesejadas. Ou apenas ser incrivelmente burra. De toda forma, Jill sorriu.

— Bom, é bem menos agradável do que parece — admitiu. — Tem muitas coisas que você não consegue fazer. Ele não deve gostar tanto assim também.

— Jura? — disse, ligeiramente surpreso. Ou ao menos fingindo. — Ele nunca pareceu se importar muito. Ele sempre aproveita os limites de algo assim ao máximo, fazendo… — ela balançou os dedos enquanto fazia uma cara esquisita. — Sabe? Coisas…

Jill riu por educação.

— Sim, acho que entendo.

— De toda forma… — disse, se aproximando. — Teria algum problema eu fazer uma pergunta? Digo, outra pergunta, eu já fiz uma. Acho.

A garota inclinou suavemente a cabeça, questionando-se o que possivelmente alguém em uma situação assim poderia fazer. Ela iria anunciar um assalto e exigir todo o dinheiro que possuía na carteira (que ela não tinha sequer a capacidade de carregar)? Ou então seria aquele tipo de gente tosca que tenta te convencer a entrar em um esquema de pirâmides?

— Por acaso você viu uma garota loira esquisita com um casaco de couro?

— Ãhm, você?

— Fora eu.

— Bem…

(...)

Mika segurava o taco com força suficiente para fazer as juntas dos dedos doerem. Observava suas sombras atentamente, buscando qualquer anomalia, qualquer sinal mínimo de perigo, apesar de nada fora do normal ocorrer. Uma comia o prato de comida, que nesse ponto provavelmente já estava frio, outra corria até o banheiro, algumas limpavam a cozinha, e duas iam para fora do apartamento.

Sentia uma fadiga distante se formar. Foram dias fugindo através daqueles lugares. Ela já deveria ter descansado, sentia uma necessidade urgente de fazê-lo, mas seu corpo se recusava a obedecê-la. E quando apagar, vai ser no pior momento possív-.

Toc, toc, toc.

Mika bufou.

— Não adianta garota, eu não vou abrir.

— Isso não foi um pedido — disse uma voz. Mika levantou-se, e caiu logo em seguida. Eram suas pernas que haviam falhado ou prédio que havia tremido? — Tá mais para um aviso.

Mika não pensou, seus músculos agiram por conta própria.

A porta de madeira explodiu em dezenas de fragmentos. Ela sentiu um deles entrar em sua bochecha enquanto juntava os polegares e indicadores de forma a fazer um triângulo com as mãos. Sentiu outro cravar-se parcialmente em suas costelas. Mas não entrou, não totalmente. Ela conseguiu.

Momentos que apenas possivelmente iriam ocorrer, mas que estavam ao seu alcance. Ela podia senti-las, tocá-las. Ela estava em cada um daqueles lugares, mas não estava. Só uma parte. O suficiente para ela conseguir...fazer aquilo...com um pouco...de...esforço…!

Ela sentiu a mudança imediatamente. O som da chuva tornou-se muito mais audível, não mais abafado pelas paredes do apartamento. O vento tocou seu rosto. A luz da lâmpada da cozinha não estava mais atrás dela, estava ali adiante, iluminando a entrada, emoldurando aquela mulher.

— O seu truque de teletransporte não vai funcionar por muito mais tempo… — advertiu, cravando seus olhos nela.

Sombras passaram a disparar em diferentes posições. Traços débeis ligavam a uma única dentro de casa, outras corriam atrás de Mika, outras iam em direção a ela. Estavam livres, ela podia vê-las.

— Em nome de… — ela fez uma pausa. — Eu não preciso repetir tudo o que eu disse da outra vez, preciso? Só se rende, tudo bem? A gente já está na cidade do meu chefe, você me poupa trabalho, todo mundo sai ganhando!

Mika permaneceu em silêncio. Sua bochecha ardia com o fragmento de madeira ainda cravado ali, sangue escorria por ela e pingava em seu casaco, enquanto uma mancha espalhava-se pela camisa. Ela ainda tinha seu taco consigo ao menos, foi melhor do que nas primeiras vezes. Inicialmente levava tudo consigo, incluindo a velocidade de uma queda particularmente alta e um tiro que levara em um lugar menos do que agradável. Também não levava nada, incluindo provas fundamentais para provar que uma pessoa era uma assassina.

Se render seria mesmo a melhor opção, disse a garota usando roupa de coelho. Aquele cara havia pego a máscara da fantasia, por sorte não estava ali.

Mika piscou com força. Uma, duas, três vezes. Sumiu.

Eu não vou embora tão facilmente, sabia?, repetiu a garota. Se rende logo, você mesma sabe que não deveria estar aqui…

Mika olhou ao redor brevemente. Nenhuma criança, então...

— Cala a boca… — disse em voz alta, era libertador poder se expressar adequadamente. — Nem fodendo que eu faço isso.

