As ondas turquesas do Mar Astral banham a orla de uma cidade. Da cidade.

Conforme o Sol, formado a partir do núcleo estilhaçado de dezenas de estrelas, se punha em um horizonte inalcançável, e talvez inexistente, sua luz refletia nas águas e refulgia junto às areias.

Rubis, safiras, topázios, heliotropos, diamantes. Essas e milhares de outras gemas, algumas perdidas na história ou que hão de ser encontradas, foram erodidas em um ponto que não havia o conceito de tempo. Em um momento singular que unia passado, presente e futuro, na aurora do primeiro sonho.

Sonhos e pesadelos moldam realidades. Literalmente.

Desejos materializam-se no Mundo Material, no Etéreo, no Etéreo Profundo, e em muitos outros planos. Mudam o curso de acontecimentos um número incalculável de vezes. Um filamento de uma teia de aranha unindo-se a outra (que fora feito por aquela mesma aranha, mas também não foi), e outra, formando um tear de proporções incalculáveis e expandindo-se infinitamente.

Mas tudo teve um início. Pulvervale foi esse início.

O ponto singular de todos os sonhos.

Todo aquele que aprofunda-se no verdadeiro Sonhar eventualmente faz seu caminho até a cidade. Mesmo que os sonhos sejam obscurecidos por mais e mais camadas de aprimoramentos tecnológicos, mesmo que as Brumas tenham sido obliteradas por uma catástrofe causada por uma explosão solar, mesmo que a sombra da feiticeira tenha coberto o mundo.

Mesmo assim, todo sonho tem seu começo, e tem seu fim. E seu fim é marcado pela visão dos corpos dos Antigos Deuses iluminados pela Lua de Cristal, mortos ao lado de montanhas, misturando-se com a paisagem de construções que crescem desordenadamente. Alguns cobertos por musgos e outros tipos de vegetação, outros tão limpos que formam a base da casas de veraneio de pessoas particularmente prósperas, onde elas podiam sentar-se, ver piratas de sonhos em buscas de pesadelos mais selvagens e céus mais justos, e sentir a brisa marítima.

Quando os ventos psíquicos do Mar Astral sopram, eles não trazem consigo somente os barcos de marujos que se perderam em uma misteriosa névoa, ou um iate que desapareceu quando uma enorme e fulgurante onda o atingiu. Sonhos perdidos, varridos da existência por tornados de força inimaginável e jogados naquele reino cognitivo vêm juntos.

Ecos; toques; desejos; gestos; sensações; todos fragmentados, cujo dono não passa sequer da memória de um sussurro na vastidão infinita das estrelas. Condensando-se em nuvens de poeira cósmica, elas então caem em gotas escuras, mas brilhantes, como o céu noturno sem poluição luminosa.

Mika disparava por essa chuva.

Normalmente não se importaria com simples gotinhas, “não era feita de açúcar”, como os delinquentes de sua cidade natal costumavam dizer. Porém, sempre que a atingiam, era capaz de sentir.

Era algo tão efêmero, tão transitório.

Mantendo o casaco de couro em cima da cabeça para proteger-se e parando vez ou outra para recuperar o fôlego, ela prosseguia, vendo sua imagem refletida nas poças iluminadas pelas lâmpadas em formato de caracol nas ruas. O cabelo loiro cor de palha estava grudado no rosto, era irritante respirar com a máscara (enfeitada com o desenho de dentes de tubarão) molhada. Mas verdadeiramente? Isso era o de menos que essa chuva fazia.

Sempre que cada gota a atingia, ela podia sentir parte daquele sonho perdido na luz do amanhecer se incorporar momentaneamente a suas memórias. Eles desprendiam-se logo após, não eram fortes o suficiente para criarem raízes significativas. Porém, o que poderia acontecer se ela permanecesse exposta por períodos prolongados? Será que elas se acumulariam o suficiente para fazerem-na mal? Bom, não iria arriscar.

Além disso, tinham suas sombras. Possíveis linhas de acontecimento espalhavam-se ao seu redor, brancas e esfumaçadas, como fantasmas. Ela sentia sua mente se tornar enevoada. Nunca havia mantido-as ativas por tanto tempo, mas se uma metrópole podia ser perigosa, ali era ainda pior.

Correndo, com os tênis vermelhos e meias encharcadas daquela água mágica ou seja lá o que for, ela notou uma de suas sombras levantando as mãos. Ela estava sendo…

“Assaltada”, pensou Mika. Ela desligou as sombras por um momento, e sim, conseguiu ver atrás delas um grupo de três pessoas com um quê de peixe. Bufando, ela virou-se e se preparou para atravessar a rua.

Um caminhão com uma quantidade desnecessariamente grande de espinhos em sua carroceria passou, lançando uma onda sobre a jovem. Uma profusão de memórias, terrivelmente irritantes neste ponto, inundaram sua mente de uma única vez.

Não faziam sentido algum, um aglomerado de visões e sensações que formavam uma imagem abstrata, confusa e sem significado algum, para só então escorrerem pelas beiradas de sua mente.

Mika balançou a cabeça, se recuperando, antes de gritar:

— Olha por onde anda, babaca! — para o barbeiro desconsiderado que certamente já não a ouvia mais.

