A Serva do Sangue [Fic +18]

4 Capítulo 4 - Tabuleiro


Notas iniciais
A saída de um hiatus rumo ao término definitivo.

Os trotares velozes de Shadowmare deixavam uma trilha de estalos em galhos e folhas secas para trás como um eco que se misturava singelo aos grunhidos e assobios da floresta. Não importava o som que escapulisse de suas entranhas, parecia sempre um aviso para que corressem ou seriam comidos vivos.
Mas o que de fato Elizabeth tinha a temer?
Fossem os uivos demoniacos da floresta, os licantropos salivantes por sangue, o castelo de atmosfera fúnebre ou os próprios mortos que de lá faziam seu ninho. Nada alí, por natureza, seria tão temível quanto o cavaleiro alvo de um abraço apertado. Um abraço apertado de um corpo quente. Um corpo quente que se inclinou após desistir de lutar, aconchegando-se à paz que antes era incapaz de enxergar.

A pequena menina de luz caiu no calabouço das trevas, mas o rei sombrio a pegou em seu colo frio. Ela então parou de chorar e deitou-se em mimo.
Os fantasmas do arredor continuaram a sussurrar entre si. O que será da rosa que desabrocha sem a luz do sol?

Um ranger de dobradiças robustas foi o que anunciou a chegada de Vladimir ao castelo.
Na porta principal William dava as cordeais boas-vindas.
Sob comando de Vladimir, o subordinado deixou Elizabeth aos cuidados das serventes para que preparassem seu banho aquecido.
Uma vez dado suas ordens a William, O monarca se dirigiu sério às escadas para o segundo piso. “De imediato, reúna os duques”

Se aconchegou na banheira vitoriana. A água quente apaziguava o corpo trêmulo nu da jovem. O banheiro retinha uma frágil iluminação de velas de parede cujos escorrimentos secos chegavam ao chão, era menor se comparado ao do palácio, mas muitíssimo melhor trabalhado nos detalhes até mais supérfluos. Um espelho empoeirado, com detalhes de borda em madeira, se apoiava em uma mesinha com escovas de cabelo e produtos para a vaidade. O acento sanitário se escondia por detrás de uma cortina fechada em vermelho sangue.
Mas o que mais chamava a atenção naquele recinto era o magnífico vitral que se emoldurava na parede oposta à porta. Esta espécie de janela desenhada, quase ligava o chão ao teto. Em seus graciosos 3 por 1,5 metros de altura, um desenho de vidro transmutava a luz branca da lua em feixes de cores variadas. Como se uma dança de cores viajasse no ar direto ao corpo de Elizabeth à banheira.
A menina de pele morena relaxou, observou o vitral em uma tentativa pouco animada de compreender a figura.

Um demônio de auréola e asas azuis de morcego, um anjo de chifres e asas vermelhas emplumadas. Os dois seres em uma batalha controversa.