(...)

Eram absolutamente intermináveis. Não havia ponto em atirar, e mesmo fugir era infrutífero. Collin tinha a impressão que poderiam facilmente cobrir toda a cidade se ele desejasse. Olhos brilhantes no escuro, sibilando. O miasma do veneno em suas presas parecia querer infectar o ar.

Ele sentiu a mudança. O que deu com as sombras, perguntou-se, assim que ressurgiu na rua. Elas disparavam, e continuavam disparando, sem parar. Mais possibilidades não significavam nada quando era impossível vê-las com atenção. "E se tem mais possibilidades", pensou, enquanto voltava os olhos para uma sombra se debatendo no chão, "existem algumas onde as coisas não foram como planejado".

— Qual é, vai ficar correndo mesmo?

Collin apoiou as mãos no chão, ignorando as memórias intrusivas de uma poça d'água, e chutando o que quer que fosse que estivesse atrás dele. Seu pé...atravessou algo? Erguendo os olhos, ele viu novamente a silhueta do homem. A barriga era um buraco, cujas extremidades moviam-se e arrepiavam-se, pequenas patas de aranha buscando qualquer inseto ao alcance. Mesmo com a calça ali, era capaz de senti-las fazendo o possível para agarrar e arranhar sua pele.

— Tocante… — prosseguiu o homem, com um sorriso no rosto. — Mas isso não vai bastar. Eu só quero bater um papo… — disse, enquanto seu corpo dissolvia-se em mais e mais criaturas abomináveis que lentamente subiam por sua perna.

Arregalando os olhos, ele voltou-se para outra sombra ao alcance. E tocou-a. Sentiu a mudança acontecer, mas deu certo. O corpo instável do bartender desaparecia a dez metros deles, enquanto mais aranhas percorriam as ruas.

Ele olhou ao seu redor. Um grupo de aranhas lentamente cobria as paredes de um prédio. Em um beco próximo, conseguia ver centenas de olhos brilhando na escuridão entre uma loja e uma casa. Atrás dele um grupo suficientemente grande cobria as ruas. Por mais do número incontável que lentamente se espalhava pelas ruas, não havia nenhuma além daquele grupo. Nenhum dos becos era seguro também.

É assim, Collin?, perguntou ela. Seu corpo em decomposição e coberto de sangue o vigiava. Vai deixar de me ajudar por conta desses insetos?

Ele varreu os olhos ao redor, enquanto mais e mais se aproximavam por todos os lados.

"Ali!", pensou, vendo uma única sombra se pendurando na beirada de uma janela em um prédio, aparentemente limpo. Ele concentrou-se, preparou a mão, tencionou as falanges. E foi. Um peso imediatamente recaiu sobre seu braço, as pontas de seus dedos doíam, e o ar fora expulso de seus pulmões momentaneamente. Usando outra mão para se apoiar, ele olhou momentaneamente para trás. As criaturas faziam seu caminho até onde estava.

Suas sombras voltaram a surgir. Não queria, cada uso era perigoso, e ele sabia. Mas tentar subir estava igualmente fora de questão. Viu uma formar-se na beirada do prédio, uma forma branca e esfumaçada, ligeiramente parecida com sua forma. Bastava.

Ele sentiu a mudança novamente. Seus braços relaxaram, conforme o topo da construção se formava em um milésimo de segundo. Suas pernas tocaram novamente terra firme. Ele se ajustou, cambaleando momentaneamente para frente conforme suas pernas se ajustavam a terra firme.

Ele se preparou para correr. Se tivesse sorte poderia…

O som de palmas surgiu junto aos pingos de chuva. Aquele homem estava ali. Roberto.

— Impressionante — disse. — Teletransporte não é exatamente a coisa mais rara de se ver, mas ainda não havia visto uma instância de estar atrelada a outra habilidade inteiramente diferente.

Collin manteve-se calado, ocultando sua habilidade novamente. Suas sombras desapareceram para outras pessoas, mas ele manteve sua própria percepção das mesmas ativas. Elas corriam, faziam uma infinidade de coisas, mas ainda não haviam surgido em um lugar seguro.

— Deixe-me pensar… — pediu o estranho, enquanto esfregava a têmpora. — Previsão do futuro, estou certo? Quando você usa isso, você vê uma possibilidade do que vai ocorrer, e sua percepção dessa possibilidade cria outra, e outra, e outra, até um limite finito — sugeriu. — E então você pode aumentar a probabilidade delas não serem só coisas hipotéticas, e com isso pode trocar de lugar com uma.

Collin engoliu em seco. "Ele conseguiu", pensou. Roberto sorriu, jogando a cabeça para trás.

— É sério isso? Só eu vou falar no nosso primeiro encontro? Diz alguma coisa aí, assim eu fico sem graça.

— Qual sua relação com aquela garota? — perguntou Collin.