Atravessando a rua, ela voltou a ativar suas sombras. Elas corriam, se escondiam da chuva, paravam para recuperar o fôlego, esbarravam em pessoas invisíveis, dentre muitas outras ações. “É, sem perigo à vista”. Mika voltou a olhar para o outro lado da rua, e o grupo com quê de peixe seguia seu caminho normalmente.

“Será que os julguei mal?”, pensou por um segundo, parando na entrada de um...aquilo era um arcade? Bom, não importava, já estava fechado a esse horário, e servia para descansar momentaneamente de qualquer forma. Uma camada de suor se misturava com pó de estrela em seu rosto. Seu cabelo certamente só não estava pior graças ao rabo de cavalo que fizera mais cedo. Ainda faltavam mais umas boas quadras para chegar até o endereço que lhe passaram. Se continuasse assim…

Um guarda chuva surgiu ao seu lado. Segurado por um homem de dois metros, com um chapéu coco escondendo o rosto e um grande sobretudo bege ocultando o corpo, com exceção dos braços, que na realidade eram tentáculos.

Mika recuou, ligando novamente suas sombras, que voltaram a preencher diferentes pontos da rua. Não...não havia nenhuma ali que representasse perigo. Uma ao seu lado, sentada, olhava para cima com espanto, outra escrevia algo em um papel, outra vestia...uma capa de chuva?

O estranho assegurou, de forma educada, que ela não precisava ter medo.

— Isso...é pra mim? — perguntou a ele.

Ele disse que sim. Disse que gostava de tomar chuva e que não precisaria mais disso.

— Ahm, obrigada — disse, pegando com cuidado o guarda-chuva vermelho.

Ele respondeu que não havia de que. Então perguntou se porventura havia visto três pessoas com um quê de peixe passarem por ali.

— Err...sim, eles foram para lá, acho — respondeu, apontando de onde viera.

O estranho agradeceu, virando-se e seguindo na direção indicada.

Ela o assistiu. Aquela forma alta, estranha, e em constante mudança descer a rua. Ao ser iluminado pelos postes, teve a impressão que ele possuía mais de uma sombra. Todas o acompanhavam em seu caminho, conforme saltitava e dançava pela chuva.

(...)

Sempre que perguntavam a Roberto o segredo para o sucesso de seu bar (ou pub como algumas pessoas insuportavelmente enjoadas gostavam de chamar) ele respondia algo entre as linhas de:

— Sei lá, sorte, eu acho.

O que era uma mentira. Ele sabia muito bem a razão do sucesso de seu estabelecimento, afinal fora tudo parte de uma estratégia e plano meticulosos de forma a atrair a maior quantidade de clientes possíveis.

Com uma quantidade substancial de dinheiro diante de si, ele se perguntou: por que bares e restaurantes que tentam desesperadamente emular épocas que há muito se foram, como o Valhalla, lá no mundo desperto, faziam tanto sucesso?

Era por que a comida era boa? Em parte, sim, boa para um cacete diria. Inclusive ameaçou a explodir a coisa toda para conseguir a receita especial de batata rústica que faziam. Valeu a pena.

Mas não era só isso. Em um ambiente tão intensamente urbanizado, onde carros destroem gradativamente a camada de ozônio enquanto cortam os céus e algum maluco de uma megacorporação constrói um arranha-céus de todo tamanho, um lugar rústico, feito ainda com blocos de pedra e sem neon algum (se você ignorar o letreiro) é um verdadeiro farol. Um pequeno céu cujos atendentes vestidos a caráter lhe servem cerveja e outros petiscos deslumbrantes.

Mas em Pulvervale? Não, definitivamente não seria uma boa ideia. Quer dizer, ele ainda teria uma renda substancial, mas a que custo? Sabendo como as brumas funcionavam em tempos antigos, seria mesmo uma ideia sábia? Ele atrairia todo tipo de gente daquela época para lá, inclusive o tipo que não gostava da gente dele.

Ele poderia apostar em algo completamente moderno? Absolutamente, porém isso significaria ignorar uma boa clientela em potencial.

O véu era mais fino em tempos antigos, praticamente inexistente no Avançar das Brumas, e honestamente, as pessoas de lá eram capazes de oferecer todo tipo de coisa como forma de pagamento, e Roberto não estava disposto a abrir mão de alguém oferecendo o chifre de um espírito da floresta por um banquete inteiro porque a pessoa se sentiu intimidada demais com o som alto e a tela exibindo a série do momento, sucesso em dezenove realidades diferentes.

Um grande chef disse certa vez que um bom restaurante foca em um único tema, mas o torna algo esplêndido. Para cidades e capitais comuns até que isso fazia sentido, mas Roberto não viu muita razão para seguir isso quando viu uma múmia legítima passar diante de seus olhos.

No fim das contas, o jeito foi apostar em ambos. O que era algo perigoso. O cardápio necessitava abranger um grande número de comidas e bebidas, mas o rascunho inicial de cerca de cento e cinquenta itens para comer? Nem pensar. Quer dizer, ele tinha uma vasta memória para os drinks, e talvez eles pudessem ser mais flexíveis, mas o cozinheiro certamente não iria aguentar. Errar aqui seria o primeiro passo em direção à falência.

