A Single Moment
3 02.
Notas iniciais
A verdade era que Agatha não queria voltar para casa.
Sim, já estava bastante tarde e ela tinha a Minccino para cuidar, o que só podia fazer apropriadamente num Centro Pokémon — muito longe no momento para dar-se ao trabalho — ou em casa, onde tinha todas as coisas necessárias para checar seu estado. Também não seria muito sensato caminhar por aí a essa hora da noite, mas ainda assim... Agatha não queria voltar. Preferia ficar mais tempo no bar, talvez até na companhia daquela garota estranha, ou simplesmente se embebedando, não fazia diferença. Caso voltasse, então Agatha teria que lidar com coisas que não estava preparada para enfrentar.
Mas, bem, não era como se Agatha tivesse um lugar para ficar.
Suspirou, respirando o ar frio da noite. Ao seu redor, as luzes da noite já haviam invadido todo o local, incluindo a rua escura do bar. A única coisa que se podia ouvir era um mero burburinho abafado, conversas desconexas perdendo-se num caminho difuso.
— Minccino, min? — Nina, agora em seu ombro, olhou para a treinadora. Bastou um único cutucão em seu rosto para chamar-lhe a atenção.
— É, Nina, parece que vamos ter que voltar de qualquer jeito hoje. — Suspirou ela, após um breve momento de hesitação.
— Miin... — Ela fez um barulhinho triste. Em seguida, Agatha recebeu uma lambida na bochecha.
Ela sorriu.
— Obrigada por tentar me animar, flor.
A Pokémon sorriu de volta para ela, mas até mesmo isso não durou muito. As duas só ficaram com a opção de voltar a caminhar até a casa de Agatha a passos lentos, Agatha sem a menor vontade de realmente fazê-lo. Se houvesse mais algum lugar por ali, quem sabe ela não parava um pouco para beber mais e gastar tempo? A questão do sono poderia ficar para mais tarde, não? Se tivesse mais algum lugar para ir, ou se não temesse a possibilidade de ser repreendida por um atraso tão grande, quem sabe não voltava mesmo pro bar?
Como esse não era o caso, ela só podia sentir sua ansiedade aumentar a cada passo que dava.
Queria poder dizer o contrário sobre, mas a realidade era que Agatha detestava sua casa. E não queria voltar. De jeito algum. Odiava a vizinhança humilde e barulhenta, nos subúrbios da cidade. Uma casinha pacata como todas as outras, construções tão humildes quanto a suas; algumas que, sinceramente, Agatha sequer sabia como continuavam de pé. De gente amargurada com a vida, sempre de cara fechada e cheia de grupinhos que observavam-na com desprezo o tempo inteiro, como se apesar do fato de morar li durante anos, nunca iria fazer parte daquele lugar.
A casa propriamente dita, então? Era um caso mil vezes pior. Detinha o pior dos ambientes que a garota conhecia. Tinha motivo suficiente para Agatha simplesmente não querer voltar. Talvez cuidar de Nina em outro lugar pudesse ser a melhor solução, e oh, se Agatha pudesse, então o faria.
Mas o caso era que não podia. Tudo que de fato era capaz de fazer era voltar para casa, pensando sozinha. Limitando-se aos pensamentos e a sensação incômoda que tinha na barriga. Não podia dar-se ao luxo de deixar-se afetar por tais coisas no momento. Agora, a prioridade era outra.
Ela respirou fundo. “Certo, Agatha, pare com isso. Você tem de voltar de qualquer forma, não? Então ande logo e vá pra lá.”
Então foi o que Agatha fez. Com a Minccino no ombro e o coração na boca, caminhou no maior passo lento que pôde. Foi coisa de quinze minutos para enfim alcançar os subúrbios da cidade, em especial o seu.
Sua casa estava espremida entre duas outras, de portão pequeno e uma escada que levava ao pequeno quintal e a casa em si, um lugar que, ela devia ressaltar, não era nem um pouco de seu gosto. O portão rangia toda vez que era aberto, e aquelas escadas, apesar de firmes, pareciam que iam desabar junto com a construção toda a qualquer momento.
Foi com cuidado para lá, Agatha e Nina partilhando de um longo silêncio. Apesar da parca iluminação, a garota tentou ao máximo olhar pelo vidro fechado da janela, em busca de algo, alguma coisa que denunciasse uma certa presença.
Tentou abrir a porta.
Trancada, huh?
Puxou a chave extra do bolso. Destrancou a porta com o máximo de cuidado, mas ainda assim o som da fechadura destravando pareceu um ruído extremamente alto. Agatha puxou o ar para os seus pulmões mais uma vez, e enfim adentrou o lugar.
A cozinha estava completamente escura, e isso a incomodava porque ela não sabia dizer se era um bom sinal ou não. O que mais incomodava era o fato de a ansiedade estar começando a alastrar-se por suas entranhas, então Agatha simplesmente ignorou tudo e caminhou, no escuro mesmo, em direção ao seu quarto. Quando passou pelo corredor, fez questão de olhar pela fresta aberta da outra porta e pela sala, só para ter certeza de que realmente estava sozinha.
Estava.
Nina acendeu a luz assim que as duas entraram, e Agatha praticamente se jogou na cama com a Pokémon no ombro e tudo. Suspirou, se virou, e levou a mão ao peito. Deus. O coração ainda estava batendo forte, com o peito ameaçando a subir e descer mais rápido do que lhe era permitido.
— Mincchino, min! Miiin, min! — O cutucão insistente da Pokémon foi tudo que conseguiu tirá-la daquele pequeno transe. Agatha olhou para Nina, com uma expressão irritada enquanto exibia-lhe um braço machucado; superficialmente, mas ainda assim machucado. A treinadora sorriu mais uma vez.
