Naquela noite, Nádia pensou em aprontar algo para a sinhazinha, descontar nela tuod que fizera ao longo de 5 anos. Após dormir até às 4:30 a.m, foi acordada pelos gritos de Nicole.

_Acorda, escrava!

_Cedo assim ?

_É, venha aqui. Agora! Estou mandando !

Nesta hora, Nádia lembrou do que disse Fabrício, e recusou-se a obedecer. Nicole pegou o chicote, mas Nádia pulou em cima dela e como se fosse uma épica batalha, bateu na sinhazinha o máximo que pode dando-lhe uns hematomas no rosto, além de um olho roxo. Foi então que Dona Aurora ouvindo a bagunça pegou um revólver e rendeu Nádia.

_O que fizeste, maldita escrava ?! — disse Aurora

_Mamãe, ela me atacou como um bugre selvagem! Quero dar-lhe 70 chibatadas! Maldita desgraçada! Rameira de quinta categoria! Vou vender-lhe para um bordel, assim aprenderá! — Falou Nicole, histérica.

De repente, Mario chega e fala:

_Desculpe, sinhá. Acabei de voltar de capturar um fujão.

_Não há de que se desculpar, Mario. Já paramos esta rebelde escrava. — Falou Nicole, sarcástica.

_Não têm o direito de me vender e me separar de minha mãe!

_Temos sim. Nossa miserável legislação que caminha penuriamente para a ruína do Império ainda me permite fazer com você, que é meu objeto particular, o que eu quiser. Capt. Mario, encontre um bordel que queira comprar esta rameira.

_Sim, sinhazinha.

Mario procurou, procurou, procurou. Mas não achou ninguém que pagasse mais de 1 conto de réis* pela escrava. Ao chegar à casa de Aurora, comunicou o que ouvira:

_Mamma mia. Ninguém compra, ninguém quer gastar mais de 1 conto de réis em uma escrava que não pode colher café e que todos conhecem como teimosa e sabida.

_Raios! - Gritou Nicole.

Passando por ali e tendo ouvido o alvoroço, o pai de Fabrício decidiu ver o que ocorria. Bateu à porta e foi atendido por Aurora, que o explicou a situação e ofereceu-lhe a escrava dizendo que sabia ler, escrever e falar francês (coisas que aprendera fuçando na biblioteca da casa), disse-lhe também que era muito linda.

Nicole observava a mãe e dentro de sua mente pulava de alegria pensando que aquele seria um velho pervertido que faria mal à Nádia; já a infeliz ficava calada e arpreensiva desconcertada.

_Vejo que sua escravinha é prendada, formosa e de boa qualidade, sem contar que sabe ler e escrever, coisa rara já que 65% da população não sabe... Que tal 25 contos de réis por ela ? Minha safra de café foi boa, rendeu-me 200 contos, haha. - Disse o Sr. Geraldo com um sorrisinho.

_Faço muito gosto em sua oferta, Sr. Robles, não se arrependerá e tenha bom proveito - Nicole disse, sarcástica.

_Dona Aurora, aqui os 25 contos em moedas de prata e ouro, cunhadas em 1885, novinhas. -Geraldo entregou as moedas com intuito de \"aparecer\".

Foi nesse momento que Nádia não aguentou mais e disse:

_Sempre me tratam como um objeto! O que eu fiz contra você, senhorita Nicole ?! Toda minha vida, sempre me maltratou! Porque?! Confesso que pensei certa vez que pudessemos ser amigas! Mas suas maldades e arrogância sem limites afastaram esta possibilidade! Não é porque um escravo matou seu pai que eu e minha mãe temos culpa disso! Se um sinhozinho branco mata alguém, os outros não levam a culpa disso! Por isso ninguém nesta cidade gosta da senhorita, além do mais ninguém te ama aqui! Talvez só sua mãe que você manipula aproveitando-se dos medos e traumas que ela tem! Ainda tem esse borra-botas capacho seu, o Mario e...

_Cala a boca!!! Cala a boca!!! não quero mais ouvir isso! Desgraçada! Maldita!!! Leva ela daqui Sr. Geraldo, leva ela daqui!!! -Nicole gritou com uma mistura de ódio, decepção, traumas, culpas e sentimento de sentir se só.


Nádia foi levada contra sua vontade, chamando por sua mãe que chorava enquanto a filha derramava lágrimas pelos verdes olhos que tinha. Nádia seria levada à capital da Província, a Corte Real do Rio de Janeiro** para onde Fabrício e família voltariam. Lá, conheceria um mundo totalmente diferente do que já vira antes e encontraria alguém que lhe seria mais danoso que Nicole em seus piores ataques que raiva.


Notas finais
*1 conto de réis é aproximadamente US$540, o que equivale a por volta de 1200 reais hoje, porém para a economia época valia muito mais que isso. **O Rio de Janeiro foi capital do Brasil até 1960. Foi também a sede da corte do Império.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.