Mas deu certo (de alguma forma)! Houve uma intensa pesquisa de mercado, testes e abordagens cuidadosas, vários e vários rascunhos de artes e de como a decoração seria feita, e funcionou! Valeu a pena!

Primeiro, porque ver o Alan jurando-o de morte e o culpando pela falência de seu restaurante foi algo realmente impagável. Mas segundo, por abranger tantas culturas, tantas épocas e tantos lugares de uma forma miraculosamente harmoniosa, acabou por colocar o seu bar numa situação única.

Imagens históricas, tanto pintadas com detalhes vívidos quanto fotografadas por equipamentos capazes de gerar retratos em altíssima definição, dividiam lugares nas paredes com artefatos que obteve de forma absolutamente legítima.

Ferrofluido e equipamentos que emitem precisas e suaves ondas magnéticas formavam estátuas de pessoas importantes ou convidados ilustres, apesar de ter que escolher um lugar adequado para elas devido aos ocasionais problemas com metal.

Fones especiais eram entregues para clientes que sabiam utilizá-los para que pudessem desfrutar dos melhores hits de um catálogo feito especialmente por curadores, enquanto ainda ouviam seus companheiros claramente.

O piso, o teto, as luzes, tudo foi pensado para encontrar o perfeito equilíbrio. Atrair aqueles que aventuravam-se no Sonhar vindos dos tempos modernos, mas ainda assim instigar a curiosidade daqueles que perdiam-se quando a névoa avançava, cujas histórias do desaparecimento tornavam-se a base dos primeiros contos de fadas.

Uma garota de cabelo multicolorido, cujos implantes que permitiam seu acesso à realidade virtual desciam da parte de trás da cabeça até os ombros e o pescoço, trajando uma jaqueta de couro sintético e uma camiseta de uma banda que ele ainda não conhecia, tentava comunicar-se com uma deidade menor da natureza, de pele azul e o com um cabelo feito de pequenas nuvens, presos em um rabo de cavalo por um relâmpago.

Soldados de uma legião romana debatiam fervorosamente com um membro da tropa de Napoleão.

O primeiro e único imperador dos Estados Unidos debatia civilizadamente com a soberana da Inglaterra, que mantinha-se eterna, sobre eventos importantes acerca da situação atual que encontravam-se os estados que governavam.

Um bandido australiano explicava lentamente para uma sobrevivente de um mundo onde a Guerra Fria tomou um rumo infeliz sobre as melhores formas de sacar uma arma rapidamente para surpreender um inimigo.

Roberto não esperava alcançar o status de personificação do tropo de aquele tipo de bar. Sabe, aquele tipo, onde revoluções começam, informações secretas são passadas em envelopes beges, contratos selados com magia de sangue e uma assinatura em um aparelho digital, mas ele não iria contra isso.

Ele apenas observava essas e várias outras figuras de soslaio enquanto colocava lentamente, com o auxílio de uma colher bailarina, uma camada de vodka por cima de um pouco de blue curaçao. Sambuca veio logo em seguida e…

— ...por fim… — disse lentamente, segurando uma garrafa de half-and-half logo acima. E… pronto!

Uma única gota. Era como uma delicada água-viva, perfeitamente branca, descendo em direção ao abismo ocêanico.

— Aproveite sua bebida — disse para a jovem de vestido melindroso, que olhava encantada para o pequeno truque que fizera com a bebida. — A propósito, cuidado, é bem forte — advertiu.

Ele franziu o cenho por um segundo e voltou seu olhar para as comandas.

— O que era agora mesmo…? — sussurrou.

Kuma, a viúva-negra, sibilou algo em seu ombro.

— Ah sim, sim, o hidromel, tá certo — concordou. Enchendo um caneco em um barril próximo, ele estalou os dedos. Outras quatro aranhas desceram do teto, tecendo lentamente suas teias em direção ao balcão de bebidas. — Mesa 20 — disse. As quatro agarraram o caneco em diferentes pontos, e com força sobrenatural, desapareceram com ele no teto.

A única parte que ele considerava verdadeiramente sorte era o fato dos clientes não se incomodarem com o fato de que todos os garçons eram seus estimados servos aracnídeos.

(...)

O L Y M P I A

Onde você é tratado como o deus que é

O letreiro iluminava a noite. Mika conseguia ouvir o burburinho de conversas, brindes sendo feitos a saúde de pessoas que ela não conseguia ouvir o nome direito, comidas caindo no chão

Devia ser por todas as bizarrices que suas sombras haviam enlouquecido daquela forma. Enquanto descia a rua, vendo a vitrine de lojas abertas e fechadas, ela notou. Suas sombras aumentavam cada vez mais, disparando, fazendo dezenas de ações que realmente não conseguia compreender. Um pequeno tornado de caos, singularidades e horizontes de evento.

E aquele bar era seu epicentro. Bom...era tudo ou nada. Ainda precisava de um guia e…

— Essa não… — praguejou baixinho.

Ele também estava lá.

(...)

— Aqui está — disse Roberto, deslizando um drink verde em uma taça com formato de caveira pela mesa.

Tudo bem...o próximo pedido era…

As portas do Olympia se abriram com um estrondo, enquanto um jovem chutava-as para entrar no ambiente. Todos os olhares se voltaram momentaneamente para ele enquanto apontava para o bartender e gritava:

— Você! — exclamou Nicholas.