— Olha só! Me diz, você é o policial bom ou o mau? Bom, não importa… — disse. — Pode deixar que eu mesmo faço questão de dizer pro seu chefe ou contratante, seja lá quem for, que não conheço nem tenho relação alguma.

— Você assume antes de tudo que eu trabalho para alguém.

— Assumir? Eu pareço algum tipo de idiota?

Sibilos voltaram a rasgar o ar. Collin olhou ao redor. As criaturas lentamente tomavam conta do prédio, algumas maiores do que sua mão, outras, menores que sua unha. Seus olhos frios e sem vida o encaravam, esperando meramente a ordem do mestre para dar o bote.

— Você vai ser um excelente exemplo — disse Roberto. — Ninguém interfere com o meu negócio. Muito menos com a vida tranquila que construí. Agora… — prosseguiu, após uma pausa. — Matem ele.

Collin levou a mão até o bolso.

Verena provavelmente ficaria irritada. Não era realmente para ele usar a joia, era meramente uma demonstração de bons modos. Ela não queria realmente que ele comesse parte do cheesecake, da mesma forma que não queria deslocar outros membros da equipe para lidar com algo que não deveria ser um problema desde o começo.

Mas sua vida era mais importante.

O cristal partiu-se no chão, e um brilho prateado tomou conta do topo da construção. Era gentil, calmo, feroz, e focado, tudo em iguais partes. Como a lua liderando uma matilha de lobos durante a caça.

— Merda… — disse Roberto, tapando os olhos.

A garota deu um passo à frente uma vez que a luz se esvaiu.

— Helena... — disse Collin.

— Collin...o que… — ela observou o ambiente ao redor, seus olhos pousando no homem. Eles brilharam levemente. — Você também está por aqui…? Que coisa!

Roberto a encarou, era uma estranha sensação de déjà vu. Como tentar se recordar de uma história que leu há muito tempo atrás, cujas únicas lembranças restantes são coisas pontuais no texto. Inquietante...

— Isso faz…, quatro de nós, se estou correta.

Seu cabelo era curto, com duas tranças ao lado dos olhos dançando sob o vento. Mesmo com vento gélido, ela usava apenas uma camisa preta sem mangas, calças cinzas largas o suficiente para serem confortáveis, mas não o bastante para atrapalharem caso surgisse a necessidade de ação.

— Te conheço por acaso? — perguntou Roberto.

— Ah…, então você é como o Lorenzo…? Também perdeu a memória do que houve?

— Eu realmente não faço ideia do que está falando.

— Bem, eu entendo que as coisas podem estar confusas, sabe? Mas nossa chefe está tentando nos dar algum auxílio, tentar descobrir porque ele fez o que fez. Você será bem-vindo lá!

Roberto suspirou.

— Eu não lembro como era nossa relação antes, isso se tínhamos uma em primeiro lugar, mas eu não tenho interesse algum em descobrir porra nenhuma. — explicou, não desgrudando os olhos dela por um único segundo. — Eu gosto da minha vida como ela está, e não tenho a intenção de mudá-la.

A garota se calou, avaliando o mestre das aranhas.

— E o jeito que encontrou foi matar um dos meus amigos?

— Ele é tão aberto quanto um livro — rebateu Roberto. — Ninguém ferra comigo no cafofo que comprei. Ninguém. Um espião disposto a matar quem flagra ele fazendo merda não é exceção.

Helena suspirou, voltando-se para Collin.

— Trabalho da Verena, não é? — perguntou. O rapaz confirmou com um aceno. — O que você fez para atrair a atenção da nossa empregadora?

Eu não tenho ideia de quem é sua empregadora! — disse, irritado. — Eu não sei quem é você, nem porque ela está atrás de mim. Meu passado está enterrado, e assim está ótimo. O futuro é a única coisa que importa, e ninguém ficará no caminho do meu.

A garota se calou.

— Você perdeu algo.

— Eu não entendi sua pergunta — disse Roberto.

— Não foi uma pergunta, você realmente perdeu algo. Só resta um único fragmento. O meu… — disse, incerta. Ela admitia aquilo como alguém admite uma traição. — Me alimenta com raiva, com uma vontade lancinante de estraçalhar alguém. E não sou a única, mas não esperava que houvesse sequer uma única pessoa entre nós cujo fragmento restante fosse indiferença.

Ela ergueu sua mão. A mesma luz prateada surgiu, delineando uma forma curva e fina. Quando o brilho esvaiu, o objeto ainda rescindia com a luz dos postes. Um arco olímpico. As partes metálicas eram brancas como marfim, era possível ver adesivos de folhas, trepadeiras, e animais pela estrutura da arma. O fio, entretanto, era um mero filete de luar, tecido e posto naquele equipamento.

— É, você pode chamar assim — respondeu, movendo as mãos. As aranhas voltaram a reagir. — Eu prefiro chamar de tranquilidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.