O corpo que fora sempre mimado em fragrâncias perfumosas e leites hidratantes agora resumia-se a uma exaustão confusa.
Olhou para a própria mão, tentou notar diferenças na pele. Nada! Parecia o mesmo corpo delicado de sempre. Temia o que poderia vir a seguir. Unhas retorcidas em garras, pele perdendo a coloração... cede por sangue!
De qualquer forma deixaria tudo nas mãos do mestre deste castelo. Nem que acreditasse de verdade que ele a salvaria de um futuro monstruoso, era melhor que assumir o pânico agora.
Fechou os olhos e pôs levemente as mãos pouco abaixo do umbigo. Se ela procurava algo unusual em seu corpo, achou. Toda vez que o simples mencionar do nome “Vladimir” lhe vinha à cabeça, seu corpo se aquecia e a obrigava a contorcer as pernas pressionando-as contra si.
O banheiro de ladrilhos cinzentos deu lugar à escuridão na mente da menina. E no coração desta, outra imagem lhe surgiu.
De olhos fechados, relembrou a cena na cabana. Relembrou a dor do início das mudanças em seu corpo, da insaciedade pelo sangue do vampiro, e do toque posteriormente.
És especial, Cattarine. A progenitora de um mistério ao qual eu me empenharei em compreender, um mistério que me intriga e seduz”. Desceu os dedos pouco mais abaixo do umbigo. Relembrou o cheiro daquele sangue circulante na pele fria. Deslizou até o final da virilha, quando suas pernas se contraíram ainda mais. Imaginou aquele corpo de fardo temível próximo a sí. Mordeu os lábios e pela primeira vez, se deixou levar aos prazeres do corpo.
Dotada de princípios tão dignos de uma pureza incondicional, Elizabeth nunca experimentara o próprio toque. Tendo em vista que, nunca vira seu corpo responder desta forma, também. Começando com um simples dedo para se acostumar com a pequena dor local, o prazer aumentava enquanto a jovem posicionava o segundo dedo por entre suas pernas também.
O corpo gemia, os lábios brancos de tanto serem mordiscados e a segunda mão que amaciava o seio. Tudo se cessou com o reabrir dos olhos de Elisabeth. A jovem se estagnou naquela posição 2 segundos antes de pular para fora da banheira encharcando o chão cinza, se ajoelhar frente ao vitral e juntar as mãos encostadas na testa.
–Perdoe-me pai! Perdoe-me. Deixei-me levar por ações pecaminosas e sem perceber caminhei em direção ao fogo eterno. Imploro-te vosso perdão. Estou corrompida pela semente do mal e sei que somente vossa graça poderá me salvar da perdição. Purifique meu sangue e ilumine minha alma. Não me deixe sozinha aqui, eu lhe imploro, não me abandone, oh pai!
Lágrimas provindas de um sentimento incerto correram pelo rosto belo de Elisabeth. As mãos antes juntas agora eram os mastros que sustentavam o corpo debruçado no chão.
Pensou ter ouvido alguma voz muito distante vinda detrás do vitral à sua frente. Encarou-o aspirando o choro. Como se sua mente entrasse em transe, as cores da imagem se movimentaram até dar a impressão de terem vida própria, e como se aquele desenho fosse um filme ao qual a jovem sentou para assistir, sua mente vagou para dentro dele...

A visão era incomodamente turva e as cores doíam os olhos da espectadora.

De longe percebeu duas figuras, mascaradas pela péssima imagem.
–... Que dê-me um herdeiro! – Dizia uma voz com vários timbres misturados.
–Sabes que sou incapaz de gerar vida – retrucava a outra figura.
–Então tentaremos d... – A cena mudou para uma outra ambientação de igual desentendimento.

–É uma menina – dizia alegre uma figura de dentro de um amontoado de luz uniforme. Com isso o choro de um bebê seguido de mais uma mudança de cenário.

–O que você faz aqui? – A mesma voz do início, e novamente apenas duas figuras em um ambiente escuro. – Não pode ser, isso é demoníaco!
–Eu não tive escolha, preciso de poder!
–Eu contarei a eles sobre isso!

Então um barulho de pés correndo rápido em um assoalho, seguido de um deslizar metal em metal para terminar no grito agoniante de uma das entidades.

Elizabeth sequer teve a impressão de ser tudo aquilo real, mas sua mente parecia em tamanho transe que ao ver a cena terminada em um grito, tudo se escureceu e ela mesma sentiu uma agonia percorrer sua espinha. Como se fosse ela a vítima da facada, sem dor física, fora o psicológico que levara Elisabeth também a gritar no chão do banheiro enquanto não se dava conta de que as visões já haviam cessado.

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Drácula permanecia à espera, sentado em seu trono alto. Sua sala era uma mistura de elipse e retângulo, com 48 metros do trono até a porta de entrada, interligados por um tapete de coloração roxa desgastada. Um teto em abóbada era sustentado por grosseiros pilares de 18 metros da base até o término do recinto. De um lado da sala, janelas compridíssimas com um topo que se afinava convidavam a luz branca da lua para entrar. Todas as 6 janelas faziam par com cortinas empoeiradas de mesma cor do tapete. Na direção de cada janela, banhados pela luz adentrada por elas, mas do lado oposto na enorme sala, descansavam estátuas de um mármore cinzento. Os ídolos de corpo inteiro mediam duas vezes o tamanho de um ser humano comum e totalizavam 3. Cada uma representava um indivíduo diferente. As estátuas começavam desde próximo à porta até o meio da sala, seguido por mais dois espaços onde, pela lógica, deveriam ter mais destas figuras esculpidas, dando a entender que nestes, outras seriam futuramente postas.
Mas o mais notável era, sem dúvidas, o trono. De um estilo gótico majestoso, ele se erguia após uma subida de 8 largos degraus, era feito de uma pedra escura recoberta com couro macio no encosto, assento e braços. Um dragão crescia do próprio trono e terminava inclinado sobre a cabeça de quem se sentasse, suas asas circulavam a parte de cima do trono sem se tocarem. Duas espécies de gárgulas foram postas no 4° degrau, o qual era o mais comprido dentre todos rumo ao trono, ficando cada uma em um lado deste. Estas estátuas de mesmo material que o assento real sustentavam no braço do lado do trono, um prato de ferro com chamas que ardiam sem muita intensidade. Do outro, sustentavam entre o antebraço e a cintura, um jarro de água por onde caía um líquido ralo de aspecto vermelho. O líquido descia em uma espécie de caminho de baixo relevo que seguia a circunferência da sala até terminar em um ralo por onde se perdia de vista. No exato centro da sala notava-se uma grande mesa quadrangular, feita para estratégias de guerra, onde descansava um mapa gasto pelo tempo e algumas peças de cobre simbolizando soldados e inimigos. Atrás do Trono, duas escadas circulares seguiam o ângulo da parede no final da sala até subir em uma pequena plataforma onde se encontrava uma mesa de xadrez e duas cadeiras de marfim. Pouco acima uma janela oval ainda maior que as anteriores guiava a luz lunar para a mesa de xadrez e ao trono consecutivamente.