— Cara, não chuta a porta não, na moral — respondeu Roberto, calmamente.

Roberto observou a figura da cabeça aos pés. Uma cartola repousava sobre os longos e bagunçados cabelos castanhos. O terno que vestia estava amassado; a gravata borboleta, torta e...minha nossa, há quanto tempo aqueles sapatos não viam um pouco de cera? Bom, ao menos as luvas brancas que usava estavam milagrosamente limpas. A capa, vermelha-escura, cheia de glitter e com o colarinho erguido, esvoaçava enquanto andava.

Ele jogou uma cadeira de lado enquanto se aproximava de Roberto, que chacoalhava um martini à base de maracujá, suco de limão, vodka e licor de laranja.

— Você precisa me ajudar! — ordenou, com um toque suave de arrogância e desespero na voz.

— É...eu percebi… — respondeu o bartender. Não só a roupa estava bagunçada. A pele estava branca como leite (e não, isso não foi um exagero) e as manchas roxas ao redor dos olhos não davam certeza se ele havia sido socado por alguém particularmente forte ou não dormia havia semanas.

— Isso não é uma piada! — disse, agarrando-o pela camisa e o puxando para uma distância desconfortavelmente próxima de seu rosto. — Eu preciso de ajuda!

— Tá bom, tá bom, se aquieta aí — falou, afastando-o.

Roberto abaixou-se e procurou por algo debaixo do balcão. Onde é que...ah! Ali. Tirando um panfleto impresso em papel barato, ele entregou ao Houdini Jr. diante de si.

— Eu entendo que as coisas fiquem meio confusas quando você vem parar aqui pela primeira vez, especialmente se for de um jeito não-ortodoxo, mas aqui explica tudo certinho — disse, indicando os principais tópicos no verso do panfleto.

— Não! — exclamou o mágico, rasgando o papel.- Não é isso! Você! Você vem comigo, agora!

— Bom...não — respondeu Roberto.

— Sim, você vem! — continuou, gritando. A garganta dele por acaso não doía? — À força se for preciso — disse, balançando as mãos e formando no ar uma carta de baralho, um oito de ouros, e apontando para o pescoço do bartender e proprietário.

Roberto olhou ao redor. Era bom ter uma confirmação do pessoal antes de fazer o que ele normalmente fazia nessas situações. A garota de cabelo colorido e a ninfa concordaram, os legionários romanos também. O procedimento já era comum para eles, não era a primeira vez que algo assim ocorria, e também estaria longe de ser a última. Erguendo a mão, Roberto estalou os dedos.

Uma arma de fótons carregada com energia cinética; uma palavra tão antiga que a própria realidade se distorcia uma vez que pronunciada; gladius; mosquete; um arco de luz e uma lâmina de netherita.

Essas e muitas outras armas foram apontadas diretamente para a cabeça do mágico uma vez que o som dos dedos soou pelo ambiente. O mágico olhou ligeiramente para trás, vendo sua existência ser suspensa por um único fio, e então ouviu os sibilos. Incontáveis olhos malignos, carregados de veneno e malícia preenchiam o teto.

— Olha cara, eu realmente não tô com vontade de limpar a bagunça que você vai fazer, muito menos pagar uma rodada pra todo mundo aqui — advertiu, pouco se importando com a situação. — Por isso, saia. Agora.

— Escute!.. — respondeu, tentando explicar a situação, mas não deu, ele viu os olhos do proprietário o fixarem-se nos dele por um único momento.

— Saia — ordenou novamente, erguendo a mão, preparando-se para estalar os dedos uma segunda vez. Não precisava ser um gênio para saber o que aconteceria em seguida. Ele ia ficar irreconhecível, horroroso, um pavor! O que Jill acharia disso? Além do mais, ele não conseguiria prosseguir com sua missão se estivesse...bem, morto.

Nicholas engoliu em seco. Seu orgulho, suas dezenas de noites sem dormir, seu plano e suas revelações foram juntos. E saiu...

(...)

— Isso foi rápido… — surpreendeu-se Mika.

Quando Nicholas queria algo, ele insistia. Eram dias a fio, semanas, com ele seguindo silenciosamente, implorando por ajuda, para só então começar com divagações sem sentido que no fim culminavam em uma grande e dramática reclamação sobre como o universo era cruel e impedia ele e seu amor de ficarem juntos.

— Esse tipo de coisa rola com frequência — perguntou ao bartender, colocando a cadeira derrubada em seu devido lugar novamente.

— Sim, acaba acontecendo — disse, colocando o martini em uma taça apropriada e dando um assobio baixo. Duas aranhas pousaram sobre a mesa, fazendo Mika retrair-se instintivamente. — Mesa quatro. Mas bem, faz parte, sabe? Não é como se eu não esperasse que fosse acontecer, é mais uma questão de quando. Mas e aí, o que vai ser pra você?

Sempre que encontrava alguém, outro humano no caso, pensava algo nas linhas de: “É, ele é normal, mas…”, com o bartender não era diferente. Era, para todos os efeitos, uma pessoa perfeitamente normal. Sua tez era escura como turmalina, dreads caíam na altura dos seus ombros, seus olhos eram de um castanho profundo e cintilavam com uma fagulha travessa. Mas...ele conversava com aranhas...