— Desculpa. Quase esqueci de cuidar de você.
— Mincchi. — Ela exagerou na expressão de desgosto, mas logo havia um sorriso para iluminar-lhe o rosto mais uma vez.
Agatha riu, e enfim se levantou, agora para buscar o pequeno kit de primeiros socorros para Pokémon que sempre guardava consigo. No caminho, aproveitou também para olhar embaixo do colchão, só para garantir que a pequena bolsinha com dinheiro continuava ali, cheia.
No mais, Agatha pelo menos podia relaxar enquanto cuidava dos cortes e dos ferimentos que pediam para serem cuidados, deixando mais um dos muitos pesos que levava nas costas ser aliviado por essa nova calmaria na casa. Agatha detestava o fato de que não vivia, tampouco podia viver sozinha. A presença do pai era terrível. Era alguém de opiniões e conceitos irritantes, de cabeça dura, e pior ainda, raivoso às vezes. Sempre quando bebia, mais especificamente. Ou mais especificamente ainda, quase sempre, porque a única coisa que seu pai sabia fazer era ficar enfiado num bar enchendo a cara até altas horas da noite, gastando não só o pouco dinheiro que tinha, como também as economias da própria Agatha.
Era até desprezível observá-lo depois que, anos atrás, a mãe de Agatha os havia deixado. O casamento e o gênio de seu pai já não eram muito bons, e com a paciência da mãe da menina ainda? Em pouco tempo se divorciaram, a mãe fugindo com outro namorado.
Depois disso, o pai decidiu que era uma boa ideia afogar seus problemas na bebida, piorando ainda mais o seu vício. Chegava tarde em casa. Gritava com Agatha. Gritava com Nina, com seus próprios Pokémon que quase nunca cuidava. Discutia na primeira oportunidade. Faltava no trabalho. Perdeu-o em certo ponto, e por enquanto estavam apenas vivendo dos bicos ou da própria treinadora ou do pai. Quer dizer, quase não estavam vivendo direito. Com a mania do pai de gastar todo e qualquer dinheiro que via com bebida... As coisas estavam complicadas.
Esse era o maior motivo para Agatha querer sair de casa. Como não conhecia ninguém que ainda estivesse em Driftveil ou que entenderia sua situação a ponto de permitir que ela ficasse em algum lugar, a menina trabalhava em bicos, em qualquer coisa que podia para sair dali; alugar uma casa e ficar o mais longe possível do pai. Ele não tinha mais salvação, afinal.
Era difícil, considerando que seu dinheiro também sumia mesmo com suas tentativas de escondê-lo, então a menina optava pelas competições Pokémon com Nina. Sendo o meio mais fácil de conseguir uma grande quantidade em dinheiro para ser gasta imediatamente com o aluguel de uma casinha mobiliada para se arranjar no futuro.
No entanto...
Agatha não era a melhor treinadora desse mundo. E tendo apenas Nina como Pokémon, bem... Era complicado. Porém era um dos poucos e mais rápidos meios que ela possuía para fazer alguma coisa sobre sua situação, então o que custava tentar de novo e de novo, colecionando derrotas até conseguir o prêmio principal?
Muita coisa.
Custava sua animação, seus muitos dias de treinamento no quintal de trás da casa, no pequeno espaço da área de serviço. Custava noites inteiras de frustração, de felicidade destruída porque de repente ela já não estava mais perto de se manter em uma casa com aluguel por alguns meses até conseguir mais dinheiro. Custava as tentativas de capturar algum outro Pokémon sem sucesso e um rosto irritado de Nina, ofendida porque tentar capturar outro Pokémon era como dizer que a pequena nunca conseguiria ser forte o suficiente para ajudar sua treinadora. Custava todo o nervosismo que sentia numa batalha, a pressão que colocava em cima de si mesma para ganhar, ganhar e ganhar, não sair dali que não fosse com o prêmio em dinheiro.
Custava muito mais de Agatha que ela poderia dar.
Mas ainda assim, ali estava ela, tendo todo o cuidado do mundo para limpar uma ferida da Pokémon, que fazia uma cara mais de medo do que de dor. Porque afinal, Agatha preferia estas outras frustrações do que ficar naquela casa odiável, em bairro odiável e com gente odiável. E assim como o pai, de vez em quando afogar suas mágoas em um bar, porém com juízo o suficiente para saber quando parar. Era seu único modo de se sentir feliz em meio a tantas decepções.
De repente, Agatha sentiu os olhos marejarem. Ela parou por um momento, piscando diversas vezes. Não. Mesmo sozinha, não podia se dar ao luxo de chorar agora.
— Min? — A voz de Nina a chamou, o rosto agora tomando um enorme tom de preocupação. — Mincchi, min...
— Não é nada, flor. — Tentou sorrir, mas isso pareceu um esforço ainda maior, então Agatha apenas limpou as lágrimas do canto dos olhos antes que ousassem cair.
Um longo silêncio se fez entre as duas, em que a Minccino apenas observou sua treinadora se recuperar: respirando fundo uma, duas, três vezes, os pensamentos cautelosos, tentando manter uma calmaria a mais ali ao invés de caminhar por lugares tão obscuros quanto aqueles.
Um momento a mais de silêncio, e Agatha enfim falou novamente:
— Ei, Nina.
— Min?
— O que acha de a gente tentar voltar pra falar com aquela tal de Betty amanhã?
— Mincchi min. — A Pokémon deu de ombros, os olhos ainda atentos a expressão da treinadora.
Agatha pegou o algodão molhado em álcool de volta. Não parecia uma ideia tão ruim.
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