Houve batidas na robusta porta de entrada. William forçou as duas metades de madeira pesada e deu caminho para os convivos.

–Os duques se dirigem à vossa presença, milorde. Com exceção de Aamon, que não se encontra no castelo.
–Este fedelho insiste em se mostrar insubordinado. Pois que tornar-se à parte nas decisões de hoje lhe sirva de alguma lição. – Vladimir cruzou as pernas antes de dar um último gole em sua taça de sangue humano.
–Devo informá-lo das decisões após a reunião?
–Que seja.

Um Pruslas de cabelo loiro esvoaçante, solto até abaixo dos ombros com uma mecha enrolada em destaque, entrou pela porta com um leve sorriso típico.

–Ela vem aí, e não me parece muito feliz.- O vampiro era alto e esbelto, de olhos verdes-esmeralda, trajava vestes em marrom com a borda das calças e mangas à mostra.
Vladimir suspirou.

Uma vampira inquieta adentrou a sala com os punhos fechados de raiva e um olhar lacrimejante de frustração. Era Morgana, uma mulher tão apaixonante quanto impiedosa. Seu corpo parecia nascer do próprio pecado da luxúria, dentro de um vestido completamente preto, com um decote em v que permitia a bela visão de seus seios volumosos.

–Que espécie de justificativa teriam para trazerem uma cadela HUMANA ao castelo!? Do próprio ninho daqueles imundos do clericato. Ainda por cima sendo tratada sob cuidados e proteção! O que exatamente meu príncipe pens... – Atropelava-se na própria respiração quando fora interrompida.
–Baixe teu tom, Morgana! – O vampiro sequer a olhou. – Não estamos aqui para ouvir teus chiliques. – Ele pôs a taça vazia de sangue no apoio do assento antes de entrelaçar os braços — Eu os chamei para um esclarecimento da situação. Também abrirei esta reunião aos conselhos dos senhores duques.

William observou superficialmente o corredor antes da sala do trono, então pôs-se a fechar as portas.
Pruslas andou até o meio da escada rumada ao trono. Após 3 degraus, parou no mais extenso, o mesmo das gárgulas hídricas. Morgana demorou 2 segundos em um incômodo visível até seguir Pruslas ao degrau dedicado a pronunciamentos direto ao trono.

–Tenho certeza que vossa alteza real tem as melhores das razões para o que fez. – O sorriso indecifrável era uma conhecida característica do vampiro loiro.
–Encontrei Catterine Elisabeth, Filha de Waldrich Torrance, entregue à morte na noite do ataque à Bucareste. Ela bebeu do meu sangue e com isto pôde se recuperar. Decidi trazê-la ao castelo, apostei no improvável e não me decepcionei. Extraordinariamente temos aqui um humano imune ao envenenamento de um sangue como o meu.
–E meu príncipe já avaliou o sangue dela? – Morgana controlava sua pose – Não devemos descartar a hipótese daquela cadela nem ser humana.
–Descartada.
–Talvez isto seja alguma experiência do maldito Torrance. A imunidade ao envenenamento é um dos efeitos, quem sabe o que mais ela poderá fazer? – Dizia Pruslas.
–Usar a própria criança de recipiente. Plausível.
–E o que meu príncipe planeja com a filha do alto sacerdote?
–Eu a farei parte do castelo.