— Erm, tem suco? — perguntou, observando as aranhas desaparecerem com o drink no teto. Nunca havia bebido, ou entrado em um bar, então teria chance de passar vergonha, mas bem...não custava tentar.

— Morango, maçã, laranja…

— Pode ser de laranja — interrompeu. — Uh, tem uma aranha no seu ombro.

— E por que não teria? — perguntou, indo até uma torneira próxima com um copo. O suco desceu perfeitamente limpo, saudável, e aromático. Ele entregou a garota, que empurrou uma nota de dez dólares canadenses para ele. — Você é nova por aqui? — perguntou.

Mika concordou com um gesto da cabeça.

— Por que?

O bartender devolveu a nota com a cara de John A. Macdonald.

— Dinheiro assim não serve aqui, e nem ferrando que eu vou me dar ao trabalho de ir até o centro só para trocar uma nota de dez — respondeu.

— Desculpa — respondeu, com um suave rubor tomando conta do rosto.

— Assim, você já viu o cara ajoelhado gigante, se apoiando em uma espada?

— Ah, sim! Já vi essa estátua — respondeu a garota. Elas espalhavam-se por todos os lados dessa cidade. Algumas mantinham-se em pé, outras estavam soterradas e só seus braços se estendendo aos céus, desesperadamente buscando uma lufada de ar nunca alcançada, podiam ser vistos.

— Não é uma estátua não. Mas bem, vai pra lá, é naqueles lados que fica o lugar pra você trocar o seu dinheiro pela moeda que usam aqui — explicou. — Eu não sei bem dizer o caminho agora, mas é só perguntar que o pessoal indica.

— Entendi…

"Se soubesse disso mais cedo ao menos", pensou.

— Bom, pode ficar com seu suco, só não fala pra ninguém. Eu faço uma exceção, e aí todo mundo vai querer uma, sabe como é, né? — disse, abaixando-se e pegando uma série de garrafas com líquidos com as cores do arco-íris. — Quem foi que ajudou mesmo? — perguntou, para Kuma.

A aranha sibilou algo.

— Beleza — falou. Enchendo uma série de copos shot, ele assobiou. Mais aranhas desceram. — Levem pro pessoal que deu uma moral.

Uma delas silvou algo.

— Você sabe muito bem quem ajudou e quem não. Não sou eu que fico lá em cima, cacete — disparou o bartender. — Agora deixa de preguiça e leva logo.

— Você conversa com aranhas? — perguntou Mika. Subitamente uma possível realização veio a sua mente. — Não foram as aranhas que fizeram esse suco, foram? — disse, afastando o copo dos lábios o mais rápido que humanamente conseguiu.

— Sim, converso. E não, elas só servem como garçons. E mesmo assim elas passam por um processo rigoroso de limpeza, valeu? — esclareceu, um pouquinho ofendido.

— Certo… — respondeu, incerta, olhando o suco para ver se não havia nenhum pelo minúsculo ou algo do tipo que essas criaturinhas abomináveis possivelmente soltaram.

Mika olhou para os lados. Ouviu o som da campainha da cozinha soar. Um cozinheiro de tapa-olho colocava dezenas de pratos de lasanha na bancada. A massa fumegava e os molhos de tomate e manteiga bailavam pelo ar. Um grupo de aranhas surgiu, em grupos de três, elas desapareceram com os pratos no teto, ressurgindo e colocando-os com delicadeza na mesa da legião romana.

— Bem...eu posso te fazer uma pergunta?

— Claro — uma cliente próxima, com pele roxa e o cabelo cujas cores mudavam constantemente entre tons de loiro, azul, laranja, e rosa ergueu a mão. — Só espera um pouco — pediu o bartender.

Dando as costas ele ausentou-se momentaneamente. Mika deixou seu olhar vagar pelo restaurante. Será que era rude fazer isso?, pensou. Porém simplesmente não conseguiu. As estátuas (eram estátuas?) mostravam as imagens de Abraham Lincoln e Julius Caesar, de Zeus e o Arcanjo Miguel. Mudavam constantemente, mas não eram hologramas, não no conceito construído a base de séries de ficção científica que assistira ao menos.

Um demônio de terno e um anjo vestido de luz conversavam. E...olha só, o senhor com braços de tentáculo acenou em direção a ela, sentado na mesa com as pessoas com um quê de peixe.

— Bom, qual a pergunta? — questionou o bartender, tirando-a de seu transe momentâneo.

— Ah, bom...você por acaso conhece alguém chamado Roberto?

— Bom, depende. Eu me chamo Roberto, mas existem muitos Robertos por aí, sabe? — respondeu, mostrando um breve sorriso.

— Bom...ele não me deu nenhum detalhe da aparência…

— Ele quem? — perguntou, arqueando a sobrancelha.

— Bom, um cara que eu encontrei...metade do cabelo dele era roxo, e a outra era preta e...ele usava uma roupa esquisita…

Mika conteve-se. O rosto dele ficou sério.

— Por acaso ele usava um casaco de cientista? Ou tinha umas tatuagens estranhas no braço?