A decisão pegara ambos os duques de surpresa

–Achei que tomaríamos parte na decisão referente à humana! – A vampira perdera sua pose calma.
–A missão dos senhores duques aqui é darmos juntos um primeiro movimento. A irmandade, pois, já deu o dela. Então repito: O destino de Cattarine Elisabeth não depende da aprovação de nenhum de vocês.
Morgana pôs um pé a frente para mais um protesto quando Pruslas ergueu o braço à sua frente, pedindo interrupção.
–O que quer dizer com a Irmandade já ter dado seu passo?- O sorriso morrera.
–Recebi aqui o informante. Ao que parece, grande parte dos Licantropos foram exterminados pela tropa de Valentinus.
–O que!? Como alcançaram esta proeza?
–Ocorreu logo após o ataque dos homens-lobo. O general Valentinus e soldados seguiram-os de volta à toca e os cercaram. Facilmente mortos.
–Que tipo de armas ou magias aqueles insetos criaram agora? – Cuspia Morgana.
–O acordo de paz de está à fio de ser rompido. – Vladimir se levantou – Sabem o que virá a seguir?
–Guerra. – Entendera Pruslas. – Mas por que nos atacariam? Apesar de aliados nossos, os homens-lobo não se submetem à nossa monarquia. E não teriam como saber que a garota está em nossa posse. O que faz meu príncipe achar que eles não se limitarão aos licantropos?
–Pois em breve, meus duques... – A frase ecoou debaixo da escada. William subiu 7 degraus, se virou para os dois duques enquanto terminava-a. — ...teremos a temida lua rubra.

De fato, não se viu mais o sorriso gasto de Pruslas aquela noite. Ele e sua colega de surpresa trocaram olhares.

William ajeitou milimetricamente sua máscara
–Quando os raios do sol lutarão contra as barreiras místicas da terra, lançando a lua na penumbra antes de revivê-la como a lua rubra.
–Maldição! Mas estes vermes não aprenderam com a última vez que nos atacaram durante o eclipse? Apenas os licantropos em nossa linha de frente trucidaram centenas deles!
–Este é o ponto chave do jogo... – Vladimir se manifestou — Não haverão licantropos!
–E com isso, nos resta um bando de vampiros enfraquecidos. – Morgana cruzou os braços sob um rosto de desprezo.
–Se tivessem esperado mais um pouco, poderiam ter atacado enquanto na lua rubra, estariam mais fortes e, quem sabe, até poderiam fazer consideráveis estragos naquela cidade humana, ao invés de simplesmente um ataque em tal proporção e sem sentido algum. Estes vira latas praticamente se suicidaram.
–Correto. Por isto a pergunta que não se cala. O que os levou a agir? – O príncipe vampiro se sentou no último degrau, com seu característico olhar de indiferença soberana os mirando.
–Quem lhes informou sobre o evento? – Perguntou Pruslas
–Os Entes da floresta. – A resposta saia como se a pergunta fosse desnecessária.
–E meu príncipe não acha que poderiam estar enganados ou até mesmo mentindo?
–E tu achas que nem os entes poderiam temer uma traição desta? – Olhar de pressão lançado.
–De jeito algum, milorde. De fato apenas não pensei por esse ângulo. Peço perdão pelo mal entendido. – Pruslas se ajoelhou tenso sobre uma perna olhando fixo ao chão.
–Não achei que sim. – Mostrara esquecer o assunto – Não sabemos quantas noites até a tal lua, o que não significa que os seguidores da luz também não saibam.
–Tentar atacá-los antes do evento então será suicídio, não sabemos onde já podem estar. Poderiam nos armar uma emboscada em luz diurna, seria ainda pior que durante a lua rubra. – Argumentava Morgana.
–Proteger o castelo será então nossa prioridade. Teremos a maldição da floresta como aliada e a usaremos para o primeiro ataque. O objetivo primário será impedir que os humanos cheguem ao castelo antes ou durante a lua.
–Vamos precisar reunir aliados. – Levantou-se Pruslas.
–Verei o que posso fazer, atentem seus subalternos. — O príncipe levantou duas vezes os dedos indicando a retirada dos convidados.

Pruslas descera 3 degraus antes de parar atento ao perceptível incômodo da bela vampira. Ele sabia bem o que isto significaria.