— Acho que ele tinha umas tatuagens sim… — disse, coçando a cabeça. Tentar se lembrar dele era como tentar recordar-se de um sonho estranho que acontecera a meses atrás. Como se todos os detalhes que você poderia se recordar eram aqueles que você contou para sua família assim que despertou.

— Bom, então eu acho que sou o Roberto certo mesmo… — disse, um pouco a contragosto.

— Ah, que bom! — falou, com cuidado. — É que, bem, eu precisava conversar sobre algo com você e…

— Aqui não. Agora não — respondeu, ainda sério. Pegando um pedaço de papel próximo, o homem anotou algo nele, enquanto praguejava algo baixinho. — Toma — disse, entregando para ela. — Me encontra aí, depois a gente conversa sobre...seja lá o que ele disse… — comentou, com um pouco de desgosto.

— Era um...endereço? Foi uma batalha e tanto para encontrar ele, agora ela teria que ir até...seja lá onde fosse aquilo anotado ali. Mas bem, ela iria pedir para falar a sós de qualquer forma.

— Tudo bem, mas como eu faço pra chegar nesse lugar? — perguntou.

Outro cliente chamou-o. Ele fez menção de ir, mas hesitou por um momento, antes de virar-se e explicar:

— Pega o Metrô Submerso. Você acha sinalização de como chegar nele pra todo lugar se prestar atenção, desce na Estação dos Setenta Trovões e procura os Olhos de Tinta, é uma loja, aqueles malucos ficam abertos vinte e quatro horas por dia. O apartamento é ali perto.

— Eu…

— E é bom ir logo, o metrô vai fechar já — advertiu, sem um pingo de humor. — Se quer me falar, anda rápido, amanhã vai ser corrido.

E foi atender o freguês, ignorando a existência da garota terrivelmente confusa dali em diante.

(...)

O Olympia caiu em silêncio. Roberto dispensara as aranhas já havia algumas horas, com exceção de Kuma, que sibilava algo sobre como a tendência de viúvas-negras de matarem seus cônjuges era utilizada excessivamente na indústria cinematográfica de uma maneira que não afetava bem a imagem de sua família.

— Mas meio que não é esse o ponto? — contra argumentou Roberto, enquanto passava pano nas cadeiras. — Quero dizer, é justamente essa presença que dá a reputação que vocês têm, não é?

Kuma começou a silvar uma resposta, antes de ser interrompida.

— Ei chefe — chamou Seidota, com a voz embriagada. — Vai demorar pra sair aí por acaso?

— Já pode ir — respondeu. — Pode deixar que eu fecho. Vou pegar um outro caminho para a casa hoje.

— Uh? Deu alguma coisa? — perguntou, colocando a cabeça para fora da porta da cozinha. Seu cabelo continuava oleoso, e ele ainda não havia trocado o tapa-olho que Roberto o presenteara há alguns meses.

— Nada que é da sua conta — disparou. — Agora rala logo antes que eu mude de ideia.

Seidota riu.

— Ih, qual foi, escorpião te picou, é? — zombou.

Roberto revirou os olhos enquanto terminava de limpar a última cadeira. Quando terminou, jogou o pano na direção do chef.

— Anda, vai logo — falou.

— Você que manda, chefia — disse.

Roberto continuou a fazer seus afazeres. Na realidade demorou mais que o normal. Checou a validade dos ingredientes duas vezes a mais. Limpou uma segunda vez as mesas, só pra ter certeza.

Tentava afastar sua mente do fato que teria que ir para casa daquele jeito a todo custo. Ele certamente poderia ir do jeito usual, como qualquer ser pensante faria, mas as coisas mudaram desde que enviaram aquele assassino. Ele não era capaz de encarar todos de frente, precisava ser cuidadoso, precisava planejar. Precisava não ser pego em uma armadilha, principalmente.

Uma das coisas que Roberto sempre se agradeceu por seguir, foi sua filosofia sobre banheiros. O que diferenciava um bar meia-boca de um bom era o tratamento que os donos davam para essa parte em específica de suas instalações. Não importava quantas pessoas vomitassem, quantos homens-lagartos fizessem uma bagunça impronunciável, o banheiro deveria estar sempre limpo.

Assentos de privadas sempre consertados, torneiras funcionando, papel sempre ao alcance.

Roberto terminou de fechar o Olympia. Conferiu se havia girado a tranca duas vezes. Fechou as janelas. Deu uma última olhada para ver se não havia nenhum espertinho que se escondera ali, para então se esgueirar de noite e tomar toda bebida alcoólica.

E então, foi para o banheiro.

— Tá na hora de você ir, Kuma — disse para sua camaradinha, colocando-a sobre a bancada. — Você não vai querer ir pelo mesmo caminho que eu, tenta achar outro lugar, tudo bem?

A viúva-negra reclamou, mas finalmente subiu a parede e desapareceu. Ele perguntou-se por quais telhados ela seguiria. Se permitiu contemplar o caminho que ela possivelmente faria por mais tempo que o necessário.

Então, finalmente virou-se para a privada.

A Argyroneta aquatica é uma espécie única de aranha, capaz de passar grandes períodos de tempo submergida graças a seus pequenos fios de cabelo, intensamente hidrofóbicos, que criam uma bolha de ar ao seu redor. Adicionalmente, a Desis bobmarleyi também é interessante visto sua capacidade de criar câmaras de ar utilizando suas teias.