–Perdoe-me a insistência, meu príncipe. Mas e se esta humana for um sentinela do clericato? Se, bem como meu senhor disse, ela é estranhamente resistente ao vosso próprio sangue, quão perigosa ela pode ser no fim das contas? Talvez tenha sido posta à sua frente de propósito. – Deixara o tom elevar-se. – Por que não a tornamos minha servente e a infiltramos no ninho deles de volta? Por que não a abrimos e a estudamos? E por que meu príncipe vê nela mais uma aliada carente de proteção que algum tipo de ameaça desprezível? Talvez seja uma nojenta feiticeira que pôs as garras em meu pr...- Engasgou-se no susto de ver surgir um Vladimir assustador à sua frente.
–Achei ter sido claro o bastante, senhorita Tremere! Aquela humana está sob MINHA jurisdição. A punição para quem me desobedecer será a morte imediata! – Os olhos negros de Vladimir reluziram em um roxo belíssimo – Fui claro!?
–S-sim, Milorde – Morgana desviou o olhar em descontentamento.
–Deixem-me só. –Vladimir subia as escadas de volta ao trono enquanto os duques se retiravam sob tensão.

William teria saído logo após os duques não fosse um chamado de Vladimir atentando-o.

–Vossa Alteza deseja algo mais? – Se certificou de ver o ducado se retirar.
–Atente-se à Morgana, não a quero sozinha com Elisabeth. – William acatou com um balançar de cabeça antes do prosseguimento – Tratarei meus assuntos com a Humana, enquanto isso vá comunicar sobre a iminente batalha aos carniceiros. Diga-os que... lhes servirei o lanche que procuravam.

Uma vez dadas as ordens, William se retirou fechando as portas atrás de sí. Vladimir ficou só, mergulhado em seus pensares sob o som medonho do líquido vermelho que caia das estátuas.
E como sempre fazia enquanto sentado naquela cadeira simbólica, o Príncipe Drácula montou um tabuleiro hipotético em sua mente. De um lado, seus súditos impiedosos e do outro, a guerrilha de Torrance. "Está na hora de relembrá-los o quaõ terrível é nos afrontar assim" pensou.
Sentiu um cheiro de sangue morto desagradável, o que acabou por atrapalhar sua meditação.

–Minerva.

De uma das janelas laterais aberta, surgiu um corpo. Ou o que um dia fora um. Estava mais para restos decompostos de algum adulto humano. Com a carne putrefata, camadas de ossos descobertas, apenas um olho parecia quase inteiro.
O corpo se arrastara para dentro, utilizando tudo que lhe restara de músculos. Deixava para trás uma trilha gosmenta de sangue e pus.

–V-você não contou a e-eles – A voz era estridente, fraca e miserável. Audível, se considerar vinda de um cadáver. A criatura se jogou de qualquer maneira em frente à escadaria do trono. Pouco importava o que aquela queda e torção dos membros causaria ao sistema nervoso humano, aquilo parecia mais um fantoche.
–Estou apostando quase tudo em uma crença. Dizer a eles que dei ouvidos às premonições da bruxa só os fará questionar minha razão. Para fazê-los deixar a Humana em paz, seria necessário bem mais que afirmar um “Talvez”. Por tanto prefiro deixá-los sem estas respostas, é melhor que se perguntem a terem certeza.
–Relacionado à menina, eu concordo com o soberano. Mas eu me referia a outra coisa. – O globo ocular da criatura jogada virara gosmento até mirar a face pensativa de Vladimir.

William abriu novamente as portas com uma agilidade impressionante. Parecia em urgência.

–Ouvi gritos da senhorita Elisabeth.– Disse o Duque Palatino em alerta.

Drácula deu um pulo horizontal de sua cadeira. Como um guepardo em caça, ele cortou o salão oval, estremeceu corredores e, abruptamente, rompeu a porta de seu banheiro.
Encontrou Cattarine desnuda encolhida no chão quase em posição fetal, parecia perturbada.

–Alguém lhe atacou!? – Vladimir se ajoelhou e a envolveu com os braços tentando passar segurança à garota ao chão.
–Eu... eu acho que...ele falou comigo – A voz tremulava.
–Quem?
Houve uma pausa para respirar
–Deus!

. . .