Com um pouco de criatividade e distorção de realidade, é capaz de unir as duas em uma única e nunca antes vista espécie, que utiliza um complexo de teias, somado a sua extensa capacidade de permanecer debaixo d’água, para verdadeiramente navegar, capturando presas e até desviando de peixes.

Roberto respirou fundo.

Apertou a descarga.

E se reescreveu.

(...)

Mika subia as escadas, ainda um pouco atônita.

A sucessão de acontecimentos do metrô não era facilmente processada. “Deve ser só mais uma parte do dia-a-dia aqui, não pode ser tão ruim”, pensou, e arrependeu-se logo em seguida.

Talvez, só talvez não fosse tão ruim assim. Mas não importava, ela não queria aquilo. Só gostaria de voltar para a casa, pegar o ônibus para a faculdade de medicina, cuidar da Ann e da Lis quando elas estivessem doentes porque ficaram brincando na neve tempo demais e…

Ela afastou esses pensamentos e voltou a checar o papel. Ela olhou o número escrito, olhou a porta mais próxima...é, não era ali. Ela tinha passado. Mantinha suas sombras ligadas. Elas batiam em dezenas de portas, corriam, sentavam-se em escadas. Nada fora do usual, nada perto de quando desceu a rua para chegar até aquele bar.

(...)

Dois sabonetes inteiros já haviam ido, e metade do shampoo anti-caspa também. Os dedos de Roberto estavam enrugados. Ele tremia, não de frio, a água da banheira estava agradavelmente morna, mas pela simples ideia do que poderia estar preso nele após ir pelos esgotos.

Bom, ao menos ele não havia encontrado o Rato-Rei, mas ele ainda se sentia nojento. Se sentiria assim por dias. Hesitaria em comer qualquer sanduíche com as mãos com medo de que houvessem coliformes fecais nela e…

Chega! Chega! Ele tremeu um pouco mais. Ele havia se limpado bem! Não tinha motivo para isso. Ele alcançou a garrafa de licor de abacaxi que deixou ao lado e tomou um gole. E isso era só o começo. O Equilíbrio decidiu fazer os jogos dele novamente, dessa envolvendo a garota, mas o que será que…

Kuma sibilou algo.

— Ah, foi mal aí — desculpou-se Roberto. — Nem vi que tinha chegado.

Sibilou mais alguma outra coisa.

Ele franziu o cenho. E suspirou, levantando-se da banheira e pegando sua toalha.

— Chama quem estiver na área — disse.

(...)

Mika perdeu a quantidade de vezes que havia batido na porta. Como assim ele ainda não tinha chegado? Era uma pegadinha? Ia demorar tanto assim para ele chegar? Ou ele já chegou e ela só não sabia.

Ela ligou suas sombras novamente. E elas dispararam, e continuaram disparando, incessantemente. Dez linhas de possíveis acontecimentos. Vinte. Trinta. E mais e mais e mais sombras.

“Mas o que…”

Ela olhou para os lados. Não havia ning-

— Sabe — explicou Roberto. — Quando você manda mais um assassino, em períodos espaçados de tempo, para matar alguém, é esperado que eles fiquem mais inteligentes, mais letais, a cada tentativa. Não o contrário.

Mika assustou-se, pulando para o lado imediatamente e desferindo um chute. Ele defendeu-se como se estivesse lidando com uma criança briguenta e irritada. Ele havia tirado a roupa de bartender. Com exceção dos tênis e do brilhante colar que pendia de seu pescoço, das calças, ao casaco, à camisa, tudo que vestia era de um tom escuro e profundo de roxo.

— Ah...é você, desculpa, não foi minha intenção — disse, balançando as mãos. — Força do hábito, sabe?

Ele não respondeu. Estava terrivelmente sério. Ele tinha dois olhos, mas teve a impressão de que, se olhasse pelo canto do olho, ele teria oito. Ele parecia ler cada movimento que ela estava prestes a tomar, por menor que fosse.

Ele...não parecia humano.

Mika concentrou suas sombras. Não em quaisquer acontecimentos, mas em acontecimentos relacionados unicamente a ele. Elas não diminuíram. Continuavam fazendo uma multitude de atividades diferentes. Caindo, escorregando, pulando, socando. O que era ele?

— Você sabe que olhos de insetos não funcionam do mesmo jeito que os nossos, não é? — perguntou. Um coro de silvos e sibilos ecoou pela construção, juntamente à chuva. — Tá bom, tá bom, aracnídeos, tá melhor assim?

Mika olhou ao redor. Quando foi que elas apareceram? Uma mancha negra com olhos vermelhos, violetas, verdes a encaravam. Ela via o fino brilho das teias cobrindo o corredor atrás dela, ela podia sentir o miasma de todos aqueles venenos combinados preenchendo o ar, mas…

— Como assim? O que os olhos delas têm a ver com isso? — perguntou, um pouco alarmada.

— Como assim o… — confusão dançou em seus olhos por um segundo, antes de uma súbita realização vir. — Ah não, tá de sacanagem comigo, ô Penn & Teller? — perguntou, virando-se.

Mika notou quatro buracos no casaco e camisa que ele usava. Não teve tempo de se perguntar a razão daquilo, a resposta veio logo em seguida.

Algo surgiu de um daqueles buracos, como se um pequeno pedaço do céu tivesse sido forçadamente arrancado e reconstruído, era uma pequena concentração de um dos primeiros medos que surgem na mente dos homens.

Aquela pata de aranha, se assim era possível chamar, parou um ás de copas a milímetros do rosto do bartender.

— Pode aparecer — exclamou Roberto.

O ar no fim do corredor tremeluziu por um momento. Uma capa esvoaçante abriu-se, gliter refulgiu momentaneamente no ar. Um mágico surgiu ali. Não estava muito mais arrumado em comparação a antes, na realidade estava pior. Suas luvas estavam sujas.

— Nicholas? — perguntou Mika.

— Conhece ele?

— Mais ou menos… — respondeu, meneando a cabeça.

— Então me responde, que merda ele pensa que tá fazendo?! — exclamou.

— Vocês não entendem… — disse Nicholas, um pouco baixo demais.

— O que? — perguntou Roberto.

— Vocês não entendem! — gritou. — Vocês! Vocês, vocês, vocês! Não percebem o que estão fazendo? Olha o que fazem ao invés de me ajudar! É por causa de pessoas como vocês que eu estou aqui, e é por causa de pessoas como vocês que aquilo que me foi prometido está longe de mim! Vocês deveriam me escutar, vocês não fazem ideia do que…

Roberto virou-se para Mika lentamente. O semblante dela estava tão confuso quanto o dele, enquanto o discurso desnecessariamente emotivo e que não parecia fazer muito sentido seguia.

— Eu...o que eu faço? — perguntou o bartender, baixinho.

Mika deu de ombros. Seus estudos ainda não tinham chegado naquilo.

— Eu...mato ele? — perguntou novamente.

— O que? Não! — respondeu. — Quero dizer, pelo o que eu entendi ele está querendo reviver alguém...eu acho…

— Tá me dizendo que você tá entendendo o que ele tá falando agora? — perguntou Roberto, com um tom de deboche na voz.

— Não, isso foi quando eu encontrei ele antes…

O bartender pensou por um momento.

— O que ele quer tem a ver com o que o Equilíbrio mandou você vir ver comigo?

— Equilíbrio?

— O cara com cabelo roxo.

— Ah! Espera, o nome dele é Equilíbrio? Estranho, mas…, não sei. Talvez?

— VOCÊS ESTÃO ME OUVINDO!!! — gritou o mágico, a plenos pulmões, não conseguindo conter uma tosse logo em seguida.

Roberto suspirou. Tinha a impressão que aquele era o tipo de problema que precisava ser solucionado o mais cedo possível, ou iria piorar.

— Ei, qual o seu nome? — perguntou para o mágico.

— Você não ouviu o que eu disse?! — respondeu, ultrajado. — Meu nome é Nicholas Fisher, e eu…! Ei! Pode ficar parado! Não chegue perto!

Roberto caminhou até ele calmamente. Era a essência do ditado de “Cão que late, não morde”, ele não podia. Não, ele sequer precisava demonstrar medo. Não iria lhe acontecer nada. E mesmo que houvesse essa chance, ele já havia ganhado.

— É bom você parar, ou eu…!

Roberto tocou a testa do ilusionista (será que podia chamar ele assim?) suavemente, e reescreveu sua história. Mika pode ver, palavras brilhantes em azul claro surgirem na pele do mágico por uma fração de segundos. Algumas foram apagadas, outras mudaram de lugar. Vírgulas, pontos, pequenas correções.

Roberto se afastou alguns passos. Nicholas cambaleou por um momento, murmurando algo sem sentido, e desabou no chão, roncando.

— O que você...fez? — perguntou Mika.

— Botei ele pra dormir — explicou. — Vai dar uma de formoso adormecido por uns bons dois dias. O corpo dele, de algum jeito, estava bloqueando a produção de adenosina, que era o que deixava ele acordado. Por isso ele tinha uns quarenta e dois parafusos a menos.

Pegando-o pelos pés, virou-se para Mika e disse:

— Vem, você pode entrar no meu cafofo — declarou.

A garota fez uma careta.

— Quem ainda fala cafofo? Que brega.

— Brega nada — respondeu. — Cafofo passa uma sensação de conforto, de calma. E é fácil de usar. Casa é sem graça, lar também não cola bem, então vai cafofo. Brega seria se eu dissesse apê. Agora anda logo, eu preciso colocar esse aqui em algum canto para dormir, e temos muito a discutir sobre o que ele mandou você vir falar comigo.

Notas finais
Muito obrigado a todos que leram até o fim. Essa história foi criada juntamente com meus amigos. Dois, Breno e Harper, atuam como meus editores e roteiristas, opinando e apontando mudanças necessárias em cada capítulo, além de sugerir cursos de ação para os próximos. E vários outros cederam seus personagens para a história. Na realidade isso é, essencialmente, uma história utilizando os personagens dos RPGs que fazemos juntos. Então muito obrigado para: Cibele, Maria, Gabriel, Pedro, Max, e Marx. Eu particularmente sou bem perfeccionista, então não sei a frequência que a história seguirá, mas certamente farei meu melhor!