Elisabeth aguardava no quarto referente ao banheiro de onde saíra. Usava um vestido emprestado de uma das serviçais. “Uma roupa decente, finalmente”, pensou.
Tratava-se de um vestido azul escuro simples, com um decote que descia suave em retangular dos ombros até terminar em um pequeno “v”; As mangas compridas eram largas em seu final e a ponta do vestido arrastava-se pelo piso.

–Vejo que o tecido caiu bem ao vosso corpo. – Drácula se recostava à borda da porta de braços entrelaçados.
–Corpo este que, libertinamente, fez questão de contemplar com os braços sem sequer oferecer um pano qualquer para que pudesse me cobrir. Não é mesmo?
–Perdoe-me a indisciplina. Deveria de fato ter pensado em moralismos enquanto corria para salvar tua vida.
–Pois minha vida não corria perigo.
–O que não diminui a intenção de salvá-la.
Elisabeth sentou-se consentida na borda da cama de casal.
–Sim, quanto a isso... obrigada. Foi generosa sua preocupação, como das outras vezes, devo dizer. – Cruzou também os braços e empinou o nariz – Mas continua um tarado indecente ao meu ver.
–Não desejo ser rude, mas... existem, sinceramente, seios muitíssimo mais volumosos os quais eu poderia “libertinamente contemplar com os braços”.
–Oh! Maldito grosseiro indelicado! – A seriedade do tom era questionável.
–Dois sinônimos seguidos, que deselegância linguística. –Vladimir deixou escapar um pequeno sorriso antes de ser atirado um travesseiro recheado de penas, o qual parou com um singelo levantar da mão.

Naquele momento, naquele quarto, Elisabeth vira mais do que um ícone de perversidade. Estranhamente, Vladimir estava ainda mais surpreso com o que achava nunca mais conseguir contemplar de si mesmo. Não após tanto tempo.

–E o que o trouxe aqui? Certamente não veio apenas caçoar das curvas banais do meu corpo. – A face de Elisabeth perdera quase imperceptivelmente o cômico ao notar a seriedade padrão do Príncipe das trevas retomando-o.
–Venha comigo, Cattarine Elisabeth. Gostaria de lhe mostrar o ninho dos monstros!

. . .

Pruslas tragava seu cachimbo em uma das varandas afora no segundo andar do castelo. Ele se inclinava em uma mureta de pedra enquanto ouvia as ondas escondidas pela neblina se chocarem com pedras metros abaixo do precipício.

–Com que intuito me fez voltar direto de minha casa para cá, Pruslas? – Morgana atravessava a porta da varanda. As mangas de seu vestido alcançariam a altura dos joelhos não fosse a circunferência da saia; duas dobras na parte frontal do vestido criavam uma espécie de faixa que descia o busto e se desfazia na saia; fitas pretas interligavam uma dobra à outra na barriga da vampira e atrás de seu pescoço descansava um capuz.
–Pare de resmungar por algumas horas, se conseguir.
–Espero que o que tenha a dizer valha meu tempo.
–Não suporto a ideia de termos uma filha do clericato aqui. Assim está bom?
–Ganhou meu interesse, prossiga.
–Não acha estranho? O lorde Drácula alega estar examinando de perto a anomalia com a resistência ao sangue, mas não creio que seja só isso. Arriscar tanto para tão pouco.
–Não, de fato não é só. Eu imagino o que esteja fazendo a cabeça do príncipe. – Morgana olhou para a imensidão fria que era a queda livre do precipício poucos metros após a base do castelo – É aquela bruxa. Implantou superstições na mente de meu príncipe.
–Ao que se refere, em exato?
–Meu príncipe acha que aquela humana nojenta possa ser o Herdeiro, daquela ridícula lenda sobre a poderosa entidade nascida entre luz e trevas.
Pruslas não conteve uma gargalhada desprezível.
–Lembro-me de outrora, quando eu admirava a razão sagaz de sua alteza, o príncipe das trevas. Mas ao que vejo, ele baseia todo esses desrespeito conosco e o castelo em uma hilariante superstição! – O vampiro deixou-se acalmar antes de prosseguir – Sabe, Duquesa Tremere, talvez o príncipe esteja perdendo a razão necessária para se governar. – Ele sorriu de canto.
–Tão desprezível e traiçoeiro, o líder dos Ventrue finalmente mostra sua face. Está me propondo uma aliança rebelde?
–Eu estou propondo, Duquesa... – O sorriso se alargara, deixando os dentes e presas à mostra – A tomada do trono!